quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Carlos Eduardo Novaes (Volta às aulas)

(Um retorno cada vez mais caro)

Juvenal Ouriço olhou o cartaz da porta: ”Escolinha A Toca da Raposa”. Entrou, sentou-se e alisando seus vastos bigodes ficou aguardando diminuir o movimento da secretaria. Quando a última mãe de aluno retirou-se, Juvenal levantou-se e dirigiu-se à secretária:

- Por obséquio, eu desejava fazer uma matrícula.

- Pois não - disse a moça, apanhando uma ficha de matrícula - como é o nome de seu filho?

- Não. Não é para o meu filho.

- Não? Pra quem é então? Seu sobrinho?

- Não senhora. É pra mim mesmo.

- O senhor? Mas aqui nós só temos maternal, jardim, alfabetização, essas coisas. É uma escolinha de primeiro grau.

- Eu sei - respondeu Juvenal muito sério - eu vim me matricular no jardim de infância.

Meio assustada a moça perguntou se Juvenal tinha o certificado de transferência de outra escola. Como Juvenal dissesse que sua última transferência em escola primária foi em 1948, a professora afirmou que seria preciso fazer um teste ”para saber em qual jardim colocá-lo”. Distraída, preenchendo  a ficha indagou: ”Tem mais de seis anos?”

- Seis anos o quê? - perguntou Juvenal. - De casado? De formado?

A professora apressou-se em dizer que a pergunta era mera formalidade porque ”de acordo com a lei, se o senhor tiver mais de seis anos de idade já poderá ser alfabetizado”.

Juvenal declarou que não estava interessado em ser alfabetizado. Ficou decidido então que iria para o terceiro grau do jardim de infância. A moça pediu-lhe os documentos: certificado de nascimento, atestado de vacina antivariólica, atestado audiométrico e três retratos três por quatro.

- Retrato recente? - perguntou Juvenal - ou de quando eu tinha cinco anos?

A professora informou o preço da anuidade, deu o modelo do uniforme e forneceu a relação do material escolar.

Juvenal leu com atenção a longa lista e observou:

- Esse material aqui é até pro dia do vestibular?

- Não, senhor.  É só para esse ano. O senhor vai querer ônibus?

- Não, obrigado - respondeu Juvenal - eu tenho carro.

Juvenal saiu e enquanto se dirigia ao banco para levantar um empréstimo que lhe permitisse fazer as compras que a escola pedia, pensou que se John Kennedy fosse vivo certamente  diria que ”o preço da educação é o eterno endividamento”.

Na papelaria, depois de brigar mais do que no dia em que foi atrás dos ingressos para o desfile das escolas de samba, Juvenal finalmente conseguiu comprar tudo. Na saída, porém, não aguentou com o peso do embrulho. Teve que chamar um carregador, desses que trabalham no Galeão, mas que no período que antecede a volta às aulas fazem bico na porta de papelarias. Já na casa de uniformes, Juvenal só teve dificuldades em arranjar uma calça curta e um avental  para seu tamanho. Ao seu lado, uma senhora pedia o uniforme da escola Gruta do Leão.

- A   senhora -  perguntou  o vendedor  -  quer completo?

- É sim - disse ela - completo, com camisa, calça, gravata, meias e os sapatos. Quanto é?

- Quatrocentos cruzeiros.

- Quatrocentos cruzeiros? - gritou ela, remexendo o dinheiro na bolsa.

- Então me dá só as meias.

- Tudo um absurdo - exclamou ela - o custo de vida está pela hora da morte.

- É verdade - completou Juvenal - e o custo das aulas está pela hora do recreio.

No primeiro dia de aula lá estava Juvenal Ouriço no fim da fila (era o mais alto da turma) entrando na sala de avental e merendeira. Assustou-se um pouco com o tamanho das mesas e cadeiras: a sala, como toda sala de jardim, mais parecia um quarto de bonecas. Seus coleguinhas foram se sentando e Juvenal permaneceu de pé à procura de um lugar.

– “Tia Lúcia”, disse, ”será que não tem uma cadeira um pouquinho  maior para mim?”

Tia Lúcia respondeu que na sala não havia privilégios e mandou Juvenal sentar-se junto com Fabinho, Beto e Mariana para a aula de pintura. Muito educado Juvenal puxou a cadeirinha, pediu licença e arrumou-se como pôde. Mal sentou-se Mariana correu e se agarrou na saia de tia Lúcia.

- Estou com medo, titia - disse - ele parece o Lobo Mau com aquelas pernas cabeludas e aqueles pés enormes.

- Não tenha medo - procurou acalmá-la tia Lúcia - ele é seu coleguinha.

Mariana, porém, não quis voltar e tia Lúcia foi obrigada a deslocar Rodrigo para a mesa de Juvenal que ficou formada  só por garotos:

- É melhor assim - ponderou Juvenal já inteiramente desinibido - assim a gente pode falar palavrão à vontade. Que é que nós vamos fazer?

- Agora é a aula de pintura - disse Fabinho.

- Ora Fabinho deixa essa aula pra lá - disse Juvenal puxando um baralho do bolso e embaralhando-o - vamos jogar alguma coisa. Que é que vocês sabem jogar?

- Burro em pé.

- Não. Burro em pé também é demais. Que tal um pôquer?

Depois veio a hora da rodinha científica. Tia Lúcia ficava no meio da sala contando histórias e os garotos se punham à vontade para ouvi-la.

- Tia Lúcia - pediu a palavra Juvenal - qual é a história que a senhora vai contar hoje?

- A da Branca de Neve.

- Não. Pelo amor de Deus, a da Branca de Neve não - gritou Fabinho, que é um garoto muito inteligente - já está muito manjada.

- É sim, está muito manjada - completou Juvenal solidário ao coleguinha. - Não dá pra contar uma historinha  da Cassandra Rios?

Tia Lúcia ficou ruborizada com a sugestão de Juvenal. Resolveu deixar a rodinha para mais tarde e iniciar a aula de música. Botou um disco na vitrolinha e enquanto procurava  outros, agachada de costas para a sala, sentiu alguém bater-lhe no ombro:

- Vamos dançar, tia Lúcia?

Era Juvenal.

