segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Carlos Drummond de Andrade (Caso de Canário)

Casara-se havia duas semanas. Por isso, em casa dos sogros, a família resolveu que ele é que daria cabo do canário:

- Você compreende. Nenhum de nós teria coragem de sacrificar o pobrezinho, que nos deu tanta alegria. Todos somos muito ligados a ele, seria uma barbaridade. Você é diferente, ainda não teve tempo de afeiçoar-se ao bichinho. Vai ver que nem reparou nele, durante o noivado.

- Mas eu também tenho coração, ora essa. Como é que vou matar um pássaro só porque o conheço há menos tempo do que vocês?

- Porque não tem cura, o médico já disse. Pensa que não tentamos tudo? É para ele não sofrer mais e não aumentar o nosso sofrimento. Seja bom; vá.

O sogro, a sogra apelaram no mesmo tom. Os olhos claros de sua mulher pediram-lhe com doçura:

- Vai, meu bem.

Com repugnância pela obra de misericórdia que ia praticar, ele aproximou-se da gaiola. O canário nem sequer abriu o olho. Jazia a um canto, arrepiado, morto vivo. É, esse está mesmo na última lona, e dói ver a lenta agonia de um ser tão gracioso, que viveu para cantar.

- Primeiro me tragam um vidro de éter, e algodão. Assim ele não sentirá o horror da coisa.

Embebeu de éter a bolinha de algodão, tirou o canário para fora com infinita delicadeza, aconchegou-o na palma da mão esquerda e, olhando para outro lado, aplicou-lhe a bolinha no bico. Sempre sem olhar para a vítima, deu-lhe uma torcida rápida e leve, com dois dedos, no pescoço.

E saiu para a rua, pequenino por dentro, angustiado, achando a condição humana uma droga. As pessoas da casa não quiseram aproximar-se do cadáver. Coube à cozinheira recolher a gaiola, para que sua vista não despertasse saudade e remorso em ninguém. Não havendo jardim para sepultar o corpo, depositou-o na lata de lixo.

Chegou a hora de jantar, mas quem é que tinha fome naquela casa enlutada? O sacrificador, esse, ficara rodando por aí, e seu desejo seria não voltar para casa nem para dentro de si mesmo.

No dia seguinte, pela manhã, a cozinheira foi ajeitar a lata de lixo para o caminhão, e recebeu uma bicada voraz no dedo.

- Ui!

Não é que o canário tinha ressuscitado, perdão, reluzia vivinho da silva, com uma fome danada?

- Ele estava precisando mesmo era de éter - concluiu o estrangulador, que se sentiu ressuscitar, por sua vez.
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Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE foi um dos maiores expoentes da literatura em língua portuguesa, considerado por críticos e intelectuais o mais influente poeta brasileiro do século XX. Principal nome da segunda geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 30), sua obra traduz com ironia, ceticismo e profunda sensibilidade a angústia do homem moderno diante do mundo. Nasceu na cidade de Itabira/MG, em 1902. Faleceu no Rio de Janeiro em 1987, aos 84 anos. Ele partiu apenas 12 dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade, vítima de uma insuficiência respiratória agravada pelo profundo luto. Passou a infância em Itabira, estudou como interno em Belo Horizonte/MG e Nova Friburgo/RJ. Fixou residência prolongada em Belo Horizonte na juventude. Em 1934, mudou-se em definitivo para a cidade do Rio de Janeiro, onde morou no icônico bairro de Copacabana pelo resto da vida. Embora tenha se graduado em Farmácia pela Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte em 1925, Drummond nunca exerceu a profissão. Sua vida profissional dividiu-se em duas grandes frentes: Funcionalismo Público: Ingressou no serviço público em Minas Gerais e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se Chefe de Gabinete de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde (1934–1945). Mais tarde, trabalhou como oficial no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) ao lado de Rodrigo Melo Franco, aposentando-se em 1962; e Jornalismo: Atuou como redator e colunista em periódicos como o Diário de Minas, Correio da Manhã e Jornal do Brasil, construindo uma sólida carreira paralela como cronista diário.
Sua estreia no Modernismo ocorreu na década de 1920, ajudando a fundar A Revista em Belo Horizonte, veículo de afirmação do movimento em solo mineiro. Em 1928, chocou a crítica nacional ao publicar o poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia de São Paulo, gerando um debate histórico sobre a estética poética. Não pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Apesar do prestígio monumental e dos apelos para que se candidatasse, ele recusou polidamente concorrer a uma cadeira na instituição, preferindo manter sua posição de escritor e funcionário público independente. Ao longo de sua madura trajetória, foi condecorado com as honrarias mais importantes do país: Prêmio de Conjunto de Obra (1946): Concedido pela Sociedade Felipe de Oliveira; Prêmio Jabuti (1968): Na categoria Poesia; Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA (1973); Prêmio Morgado de Mateus (1980): Entregue em Portugal, reconhecendo sua imensa relevância internacional para a Língua Portuguesa.
Drummond teve uma produção torrencial e diversificada (entre poesia, crônica, contos e traduções). Suas obras fundamentais são: Alguma Poesia (1930): Estreia poética que contém clássicos como "Poema de Sete Faces" e "No meio do caminho"; Sentimento do Mundo (1940): Obra de tom político e social que reflete as angústias da Segunda Guerra Mundial; José (1942): Contém o antológico poema "José" ("E agora, José? A festa acabou..."); A Rosa do Povo (1945): Seu livro poético de maior fôlego, marcado pelo lirismo social e engajamento antibelicista; Claro Enigma (1951): Fase madura de retorno à tradição clássica, com reflexões filosóficas, metafísicas e pessimistas; Contos de Aprendiz (1951): Sua célebre estreia no universo dos contos ficcionais.
A importância de Carlos Drummond de Andrade reside no fato de ele ter consolidado e amadurecido o Modernismo no Brasil. Se a primeira geração de 1922 precisou ser destrutiva e polêmica, Drummond provou que a nova estética era perfeitamente capaz de atingir a mais alta profundidade filosófica e formal. Revolucionou a poesia ao introduzir o "gauche" — o indivíduo deslocado, desajeitado e introspectivo —, despindo o fazer poético de qualquer falsa solenidade. Drummond transformou o cotidiano banal, a província, a família, o tédio burocrático e o amor em reflexões universais sobre a própria existência humana. Traduzido no mundo inteiro, sua linguagem ágil e irônica moldou a identidade da poesia brasileira contemporânea e influenciou virtualmente todas as gerações de escritores que vieram depois dele.

