Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 12 de maio de 2013

Charles Dickens (Horácio Sparkins) Parte I

Conto em duas partes.–––––––––––––––––––––––
Com efeito, meu querido, ele deu muita atenção a Teresa no último sarau - disse a Sra. Malderton dirigindo-se ao marido, o qual, após as canseiras do dia na City, sentado com um lenço de seda na cabeça, os pés sobre o guarda-fogo, bebia seu vinho. - Muita atenção, realmente; e repito que se deve dar-lhe todo e qualquer estímulo. Não há dúvida que ele deve ser convidado para jantar aqui.

 - Quem? - perguntou o Sr. Malderton.

 - Bem, você sabe, meu querido, a quem estou me referindo: àquele moço de suíças pretas e gravata branca que há pouco veio ao nosso clube e de quem todas as moças falavam. É o jovem... meu Deus! como se chama mesmo?... Mariana, lembra-me o nome dele, - disse a Sra. Malderton voltando-se para a filha mais nova, que estava ocupada em fazer uma bolsa de tricô e olhar sentimentalmente.

 - Sr. Horácio Sparkins, mamãe - respondeu Mariana com um suspiro.

 - Isso mesmo! Horácio Sparkins - disse a Sra. Malderton.

 - Decididamente é o jovem mais elegante que já vi na minha vida. No casaco tão elegante que ele usava a noite passada, parecia-se com... com...

 - Com o príncipe Leopoldo, mamãe... tão nobre, tão cheio de sentimento! - sugeriu Mariana, entusiasmada.

 - Você não deve esquecer, meu querido - resumiu a Sra. Malderton - que Teresa tem agora 28 anos. É da maior importância que se faça alguma coisa.

 A Senhorita Teresa Malderton era uma jovem muito pequena, gorducha, de faces avermelhadas, mas de bom humor e ainda sem compromisso, embora - para fazer-lhe justiça - tal desgraça não decorresse absolutamente de sua falta de perseverança. Em vão tinha namorado durante 10 anos. Em vão o Sr. e a Sra. Malderton mantinham assiduamente relações com grande número de rapazes solteiros e elegíveis de Camberwell, e até de Wandsworth e Brixon, sem falar daqueles que ocasionalmente apareciam na cidade. A Sra. Malderton estava tão conhecida como o leão do topo de Northumberland House e tinha a mesma probabilidade de "sair".

 - Estou certa de que você gostará dele - continuou a Sra. Malderton. - Ele é tão galante!

 - E tão hábil - acrescentou Mariana.

 - E tão eloqüente - observou Teresa.

 - Tem muito respeito a você, meu querido - disse a Sra. Malderton ao esposo.

 Ele tossiu e olhou para o fogo.

 - Sim, estou certo de que ele tem o maior interesse em conhecer papai - declarou Mariana.

 - Sem a menor dúvida - ecoou Teresa.

 - É verdade, ele me disse confidencialmente - voltou a Sra. Malderton.

 - Está bem - replicou o Sr. Malderton, algo lisonjeado. - Se o encontrar amanhã no clube, talvez o convide. Naturalmente ele sabe que moramos em Oak Lodge, não, minha querida?

 - Naturalmente. Sabe também que você tem uma carruagem de um cavalo.

 - Vou ver isso - disse o Sr. Malderton, dispondo-se a uma soneca.

 O Sr. Malderton era um homem cujo campo de idéias estava limitado ao Lloyd's, à Bolsa, à Indian Houve e ao Banco. Algumas especulações bem sucedidas o levaram de uma situação de obscuridade e relativa pobreza a um estado de abastança. Como tantas vezes acontece em tais casos, suas idéias e as da sua família foram-se exaltando em extremo, ao passo que lhe crescia a fortuna; todos afetavam elegância, bom-gosto, e outras tolices, imitando seus superiores, e tinham um horror muito decidido e característico a tudo quanto pudesse eventualmente ser considerado baixo. Era hospitaleiro por ostentação, liberal por ignorância, e cheio de preconceitos por presunção. O egoísmo e o amor à exibição faziam-no manter mesa excelente; a conveniência e o amor às coisas boas da vida asseguravam-lhe grande número de convivas. Gostava de ter à mesa homens hábeis ou que considerava tais, pois eram grande tema para conversação, mas nunca pôde suportar aqueles a quem chamava "camaradas espertos". Provavelmente conseguiu comunicar este sentimento a seus dois filhos, que nesse ponto não causavam nenhuma inquietação ao responsável progenitor. A família tinha a ambição de travar conhecimentos e relações em qualquer esfera social superior à sua, e uma das conseqüências de tal desejo, facilitada pela extrema ignorância em que estavam de tudo quanto ficava além de seu estreito círculo, era que toda pessoa pretendia conhecer gente da alta sociedade tinha seguro passaporte para a mesa de Oak Lodge.

