Acontecem umas coisas aqui por casa, francamente, que o diabo duvida de costas. No entendimento de certos amigos meus, inclusive, tenho particular atração pelo inusitado, pelo diferente, nas chamadas ocorrências da vida. Dia desses, até, um sábado à noite, os ponteiros do relógio se preparavam para o derradeiro abraço ou para o primeiro dos amplexos de um domingo emergente, quando bateram à porta. Fui receber temeroso, pois que a hora já era aquela das entregas aos braços de Morpheu, o deus mitológico do sono e dos oníricos devaneios.
Era um homem, então, com sinais mais do que evidentes de comprometimento etílico e a indagação foi das mais complicadas de meu tempo nesses convívios terrenos: “Meu senhor, por favor! Onde eu moro?”
Ora, prezado amigo, respondi a rogo, “como posso saber disso, se o senhor, mesmo, ignora a rua e a casa!”
O penitente das exigências de Baco explicou-se assim: “É que fizeram a mudança hoje e sei, apenas, das características do lugar. Nada mais!”
E fez a descrição precisa, levando-me à identificação, com sucesso, de seu novo apartamento. Recomendei, todavia, a aquisição do guia que escreveu o Mestre de Apipucos, para as suas futuras incursões farristas. Foi pior, pois quase me leva ao debate da obra inteirinha do sociólogo pernambucano, a quem conhecia pelos escritos.
Muito pior tem sido lidar com o cão daqui de casa, Yuri de prenome, sem pedigree e sem sobrenome, dado à pesquisa sistemática nas latas de lixo e noutros depósitos parecidos. O bicho não pode sair à rua, porque ladra para toda a gente que passa, causando pânico, verdadeiramente, dentre os transeuntes, às vezes pacatos, mas noutras ocasiões, enfurecidos e com razão. Tem por costume desaparecer e vagar pela Boa Vista ou pelos bairros adjacentes, especialmente quando encontra parceira canina disposta aos amores nas praças do lugar. Nas primeiras experiências do animal, tomado agora por vagabundo, ouvia-se por cá o pranto desesperado das meninas, mas depois todos se acostumaram com as fugas não aprazadas.
Num sábado à noite, também, bateu à porta um dos vigias da redondeza e expressou as suas questões em relação ao cachorro. É que estando em seu local de trabalho, mesmo que às voltas com repetidas doses do produto derivado da cana-de-açúcar, contando com os serviços auxiliares de uma cadela, viu-se invadido pelo danado do canídio. Assim, sequestrou o animal e para a sua liberação arbitrara resgate de R$1,00. Mostrei que estava inflacionando o mercado e contribuindo para a falência da estabilização da moeda, mas não houve jeito: “O resgate ou a vida!” Paguei, então, porque tempo é ouro e discutir com sequestrador nem por telefone!
De outra feita, estava bem sentado numa solenidade na Sociedade de Medicina, posto à mesa da presidência, por generosidade do professor Miguel Doherty, inglês de nascimento, mas pernambucanizado já, quando surge o endiabrado do cão à porta, fazendo força com o focinho para abrir e por certo quer entrar. Não sei se, na verdade, tomaria assento comigo, no lugar da pompa, ou se pelo auditório faria opção. Fiz como muita gente faz com o semelhante, quando tomada pelo poder ou por outros ganhos e benesses da existência: virei a cara, fazendo que não via a inusitada figura.
O cachorro, notando o desprezo emergente, retirou-se e foi me aguardar na rua, pastorando o povo que do teatro vinha saindo. Soubesse desse desejo do animal, tinha dado um nó numa gravata velha e muito usada e com esse adereço pedido ao Doherty a entronização do canídeo.
Ao tomar o carro para voltar, o flanelinha, integrante dessa nova maneira de ser e de ganhar a vida, indagou: “O cachorro é do senhor?” Sim, respondi. É que desde sua chegada que o espera, depois de ter entrado, mais de uma vez, na Sociedade. Ainda quis tomar o automóvel comigo e fazer o caminho de volta, mas companhias assim, dispenso! Bicho danado esse! Chegou a derrubar uma porta, na casa de veraneio, contanto que se juntasse à cadela, uma poodle das estimas da patroa. Ah porta vagabunda!
E o cão sem gravata vive assim, enlouquecido e enlouquecendo toda a gente.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.
Fontes:
Geraldo Pereira. A medida das saudades. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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