Fonte:
Carlos Drummond de Andrade. Caminhos de João Brandão. Publicado originalmente em 1970.

Antonio Manoel Abreu Sardenberg (Alma de Poeta)

 

ALUCINAÇÃO

Tentei em vão suavizar a vida,
Tornar mais leve o fardo tão pesado,
Fazer da volta o ponto de partida,
Buscar na ida o amor tão cobiçado!

Eu quis fazer da pauta a partitura
De um canto leve, doce e tão suave,
Cantar a vida com toda a ternura,
Voar em sonhos como uma ave!

Eu quis da luz o raio de esperança
Mas, por castigo, só me veio a treva.
Não me atrevo e guardo na lembrança
O que a serpente aprontou pra Eva...

E desse jeito fico aqui quietinho,
No meu cantinho, bem acompanhado,
Pois não será por falta de carinho
Que comerei a fruta do pecado!
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CONTRASTE

Você é fogo, a chama mais ardente,
Semente a germinar em pleno cio,
É luz que o sol espalha suavemente,
É toque de prazer, é arrepio...

É água cristalina da nascente
Que corre lentamente para o rio,
Paixão que vem assim, tão de repente,
Deixando o coração por quase um fio.

Você é o meu passado mais presente...
Calor a me aquecer durante o frio,
Loucura que enlouquece loucamente!

Você é como um sonho inocente,
É brisa mansa em manhã de estio
E muitas vezes temporal fremente!
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MANHÃ

Boceja o sol nessa manhã risonha
No céu brilhante de nuvens esparsas.
E no cenário do alto da montanha
Em revoada bailam lindas garças.

Na estrada estreita desponta um vaqueiro
Pelo aceiro tocando a boiada
Sob o comando de um feitor faceiro
Todo enfeitado para a namorada.

A manhã rompe enquanto a tarde brota,
E mais um dia foge se esvaindo...
O lusco – fusco no sertão se aporta,

E a cigarra, com seu cantar tão triste,
Dá boas – vindas à noite surgindo
O tempo avança - meu sonho persiste…
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RUMO DA VIDA

Tirei o traço na trena,
Toquei fogo na fornalha,
Saí de foco, de cena,
Rezei com fé a novena,
Dei flores pra namorada...

Afinei minha viola,
Recitei o meu poema
Confessei o meu dilema,
Pra vida eu nem dei bola.
Fugi cedo da escola
E o filme da minha vida
Projetei no meu cinema...

Arrumei as minhas tralhas,
Fiquei perdido na trilha,
Refugiei-me na ilha
Desse mundo de ilusão.
Doei pra você todinho
O meu pobre coração!
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SOL POENTE

Quando contemplo ao longe o sol poente
atrás do monte lá no infinito
sonho acordado o sonho mais bonito,
e tenho a fé de um homem forte e crente.

A luz suave, quase se apagando,
acende em mim um fogo tão ardente,
e ao pensar eu fico imaginando
o amor se pondo assim tão de repente.

O tempo passa e vem a madrugada
como um açoite castigando a gente
na aurora fria, escura e tão calada!

Oh... breve tempo tenha dó de mim
por que flagela um coração carente,
me machucando tanto, tanto, assim!
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VIL METAL

Nessa vida só descobre
Quem usa a sabedoria
Para entender que o nobre
Nem sempre se avalia
Usando o ouro e o cobre
Para dizer quem é rico
Ou indicar quem é pobre!

A pobreza e a riqueza
não se veem pelo metal!
Esse juízo é fatal,
é vil, cruel e perverso;
é como julgar poema
simplesmente por um verso!

A riqueza está na alma,
no cerne, no interior,
no âmago de cada um...
por isso digo sem medo
e sem receio nenhum:
(observa e descobre)
tem muito "pobre" que é rico,
tem muito "rico" que é pobre!
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VOZ DA RAZÃO

Quando minha razão fala,
com a voz do coração,
tudo em mim então se cala
e minha vida se embala
na mais sublime canção.

E quando a luz matutina
vem meiga me despertar,
a esperança descortina
e a fé, então, me ensina:
é hora de agradecer,
é momento de rezar!