 O aparecimento do Sr. Horácio Sparkins no clube provocou, entre os freqüentadores assíduos, extraordinária surpresa e curiosidade. Quem podia ser? Ele era evidentemente reservado e visivelmente melancólico. Um eclesiástico? Mas dançava bem demais. Um advogado? Mas dizia que ainda não fora chamado a praticar. Empregava palavras muito finas e era grande conversador. Seria algum estrangeiro distinto vindo à Inglaterra que freqüentava jantares e bailes públicos a fim de conhecer a alta-roda, a etiqueta, o requinte inglês? Mas não tinha sotaque. Era um cirurgião, um colaborador de revistas, um autor de romances, um artista? Não: a cada uma dessas suposições, como ao conjunto delas, havia alguma objeção válida. "De qualquer maneira - concordavam todos - ele deve ser alguém.: - "Deve ser, com certeza - dizia com seus botões o Sr. Malderton - , uma vez que percebe a nossa superioridade e nos dá tamanha atenção."

 A noite seguinte a conversa que acabamos de relatar era noite de reunião. A carruagem recebeu ordem de estar à porta de Oak Lodge às nove horas em ponto. As Senhoritas Malderton estavam vestidas de azul-celeste ornado de flores artificiais, e a Sra. Malderton (que era baixa e gorda), idem, idem, parecendo sua filha mais velha multiplicada por dois. O Sr. Frederico Malderton, o filho mais velho, em traje de rigor, representava o beau idéal de um garçom elegante, e o Sr. Tomas Malderton, o mais jovem, de gravata branca de gala, paletó azul, botões brilhantes e fita de relógio vermelha, de perto se parecia com Jorge Barnewll. Todos do grupo estavam interessados em cultivar a amizade do Sr. Horácio Sparkins. A Senhorita Teresa preparava-se para mostrar amável e interessante como em geral o são as moças de 28 anos à procura de um marido. A Sra. Malderton ia ser toda sorrisos e graças. A Senhorita Mariana lhe pediria o favor de escrever alguns versos em seu álbum. O Sr. Malderton tomaria sob sua proteção, o grande desconhecido, convidando-o a jantar em sua casa. Tom dispunha-se a averiguar a extensão de seus conhecimentos em matéria de rapé e charutos. O próprio Sr. Frederico Malderton, a autoridade da família em tudo o que dizia respeito à elegância do traje e das maneiras, e ao bom gosto; que possuía seu apartamento próprio na cidade; que tinha ingresso livre no teatro Covent Garden; que se vestia sempre com formalidade com a moda do mês; que ia às águas duas vezes por semana, durante a estação; que tinha um amigo íntimo que outrora conhecera um cavalheiro que tinha vivido no Albany - ele mesmo declarou que o Sr. Horácio devia ser um sujeito famoso e que lhe daria a honra de desafiá-lo para uma partida de bilhar.

 O primeiro objeto que feriu os olhos ansiosos da expedita família, ao entrarem no salão, foi o interessante Horácio, com os cabelos atirados sobre a fronte e os olhos fixos no chão, recostado numa das cadeiras em atitude contemplativa.

 - Ei-lo, meu querido, - cochichou ao marido a Sra. Malderton.

 - Como se parece com Lord Byron - murmurou Teresa.

 - Ou com Montgomery - segredou a Senhorita Mariana.

 - Ou com os retratos do capitão Cook! - sugeriu Tom.

 - Tom, não seja burro! - disse o pai, que o morigerava a cada passo, provavelmente com o intuito de o impedir de se tornar "esperto", coisa totalmente desnecessária.

 O elegante Sparkins continuava em sua atitude afetada, de admirável efeito, até que a família cruzou a sala. Então se levantou precípite, com o ar mais natural de surpresa e enlevo, aproximou-se da Sra. Malderton com a maior cordialidade, cumprimentou as moças de modo encantador, inclinou-se perante o Sr. Malderton, cuja mão apertou com respeito que raiava a veneração, e retribuiu a saudação dos dois rapazes com um jeito meio agradecido, meio protetor, que acabou convencendo-os que ele devia ser uma personagem importante mas condescendente ao mesmo tempo.

 - Senhorita Malderton - disse Horácio após os cumprimentos de praxe e inclinando-se profundamente - é-me lícito conceber a esperança de que me permitirá ter o prazer de...

 - Não sei se já estou comprometida - disse a Senhorita Teresa com terrível afetação de indiferença - mas realmente... assim... tão...