Tia Lúcia já estava perdendo a paciência. Ralhou com Juvenal e disse que se ele continuasse se comportando mal iria falar com a orientadora pedagógica para chamar seus pais à escola. Juvenal abaixou a cabeça e prometeu se comportar  direitinho. E realmente não deu mais uma palavra.

Na hora da merenda, inclusive, enquanto os outros alunos tomavam seu café com leite, pão e manteiga, refrigerante, doce, biscoito, Juvenal recolheu-se a um canto e sem perturbar ninguém, traçou o maior galeto regado a uma cervejinha.

Juvenal passou o resto do dia tendo uma conduta exemplar.  Terminadas as aulas despediu-se dos coleguinhas e quando ia saindo, tia Lúcia interceptou-o:

– Você não pode sair sozinho.

- E por que não?

- Os alunos do jardim só podem sair com um responsável.

- Mas eu já sou responsável. Não preciso de outro.

- Claro que precisa. É do regulamento. Para evitar o rapto.

- E a senhora acha que alguém vai querer me apanhar no meio da rua?

- É evidente que vai - disse tia Lúcia observando seu uniforme, o avental e a merendeira - principalmente o Pinei.

Juvenal sentou-se emburrado no degrau da escada e indagou:

– E, agora, como é que eu saio?

Tia Lúcia sugeriu que ele chamasse a mãe.

– Minha mãe está muito velhinha.

Então chame a sua mulher.

– Minha mulher está trabalhando. A empregada serve?

Servia. Então, ligou para casa:

- Alô Maria? Aqui é o doutor Ouriço. Eu quero que você dê um pulinho aqui na escola para me buscar. Como? As crianças? Não interessa as crianças, isto é uma ordem, Maria: venha me buscar! - E bateu o telefone.

Aguardando a chegada da empregada junto com Juvenal,  tia Lúcia não conseguiu esconder sua curiosidade e perguntou:

–  O que o senhor está fazendo aqui na escola? O senhor já não sabe de tudo isso?

- Sei, mas meus filhos não sabem.

- E o senhor tem filhos?

- Tenho, cinco, pequenos.

- E por que não os coloca na escola?

- Porque eu teria que abrir falência.  Achei que seria melhor assim: ao invés de mandá-los, eu venho e à noite quando chego em casa conto pra eles tudo o que aprendi.

- E dá resultado?

- Pode não dar. Mas sai muito mais barato.
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    Carlos Eduardo Novaes (1940)
    O escritor, jornalista e dramaturgo CARLOS EDUARDO DE AGOSTINI NOVAES é amplamente reconhecido como um dos maiores cronistas contemporâneos do Brasil. Ele se destacou por usar o humor refinado, a ironia e a sátira política para retratar e criticar o cotidiano caótico das grandes metrópoles e a sociedade brasileira. nasceu em 1940, no Rio de Janeiro/RJ. Embora seja carioca nato, mudou-se em 1958 para Salvador/BA, onde viveu por dez anos. Em 1969, retornou em definitivo para o Rio de Janeiro, onde fixou residência e desenvolveu a maior parte de sua carreira profissional. Durante sua estadia em Salvador, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1965. Antes de viver da escrita, exerceu atividades variadas, trabalhando como agente rodoviário, proprietário de uma empresa de dedetização e sócio de uma fábrica de sorvetes. Atuou intensamente no jornalismo, iniciando sua carreira no jornal carioca Última Hora. Teve uma consagrada passagem de 17 anos pelo tradicional Jornal do Brasil (JB), onde começou cobrindo prognósticos bem-humorados da Loteria Esportiva e tornou-se um dos cronistas principais da casa. Na gestão pública, ocupou o cargo de Secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro (1991). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT).
Sua entrada na literatura deu-se de forma orgânica por meio de suas crônicas diárias na imprensa escrita nas décadas de 1970 e 1980. Ao dividir espaço com nomes consagrados do Caderno B do Jornal do Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, firmou sua identidade autoral focada no humor urbano. Não pertence à Academia Brasileira de Letras (ABL) e seguiu sua trajetória focada no mercado editorial e nas produções teatrais e televisivas. Embora não possua uma galeria de grandes prêmios acadêmicos tradicionais, o autor alcançou o que muitos consideram o maior prêmio literário: o sucesso massivo de público, figurando frequentemente nas listas de bestsellers nacionais nas décadas de 1970, 1980 e 1990, além de ter textos adotados em exames de vestibulares e até em aulas de português no exterior (como na Universidade de Línguas de Pequim).
Com mais de 40 livros publicados, transitou pelo conto, crônica, romance e literatura infantojuvenil. Seus títulos de maior destaque são: O Caos Nosso de Cada Dia (1974) – Seu livro de estreia, que reuniu crônicas de sucesso; A Próxima Novela (1977) – Sátira ao vício dos brasileiros por telenovelas; O Menino sem Imaginação (1991) – Um de seus maiores sucessos infanto-juvenis, criticando o impacto excessivo da televisão na mente das crianças; Capitalismo para Principiantes (1995) – Livro didático e bem-humorado; Crônicas, taokey?: Retratos 3x4 do Governo do Capitão (2021) – Um de seus lançamentos recentes focados na sátira política moderna.
A relevância de Carlos Eduardo Novaes está em seu papel como renovador e popularizador da crônica jornalística e urbana no Brasil. Herdeiro do estilo humorístico de Stanislaw Ponte Preta e Luis Fernando Verissimo, ele conseguiu traduzir as crises econômicas, a burocracia, a transição política e os absurdos cotidianos do Brasil da Ditadura à redemocratização sob uma ótica extremamente cômica, acessível e inteligente. Ele estendeu pontes importantes entre a literatura e o público jovem com suas obras para escolas, mostrando que a leitura crítica do país pode andar de mãos dadas com o riso.

Fontes:
Carlos Eduardo Novaes. Juvenal Ouriço Repórter. RJ: Nórdica, 1977.
Biografia = Quadrinhopedia, Museu da TV, Arte Cult, Livraria Travessa, Wikipedia. Literatura Brasileira (UFSC), etc.