E quando o silêncio cala
profundo dentro da gente,
sem querer a alma sente
que por nós é DEUS quem fala!
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Antonio Manoel Abreu Sardenberg (1947)
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG é um expressivo poeta, trovador e jurista fluminense, amplamente reconhecido por sua profunda ligação cultural e afetiva com o município de São Fidélis. Nasceu em Santo Antônio de Pádua, RJ, em1947. Embora tenha nascido em Pádua, viveu sua infância no distrito de Ipuca, em São Fidélis / RJ, cidade que adotou como seu verdadeiro lar, onde construiu sua família e estabeleceu suas principais raízes comunitárias. Atuou como Advogado Civilista e Consultor Jurídico. Devido à sua intensa participação social, serviços e relevância cultural na "Cidade Poema", recebeu o título de Cidadão Honorário de São Fidélis, concedido formalmente pela Câmara Municipal.
Conhecido pelo pseudônimo e marca de seu espaço lírico "Alma de Poeta", Sardenberg destaca-se como um exímio trovador e poeta romântico. Sua escrita é marcada pelo lirismo clássico, versos rimados e temas bucólicos. Ele canta com sensibilidade sobre a natureza (pássaros, flores), as reminiscências da infância, o amor e, acima de tudo, a profunda saudade de sua terra natal e do cotidiano interiorano. Teve forte atuação e inserção nos movimentos de difusão poética do início da era digital, integrando núcleos como a Academia Virtual Brasileira de Letras (AVBL). No cenário regional e físico de São Fidélis, representou patronos e cadeiras em comemorações e saraus históricos de fomento às letras (como a representação do Patrono nº 21, Theodoro Gouvêa de Abreu). Suas conquistas se concentram no reconhecimento público regional. Ele foi um dos idealizadores, apoiadores e organizadores de destaque do I Encontro Nacional de Poesias de São Fidélis, evento que movimentou e premiou a vertente da trova nacional e uniu poetas de diversos estados brasileiros.
Dedicou-se intensamente tanto ao formato físico quanto à transição para a literatura digital, sendo pioneiro na criação de plataformas virtuais para poetas independentes: Reminiscências Poéticas (Livro Virtual/Antologia de poesias e trovas); Publicou dezenas de folhetos, coletâneas em formato multimídia (poemas declamados e apresentações em PPS), além de possuir vasta participação em Antologias Poéticas coletivas ao lado de outros trovadores do Rio de Janeiro e de Minas Gerais; Seu site, o Sardenberg Poesias (Alma de Poeta)  (http://www.sardenbergpoesias.com.br/principal.htm), tornou-se uma espécie de biblioteca viva que imortalizou sua produção literária ao longo dos anos.
A relevância de Antonio Manoel Abreu Sardenberg reside no seu papel de preservador e dinamizador da identidade cultural de São Fidélis. Em uma época em que a poesia regional corria o risco de ficar restrita aos saraus físicos de interior, ele utilizou a internet e encontros nacionais para projetar o município fluminense de volta ao cenário nacional como a legítima "Cidade Poema". Sua importância se consolida em duas frentes: a manutenção da tradição da Trova (uma das formas poéticas mais democráticas e populares da nossa língua) e a sua generosidade em abrir espaços em seus portais e eventos para que novos e antigos poetas pudessem publicar suas obras, descentralizando a produção literária dos grandes eixos capitais.

(Poemas enviados pelo poeta)

Carolina Ramos (Santinha)

Faminto de asfalto o carro engolia quilômetros com voracidade insaciável. A vontade de chegar levava a moça a pisar firme, incentivando a gula da máquina. Sentiu a boca seca.

O último povoado ficara para trás, não muito longe. Arrependia-se de ter seguido as determinações da pressa, não parando sequer para um refrigerante. Partira para um fim de semana campestre, ameno e repousante, flecha disparada em rumo certo, sem direito a desvios, nem interrupções.

Com alívio, vislumbrou, à beira da estrada, a tabuleta convidativa. Sugestão, alentadora: - "Água potável". Diminuiu a marcha ao cruzar a ponte.

Deixou o carro no acostamento e embrenhou-se pela trilha estreita, em declive, chegando até a grota gorgolejante descoberta ao fundo, sob o frescor da ramagem. Dois ipês floridos denunciavam a chegada da primavera, atapetando o pequeno oásis com flores macias vestidas de ouro.

Perdida a pressa após matar a sede, a jovem deixou, deliciada, que a água fresca escorresse, por algum tempo, por entre os dedos, "inodora e sem sabor", como aprendera na escola, e, também, insubstituível! Que bebida, por mais saborosa e perfumada, pode substituir um gole dessa linfa pura, quando o demônio da sede ateia fogo aos sentidos?!

Ajoelhou-se novamente junto à fonte, mergulhando o rosto na concha das mãos, deleitada com a ablução refrescante. Voltou-se sem urgência e sem enxugar a face.

Foi quando descobriu a pequena cruz, adornada de flores, escondida sob a ponte. A curiosidade levou-a até lá.

Em letras rústicas, o nome - Rosalinda - atravessava os braços de madeira pintados de branco.

Uma figura agachada sob a ponte, até o momento não pressentida, movimentou-se na penumbra. Sobressaltada, a jovem recuou.

- Num carece tê medo, dona. Ninguém vai lhe molesta. Reze uma prece préla ...e num dexe de rezá uma prece prêle, tamém.

Encorajada pelo tom pacífico daquela estranha e soturna voz, a moça arriscou:

- Mas... quem é ela?… E ele, quem é?!

Um instante de silêncio, um suspiro... e a voz roufenha fez-se ouvir de novo:

- Ela é Rosalinda. Ele... é o disgraçado qui matô ela...aqui mesmo, nesse lugá onde tá a cruz! A história é cumprida... mas si a dona tivé tempo, eu posso contá.

Arrepiada até a alma, a moça levou a mão à boca, arrependida de ter feito as perguntas. Teve ímpetos de fugir, mas a curiosidade, maior que os temores, fez com que ali ficasse. Assentiu:

- Conte... Conte logo... Tenho um tempinho de sobra...

A voz do homem fez-se mais grave.. Sob o peso da emoção... ele sussurrou, como se falasse consigo mesmo:

- Rosalinda era uma rosa! Uma rosa linda de morrê...! E pur causa disso memo, é qui ela morreu! Tinha só quinze ano! Era um botão cumeçando a se abri! Os cabelo era longo... dessa cô aí dos da moça. Bem talhadinha! Pura que nem a água dessa grota! Tudo o mundo amava Rosalinda! Mas, tinha um disgraçado que amava ela mais qui tudo esse mundo junto! Era o Tião! Cabôco sacudido, já cuns trinta e pocos ano de idade.

Home feito, Tião sabia o qui quiria! Num era mau sujeito, não... mai era grossêro... i num sabia perdê!

Pra mor dos seus pecado, Tião garrô de querê Rosalinda! Querê cum locura... e de quarqué jeito! Ele sabia e seguia tudos passo que a minina dava! Chego inté a propô casamento préla. I ela se riu dele... de gargaiada! Isso doeu dimais no coração do coitado!

Tudos dia, Rosalinda, cada vez mais linda, vinha, muntada num burrico, buscá um garrafão de água nesse memo corguinho. Tião sabia disso! Naquele dia, ele chegô bem in antes dela... i ficô amoitado bem aí, onde ocê tá agora.

