Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Darcy França Denófrio (Livro de Poesias)

Biblioteca Manuel Antonio Pina
 À SOMBRA DE EVA

I

Era um tempo de trevas
e de brumas sobre o meu corpo.
Um tempo de pesadas vestes:
uma única janela para o meu rosto.

Um cavalo avassalava
minhas planícies e vales,
me punha bridas e loros,
depois um cinto de castidade.

Eu não falava: minha língua
guardava-se em ostra
e o estro silenciava-se
numa lira que dormia.

Meu amo determinava:
eu só ouvia.
Meu amo vociferava:
eu encolhia.

II

Com a roca e o fuso
e um cesto da mais pura lã,
adestrava meus dedos
para tecer a manhã.

Sozinha no burgo,
(ah! bem longe era o meu Senhor)
embalava no berço
a balada que eu compus.

E meu canto se alçava
e com ele também eu,
enquanto durava a paz
que a guerra me podia dar.

Eu não lia nem soletrava
sobre uma távola redonda;
só adestrava meus dedos
para tecer a manhã.

E num bosque bem fundo,
numa grota dentro de mim,
meu estro se formava
numa lira eólia
que acordava.

E eu enredava no fuso
(horário) outra manhã.

III

Quantos séculos dormiu meu canto?
Quem estrangulou minha garganta
afiada para solar, meu canto?

Era um pássaro mudo
engolindo a cascata
aérea de seu canto.

Um pássaro na gaiola
ferindo as asas —
sonata a debater-se.

Um pássaro preso
a olhar o céu (arquiteto)
e seu aceno de poesia.

PROCURA-SE

Quero um amigo verdadeiro
a quem possa vomitar
a alma e o coração inteiro.

Que me ouça sem interromper,
sem condenar nem defender,
que apenas me ouça o mais profundo.

E depois, sem nada cobrar,
seja terno, seja puro, só amigo,
bebendo comigo, sem dividir nem multiplicar,
a grande solidão de meus segredos.

O RISCO DAS PALAVRAS
(Para Moema de C. e Silva Olival)

Ah! a miséria da oficina das palavras!
Onde pescar a que melhor convém?
                                       Maiakovski


Diante de você sempre emudeço.
Tenho as palavras batendo, ba-ten-do
ao peito mais que à garganta.
Mas é tão grande o risco das palavras
que, delas, finjo que me esqueço.

Ah, as palavras, se não houvesse o risco,
eu diria todas, tropeçando em pedras
como algumas cachoeiras, mas jorrando
sem parar a urgência de suas águas.

Mas as palavras acordam até mesmo
os deuses mais adormecidos
e é melhor não dizê-las, guardá-las
como pedras, mesmo ferindo o peito.

Se eu não as disse algum dia,
alguém lhe dirá sem medo do risco,
porque há os que abrem as comportas
e extravasem sem reservas suas águas.

Mas eu sou dessas barragens
que não se entregam nem extravasam,
mesmo com a maior das enchentes.

LIÇÃO

Embaixo, a rede.
Em cima, a lição
de um caramanchão.

Um trançado de cipós
camadas secas sobrepostas
nenhum sinal de vida
                                havida.

Sobre lianas mortas
outra explosão de verde
outra explosão em flor.

E um pássaro em concerto.

POEMA DA DOR SEM NOME

Essa mágoa
ói tão fundo
como se houvesse
perfurado o abismo
interior de meu  mundo.

Dela, não serei vassala
só quero lançá-la
como um fio infinito
que se joga no abismo
até vomitar de vez
o início da ponta.

Depois, chegar
à íntima alegria
sem sentir a broca
perfurando a rocha
de meu poço artesiano.

À alegria de alcançar
as águas tranquilas
minhas mais profundas
reservas humanas.

 E ouvir o íntimo silêncio
águas entre rochas calcárias
sem nenhuma pressa
águas que não estremecem
nem trincam
                     o espelho da alma.

ÍNVIO LADO

Tell all the truth but tell it slant -
Success in circuit lies.
                         Emily Dickinson


Há um lado da flor
que não penetramos:

 talvez a reserva sitiada
onde guarda seu aroma.

 Quase sempre esbarramos
em seus ferrões de defesa
e sangramos nossa dor
pela ponta dos espinhos.

 E aí então paramos
e olhamos só por fora
a beleza que se entrega
com sua quota de reserva.

 É do outro lado
(do mistério)
que não alcançamos
que a flor explode
em toda sua grandeza.

 É lá que se contorceu
e guardou a sua história
e sangrou as suas gotas
e a solidão que (sobre)carrega.

 Quem olha uma flor
ou um ser desabrochado
vê um prisma (feio ou lindo)
jamais o seu lado
                              inviolado.

 ESCAPE


 A raça humana
não pode suportar muita realidade.
T.S. ELIOT


 Conheço a distância
que vai entre o sonho
e a dura realidade.

 E conheço a fórmula
de amortecer o susto
e a queda do último piso.

Olhar sem crer lá fora
esse vidro que corta
e fechar, atrás de si, a porta.

 Plantar, como sempre faço,
essas flores no paredão do muro
para deslumbrarem os meus olhos.

 E, nessa lente distorcida,
em que capto a beleza,
mesmo aquela que não existe,

 ficar musgo sobre a rocha
— véu veludoso verde veludo —,
cobrindo essa faca que cega o corte.

OS PEIXES DE MEU RIO
 Não, não é fácil escrever. É duro como
quebrar rochas.
          Clarice Lispector


 Eu me desnudo e me visto
neste duro ofício de entrega.

 Se as vestes revelam o corpo,
há o pudor e a dissimulação

 no trançado desse tecido
que é teia e tato antes de tudo.

 Eu me desnudo e me visto.
e nem assim eu me preservo.

 Sob o vestido há sempre a pele
que transpira e se revela;

 há outra dimensão do signo
que corcoveia e se rebela.

 Sob o tecido há sempre um corpo
que se amotina e se entrega.

 POEMA

 No reverso, a história de meus versos.
No avesso, a pura canção de gesso,
que se sustenta no azul da lenda,
no equilíbrio do fio que (entre)teço.

 Na superfície, a frauta noturna
de sustenidos ais e bemóis.
Na superfície, a fraude fria
e a neblina sobre mil lençóis.

 E no fundo d'água, nos peraus,
que moram os peixes de meu rio.
É no remanso que alguma iara
sempre se esquiva solitária.

 De repente, o susto da cilada,
um anzol recurvo — aço e isca —
mas os meus peixes não se entregam,
apenas provam de leve, triscam.

PONTO FINAL

Se não há mais nada a fazer
é isto mesmo - em frente.
Não importa a direção
a que se ande (já disseram)
desde que seja para frente.
Se a última palavra
já foi pronunciada
não cabe vírgula
nem outros sinais de pontuação
a não ser o ponto final

A VERDADE DENTRO

Se não houvesse
esse pacto secreto
de silêncio de chumbo

ou essa oclusão completa
de um travo-de-ferro
na grota da garganta,

a verdade fluiria fluida
do flanco da montanha
ou do poço da garganta.

Mas esse silêncio
foi fabricado, dentro,
não por mim ou você,

mas por oceanos de mãos,
segurando bridas e freios,
esmagando goelas e anseios,

desde a mais remota manhã
em que o potro selvagem
ensaiou sua disparada na planície.

Fonte:
Antonio Miranda

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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