Nilcéia Albuquerque França (Versos Diversos)


TROVAS DIVERSAS

A Trova é meu grande afã,
e dela não abro mão!
Faz-me fada e até vilã,
muda até o coração!
= = = = = = = = = = =

O dia a dia vai indo,
como a chuva na torrente.
e o Rei Sol já vai sumindo,
surgindo a Lua fulgente!
= = = = = = = = = = =

Naquela tarde risonha,
te conheci, meu amor!
Creio que, comigo, sonhas.
inda sentes meu frescor!
= = = = = = = = = = =

Ser humano é ser mutável.
Um dia é fruto; outro, grão;
Às vezes, admirável;
Outras, só complicação!
= = = = = = = = = = =  

Um menino, mui sapeca,
tentava a raia empinar,
bebendo, numa caneca,
pôs-se o leite a derramar!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

BUSCA

Rumávamos a não sei onde,
Dentro de uma roda viva
Hoje estamos em busca
De algo qu’inda não sabemos!

Refletir, refletir, refletir...
Tentando apanhar um sentido,
Aqui, lá e acolá,
De algo qu’inda não sabemos!?

E buscando, chegamos a Deus, o Infinito
E a descoberta, incerta,
De algo qu’inda não sabemos!?

Aspiramos à serenidade,
À sabedoria, ao Amor
De algo qu’inda não sabemos!
* * * * * * * * * * * * * * * *  
 
 ESPERANÇA

Menina bonita,
alegre e faceira
na rua, saltita,
tu és companheira!

A Terra ilumina
Com sua inocência,
És forte, menina,
Iluminescência!

E nesta vida incerta,
alento nasce pra nós,
o futuro é iminente.

A humanidade desperta,
E escuta a tua voz,
Sendo mais diligente!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O CAVALO

Dentre toda a natureza,
O cavalo é o mais legal;
Grandes olhos, macieza,
servidor sempre leal!

Cargas sempre a carregar,
Olhos grandes, mas tranquilos;
A andar ou a trotear,
Alivia o teu destino!

Seja adulto ou criança,
todos querem cavalgar;
todos tem a esperança,
de, um dia, a vir montar!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O MALABARISTA

Um dia, um malabarista,
Tentava se equilibrar,
pois estava numa pista ...
que se iniciava a inclinar!?!

Na mesa ele se apoiava
Mas, em vão mão se continha.
De escorregar não parava,
Que até levou a vizinha!
* * * * * * * * * * * * * * * *  

O POETA

O Poeta brinca e sonha;
vive só a perscrutar;
ser humano a amar,
Deixa a vida bem risonha!

Poeta muda o bisonho,
pois ele o quer transformar;
e a Beleza desnudar,
e a isto não me oponho!

O Poeta é uma essência,
desvendando mil mistérios,
falando de humanidade!

Revelando as consciências,
eis que surge revertério,
eis a universalidade!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
A escritora, poeta e professora paranaense NILCÉIA ALBUQUERQUE FRANÇA é uma destacada defensora da língua portuguesa, atuando ativamente em academias de letras no Sul do país e promovendo a integração entre a linguística teórica e a expressão poética. Nasceu em Ponta Grossa/PR, graduou-se em Letras (Português/Inglês). Concluiu o Mestrado em Letras/Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1995. Atua fortemente como professora universitária e pesquisadora na área de Linguística Textual. Concentra suas pesquisas em temas essenciais para a pedagogia nacional: o ensino da escrita, o incentivo à leitura, a análise de narrativas e a educação voltada para deficientes visuais. Além da atuação literária e educacional, possui faceta artística como artista plástica.
Sua expressão artística transita de forma híbrida entre o rigor acadêmico da análise textual e o lirismo livre da poesia e do conto. Ela integra dezenas de associações intelectuais de relevo no país. Pertence ao renomado Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Paraná (IHGPR), à Associação Jornalística de Escritoras do Brasil (AJEB-PR), ao Centro de Letras do Paraná (CLPR). É associada à Federação Brasileira das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), à Academia Intercontinental de Artistas e Poetas (AIAP) e ao Núcleo Italiano das Ciências, Letras e Artes sediado em Roma, Itália. Membro efetivo do Projeto Amizade Poética, ocupando de forma perpétua a cadeira de número 40. Seus prêmios decorrem das comendas, títulos honoríficos e medalhas concedidos pelas federações e academias às quais está filiada (como a FEBACLA) pelo seu notório saber linguístico e por sua valiosa dedicação à docência e à difusão da poesia lusófona.
Embora possua produções autorais e artigos no ambiente da Linguística acadêmica, o grande marco da sua carreira literária dá-se por sua constante presença como coautora em antologias e coletâneas de prestígio internacional, tais como:* Internacional Sonata Poética da Liberdade (2021) – Edição bilíngue lançada em português e inglês; Isabel, a Princesa das Camélias (2021); A Árvore da Vida (2022).
A contribuição de Nilcéia Albuquerque França para o cenário cultural brasileiro reside em sua capacidade de unir a ciência da linguagem (Linguística) com a beleza da arte literária. Em um país que carece de metodologias inclusivas, seus estudos voltados à educação e à alfabetização de deficientes visuais expandem o alcance social da literatura. Além disso, sua voz poética e sua atuação em prol de academias paranaenses e internacionais fortalecem o intercâmbio de ideias e mantêm viva a tradição da poesia escrita de forma técnica, mas visceral.

Fontes:
João Israel da Silva Azevedo (org.). Superação: poemas, poesias e crônicas. Esperantinópolis, MA: Clube de Autores, 2020. (e-book)
Biografia = Amizade Poética, Escavador, Ás Editorial.

Washington Daniel Gorosito Pérez (O escritor mexicano Villoro e o outro, em uma ilha deserta)

O escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, membro do El Colegio Nacional, referiu-se em sua série de palestras nessa instituição, intitulada "O desafio do outro: náufragos, exilados e migrantes na literatura", à ilha deserta na literatura como espaço de aventura, mas também de condenação: "No México tivemos prisões em ilhas e José Revueltas escreveu um romance sobre a prisão em que estava, nas Ilhas Marías, e este romance se chama Os muros de água. A ilha tem sido um espaço de desejo, um possível paraíso, um espaço de salvação para um náufrago, mas também tem sido um espaço de condenação."

Mas se existe uma ilha fundamental para o naufrágio, disse Villoro é a de Daniel Defoe, onde seu personagem Robinson Crusoé viveu por 28 anos, a mesma que o escritor francês Michel Tournier recriou no século XX em seu romance Fridays ou Os limbos do Pacífico. Após detalhar a vida de fracassos de Defoe, explicou que, assim como seu personagem Robinson Crusoé, "ele era um homem cheio de ambição; Defoe era pretensioso, usava uma peruca como se pertencesse à aristocracia, usava uma espada por pura elegância."