Presa da emoção, a moça ouvia sem coragem de interromper o narrador, que prosseguia, em voz arrastada:

– Daquela veiz, a minina chegô alegrinha!... Vinha cantando baxinho... sem suspeitá o que ia acuntecê. I aí mêmo, onde tá fincada essa cruiz, Tião matô ela! Matô in disispêro pruquê ela nun quis sê dele! Matô... i fugiu, cubrindo a cara cô' as mão! Adispois, foi preso... mó di pagá... i amargá seu pecado entre as grade!

Trêmula, a moça conscientizou-se de que estava bem no meio do palco onde uma tragédia, há algum tempo, se consumara entre dois protagonistas - um homem e uma mulher... E que essa tragédia poderia bem ser repetida, a qualquer momento!

Tentou amenizar a gravidade da situação, simulando calma:

- O senhor conhecia Rosalinda?

- Mai é craro que sim! Tudo o mundo cunhecia ela! Rosalinda era uma santinha! Pur isso, dona, é qui eu sempre trago frô aqui onde ela drumiu pra sempre!

O adeus apressado não deixava dúvidas quanto à urgência da moça em se retirar de cena. Assim mesmo, apesar da penumbra, pôde notar que o maltrapilho tinha aspecto desagradável, possuindo apenas um olho, o que lhe tomava a aparência ainda menos atrativa.

De volta à rodovia, a amena temperatura do ocaso devolveu-lhe parte da tranquilidade. Baixou a janela do carro, deixando que as mãos finas da brisa penteassem para trás seus cabelos castanhos... da cor dos de Rosalinda - estremeceu com a lembrança!

Pouco depois, chegava à fazenda, onde era esperada. Só então, entre perplexa e estarrecida, tomou conhecimento da história completa.

A tragédia acontecera há quase vinte anos, Rosalinda fora morta exatamente como lhe contara o homem amoitado sob a ponte. Era mesmo, Tião, o nome do assassino - Tião Caolho! Preso porque, na mão fechada da vítima, fora encontrado o seu olho, arrancado na luta pelas unhas e pelo desespero da moça!

Dizia-se que, depois de muitos anos de confinamento, Tião, há pouco, fora posto em liberdade. Todos os dias levava flores para a menina morta! Um pobre coitado roído pelo remorso! Espécie de alma penada, que nem mais chegava a assustar!

Ninguém sabia dizer onde... e nem do quê o pobre vivia! O mais certo é que morasse lá mesmo, debaixo daquela ponte. Ninguém o via pedir esmolas... ou qualquer ajuda. Tião só pedia flores e rezas! Flores para enfeitar a cruz de Rosalinda. Rezas para aguentar a consciência pesada... na esperança de um dia (quem sabe?) conseguir o perdão de Deus... e o da sua Santinha!
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Carolina Ramos (1924)
CAROLINA RAMOS DE OLIVEIRA, popularmente conhecida no meio literário como Carolina Ramos, é a “Primeira-Dama da Trova Brasileira” ou “Princesa da Trova”. Nascida em Santos/SP, em 1924, é um dos maiores nomes da literatura de quadras rimadas (trovas) no país e completou seu centenário em 2024 mantendo-se ativa na cultura.
Carolina Ramos nasceu, cresceu e reside até hoje na cidade de Santos (SP). Sua infância foi vivida em um lar singelo na Vila dos Andradas, área que atualmente abriga a Rodoviária de Santos. Ela possui um vínculo afetivo profundo e histórico com a baixada santista. Sua formação é múltipla e abrange diversas vertentes da educação e da arte. Formou-se professora pela Escola Normal do tradicional Colégio São José, onde também estudou Secretariado. Atuou lecionando e compondo hinos para instituições educacionais e culturais. Formou-se em piano, teoria, pedagogia e história da música no Instituto Musical Santa Cecília. Estudou também folclore no Instituto Musical Carlos Gomes. Atuou como artista plástica autodidata, conquistando reconhecimento e premiações em exposições nacionais e internacionais. Além disso, realizou curso de enfermagem socorrista pela Cruz Vermelha. Serviu como administradora cultural de destaque, tendo inclusive presidido o Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS) entre os anos de 2001 e 2007.
O despertar literário definitivo de Carolina ocorreu durante suas noites de insônia após o nascimento de sua segunda filha. Ela começou a compor versos tradicionais e, rapidamente, o seu domínio técnico da trova chamou a atenção dos grandes nomes da época. Em um episódio célebre, o lendário poeta Luiz Otávio (fundador da União Brasileira de Trovadores) apresentou-a publicamente sacramentando seu talento. Carolina Ramos é considerada uma verdadeira guardiã da trova no Brasil. Ela dedicou décadas a ensinar, divulgar e estruturar o movimento trovadoresco, aproximando a poesia clássica e popular do leitor comum e influenciando gerações de novos escritores. Ocupa cadeiras de prestígio em importantes sodalícios culturais do país, como União Brasileira de Trovadores: Presidiu a seção municipal de Santos e alcançou o topo da liderança institucional ao presidir o Conselho Nacional em 2011; Academia Santista de Letras; Academia Cristã de Letras (ACL), com sede em São Paulo; Academia Feminina de Letras; Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), onde ocupa a cadeira número 46.
Acumulou incontáveis premiações nos gêneros de poesia, conto, crônica e trova ao redor do mundo. No universo da trova, recebeu as maiores honrarias possíveis do movimento nacional: Título máximo de Magnífica Trovadora nos renomados Jogos Florais de Nova Friburgo (RJ), conquistado em 1973; Menção e título de Notável Trovadora concedido pelas cidades de Divinópolis e Pouso Alegre, em Minas Gerais.
Com uma vasta produção literária, a autora publicou 16 livros transitando com maestria entre a prosa e a poesia. Entre alguns de seus títulos estão: Cantigas Feitas de Sonho;  Peregrinação; ‘O Príncipe da Trova — livro biográfico e afetivo no qual narra a vida, a morte e o convívio poético com Luiz Otávio, o fundador do movimento trovadoresco nacional.
Carolina Ramos é considerada uma das maiores instituições vivas da literatura popular e clássica brasileira, exercendo um papel fundamental na preservação da memória literária nacional. A sua importância para a literatura se resume em que atuou na linha de frente para que a trova, vinda da Idade Média, ganhasse temáticas modernas, urbanas e cotidianas, mantendo o gênero atraente para as novas gerações. Ao publicar obras como O Príncipe da Trova, Carolina Ramos registrou a história viva e os bastidores da era de ouro da poesia nacional. Ela documentou o legado de Luiz Otávio e de outros grandes intelectuais do século XX, servindo como uma fonte histórica essencial para pesquisadores da literatura brasileira. Em uma época em que o ambiente acadêmico e literário era predominantemente dominado por homens, Carolina Ramos conquistou os títulos máximos da poesia brasileira por mérito técnico incontestável. Ela abriu portas para que mulheres escritoras ocupassem cadeiras de prestígio nas academias de letras e assumissem cargos de liderança cultural e intelectual.

Fonte:
Carolina Ramos. Canta… Sabiá! (folclore). Santos/SP, 2021. conto integrante do capítulo 5: Contos rústicos, telúricos e outros mais. p. 253. Livro enviado pela autora.

Aparecido Raimundo de Souza (O fabuloso casamento de Antão e Anta)

 NAQUELA ESPLENDOROSA tarde de sol forte, quando o mato cheirava a chuva que vinha chegando, todo mundo da redondeza já sabia de cor e salteado: Antão ia casar com Anta. Todavia, ninguém lembra direito quando é que começaram os dois pombinhos a andarem juntos. Uns e outros dizem, a língua solta que foi ali no caminho que desemboca numa plantação quilométrica de eucaliptos. 
Outros asseveram e juram que o romance nasceu de uma briga por um pedaço de terra, e há os mais sonhadores que afirmem com a melhor das convicções que foi só porque um dia ele olhou para ela e pensou com seus botões: “essa criatura divina tem o coração igual ao meu: áspero por fora, mas firme, bom e primoroso por dentro”.
Antão era um homem de poucas palavras, de pouca idade nos costados e tinha orgulho de mostrar as mãos calejadas, em face do trabalho que exercia, da oração que professava e da honestidade que acima de tudo estava sempre no mais alto da sua cabeça. O rapaz dizia pouco, mas fazia mais do que prometia e quando prometia, cumpria até o fim. Anta, ah, Anta era a mulher mais jovem e bonita do pedaço que carregava o mundo nos ombros e ainda sobrava força para sorrir. 
Tinha a língua rápida e ferina, jeito firme e despachado, mas por trás daquela postura forte e carismática, dócil e ao mesmo tempo espalhafatosa, havia um coração enormemente puro e acolhedor que no seu caminhar havia visto muito, passado por diversas trilhas e carreiras  difíceis, e nesse vai e vem, vem e vai, aprendido a ser dona de si mesma antes de ser de qualquer um. 
Muitos apontavam, cochichavam, traziam histórias antigas e rótulos que não cabiam mais nela. Antão por sua vez, nunca ligou para essas coisas e sempre que alguém vinha falar mal dela, ele virava um bicho, fechava a cara e se transformava numa fera perigosa. 
— Eu não me caso com o que os outros dizem dela — dizia ele calmamente. Me enlaço com quem ela por ser a mulher que me vê de verdade, que não finge nada, que não tem medo de ser inteira.  
Não deu outra. E nem podia. A cerimônia foi simples, realizada com toda pompa no terreiro mesmo, sob o céu largo que parecia cobrir tudo com uma presença incapaz de ser traduzida com palavras. Não teve luxo, nem riquezas, mas apenas algo muito mais raro e insubstituível: respeito. Ele fez a proposta que virou destino: pediu que ela fosse  sua namorada, amante, mulher, companheira.
Não para prendê-la, mas para caminharem lado a lado, ombro a ombro, de mãos dadas pela mesma estrada, e nessa via sem fim, edificarem uma casa, uma vida plena, terem uma família, e tudo o que o tempo fosse oferecendo.  Ela aceitou com aquela sabedoria de mulher inteligente, que só quem já lutou pela própria liberdade tem dentro de sí. 
Sabia que entrar num novo começo de vida, não significava deixar de ser quem era, mas sim escolher conscientemente ser junto com alguém que a conhecia e a amava exatamente assim: autêntica, única, sem máscaras, sem rótulos, sem mentiras, sem carimbo de aprovado, e o mais importante. A própria personalidade imutável sem manchas e rodeios.
Um ano depois, aos poucos, sem pressa, sem afobação, construíram um sobrado com as próprias mãos, assentaram tijolo por tijolo, sonharam e viveram a dois, sonho por sonho. Casa própria em pé, veio o jardim, depois o cachorro que latia alegre no portão quando ele ou ela saíam ou quando voltavam. 
Tempos depois pintou na área um papagaio que aprendia a repetir seus nomes e as risadas que enchiam cada canto. Um ano e pouco depois, nasceram os filhos, cresceram vendo um amor incomensurável, uma paixão que não se fazia passageira, pelo contrário, lembrava aos que os conheciam, um eterno e prestimoso conto de fadas. 
Um romance que nascera, crescera e se agigantara nas raízes de um amor de verdade, de um gostar eterno, feito de compreensão, de perdão, de mesuras e delicadezas, de ficar quando seria mais fácil ir, de entender que cada um tinha dentro de si as suas marcas e as suas histórias, e que por conta disso, nenhuma chama de tristeza ou vento de maus presságios fosse passando ou ficando, teria a faca afiada cortando esse elo inquebrantável. E mais ainda, adicionando o valor terno de quem se tornou por força de uma felicidade plena e resplandecente, numa fortaleza eterna. Os anos vieram, se achegaram, tentaram ficar, e o fizeram devagar. Aos poucos, esses anos trouxeram rugas e cabelos prateados, mas nunca teve o privilégio de roubar, ou afastar o brilho impagável nos olhos daquele casal ímpar e abençoado pelo Pai Maior. 
Antão continuou sendo o homem que cumpre, que não tem duas palavras e haja o que houver, corre atrás e realiza o que prometeu. Anta, de igual forma, continuou sendo a mulher que sabe o que vale. E quando vizinhos e pessoas amigas perguntavam como se mantiveram tão firmes por tanto tempo aquele amor de contos de fadas, ela respondia com aquele sorriso que misturava doçura e força, e tinha um nome secreto que ficava guardado a sete chaves num lugarzinho especial e bem escondido.
— A gente não começou perfeito, de forma alguma. Veio cada um com a sua bagagem, seus erros, acertos, prós e contras, altos e baixos, dias bons, dias ruins, de mãos dadas, sempre, suportando as nossas dores. Mas o meu Antão, que Deus me deu de presente, nunca pediu que eu fosse outra pessoa. Ele me amou desde a primeira vez em que nossos olhos se beijaram num ósculo divinal. 
Aquela princesa que ele procurava, era eu inteira, com defeitos, qualidades, e tudo mais que poderia vir, como veio, no pacote. E eu… por meu turno, aprendi que o melhor lugar do mundo não é nenhum endereço bonito, é estar ao lado de quem te vê e que te enxerga de verdade e que sem subterfúgios diz: “você é minha, mas antes de tudo, você é você”.
E Antão, calmo como sempre, só apertava a mão da metade amada, da sua maçã e se abrindo igual paraquedas corria para dizer e só dizer, mas se abria por todo o seu “eu” e completava:
— O resto o tempo vai cuidando. E, de fato, cuidou. O amor bom não cai do céu pronto: ele se constrói, um dia após o outro, igual a essa casa que levantamos juntos, que é a prova viva do que estou dizendo. E enquanto tivermos um ao outro, tudo o mais é só um pequeno grande detalhe. 
Hoje, tantos e tantos anos depois, quem passa, seja indo ou vindo, ainda os vê e percebe, sentados na varanda, mãozinhas dadas, aquele casalzinho de cabelos brancos, ambos olhando demoradamente o mesmo céu que os viu começar. O tempo passou, mas o que importa ficou: Antão e Anta provaram que o casamento não é mudar um ao outro, acima de tudo é reconhecer que mesmo sendo diferentes, com histórias distintas e marcas próprias, foram feitos para caminhar juntos, lado a lado. 
Em contrapartida, nos ensinou, que o amor verdadeiro não pede que alguém deixe de ser quem é. Ele agradece, ele respeita, ele permanece, ela sorri e se entrega em mesuras. E assim, simples e fortes, vivem os longevos alimentado a cada minuto a prova robusta e cabal de que quando dois corações escolhem um ao outro sem medo, sem julgamento e sem mentiras, não há força terrena neste mundo ou em um outro que por ventura possa existir, que tenha condições e forças para separar.
O casal Antão e Anta, trouxe ao mundo apenas um casal de filhos: Antãozinho e Antinha. Antãozinho casou e teve duas meninas: Antazinha e Anteia. Antinha, hoje aos dezoito anos, não quis casar, se amigou e mora junto com o Antião, um excelente professor de matemática. Vivem numa confortável casa construída nos fundos da antiga residência que pertenceu e seus falecidos avós. 
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Aparecido Raimundo de Souza (1953)
O jornalista, advogado e escritor APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA construiu uma trajetória na literatura independente brasileira e na crônica do cotidiano. Com um estilo irreverente e satírico, ele é conhecido por retratar os costumes e as contradições da sociedade com leveza e humor. Nasceu em Andirá/PR, em 1953. Embora seja paranaense de origem, fixou residência no Espírito Santo. Radicado por mais de duas décadas em Vila Velha, viveu também na capital capixaba, Vitória. Atuou predominantemente como jornalista e repórter freelance para veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente. Também trabalhou como roteirista de textos e quadros para a televisão brasileira. Aparecido escreve desde a adolescência (dos 14 anos de idade), mas publicou seu primeiro livro oficial em 2006. É considerado um cronista prolífico, com centenas de textos publicados em plataformas digitais e antologias. Sua escrita reúne narrativas leves de forte apelo popular, misturando ironia, crônica urbana e picardia. Entre suas principais publicações destacam-se: Quem se Habilita? — Seu livro de estreia, que ganhou notoriedade por trazer uma nota de prefácio assinada pelo renomado escritor Paulo Coelho; Com os Chifres à Flor da Cabeça; As Mentiras que as Mulheres Gostam de Ouvir, etc.
A relevância de Aparecido Raimundo de Souza está em sua habilidade de democratizar a leitura por meio de crônicas rápidas, diretas e despachadas, que dialogam com o "povão". O autor seguiu a linhagem clássica dos grandes cronistas de costumes do Brasil, usando o humor escrachado para documentar os absurdos do dia a dia, a vida conjugal e os dilemas urbanos. Além disso, ele é um exemplo de resiliência e dedicação no mercado editorial independente, provando que a literatura pode alcançar milhares de leitores fora do eixo das grandes corporações editoriais convencionais.
Fernando Sabino frequentemente carregava suas crônicas com uma leve melancolia ou um lirismo poético sobre a infância e o tempo. O texto de Aparecido é mais pragmático, preferindo a comicidade pura e a ironia ao sentimentalismo. Stanislaw Ponte Preta focava muito na sátira política e nos bastidores do poder da época. O humor de Aparecido foca mais nas interações interpessoais íntimas e domésticas, distanciando-se um pouco do cenário macropolítico. Enquanto Luís Fernando Verissimo adota um tom mais sutil, irônico e muitas vezes intelectualizado (com personagens icônicos como as velhinhas de Taubaté ou o Analista de Bagé), Aparecido prefere um humor mais explícito, picante e direto, flertando abertamente com a farsa.
Ele pode ser classificado como um herdeiro moderno do folhetim satírico e da comédia de costumes. Em vez de buscar o refinamento estético da literatura "alta", ele optou por manter viva a tradição da crônica jornalística de entretenimento popular. Seu estilo serve como uma ponte de fácil acesso à leitura para o público que busca rir de si mesmo nas páginas de um livro.
(Biografia por José Feldman)
(Texto enviado pelo autor.)

domingo, 20 de setembro de 2026

Elisabete Aguiar (Semeando trovas)

 

1
Andar por ínvios caminhos
buscando a Felicidade
é como colher espinhos
na Rosa da Eternidade.
2
Atritos, perdas, cuidados
que a vida te patenteia
são despojos naufragados
que agora jazem na areia.
3
A vida é feita de nadas,
enganando muita gente
que julgando águas paradas
vai ao sabor da corrente.
4
A vida é uma mesa posta
com diversas iguarias;
se de amargores não gosta,
ponha doçura em seus dias.
5
Batem três horas na torre,
é já tempo de dormir...
mas a noite corre, corre,
e eu fico a vê-la fugir...
6
Boa trova não troveja,
não faz barulho ou ruído:
doce música de igreja
a consolar-nos o ouvido.
7
Com canto combate o pranto
e a treva em que a Terra jaz;
em cada canto e recanto
cante-se a Visão da Paz!
8
Das mil palavras que li,
cada letra foi um beijo
que, alado, voou pra ti,
no sonho de ser arpejo.
9
Desenhar passos incertos,
ao sabor da multidão,
é navegar em desertos
em busca de água ou de pão.
10
É fácil ser um herói
com uma espada e armadura;
mas é quando a alma dói
que se revela a bravura.
11
É na noite tenebrosa,
quando os astros vestem dor,
que uma estrelinha teimosa
persiste em parecer flor.
12
Gente anônima e distante,
que comigo cruza a rua,
é também meu semelhante
na cruz que a vida insinua.
13
Há zeros a mais na conta!
Milionário, tem cuidado.
Na tua conta, desconta
o amor que tu não tens dado.
14
Mais alto que o Céu profundo,
mais vasto que o imenso mar,
é o Amor que envolve o Mundo
e o faz pra Luz caminhar.
15
Meu amor é como um hino
que eu muito bem sei cantar.
nos gorjeios do destino
o poderás escutar.
16
Muita riqueza fugaz
o homem que corre a buscar;
é mais rico se é capaz
de a ver partir sem chorar.
17
Na corda bamba da Vida,
o futuro sempre em vista,
sou criança divertida
brincando de equilibrista.
18
Não adies nunca o Amor
para outro dia ou momento;
pois o vento embala a flor
sem pedir consentimento.
19
Não deixes que um pensamento
fortuito, vil e malsão,
ensombre com seu lamento
a Luz do teu coração.
20
Não quero correr Contigo,
mas a Teu lado correr,
pra correr com o perigo
que corre pra me vencer.
21
Não te espantes da mudança,
tudo voa e vai no vento;
ou prendes bem a lembrança
ou voa com o pensamento.
22
No meu livro de memórias,
guardo, com todo o recato,
as mil saudosas histórias
que conta o nosso retrato.
  23
Ó linda Mãe-Natureza,
tão pródiga e salutar,
perdoa a cega vileza
do homem, quando te queimar!
24
"Para o alto e sempre em frente"
- mostra o guia da cidade;
sigo o rumo e, de repente...
"Bem-vindo a Felicidade!"
25
Passo a vida passo a passo,
com receio de espantar
com o ruído que faço
a Vida, em mim, a cantar.
26
Pela semente do Amor
que lançaste no meu peito,
faz que eu, vá aonde for,
saiba viver satisfeito.
27
Pinheiros, carvalhos, vinhas,
das cores mais variadas,
são coros de ladainhas
pras almas angustiadas.
28
Por muito que a gente mude
e busque amor a seu jeito,
um só salva e nunca ilude:
o de mãe -Amor-perfeito!
29
Porque a vida tem escolhos,
não hesites na jornada;
a rosa tem seus abrolhos
mas deixa a mão perfumada.
30
Por ser estreito o Caminho,
cada qual vai como pode;
mas não empurre o vizinho...
Se cair, ele lhe acode!
31
Quando a mente se alimenta
de daninha nutrição,
corta o joio da tormenta
e semeia um novo pão.
32
Quando chega, quando parte,
do cais que esta vida é,
aceita, pois que faz parte
do bailado da maré.
33
Rumoreja o pinheiral
uma conversa secreta
entre os pios de um pardal
e a doce brisa discreta.
34
Subiu ao topo da vida
nas asas de um furacão;
descuidou-se na descida...
estatelou-se no chão.
35
Um concerto a uma só voz
reverbera em céu e terra,
contra a mágoa e dor atroz
que um peito humilhado encerra.
36
Um coração sempre aberto,
um sorriso sempre à mão,
fazem jorrar no deserto
águas de Paz e Perdão.
37
Vozes de aves nas ramadas,
em harmonia de irmãs,
são como missas cantadas
no silêncio das manhãs.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Elisabete Aguiar (1951)
ELISABETE DO AMARAL ALBUQUERQUE FREIRE AGUIAR é uma poetisa, trovadora e educadora portuguesa contemporânea, reconhecida pela sensibilidade de seus versos e dedicação ao ensino da língua e da cultura. Nascida em 1951 na freguesia de Ribamondego, Concelho de Gouveia, Portugal. Embora nascida no Concelho de Gouveia, possui forte ligação afetiva e residencial com a região de Mangualde, distrito de Viseu, local que frequentemente serve de referência para a divulgação de suas trovas e produção artística. Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra. Dedicou grande parte de sua vida à docência, atuando como professora de Português, Literatura Portuguesa e, em determinados períodos, também de Francês, moldando gerações através do ensino das Letras.
No universo literário, destaca-se primorosamente no gênero da trova. Suas criações poéticas são marcadas pelo lirismo, espiritualidade e observação do cotidiano humano, circulando ativamente em espaços dedicados à preservação da poesia tradicional e dos trovadores ibero-americanos. Possui dois livros de poesia publicados individualmente e um livro de traduções concebido em coautoria com o amigo e escritor Fernando Augusto Teixeira Gonçalves. Sua atuação concentra-se de forma independente e colaborativa em grêmios, tertúlias e movimentos de poetas trovadores.
A relevância de Elisabete do Amaral Albuquerque Freire Aguiar reside na manutenção ativa da tradição trovadoresca, uma das formas poéticas mais antigas e ricas da língua portuguesa. Ao unir sua bagagem como filóloga e professora à escrita lírica, ela atua como uma ponte fundamental entre o rigor acadêmico e a sensibilidade popular, assegurando que a poesia breve, rimada e metrificada continue viva e tocando a alma humana na contemporaneidade.

Humberto de Campos (O Gato e o Passarinho)

A encantadora Palmirinha Camargo havia concluído o seu curso de datilografia na Escola Remington, quando, uma tarde, participou, contente, a Dona Brasília:

- Sabe, mamãe, arranjei um emprego excelente. O ordenado é de trezentos mil réis!

A bondosa senhora deixou a costura, endireitou os óculos, e, chamando a filha para perto de si, ordenou:

- Senta aí. E onde é esse emprego?

A moça, risonha e inocente, explicou:

- É no escritório do Dr. Alexandre.

- E quem é esse Dr. Alexandre? É aquele que esteve, outro dia, no baile da Violeta?

Palmirinha confirmou, ingênua, e Dona Brasília, tomando-lhe as, mãos, retorquiu, sensata:

- Queres que te fale com franqueza, minha filha? Esse emprego não te convém.

A menina fixou com os seus grandes olhos claros e puros a doçura do rosto materno, e a boa senhora continuou:

- Tu és uma jovem inexperiente, um anjo que não conhece os espinhos do mundo. O Dr. Alexandre é um moço esperto, um homem habituado a lidar com as fraquezas alheias. Se se tratasse de um escritório grande, de uma casa em que trabalhassem outras moças ou outros advogados, eu não teria receio; mas, assim, com ele e tu, sozinhos, no escritório, o meu coração não poderia ficar descansado.

- Oh, mamãe! - estranhou a moça, corando. - A senhora não tem confiança em mim?

Dona Brasília compreendeu a ofensa que fizera àquele pedaço do seu coração, e, para não insistir, atalhou:

- Tenho, minha filha, tenho toda a confiança em ti.

E concordou, beijando-a nos olhos:

- Está bem, vai. Amanhã, podes ir para o teu novo emprego.

A moça pulou, contente, beijando sofregamente a testa, a cabeça, a face, a boca e os olhos maternos, e, à noite, ia recolher-se, quando D. Brasília chamou:

- Palmira?

- Senhora! - acudiu a, mocinha.

Bondosa e grave, a digna senhora pediu:

- Traze daí a gaiola do teu canário.

A moça foi à copa, e voltou com a gaiola, onde um canarinho dormia, sossegado, muito encolhido, muito amarelo.

D. Brasília abriu a portinhola daquele carcerezinho de ouro, e, indo à cozinha, voltou com o gato na mão.

- Para que é isso, mamãe? - indagou a moça, espantada.

Para meter na gaiola, com o canário.

- Oh, mamãe! - gemeu a mocinha, horrorizada.

- Que mal faz? - indagou D. Brasília, sorrindo significativamente para a filha. Tu não tens confiança no teu canário?

Palmirinha compreendeu o alcance da lição, e atirou-se nos braços maternos, prometendo, entre soluços:

- Eu não irei, minha mãezinha; deixe estar, eu não irei!

E não foi. No dia seguinte, contrariando as esperanças do gato, o canário amanheceu feliz e simples, cantando na sua gaiola…
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HUMBERTO DE CAMPOS VERAS nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.
Sua importância para as letras nacionais combina o sucesso comercial de massa à ocupação de um espaço central na cultura oficial da época. Humberto de Campos alcançou um feito raro para a sua época: viver exclusivamente de seus direitos autorais. Seus livros alcançavam tiragens impressionantes e esgotavam rapidamente. Ele conseguiu aproximar o grande público da literatura por meio de uma escrita acessível, fluida e cativante, tornando-se o cronista mais lido do Brasil nos anos 1920 e 1930. Como jornalista e escritor, ele refinou e popularizou a crônica urbana e humorística. Sob o pseudônimo de Conselheiro XX, publicava textos repletos de ironia, sátira política e observações do cotidiano. Ele dominava a arte de contar anedotas históricas e fofocas dos bastidores da corte e da República, humanizando figuras históricas e tornando o passado atraente para o leitor comum. Sua presença ajudou a consolidar o prestígio da ABL perante a sociedade civil, usando sua enorme projeção nos jornais para aproximar a Academia do público e valorizar a carreira do escritor profissional no Brasil. Suas obras autobiográficas, em especial Memórias (1933) e Os Olhos Comidos pelo Peixe, são consideradas primores do memorialismo brasileiro. Nestes livros, ele registrou com sensibilidade e crueza a sua infância pobre no Maranhão e as dificuldades da juventude, deixando um retrato sociológico e histórico valioso sobre a vida nas províncias e na capital federal no início da República. Mesmo após a sua morte em 1934, o nome de Humberto de Campos continuou no centro de um dos episódios mais singulares da história literária e jurídica do Brasil. O médium Chico Xavier começou a psicografar livros de crônicas e mensagens atribuídas ao espírito do escritor (assinando como Humberto de Campos e, posteriormente, Irmão X). O estilo literário dessas obras psicografadas (como Crônicas de Além-Túmulo e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho) era tão fiel ao estilo irônico e refinado do autor vivo que a família de Humberto de Campos moveu um famoso processo judicial nos anos 1940 para reivindicar os direitos autorais. Esse fenômeno estendeu a influência do seu estilo literário por mais várias décadas, integrando o seu nome de forma definitiva à cultura popular e religiosa do país.

Fonte:
Humberto de Campos. A Serpente de Bronze. 1925.