 Horácio ostentou uma expressão primorosamente lastimável.

 - Terei muito prazer - externou por fim a interessante Teresa. O rosto de Horácio brilhou de repente como um velho chapéu sob a chuva.

 - É realmente um moço muito distinto - declarou o Sr. Malderton, quando o obsequioso Sparkins e seu par se dirigiram para a quadrilha que se formava.

 - Ele tem, de fato, boas maneiras - observou o Sr. Frederico.

 - Sim, é um rapaz notável - interveio Tom, que não deixava passar oportunidade de meter os pés pelas mãos. - ele fala que só um leiloeiro.

 - Tom, disse o pai com solenidade, suponho já lhe ter pedido que não seja tolo.

 Tom ficou tão contente como um galo em manhã escura.

 - Como é delicioso - dizia à sua dama o interessante Horácio - enquanto passeavam pela sala depois da contradança - , como é delicioso, repousante, abrigar-nos das tempestades nebulosas das vicissitudes, dos dissabores da vida, embora apenas por alguns instantes fugazes, e passar esses instantes por mais efêmeros e rápidos que sejam, no delicioso, no abençoado convívio de um ser - cujo franzir de sobrancelhas seria a morte, cuja frieza seria a loucura, cuja falsidade seria a ruína, cuja constância seria a ventura, e cuja afeição seria a recompensa mais brilhante e elevada que os Céus pudessem outorgar a um homem!

 - Quanto ardor! Quanto sentimento!"- pensava a Senhorita Teresa, apoiando-se com força no braço de seu cavalheiro.

 - Mas basta, basta! - resumiu o elegante Sparkins com ar teatral. - Que foi que eu disse? Que tenho eu... que ver... com sentimentos como este? Senhorita Malderton - aqui ele parou de repente - , posso esperar o consentimento para oferecer-lhe o humilde tributo de...

 - Na verdade, Sr. Sparkins - retrucou a enlevada Teresa, corando na mais deliciosa confusão - tem que falar com papai. Eu nunca poderia sem o consentimento dele atrever-me a ...

 - Decerto ele não fará objeção alguma...

 - Ora, o Sr não o conhece ainda! - interrompeu-o a Senhorita Teresa, bem sabendo que não havia nada a temer, mas desejosa de transformar a cena em um romance romântico.

 - Ele não poderá fazer objeção alguma a que eu lhe ofereça um copo de sangria - volveu o adorável Sparkins com certa surpresa.

 - "Era apenas isso? - pensou Teresa desiludida - Quanto barulho por nada!"

 - Terei o maior prazer, senhor, em vê-lo a jantar em Oak Lodge, Camberwell, domingo próximo, às cinco horas, se não tiver compromisso melhor, - disse o Sr. Malderton no fim da reunião, quando ele e os filhos conversavam com o Sr. Horácio Sparkins.

 Este curvou-se agradecendo e aceitando o convite.

 - Devo-lhe confessar - continuou o pai, oferecendo rapé ao novo conhecido - que gosto muito menos destas reuniões que do conforto, ia quase a dizer do luxo, de Oak Lodge. Elas não têm grandes encantos para um homem de certa idade.

 - Aliás, senhor, que é afinal o homem? - perguntou o metafísico Sparkins. - que é o homem? Digo eu.

 - Ah, isso mesmo - disse o Sr. Malderton - , isso mesmo.

 - Sabemos que vivemos e respiramos - continuou Horácio - que temos aspirações e desejos, anelos e apetites...

 - Sem dúvida - replicou o Sr. Frederico Malderton com ar profundo.

 - Sabemos que existimos, digo eu - repetiu Horácio, levantando a voz - mas aí nos detemos; ai está o fim do nosso conhecimento, o limite do nosso alcance, o termo de nossos fitos. Que mais sabemos?

 - Nada - respondeu o Sr. Frederico.

 E realmente ninguém tinha mais direito que ele de fazer tão afirmativa. Tom ia arriscar um reparo, mas, a bem de sua reputação, percebeu o olhar zangado do pai e escapuliu-se como um cão apanhado em flagrante de furto.

 - Palavra de honra - disse o Sr. Malderton pai quando a família voltava para casa na carruagem - este Sr. Sparkins é admirável. Quantos conhecimentos! Que amplidão de informações! Que maneira esplêndida de se exprimir!

 - Para mim ele deve ser alguém disfarçado - declarou a Senhorita Mariana. - Que encantadoramente romântico!

 Tom arriscou:

 - Ele fala forte e muito bem. Apenas não entendo exatamente o que ele quer dizer.

 - Quase começo a desesperar de você entender qualquer coisa, Tom - disse o pai, o qual, naturalmente, ficara edificadíssimo com a palestra do Sr. Horácio Sparkins.

 - Tenho a impressão, Tom - disse a Senhorita Teresa - de que você foi bastante ridículo esta noite.

 - Sem a menor dúvida! - gritaram todos.

 E o pobre Tom procurou reduzir-se ao menor volume possível. Naquela noite o Senhor e a Senhora Malderton conversaram longamente sobre as perspectivas e o futuro de sua filha. A Senhorita Teresa foi deitar-se perguntando a si mesma se, caso desposasse um aristocrata, devia incentivar as visitas de suas conhecidas atuais, e sonhou a noite inteira com gentis-homens disfarçados, grandes recepções, plumas de avestruz, presentes nupciais e Horácio Sparkins.

 Na manhã do domingo se aventaram diversas conjecturas acerca da condução que o ansiosamente esperado Horácio iria adotar. Ia tomar um cabriolé? Montaria a cavalo? Preferiria a diligência? Tais e outras mais hipóteses de igual importância absorveram a atenção da Sra. Malderton e de suas filhas durante toda a manhã, depois do ofício divino.

 - palavra de honra, minha querida, aborrece-me que o simplório do seu irmão tenha convidado a si mesmo para jantar aqui hoje - disse o Sr. Malderton à mulher. - Por causa da visita do Sr. Sparkins eu me abstive, de propósito, de convidar fosse quem fosse, além de Flamwell. E agora pensar que seu irmão... um lojista... não, é insuportável. Não gostaria que fizesse qualquer referência à loja diante do nosso convidado... não, nem por mil libras! Preferiria que tivesse o bom senso de esconder a desgraça que ele representa para a família, porém ele gosta tanto do seu horrível negócio que não deixará de falar a respeito.

 O Sr. José Barton, a pessoa em apreço, era dono de um grande armazém, homem vulgar e tão despido de sensibilidade que não tinha o menor escrúpulo em confessar que não estava acima do seu negócio; juntara seu dinheiro graças a ele, e não fazia questão de encobri-lo.

 - Ah, Flamwell, meu caro amigo, como vai? - perguntou o Sr. Malderton ao ver um homenzinho azafamado, de óculos verdes, entrar na sala. - Recebeu o meu bilhete?

 - Recebi sim, e estou aqui às suas ordens.

 - Não conhecerá de nome, por acaso, esse Sr. Sparkins? Você conhece todo o mundo.

 Era o Sr. Flamwell um desses cavalheiros de relações extremamente vastas que a gente encontra de quando em quando na sociedade, os quais pretendem conhecer a todos mas na verdade não conhecem ninguém. Em casa dos Maldertons, onde qualquer história sobre gente distinta era acolhida com ouvidos gulosos, estimavam-no especialmente. Vendo com que espécie de pessoas tratava, levou ao extremo a paixão de exibir as suas relações. Tinha um modo peculiar de contar as suas maiores mentiras num parêntese, com ar de quem se desmente a si mesmo, como se estivesse receando parecer egoísta.

 - Bem, não o conheço por esse nome - , replicou em voz baixa e com um jeito de imensa importância. - No entanto, devo conhecê-lo, sem a menor dúvida. É alto?

 - É de estatura mediana - disse a Senhorita Teresa.

 - Cabelos pretos? - perguntou Flamwell, arriscando uma suposição arrojada.

 - Sim - respondeu a Senhorita Teresa ansiosamente.

 - De nariz bastante arrebitado?

 - Não - replicou Teresa com desaponto. - tem um nariz romano.

 - Pois não foi o que eu disse, um nariz romano? - disse Flamwell. - Não é um moço elegante?

 - É.

 - De maneira excessivamente simpáticas?

 - Sim - exclamou a família toda. - Naturalmente você o conhece.

 - Foi o que pensei: naturalmente você o conhece, se ele é "alguém", - triunfou o Sr. Malderton. - Quem pode ser ele?

 - Bem, pela descrição de vocês - disse Flamwell ruminando e baixando a voz até o cochicho - ele se parece de modo estranho com o nobre Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne. É um rapaz de muito talento e bastante excêntrico. É muitíssimo provável que tenha mudado de nome por algum motivo especial.

 O coração de Teresa batia forte. Seria mesmo o nobre Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne? Que nome para ser gravado elegantemente em dois cartões acetinados, atados com uma fita de cetim branco! A nobre senhora Augustus Fitz-Edward Fitz-John Fitz-Ozborne! Só o pensar nisso dava um êxtase!
–––––––––-
continua…

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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