Sempre lutando para sobreviver, Defoe escreve Robinson Crusoé que, para Villoro, "é a história de um grande arrependimento, porque ele vai para o mar desobedecendo aos pais e cai em um naufrágio, e podemos dizer que esse naufrágio é uma espécie de batismo que o reconverte. Ele chega à ilha, tem que agradecer, batiza a ilha como Esperança, como uma das três virtudes teologais, e diz: 'Tenho que agradecer por estar vivo, e minha forma de dar graças, e aqui entra a ética protestante, é trabalhar. O trabalho é o que vai me redimir.'"

Além do fato de que, na história, a ilha deserta é uma tábula rasa que permite começar do zero: Robinson Crusoé "foi um livro muito direto que falava sobre problemas muito específicos de como sobreviver, mas o público adorava, que se sentia representado, entendia que havia alguém que falava sua língua".

Inspirado pelo naufrágio do marinheiro Alexander Selkirk, outro personagem aparece na obra de Defoe, um aborígene que ele batiza com o nome de Sexta-Feira e, "embora estejamos lidando com uma história no efeito de um senhor e um servo, uma história assimétrica de dominação, com o tempo Robinson Crusoé começa a ficar curioso, e uma dose de respeito pelos aborígenes que estão lá."

Ao longo dos anos, Juan Villoro recordou, Robinson Crusoé tornou-se "um personagem que já é equivalente a um mito; assim como muitos autores abordaram o tema de Fausto ou Don Juan, há muitos que abordaram o tema de Robinson Crusoé até o século XX, por exemplo, A Ilha de Cimento, de Ballard, o grande autor inglês de ficção científica. A Ilha, de Aldous Huxley, lhe deve muito. A Invenção de Morel, por Adolfo Bioy Casares".

A lista vai tão longe quanto Michel Tournier e seu Sexta-feira ou Os Limbos do Pacífico, onde "o que ele vai fazer é uma antropologia do outro; Ele muda a equação entre o náufrago branco e o aborígene e vai criar um romance profundamente diferente, algo muito difícil porque tem o precedente de uma das maiores obras que atravessou os leitores de forma muito bem-sucedida desde o século XVIII."

Tournier, também filósofo, descreve um Robinson Crusoé ambicioso e desequilibrado que, ao contrário de Defoe, que "administra sua ilha", cai em depressão e até é abandonado pelo cachorro com o qual naufraga. Crusoé, de Tournier, é salvo pelo tempo e preparado para a chegada de alguém radicalmente diferente dele: Sexta-Feira, um aborígene que ele transforma em servo e que maltrata repetidas vezes, apesar de seu humor festivo e alegre.

Durante os 28 anos em que Robinson, interpretado por Tournier, também permanece na ilha, abusos contra Sexta-Feira acontecem repetidas vezes, mas, ao contrário de Defoe, o náufrago do francês reconsidera e reflete repetidamente até ver o outro, Sexta-Feira, como "um poeta, um inventor, uma personagem maravilhosa. É exatamente isso que Sexta-feira no Náufrago alcança: que ele se torna espiritualmente alguém diferente e pode aspirar a ser poeta ou inventor ele mesmo."

"Visto de longe e com a mentalidade da antropologia do outro, Sexta-Feira ou Os Limbos do Pacífico também é uma educação para entender nossa própria sociedade; os valores que Robinson aprende com Sexta-Feira podem ser valores desta sociedade. Daniel Defoe escreve um romance no qual um náufrago busca preservar seus valores em extrema solidão, ele está enraizado no passado. Nesse sentido, é um romance conservador: para se salvar, não para se desumanizar, precisa preservar sua tradição, o que é. O que Tournier faz de forma incrível, por outro lado, é que ele escreve um romance voltado para o futuro."

Villoro recordou uma palestra de Tournier na qual refletiu que a verdadeira dedicatória de seu romance era aos trabalhadores estrangeiros na França. "Ele diz: 'Existem milhões de pessoas que vieram dos confins do mundo para que possamos viver melhor, e são pessoas que não vemos, são pessoas anônimas. Tentei, neste romance, dar um rosto e uma vida àquele Sexta-Feira que é aquele que nos permite comer, que limpa nossa casa, que nos sustenta, que nos ajuda, que dirige o carro, o taxista, todas as pessoas que nos permitem viver: os imigrantes.'"

Graças a essas duas versões literárias do naufrágio, Villoro disse: "vemos a descoberta de um ser diferente, a quem podemos temer, mas que também é alguém que tem muito a nos ensinar. Quando uma pegada aparece em uma ilha deserta que não é nossa, isso pode nos assustar, pode nos assustar, mas vimos aqui que essa também é uma oportunidade extraordinária de aprendizado porque o outro, o diferente, é necessariamente o que alimenta a si próprio.”
(tradução do espanhol por José Feldman)
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O escritor, sociólogo e jornalista WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ é uma voz de grande relevância na literatura hispano-americana contemporânea. Nascido no Uruguai e naturalizado mexicano, sua produção artística e intelectual conecta com maestria a sensibilidade poética às reflexões críticas sobre a política internacional, a educação e os problemas sociais. Nasceu em 1961, na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Viveu sua juventude no Uruguai. Desde 1991, mudou-se para o México, fixando residência na cidade de Irapuato, no estado de Guanajuato. Tornou-se oficialmente cidadão mexicano naturalizado em 1999. Iniciou sua trajetória acadêmica no Uruguai, graduando-se em Jornalismo aplicado aos Meios de Comunicação Social. No México, consolidou uma sólida carreira acadêmica nas Ciências Humanas: licenciou-se e obteve o título de Mestre em Sociologia da Educação, tornando-se também doutorando em Pedagogia. Atua há décadas como catedrático universitário, pesquisador e conferencista. É um jornalista ativo de opinião, sendo o autor da célebre coluna internacional “Encuentro con Gorosito”, publicada em diversos veículos de comunicação das Américas e da Europa. 
Sua inserção no mundo das letras é marcada por uma produção híbrida, dividida entre o rigor dos ensaios acadêmicos e o lirismo da poesia existencial e urbana. Possui forte vínculo com instituições intelectuais no território mexicano, participando ativamente de saraus, congressos e núcleos de escritores associados à Academia Nacional e Internacional de Poesía (como os núcleos de San Luis Potosí e da Cidade do México), além de ser colaborador frequente de coletivos de vanguarda e revistas culturais independentes. Ao longo de sua estrada literária, acumulou um expressivo reconhecimento em certames de prosa e poesia pela América Latina. Ele recebeu 2 prêmios provinciais, 5 prêmios nacionais e 14 prêmios internacionais de literatura. Suas produções também foram selecionadas para integrar mais de 16 antologias internacionais de poesia e contos.
Entre livros individuais, ensaios de sociologia e participações em antologias poéticas de prestígio, destacam-se: Una biblioteca sin libros (2022); Relatos de tradiciones (2022); Tras las huellas de Ana Neumann (2023); Trazos poéticos 3 (2023) – Obra comemorativa do Dia Mundial da Arte; Sombras del Aire, antología 2023 – Coletânea poética de grande repercussão em Guanajuato; Urbana – Livro comemorativo celebrando sua produção de crônicas e versos.
A relevância de Gorosito Pérez reside em sua condição de escritor de fronteiras e de fusão cultural. Como um legítimo representante da literatura da diáspora e do exílio voluntário, ele transporta a melancolia rioplatense (típica do Uruguai) para a vibrante e mística realidade do interior mexicano. Sua bagagem como sociólogo confere à sua poesia uma profundidade ímpar, na qual o lirismo nunca se desliga das dores do homem comum, da passagem do tempo e das desigualdades sociais. Além disso, seu papel como educador e colunista internacional constrói pontes fundamentais de integração cultural dentro do continente americano, mantendo a palavra escrita como uma ferramenta viva de resistência e conscientização política.

Fontes:
Sumar Literomania nr. 410-411 (21.07.2026)
https://www.litero-mania.com/el-escritor-mexicano-villoro-y-el-otro-en-una-isla-desierta/
Biografia = Literomania, Revista Mimeografo, Sombra del Aire, Revista Innombrable, El Sol de Irapuato, Espacio Latino, etc.

Luís da Câmara Cascudo (Cobra Norato)

No paranã* do Cachoeiri, entre o Amazonas e o Trombetas, nasceram Honorato e sua irmã Maria, Maria Caninana.

A mãe sentiu-se grávida quando se banhava no rio Claro. Os filhos eram gêmeos e vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras.
 
A tapuia batizou-os com os nomes cristãos de Honorato e Maria. E sacudiu-os nas águas do Paranã porque não podiam viver em terra.

Criaram-se livremente, revirando ao sol os dorsos negros, mergulhando nas marolas e bufando de alegria selvagem. O povo chamava-os: Cobra Norato e Maria Caninana.

Cobra Norato era forte e bom. Nunca fez mal a ninguém. Vez por outra vinha visitar a tapuia velha, no tejupar* do Cachoeiri. Nadava para a margem esperando a noite.

Quando apareciam as estrelas e o aracuã* deixava de cantar, Honorato saía da água, arrastando o corpo enorme pela areia que rangia. Vinha coleando, subindo até a barranca. Sacudia-se todo, brilhando as escamas na luz das estrelas. E deixava o couro monstruoso da cobra, erguendo-se um rapaz bonito, todo de branco. Ia cear e dormir no tejupar materno. O corpo da cobra ficava estirado junto do paranã*. Pela madrugada, antes do último cantar do galo, Honorato descia a barranca, metia-se dentro da cobra que estava imóvel. Sacudia-se. E a cobra, viva e feia, remergulhava nas águas do paranã.

Voltava a ser a Cobra Norato.

Salvou muita gente de morrer afogada. Direitou montarias e venceu peixes grandes e ferozes. Por causa dele a piraíba* do rio Trombetas abandonou a região, depois de uma luta de três dias e três noites.

Maria Caninana era violenta e má. Alagava as embarcações, matava os náufragos, atacava os mariscadores que pescavam, feria os peixes pequenos. Nunca procurou a velha tapuia que morava no tejupar do Cachoeiri.

No porto da Cidade de Óbidos, no Pará, vive uma serpente encantadora, dormindo, escondida na terra, com a cabeça debaixo do altar da Senhora Sant'Ana, na Igreja que é da mãe de Nossa Senhora.

A cauda está no fundo do rio. Se a serpente acordar, a Igreja cairá. Maria Caninana mordeu a serpente para ver a Igreja cair. A serpente não acordou mas se mexeu. A terra rachou, desde o mercado até a Matriz de Óbidos.

Cobra Norato matou Maria Caninana porque ela era violenta e má. E ficou sozinho, nadando nos igarapés, nos rios, no silêncio dos paranãs.

Quando havia putirão* de farinha, dabacuri* de frutas nas povoações plantadas à beira-rio, Cobra Norato desencantava, na hora em que os aracuãs deixam de cantar, e subia, todo de branco, para dançar e ver as moças, conversar com os rapazes, agradar os velhos.

Todo mundo ficava contente. Depois, ouviam o rumor da cobra mergulhando. Era madrugada e Cobra Norato ia cumprir seu destino.

Uma vez por ano Cobra Norato convidava um amigo para desencantá-lo. Amigo ou amiga. Podia ir na beira do paranã, encontrar a cobra dormindo como morta, boca aberta, dentes finos, riscando de prata o escuro da noite: sacudir na boca aberta três pingos de leite de mulher e dar uma cutilada com ferro virgem na cabeça da cobra, estirada no areião.

Cobra fecharia a boca e a ferida daria três gotas de sangue. Honorato ficava só homem, para o resto da vida. O corpo da cobra seria queimado. Não fazia mal. Bastava que alguém tivesse coragem.

Muita gente, com pena de Honorato, foi, com aço virgem e frasquinho de leite de mulher, ver a cobra dormindo no barranco. Era tão grande e tão feia que, dormindo como morta, assombrava. A velha tapuia do Cachoeiri, ela mesma, foi e teve medo. Cobra Honorato continuou nadando e assobiando nas águas grandes, do Amazonas ao Trombetas, indo e vindo, como um desesperado sem remissão.

Num putirão famoso, Cobra Norato nadou pelo rio Tocantins, subindo para Cametá. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar, beber, conversar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado foi, com o vidrinho de leite e um machado que não cortara pau, aço virgem. Viu a cobra estirada, dormindo como morta. Boca aberta. Sacudiu três pingos de leite entre os dentes. Desceu o machado, com Vontade, no cocuruto da cabeça. O sangue marejou. A cobra sacudiu-se e parou.

Honorato deu um suspiro de descanso. Veio ajudar a queimar a cobra onde vivera tantos anos. As cinzas voaram. Honorato ficou homem. E morreu, anos e anos depois, na cidade do Cametá, no Pará.

Não há nesse rio e terras do Pará quem ignore a vida da Cobra Norato. São aventuras e batalhas.

Canoeiros, batendo a jacumã*, apontam os cantos, indicando as paragens inesquecidas:

- Ali passava, todo o dia, a Cobra Norato...
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Vocabulário:
Aracuã – ave trepadora.
Dabacuri - festa oferecida por uma aldeia a outra.
Jacumã – leme, remo.
Paranã – pequeno braço de rio.
Piraíba – espécie de peixe.
Putirão – trabalho comum, gratuito, (mutirão) em proveito de um indivíduo que oferece alimentação e bebidas e depois um baile.
Tejupar – casa de palha, palhoça.
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O historiador e escritor Luís da Câmara Cascudo é considerado o maior folclorista do Brasil, responsável por transformar a cultura popular e as tradições orais brasileiras em matéria de estudo científico e literário de valor universal. LUÍS DA CÂMARA CASCUDO nasceu em Natal/RN, em 1898 e faleceu nesta mesma cidade. em 1986 (aos 87 anos). Passou toda a sua vida em Natal (RN). Ele viveu na famosa chácara Villa Cascudo, no bairro do Tirol, e posteriormente em sua tradicional residência na Cidade Alta, onde mantinha uma biblioteca de mais de 20.000 livros e recebia intelectuais do mundo inteiro. Iniciou o curso de Medicina, mas abandonou a carreira para se formar em Direito em Recife (1928). Atuou ativamente como jornalista, escrevendo crônicas diárias para o jornal A Imprensa e outros periódicos nacionais. Foi professor de Direito Internacional e de História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Exerceu funções de historiador oficial da cidade de Natal e fundou a Sociedade Brasileira de Folclore (1941).
Sua trajetória literária começou cedo, impulsionada pelas leituras na infância e saraus que ocorriam em sua casa. Estreou na literatura em 1921 e construiu uma vasta rede de correspondências com os principais nomes do Modernismo brasileiro, como Mário de Andrade. Foi o fundador da Academia Norte-Riograndense de Letras (1936). Devido à sua postura provinciana convicta — ele recusava-se a deixar o Rio Grande do Norte —, nunca se candidatou à Academia Brasileira de Letras (ABL), embora fosse uma figura aclamada por ela. Prêmio Machado de Assis (1956): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra, o mais importante reconhecimento literário do país na época. Prêmio Brasília de Literatura (1970): Também recebido pelo conjunto de suas contribuições à cultura nacional.
Cascudo escreveu mais de 150 livros (chegando a mais de 200 publicações se contabilizados opúsculos e ensaios). Algumas de suas principais obras são: Alma Patrícia (1921) – Seu livro de estreia; Vaqueiros e Cantadores (1939) – Estudo pioneiro sobre a poesia oral do sertão; Contos Tradicionais do Brasil (1946) – Compilado de narrativas populares orais; Dicionário do Folclore Brasileiro (1954) – Sua obra-prima, referência mundial e marco na catalogação dos mitos, festas e crendices nacionais; História da Alimentação no Brasil (1967) – Extensa pesquisa antropológica sobre os hábitos alimentares e as heranças indígenas, africanas e portuguesas no prato brasileiro.
A importância de Câmara Cascudo reside no fato de ele ter legitimado a cultura popular como ciência. Antes dele, as manifestações folclóricas, as superstições e as histórias contadas pelos povos mais simples eram vistas como "subliteratura" ou ignorância. Provou que a verdadeira identidade e a "alma" do Brasil estavam guardadas nos gestos cotidianos, nas feiras, nos causos de lobisomem, na culinária e nas canções de ninar. Ao registrar e analisar sistematicamente a tradição oral, ele salvou do esquecimento a memória coletiva do povo brasileiro, influenciando diretamente a literatura moderna, a antropologia e as ciências sociais no país.

Fontes:
Luís da Câmara Cascudo. Lendas Brasileiras para Jovens. Projeto LpT (Livro para Todos).
Biografia = Wikipedia, Ebiografia, Dicionário MPB, Amazon, Cascudo.org, Museu da Língua Portuguesa, Tramatura, etc.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

José Feldman (Instantes Mágicos)


O tempo é uma substância estranha. Temos relógios para medi-lo em partes iguais, mas o coração ignora os ponteiros. O instante que vivemos pode ser o que há de melhor. Alguns momentos são tão preciosos que desejamos que durem para sempre, toca exatamente nessa ferida aberta da nossa existência: a nossa eterna briga com a efemeridade.

Preparamos a vida inteira para os grandes palcos. Estudamos anos para uma carreira, planejamos meses para uma viagem, economizamos décadas para o futuro. Porém, quando olhamos para trás em um momento de silêncio, o que nos sustenta não são os grandes blocos de horas planejadas. São os fragmentos. O instante exato em que o sol bateu no rosto de quem amamos e rimos de uma bobagem qualquer. O segundo de silêncio compartilhado antes de um abraço de despedida. O estalar de dedos em que a solidão deu trégua e nos sentimos parte do universo.

Há uma contradição bonita e dolorosa na busca humana pelo "para sempre". Queremos eternizar o que é bom porque a beleza nos assusta com a sua brevidade. Se o instante precioso durasse para sempre, ele deixaria de ser instante. Viraria rotina. Perderia o brilho exato que só a urgência do fim consegue dar. A eternidade de um momento não está na sua duração cronológica, mas na profundidade da marca que ele deixa na alma. Um segundo de felicidade plena é mais vasto do que um ano inteiro de dias cinzentos e automáticos.

O perigo da nossa era moderna é que estamos esquecendo como habitar o instante. Estamos sempre um passo à frente, antecipando o próximo compromisso, ou um passo atrás, remoendo o que já passou. Quando o instante precioso acontece, muitas vezes tentamos sacá-lo do fluxo do tempo com a câmera de um celular, tentando congelar o que só deveria ser sentido. Ao tentar registrar o momento para guardá-lo no futuro, esquecemos de estar presentes nele agora.

Alguns instantes mereciam o infinito. Como não podemos parar o relógio, nos resta a dignidade de viver esses momentos com entrega absoluta. Se não podemos fazer o tempo parar, que saibamos pelo menos expandir o agora, mergulhando de cabeça em cada segundo precioso. Afinal, a eternidade não é o tempo que nunca acaba; é o instante que nunca esquecemos.
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domingo, 23 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 35 *

 

Sob a luz do sol nascente
segue o velho, estrada afora...
– É uma gota de poente
vagando dentro da aurora...
Adalberto Dutra de Rezende
Cataguazes/MG, 1913 – 1999, Bandeirantes/PR

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Nossa alma é uma criança,
que nunca sabe o que faz.
Quer tudo que não alcança;
quando alcança, não quer mais...
Adelmar Tavares
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

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A mais triste solidão
que os seres humanos têm
é abrir o seu coração...
olhar e não ver ninguém!
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

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Eu amo a vida, querida,
com todo o mal que ela tem!
Só pelo bem – que há na vida,
de se poder querer bem.
Anis Murad
Rio de Janeiro/RJ, 1904 - 1962

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Saudade, palavra doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando à flor!
Bastos Tigre
Recife/PE, 1882-1957, Rio de Janeiro/RJ

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Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer;
mas, zangado, morde e arranha:
— É gato? — Não... é mulher!
Carolina Ramos
Santos/SP

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Sou mais alta que esse morro,
mais vasta que aquele mar.
Há muito que me percorro
sem me poder encontrar.
Cecília Meireles
Rio de Janeiro RJ, 1901-1964

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Hoje eu sei que foi loucura...
Mas, ao louco, que fui eu,
devo o pouco de ternura
que o bom senso não me deu.
Cesídio Ambrogi
Natividade da Serra/SP, 1893 — 1974, Taubaté/SP

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Dando pra um beco o banheiro
da inquilina, uma "parada",
O Zezé ganha dinheiro
cobrando aluguel de escada...
Darli O. Barros
São Paulo/SP

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Teu corpo ardente, formosa,
caminho da perdição,
é uma rua perigosa
que eu subi na contramão.
Dulcídio de Barros Moreira Sobrinho
Juiz de Fora/MG

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Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu...
Durval Mendonça
Rio de Janeiro, 1906 – 2001

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Pelos caminhos que sigo,
a dor não me pesa tanto,
quando encontro um lenço amigo
para enxugar o meu pranto...
Edmar Japiassú Maia
Nova Friburgo/RJ

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Quem da astúcia é mais capaz?
Num concurso singular
vence a mulher; Satanás
fica em segundo lugar!
Élbea Priscila Sousa e Silva
Caçapava/SP

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Um apito na estação...
Um lenço acena tristonho...
O aperto no coração
e a saudade em vez do sonho!
Fernando Câncio de Araújo
Fortaleza/CE, 1922 – 2013

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Tudo muda, tudo passa,
neste mundo de ilusão:
vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão.
Guilherme de Almeida
Campinas/SP, 1890 – 1969, São Paulo/SP

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Na distância, ao teu aceno,
quanta tristeza me invade...
O trem ficando pequeno
e, em mim, crescendo a saudade...
Hermoclydes Siqueira Franco
Niterói/RJ, 1929 – 2012, Rio de Janeiro/RJ

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Saudades, sempre saudades
Dos anos que já vivemos.
Cultuando as amizades
Que tivemos e as que temos.
Hildemar Cardoso Moreira
São Mateus do Sul/PR, 1926  – 2021, Contenda/PR

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Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim.
Izo Goldman
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

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Oxalá flores nascentes
em vergéis adormecidos
despertem as novas mentes
aos caminhos coloridos.
João Batista Xavier Oliveira
Bauru/SP

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Para voltar, não me peças…
Seria uma insensatez
eu crer nas tuas promessas
e arrepender-me outra vez.
José Tavares de Lima
Juiz de Fora/MG

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Rosas vermelhas, paixão…
Com perfume embriagador,
despertam meu coração
para os acordes do amor!…
Lucília Alzira Trindade Decarli
Bandeirantes/PR

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Era Natal - eu me lembro!
nosso pinheiro enfeitado...
Hoje a saudade em dezembro,
põe enfeites... no passado!
Maria Lúcia Daloce
Bandeirantes/PR

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Embora o dia me açoite
com seus barulhos brutais,
lá no silêncio da noite
a solidão bate mais!...
Maria Madalena Ferreira
Magé/RJ

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A coroa do Tancredo
dando a idade é tão avara,
que nem vê que faz segredo
de um troço que está na cara!
Maria Nascimento Santos Carvalho
Rio de Janeiro/RJ

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A mulher do meu vizinho,
que em amores não se aperta,
mesmo errando no caminho,
chega em casa na hora certa.
P. de Petrus
São Paulo/SP, 1920-1999

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Por mais que eu seja fraterno
socorrendo o pobre irmão,
pior que o frio do inverno,
é o frio do coração.
Romilton Faria
Juiz de Fora/MG

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Chove... E no espaço suspenso,
vertendo luz, sem alarde,
o Sol é um doirado lenço
que enxuga o pranto da tarde!...
Sérgio Bernardo
Rio de Janeiro/RJ

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Flor singela, delicada,
a rosa, flor do carinho.
É linda mas anda armada,
protegida pelo espinho.
Silvia Svereda
Irati/PR

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Ao disfarçar a paixão
quando na rua, se olharam
bem à luz do lampião,
suas Sombras... se abraçaram!
Therezinha Dieguez Brisolla
São Paulo/SP
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Taíssa da Silva Daniel (Em Três Minutos)


Usar o liquidificador me traz dor de cabeça. Olha o meu pé já batendo. Para pé! Presta a atenção nessas frutas se misturando e se desfazendo dentro do cilindro. Quantas combinações de moléculas devem estar se quebrando e se criando nesse exato momento tão trivial e não faço ideia? Eu não lembro nada de química.

Lembro quando estudava na escola, era muito difícil para mim, absorver. Mas o menino que sentava na minha frente... Giovani era o nome dele? Ele tentava me explicar a matéria depois da aula. Eu estava caidinha por ele, não escutava nada. Só observava em suas sardas ao longo de ambas as bochechas. Isso deixava a sua aparência um tanto fofa, menos máscula.

Isso me lembra que sempre gostei de meninos que exalavam certa sensibilidade. O que as pessoas às vezes chamam de feminilidade, até. Não concordo. Eu penso que se todos nós fossemos mais delicados, o mundo se tornaria melhor. Deve ter sido esse o meu problema. Eu casei com um homem rude. Tão rude que nunca cuidou de nossos filhos. Fui me apaixonar pela pessoa errada. Ainda amo ele. Mas ele saiu de casa. Sim, estou na fossa.

Eu peço para a minha mente pensar em outra coisa, até nesse barulho insuportável do liquidificador, mas cá estou eu a pensar nele de novo. O que será que ele está fazendo, agora? Os anos que vivemos juntos se apagaram tão rápidos assim? Por que não fez questão nem mesmo de levar nada de casa? Isso só deve significar que já tem um outro caso. Melhor não imaginar, só me faz mal.

Ainda não consigo pensar como será daqui para frente. Por favor, Helena! Não se force. Eu não estou pronta para pensar nisso. Para! Por favor. Olha o liquidificador...

É uma graça como crianças tornam tudo mais leve. E o Zé e a Carol dançando na sala, ao ritmo daqui do liquidificador? Meu Deus! Como ser criança é bom! Mesmo sem verem mais o pai voltar para casa a cada noite, eles parecem bem. Mas será que estão bem mesmo? Acho que vou pagar uma psicóloga para eles. Mas e o dinheiro? Preciso me separar, recorrer a direitos e... Afe!! Não pensa.

Pensa só em segurar as arestas do que já está aqui na minha frente. Esse é o foco. Calma, Helena! Calma! Maldita aula de química. Hoje ainda não tinha lembrado do Giovani.

O suco está pronto! Desliga o liquidificador, Helena.
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TAÍSSA DA SILVA DANIEL, carioca, nascida em 1995 e formada na área da saúde. Desde infância tem intensa conexão com as artes. Através da escrita, mas também por meio do desenho e da dança. Escreve principalmente ficção dramática. Histórias que transmitam conflitos e aprendizagens humanos, por meio de personagens de outras realidades.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 12: Ganância e avareza


O pobre carece de muitas coisas,
o avaro de tudo (Sêneca)

A ganância é um fenômeno humano que destrói tanto o próprio ganancioso quanto a todos os que estão no mesmo meio social. É o acúmulo insaciável de bens materiais, em geral em prejuízo dos outros seres humanos. O ganancioso não se contenta em obter o suficiente para viver bem. O acumular torna-se o único objetivo, à custa dos valores éticos, do bom senso e muitas vezes da legalidade. É um fenômeno destrutivo, incompatível com a cidadania.

Num Brasil de ouvidos moucos
a vida perde os encantos
quando a ganância de poucos
promove a fome de tantos!...
Antônio Juraci Siqueira - PA

Num triste e cruel enredo
escrito por poderosos,
a Terra treme com medo
das mãos dos gananciosos.
Ademar Macedo - RN

Seres vis, gananciosos,
movidos pela torpeza,
com seus atos criminosos
saqueiam nossa riqueza.
Gonzaga da Silva - RN
 
A avareza é reconhecida no Velho Testamento como um dos sete pecados capitais. Ganância e avareza são atitudes muito próximas, mas com certeza o avarento sofre mais do que o ganancioso. Podemos dizer que o avarento é um pobre coitado. Enquanto o ganancioso trocou o ser pelo ter, o avarento trocou o ser pela possibilidade de ter. Segundo Horácio, o avarento vive sempre na pobreza.

O avarento é estranho ser
- só quer dinheiro guardar;
o seu medo de perder
faz a ganância aumentar.
Lairton Trovão de Andrade - PR

Asqueroso é o avarento
que, de si, nada consome;
à família é rabugento,
por dinheiro, unha de fome.
Lairton Trovão de Andrade - PR


(Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Enviado pelo autor. )

Renato Benvindo Frata (Um não com sabor de sim)


O amigo Davi se apaixonou pela colega de trabalho. Uma sansei de cílios longos, olhos amendoados e lábios vermelho-tomate. Seus cabelos lisos floriam na espátula, e as mãos de unhas rosadas, macias e de brandura de menina instigavam nele, paixão.

No quarto ao lado do meu na república de jovens, ele se trancava a mascar o amor não correspondido. Não poucas vezes, trocava o mascar pelo sorver - no bico do litro. Fernet, conhaque, vinho, cachaça. Qualquer líquido que desse corda à paixão que sentia. Como se dá linha ao papagaio posto ao vento. 

E deixá-la voar no amplo céu de seu ardor. 

Essa atitude virou piada. Estávamos na idade do não comprometimento, razão que levava a não nos preocupar com o verbo amar, mas com os pegar, ficar, comparecer e um monte de outros terminados em ar, er, ir, or, ur, menos aquele.

No expediente de trabalho e com ela na mesa ao lado, ele se mantinha sóbrio como charuto apagado. Cuidava tão somente das tarefas, aliás, que dividia com ela no setor de faturamento. Isso o levava a se aproximar dela com observações funcionais. Outras, a criar essa condição para sentir seu perfume.

Davi a amava. Derretia-se e se amargurava. Curtia sua presença nas oito horas de trabalho e lamuriava sua ausência nas outras doze. Até que lhe demos um prazo para se declarar. Ou nós o faríamos.

Munido de vodca e campari, trancou-se no quarto resolvido a lhe escrever uma carta. Faria o pedido por escrito, com receio de não suportar o “não” que ela lhe enfiaria goela abaixo. E, na manhã seguinte, mostrou-me um pedaço de papel. Não havia carta, mas dois versos, que li:

No copo vazio,
A ausência e a presença.
Sua e a da tristeza.
Não se sabe quem sai, ou fica.

Sorvo um líquido entintado.
Ele me tinge a boca, os lábios, escorre...
Dá-me sensação ácida de não.
Depois, um saboroso sabor de sim:
Do beijo-prazer, o do ficar!

Paro, ou continuo?

Às seis, logo na saída, os vimos de mãos dadas.
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(Texto enviado pelo autor)