domingo, 19 de abril de 2026

José Feldman (O Sim e o Padre Farofa)


O altar da Igreja Matriz de Santo Antônio parecia o cenário de um filme épico, se o filme épico fosse dirigido por um mestre do caos. Centenas de convidados se abanavam com os leques de papel, o calor era de deserto, e o silêncio era absoluto enquanto o Padre Juvenal, que tinha a alcunha de Padre Farofa — um homem de bochechas vermelhas e uma boa vontade inversamente proporcional à sua dicção — pigarreava para começar.

No centro, Beto suava tanto que sua gravata borboleta parecia um peixe moribundo tentando escapar do pescoço. Ao seu lado, a noiva, Clarice, estava radiante, embora tivesse um tique nervoso no olho esquerdo.

Padre Farofa abriu o livro e soltou a primeira pérola:

— Queridos irmãos, estamos aqui hoje para celebrar a união desta linda... pamonha!

Um murmúrio correu os bancos. Beto piscou, confuso.

— Pamonha, Padre? — sussurrou Clarice, entre dentes.

— Perdão, minha filha — disse o Padre, baixinho, antes de retomar com força total. — O amor é como um pássaro que voa livre pelo... esgoto!

— Esgoto não, Padre! Céu! É céu! — Beto corrigiu, sentindo o suor escorrer pelas costas.

— Calma, noivo. Eu sei o que faço. É que a minha língua às vezes toma um... sorvete! — O Padre sacudiu a cabeça, irritado consigo mesmo. — Vamos prosseguir. Beto, você aceita Clarice como sua legítima... geladeira?

A igreja explodiu em risadinhas abafadas. A mãe da noiva, na primeira fila, começou a se benzer freneticamente.

— Padre, com todo respeito — disse Beto, tentando manter a compostura —, eu aceito ela como minha esposa. Esposa!

— Foi o que eu disse! — teimou o Padre Farofa. — E você, Clarice, promete ser fiel, amar e respeitar o Beto, na saúde e na... farofa?

Clarice respirou fundo. O tique no olho aumentou.

— Na doença, Padre. Na doença!

— Isso, isso! Até que a morte os... atropele!

— Separe! — gritou um padrinho do fundo, já roxo de tanto rir.

O Padre limpou o suor da testa com o lenço. Ele parecia não entender por que todos estavam tão agitados. Para ele, as palavras faziam todo o sentido do mundo.

— Bom, se alguém aqui presente tem algo contra esta união, que fale agora ou cale-se para... o jantar!

— É "para sempre", Padre! — Clarice já estava com as mãos na cintura. — O senhor está trocando tudo! Está bêbado?

— Não me interrompa, menina! Estou tentando salvar a sua... pamonha! De novo essa palavra? — O Padre bufou. — Enfim, tragam as... metralhadoras!

O coroinha, já acostumado, entrou carregando as alianças em uma almofada de veludo. Beto pegou a joia com as mãos trêmulas.

— Beto — comandou o Padre —, repita comigo: "Receba esta aliança como sinal do meu amor e da minha... dentadura."

— Eu não vou dizer dentadura! — Beto se rebelou. — "Como sinal do meu amor e da minha fidelidade!"

— Ora, é a mesma coisa! — resmungou o Padre. — E agora, pelo poder a mim conferido, eu os declaro... assaltantes!

A igreja inteira veio abaixo. Alguns convidados já estavam dobrados nos bancos de tanto rir. O pai da noiva limpava as lágrimas com o lenço do paletó.

— É MARIDO E MULHER! — gritou a assembleia em coro.

O Padre Farofa deu de ombros, fechou o livro com força e apontou para o Beto com um sorriso vitorioso:

— Pode beijar a... mula!

Beto não esperou pela correção. Puxou Clarice para um beijo cinematográfico enquanto a igreja aplaudia de pé. No fundo, o Padre comentava com o coroinha:

— Que casamento lindo. Saímos todos daqui com a alma cheia de... maionese.

A recepção aconteceu no salão paroquial, que estava decorado com flores brancas e um buffet que cheirava a festa cara. O problema é que, por uma questão de protocolo (e uma pitada de masoquismo do casal), o Padre foi convidado para a mesa de honra.

Beto e Clarice tentavam manter a dignidade, mas o Padre, agora com um copo de ponche na mão, estava mais animado do que nunca.

— Um brinde! — gritou o Padre Juvenal, levantando a taça. O salão ficou em silêncio. — Quero dizer que este casal me lembra dois jovens... aspiradores!

Beto fechou os olhos e contou até dez. Clarice apenas deu um gole generoso no champanhe.

— O amor deles — continuou o Padre — é como uma brasa que nunca... desliga! Que vocês tenham uma vida cheia de paz e muita... gasolina!

— Saúde! — gritaram os convidados, que já tinham entendido que a regra da noite era substituir mentalmente as palavras do Padre.

Na hora do jantar, o Padre Farofa sentou-se ao lado da tia solteirona de Clarice, a Tia Gertrudes, que usava um chapéu maior que a própria cabeça.

— O senhor não acha a decoração divina, Padre? — perguntou a tia, tentando puxar assunto.

— Uma maravilha, minha senhora. As flores combinam perfeitamente com o seu... bigode!

Tia Gertrudes levou a mão ao rosto, horrorizada, enquanto procurava um espelho na bolsa. Clarice chutou a canela de Beto por debaixo da mesa para ele não rir.

— Padre — interveio Beto, tentando mudar de assunto —, o senhor gostou do buffet?

— O patê estava ótimo, mas achei o frango um pouco... explosivo. Mas não se preocupem, o que importa é a alegria de ver vocês trocando... pneus!

A festa prosseguiu até o momento mais esperado: o corte do bolo de cinco andares. O mestre de cerimônias entregou o microfone ao Padre para uma última benção sobre o doce.

— Que este bolo — começou Padre Juvenal, com o dedo em riste — simbolize a doçura da vida. Que cada fatia seja um pedaço de... cimento no coração de vocês. E que, daqui a nove meses, possamos nos reunir novamente para batizar o primeiro... dinossauro!

Clarice quase engasgou com um pedaço de morango.

— É um bebê, Padre! Um bebê! — corrigiu ela, rindo nervosamente.

— Foi o que eu disse, ora bolas! — resmungou o Padre, limpando a boca com o guardanapo. — Vocês são muito... crocantes.

No final da noite, enquanto os noivos se preparavam para sair em lua de mel, o Padre foi se despedir na porta do carro decorado com latas. Ele segurou as mãos de Beto e Clarice com carinho sincero.

— Vão com Deus, meus filhos. Que a viagem de vocês seja repleta de... picadas. E lembrem-se: o segredo de um bom casamento é nunca dormir... com fome!

— Finalmente ele acertou uma! — exclamou Beto, aliviado, enquanto acelerava o carro.

Mal sabia Beto que, lá no fundo do salão, o Padre Farofal terminava sua noite comentando com o garçom:

— Que noite agradável. Acho que vou levar um pouco de bolo para o meu... papagaio.

O garçom olhou para o Padre confuso.

— Mas o senhor não tem um papagaio, Padre.

— Meu filho, É que eu quis dizer... estômago. Ai, Santo Padre, hoje a coisa não foi careca… Moleza!  Moleza!
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence à Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (Portugal), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL) e vice-presidente da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (CLBT). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo.
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing