sábado, 4 de abril de 2026

Asas da Poesia * 171 *


Poema de
ANTÓNIO BOTTO
Freguesia de Concavada/Concelho de Abrantes (1897 – 1959) Rio de Janeiro/RJ

Anda vem...

Anda vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha… rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
… Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos! 
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Trova de
GUILHERME DE ALMEIDA
(Guilherme de Andrade de Almeida)
Campinas/SP (1890 – 1969) São Paulo/SP

Tudo muda, tudo passa,
neste mundo de ilusão:
Vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão.
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Sonetilho de
JORGE DAS NEVES
Rio de Janeiro/RJ

 Sonetilho escrevo,
componho com afinco,
e se errar não devo
no erro ponho trinco.

 Componho com enlevo
em versos de cinco
e jamais me atrevo
com telha de zinco.

 Meu telhado é forte,
tenho muita sorte,
nessa construção.

 Vate tarimbado,
cuido do telhado
e da fundação.
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Trova de
ÉLBEA PRISCILA S. DE SOUZA
Piquete/SP, 1942 – 2023, Caçapava/SP

A escolha do par perfeito,
farei nesta… em qualquer vida,
ao resgatar de outro peito,
minha metade perdida!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Ponto pacífico

Os gritos
ferem os ouvidos
Mas o silêncio,
ao contrário,
Abranda o coração
estraçalhado.
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Trova Popular

Ninguém deve, neste mundo,
de alheias desgraças rir.
Quando o sol troveja, o raio
não faz ponto onde cair...
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sobre as nuvens

Na lida ingrata e rude do vaquejo,
no carrascal inóspito e ardente,
manda uma prece o pobre sertanejo
a um Deus que há muito lhe parece ausente.

Nos seus olhos vermelhos, o desejo
de que uma chuva, mesmo impersistente,
venha molhar, com dúlcido bafejo,
seu chão gretado de um sol inclemente.

Ao dedilhar simplório do violeiro,
chora a toada monótona o vaqueiro,
na noite sem espera e sem promessa.

E quando sobre as nuvens paira a prece,
quando a esperança já quase fenece…
um raio, o espaço, rútilo, atravessa.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Na lousa de um tempo ausente:
silêncio!... as letras a giz
pairam no olhar de um docente…
discente... rindo... feliz.
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Poema de
CORA CORALINA
(Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Cidade de Goiás/GO (1889 – 1985) Goiânia/GO

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Na escada, a aposta suicida
dos genros, no arranha-céu:
- Leva, quem perde a corrida,
a sogra... como troféu!
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Soneto de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDERNBERG
São Fidélis/RJ

Aurora Desbotada

Desperta a aurora fria e desbotada,
Em mais um dia que precede o fim,
E essa minha alma frágil e tão cansada,
Já não suporta a dor que dói em mim.

A noite avança, rompe a madrugada,
Eu já não sinto o aroma do jasmim
Que andava no meu quarto e na sacada
E perfumava todo o meu jardim.

Dia morto... noite morta... tudo é nada...
Viver só por viver não me consola
Se a aurora só é bela colorida.

Sinto que irei sem ti nessa jornada,
E a suportar a angústia que me assola,
Prefiro não viver - isso não é vida!
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Poema de
CARLA BUENO OLIVEIRA
São Paulo/SP

Encontrei você

Imenso em mim
todo esse amor
sempre irei enaltecer.

A porção minha que faltava
outra metade de mim encontrei
amor verdadeiro a cada amanhecer.
Felicidade estar sempre com você
privilégio somente a você pertencer.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Ah! Meu amor, quem me dera
voltar ao nosso cantinho.
Tão pequeno que ele era...
cabia tanto carinho!
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Soneto de
RUBÊNIO MARCELO
Campo Grande/MS

A cruz de um adeus

Já é madrugada. Eu estou pela rua…
Na trilha dourada dos olhos da lua.
No meu desvario, na minha tristeza,
Ainda aprecio os dons da Natureza.

E assim, sem destino, tal qual vagalumes,
Aos entes sagrados faço queixumes.
Ao longe, o clarão dos astros em prumo…
E o meu coração errante, sem rumo.

A brisa vadia soprando com jeito…
E uma agonia tomando meu peito.
Estrelas cadentes brincando no céu…

E eu, decadente, pervagando ao léu.
Cometas pulsando pertinho de Deus…
E eu carregando a tal cruz de um adeus!
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Poetas Velhos 

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

Dia vai vir que os saiba
tão bem que vos cite
como quem tê-los
um tanto feito também,
acredite.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Amai-vos, e as derradeiras 
muralhas hão de cair. 
– Havendo amor, as barreiras 
não têm razão de existir! 
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Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Navegando contra o vento 

Navegando contra o vento
sem levar mercadoria,
o seu barco sonolento
bordejava em agonia.

Sem levar mercadoria
num mar bravio e revolto
bordejava em agonia
um dos barcos, leve e solto.

Num mar bravio e revolto
num balanço tempestuoso
um dos barcos, leve e solto,
seguiu trajeto tortuoso.

Num balanço tempestuoso
naquele dia cinzento
seguiu trajeto tortuoso
Navegando contra o vento.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Embora sozinha eu siga
e sigas também a sós,
dentro do amor que nos liga
não há distância entre nós!
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Hino de 
CASCAVEL/ PR

Cascavel, cidade hospitaleira
Tu és fonte rica de labor
Do quadrante oeste és a primeira
Te amamos com todo o fervor

Tua história é bela e fascinante
Que o passado nos faz sempre reviver
Feitos heroicos de um grande bandeirante
Que criou-te e feliz te fez crescer

Tua beleza imponente tem vida
És a sombra que acolhe o forasteiro
Ganhas bênçãos pelas mãos da Aparecida
Portas abertas a todo brasileiro

No horizonte d 'oeste estrela fulgurante
Tua gente tão nobre de amor varonil
És crescente progresso a todo instante
És o mais lindo pedacinho do Brasil
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 – 2020

Dos artigos que componho
nas minhas noites sozinhas,
fazes parte do meu sonho
abraçada às entrelinhas.
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Poema de
CLÁUDIA BELCHIOR
Rio de Janeiro/RJ

Minha escultura

É ela a minha escultura
E nela acredito com dedos de sonhos
E com a doçura de como me fez a minha mãe.
Nela acredito íntima e interior
Com olhos profundos
Capaz de entender a alegria e a dor da humanidade.
Nela acredito forte e frágil
E me encanto com seus movimentos
Caminhar apesar de tudo
Mulher, gueixa e poeta.
E é esta argila: rosa, vermelha e azul
A responsável por fazer sempre um novo planeta. 
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Sextilha de
MILTON SEBASTIÃO SOUZA
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

Quando somo, na vida, o meu total,
reconheço, queria fazer mais...
Muitas vezes meu passo foi pequeno,
outras vezes, tremi nos temporais...
Mesmo assim, fiz bastante, e agora eu sei
dar amor, pois amor nunca é demais...
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Glosa de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

MOTE: 
Tu vieste qual guarida
dando sentido ao meu passo.
E passaste em minha vida
qual nuvem, sem deixar traço. 
J. B. Xavier 
São Paulo/SP
 
GLOSA: 
Tu vieste qual guarida 
desde o Plano Superior; 
antes mesmo de nascida, 
incrustavas-me de amor. 

Filha amada, tu chegaste 
dando sentido ao meu passo. 
Eu nem sentia o desgaste 
diante de algum embaraço. 

Por força preconcebida, 
deixaste-me abruptamente. 
E passaste em minha vida 
qual um raio, de repente... 

Não me cabe lamentar, 
esse rude descompasso, 
pois tinhas que aqui passar 
qual nuvem, sem deixar traço.
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Aldravia de
GILBERTO MADEIRA PEIXOTO
Belo Horizonte/MG

luz
divina
Deus
assiste
minha
alma
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Soneto de
GUIMARÃES PASSOS
(Sebastião Cícero dos Guimarães Passos)
Maceió/AL, 1867 – 1909, Paris/França

Teu lenço

Esse teu lenço que possuo e aperto
De encontro ao peito quando durmo, creio
Que hei de mandar-t'o um dia, pois roubei-o,
E foi meu crime em breve descoberto.

Luto, porém, a procurar quem certo
Pode servir-me nisto de correio;
Tu nem sabes que grande é o meu receio
Se em caminho te fosse o lenço aberto...

Porém, ó minha vívida quimera.
Fita as bandas que eu moro, fita e espera,
Que enfim verás, em trêmulos adejos,

Em cada ponta um beija-flor pegando.
Ir pelo espaço o lenço teu voando
Pando, enfunado, côncavo de beijos.
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Poema de
SEBAS SUNDFELD
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP

Dilema

O coração é uma taça para a festa da vida.
Com ela comemoramos, na embriaguez da euforia,
os esplendores das pompas, o riso da alegria,
a glória encantada dos amores.
Mas o fazemos com tamanha ansiedade,
com tanto medo
de ver a festa em breve terminar,
que, ao fim, quando brindamos à Felicidade,
que um dia há de chegar,
temos cansado o coração
e a taça está vazia.
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Poema de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

O Medo

Sucinto, te sinto
às vezes silente
em raro decanto

ou pressinto teu mavioso canto.
Um instinto quase animal revela
teu êxtase, em peculiar encanto.
Escorres por minhas frestas em
ecos, és o labirinto sacrossanto.
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Reminiscência

O joão-de-barro, a paineira,
e a casinha, ali construída…
Na infância, sobremaneira,
deram-me exemplo de vida!

''São Carlos"... Era o nome da fazenda,
com primaveras, pássaros, paineira...
O cafezal em flor, cena estupenda:
— recordação para uma vida inteira!

No terreirão, na grama em verde renda
- eu com dez anos –, quanta brincadeira!
Na casa simples, mesa com merenda;
dali se via o véu da cachoeira!...

Lembro o balanço no chorão... — Saudade!
Naquele pasto o gado em liberdade;
farto pomar, coqueiro carregado...

Apenas meses e eu nunca esqueci,
da infância a fase que passei ali:
— um tempo mágico do meu passado!
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
(Miguel Kopstein Russowsky)
Santa Maria/RS, 1923 – 2009, Joaçaba/SC

A Vida é Urgente

Se sabes que te quero e sou por ti bem quisto,
o “depois” não importa. O tempo nos dirá.
Viver!... Sentir o amor, é urgentíssimo já!
Não somes ao anseio uma descrença, insisto!

Felicidade... Instante azul!... Apenas isto.
Deixa então, o porvir, às leis do “Deus dará”.
Não penses que o amanhã necessite alvará
para dar luz ao sol, se tudo está previsto.

Aproveitemos agora os encantos da vida,
antes que o fado hostil os sonhos desarrume,
ou às desilusões os teus enganos somes!

A existência esvai-se em célere corrida...
Um dia eu serei pó e tu serás perfume
e o vento soprará sem lembrar nossos nomes.
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Poema de
EUGÉNIO DE ANDRADE 
(José Fontinhas)
Fundão/Portugal, 1923 – 2005, Porto/Portugal

A boca 

A boca,
onde o fogo 
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?) 
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser 
se a luz é tanta,
como se pode morrer?
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O corvo e a raposa

É fama que estava o corvo
Sobre uma árvore pousado,
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira,
A qual, pouco mais ou menos,
Lhe falou desta maneira:

«Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fênix, se acaso
Tens a voz como a figura!»

A tais palavras o corvo
Com louca, estranha afoiteza,
Por mostrar que é bom solfista
Abre o bico, e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho*,
E diz: «Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo,
Tem destas para teu uso.»
Rosna então consigo o corvo,
Envergonhado e confuso:

Velhaca! Deixou-me em branco,
Fui tolo em fiar-me dela;
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.»
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* Gadanho = garra.

Mensagem na Garrafa 167 = O Sábio


AUTOR ANÔNIMO 

Conta a lenda, que um velho sábio, tido como mestre da paciência, era capaz de derrotar qualquer adversário. 

Certa tarde um homem conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu com a intenção de desafiar o mestre. E o homem não poupou insultos....Chegou até a jogar algumas pedras em direção ao sábio, cuspiu e gritou todos os tipos de ofensas. 

Durante horas ele fez de tudo para provocá-lo, mas o sábio permaneceu impassível. No final da tarde, já exausto e sentindo-se humilhado, o homem deu-se por vencido e foi embora...

Impressionados, os alunos perguntaram ao mestre como ele pudera suportar tanta indignidade. Aí o mestre perguntou:

- Se alguém chega até você com um presente e você não o aceita, a quem pertence o presente?

- A quem tentou entregá-lo. – respondeu um dos discípulos.

- O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos. Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava! A sua paz interior e o seu equilíbrio emocional dependem exclusivamente de você. Ninguém pode lhe tirar. Só se você permitir.

Nilto Maciel (Os Belos Olhos de Sônia)


Bonita, para alguns. Simpática, gentil, generosa, para muitos. Seus olhos, porém, todos cortejavam. Os belos olhos de Sônia.

Aos vinte e poucos anos, descobriram-lhe mais um atributo: azarenta. Sim, só podia ser azar aquilo. Muito caiporismo. Ora, ninguém é atropelado três vezes em menos de um mês.

Muita sorte a dela, diziam os médicos. Escapar com vida de três atropelamentos! A maioria morre da primeira vez. Uns poucos chegam à segunda. Por milagre!

Sônia se dizia sempre atenta ao trânsito de veículos. Nunca atravessava rua sem antes ter certeza de não correr perigo.

— Não existe mais certeza, minha filha.

— Todos corremos perigo, até quando dormimos.

Além de prudente, Sônia se mostrava ágil. Como nos tempos de ginasta. Quando adolescente, nadava, praticava esportes, ganhava medalhas.

O primeiro acidente causou-lhe apenas escoriações leves. O carro surgiu de repente. Parecia encantamento. Um descuido, e quase perde a vida. Se não fosse tão ligeira...

Uma semana após este pequeno incidente acabou num hospital. Um braço quebrado, ferimentos da cabeça aos pés, dores de toda ordem.

Não durou muito, aconteceu o terceiro acidente. Salvou-a a grama aonde foi lançada. Por pouco não teve o crânio rachado e a bacia espatifada.

Nem quando viu um homem morrer baleado, Sônia não suspeitou de estar sendo perseguida. Não havia motivos para perseguições. Não tinha inimigos, não guardava segredos, não detinha poderes.

A única bala disparada atingiu a cabeça do homem. Pacífico comerciário. Marido doméstico. Paizinho de estimação.

O inquérito policial nunca desvendou o crime. Homicídio imotivado — concluiu.

Sônia e o homem trocaram ainda duas palavras. Ele perguntou a hora. Ela olhou para ele e respondeu. A seguir, ele deu um grito agudo e tombou.

Sônia ainda não morreu. Uns a chamam de azarenta. Outros dizem-na cheia de sorte. Na verdade, ela não mais trabalha, quase não sai de casa, protegida dia e noite por parentes e amigos. Diz-se perseguida, ameaçada de morte. E poucos dela duvidam. Só os médicos de um banco de olhos.

— Uma louca! — resmunga um deles.

— Que belos olhos! — sussurra outro.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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Renato Benvindo Frata (Laços e nós oportunos)


Ao tecer o último nó da encomenda, dona Neife não sorriu. Havia outro trabalho a ser feito com urgência e, embora relutasse em rendá-lo, sua obrigação era fazê-lo como último da vida. Resolvera assim. O último.

-Tarefa ingrata - resmungou e, antes de iniciar o trabalho, pegou como sempre fazia o Talmude que mantinha ao lado, no canto da mesa.

Abriu-o e leu; "Tomando a decisão e querendo, os pés a conduzirão para a realização". Lição judaica que serviu de inspiração para mantê-la sóbria, segura e ciente de que a vida como tudo um dia acabaria. 

A doença lhe macerava o corpo, impingia-lhe incertezas e a deixava cansada, sem forças, com dores. Ardiam-lhe os olhos, a visão se turvava, mas apesar de tudo, algo a impulsionava. Não se deixaria vencer sem concluir o trabalho.

Estava determinada.

Delicadamente juntou navetes*, agulhas, carretéis e retroses sem se preocupar com tamanhos, cores e espessuras das linhas. Desta vez não precisaria tanta atenção. Se já dera milhares de nós e laços que consumiram quilômetros de linhas em toalhas que enfeitaram lares, mangas, golas, punhos e lenços que puseram elegância em braços e colos na magnitude que só a renda em frivolité consegue, por que não teceria o último?

Por que não o faria para si?

Gratidão. Sim, demonstraria gratidão pela oportunidade no compromisso com a vida e, entretida, sorriu. Ser frivoliteira era uma dádiva que a fazia se envaidecer com o brilho de olhos das freguesas diante de um trabalho seu. Precisava mais? Não. Nascera humilde e assim terminaria. A singela frivolité lhe revigorava o ânimo e, mesmo triste por se saber próxima do fim, louvou à paciência, à persistência, ao bom gosto e também aos dedos já nodosos e de juntas endurecidas. Com eles, nós e laços dançavam na linha a música de enternecer...

Mas, instintivamente, levou a mão ao pescoço sentindo dor. O nódulo, como falara o médico, crescera muito e nada mais havia a ser feito senão esperar, e ela, ciente de que vivera bem graças ao jeito suave de voltear navetes, manipular agulhas, laçar e enozar linhas com a precisão que a beleza exige ao compor laços, pontos e nós nas espetaculares rendas, pegou de um pequeno espelho e se viu de pálpebras descidas, pele frisada, rugas latentes, provando que o tempo, ao passar, maquia a juventude a seu modo.

E não era aquela a fisionomia que pretendera ver. Nunca fora ou se sentira feia, e não o seria agora,

Num gesto rápido tingiu os lábios, empoou-se, penteou-se discordando tanto da doença que lhe consumia o corpo como do tempo, esse ingrato que dá e toma sem nos perguntar.

Com a perseverança que marcou a profissão, rendou rapidamente o trabalho, decidida que só pararia no último nó daquele derradeiro: a mortalha que a envolveria na última viagem.

Arcada sobre fios e navetes, no silêncio do entardecer, com a renda sendo ligeiramente cosida, orou agradecendo pela oportunidade.
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* Navete = Ferramenta de madeira que carrega o fio para frente e para trás através dos fios verticais para criar tecidos e tapetes.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Renato Benvindo Frata. Fragmentos. SP: Scortecci, 2022. Enviado pelo autor
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sexta-feira, 3 de abril de 2026

José Feldman (A Praça dos Mal-Entendidos)


Vinícius caminhava pela praça com o ar satisfeito de quem descobriu que aposentadoria é basicamente uma desculpa oficial para observar pombos profissionalmente. Lápis, bloco de notas, jaqueta azul cansada de guerra e um boné torto completavam a obra. Ele escrevia frases como “pombo com alma de diplomata” enquanto os bichos desfilavam.

Bento chegou com o mesmo entusiasmo infantil de sempre, pronto para espalhar cumprimentos, mas carregando — sem saber — uma bagagem de sílabas que às vezes travavam na saída. Vinicius, alvo fácil do vento e meio surdo desde uns anos atrás, também chegava desinformado: não fazia ideia de que o amigo tinha gagueira. E Bento, por sua vez, achava que Vinicius continuava ouvindo como um rádio limpo.

Vinte e cinco anos sem se ver, e o reencontro acontece assim:  uma sombra, um sorriso e a primeira confusão.

— Viiii… — começou Bento.  

Vinícius, que já não distinguia as palavras, ouviu “Li”.  

Sorriu de volta, sem entender nada.

— Quem? — gritou Vinícius, mais alto do que necessário.

Bento assustou-se com o grito. Achou que Vinícius estivesse bravo ou dramático demais. Tentou corrigir:

— B-B-Bento!  

Vinícius entendeu: “Tento!”.  

Respondeu com um gesto amigável, acreditando que Bento dizia estar “tentando lembrar dele”.

— Ah, claro, claro, eu também tento! — disse Vinícius, contente.  

Bento piscou, confuso, mas seguiu em frente.

Ele abriu os braços para um abraço. Vinícius, achando que isso era um aviso de queda iminente, segurou Bento pelos ombros como se o estivesse impedindo de tombar.

— Tá tudo bem! Já te seguro! — disse.  

— E-eu só… ab... ab… abra...  

— A praça é escorregadia mesmo — declarou Vinícius, convicto.  

Bento desistiu e apontou um banco.

Sentaram-se no banco. Bento tentou puxar assunto.

— Sa-bes há qu... há quan...quanto,,,  

Vinícius ouviu: “Rabos? Há quantos…?”.  

Pegou o bloco e anotou: “Assunto: rabos? perguntar depois”.

Bento respirou fundo e tentou de novo:  

— Há quanto tem...  

— Ah! Quando tá bem! — interrompeu Vinícius, triunfante por acreditar ter decifrado algo.  

Bento, achando que havia conseguido finalmente completar a frase, concordou animado.

Fizeram as contas com os dedos. A matemática deles não bateu — por razões evidentes — mas os dois ficaram satisfeitos com conclusões diferentes.

Bento quis lembrar o bar antigo.

— Lembra do b...b...b...

— Bebê? — deduziu Vinícius. — Não, Bento, nunca tive um bebê.  

— N-n-não! O b...b...bar!  

— Ah, sim, o mar! Claro que lembro, fomos na praia, não?  

— B...B... bar!  

— Mar?  

— Bar!  

— Mar?  

Desistiram com um aperto de mão.

Quando Bento contou da sua gata:  

— Ela dá… c...c...c…  

Vinícius entendeu: “Tá com o quê?”.  

E imediatamente lhe ofereceu uma balinha de vitamina C achando que ele estava gripado.  

Bento, achando que era um presente, aceitou a balinha e guardou no bolso, decidido a come-la depois.

O auge da confusão ocorreu quando Bento anunciou, teatral:

— Pre...pre...pre...sente!  

Vinícius saltou do banco:  

— Você está com pressa? Quer que eu chame alguém?  

— Não! É um presente!  

— Pressão?  

— Pre...sen...te!  

— Pressão alta?  

— PRESENTE!!!  

— Ah! Você quer que eu me apresente! Meu nome é Vinícius, prazer novamente!  

Bento suspirou, derrotado, e apenas entregou o chaveiro do mini-ukulelê.  

Vinícius ficou emocionado, acreditando que Bento dizia que ele tinha “cara de quem precisa tocar mais música”.

Num momento de emoção, Bento tentou confessar sua ansiedade:

— Às ve...ve...ve... às vezes me sinto... o le...  len... ço...

Vinícius ouviu: “Às vezes eu sinto quê? O Preço?”.  

Anotou: “Conversar sobre inflação depois.”

Mas Bento usou gestos, e Vinícius, mesmo surdo, entendeu ao olhar.  O mal-entendido sumiu; o afeto não precisava de acerto fonético.

No final da tarde, Bento tentou trocar telefone.

— Q... q... quer que eu te... le... le...  

— LED? — perguntou Vinícius, já pescando o celular. — Ah, sim, luz! Você quer luz?  

— Não! Te...le...fone!  – e apontou para o celular.

— Ahhhh! Claro! 9-8-7-6-5-4!  

— Ó... ti... mo! — disse Bento, não tão certo, mas feliz.

A despedida foi uma obra-prima do caos:

— A... a... a...té lo...lo...go!  

— O quê? “Até o jogo”?  

— Até lo... logo!  

— Jogo! Isso, marcamos um jogo!  

E marcaram mesmo — sem querer.

Voltaram a se encontrar nas semanas seguintes:  

Bento levando coisas que Vinícius não tinha pedido,  

Vinícius entendendo metade das frases e inventando a outra metade, e os dois rindo até espantar os pombos — que, sinceramente, já achavam os dois inteiramente loucos.

A amizade seguiu firme, construída não no entendimento, mas na alegria sincera de tentar — e rir do fracasso glorioso de cada tentativa.

Porque, às vezes, o mal-entendido é só outra forma de afeto.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, editor de e-books, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia.  Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Fernando Pessoa (Um grande português)


Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.

Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa.

Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-as por vinte mil réis cada uma.».

«Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.»

O outro, porém, insistiu. Vigário cedeu um pouco regateando e por fim fez-se o negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.

Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, na qual se deveria efetuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem.

Houve então a troca de outro olhar.

O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho.

Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo — um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.

Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por ser escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.

Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atônito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.

Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz.

O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.

Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade — nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.
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Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas e escritores da língua portuguesa e uma figura central do modernismo em Portugal. Sua obra é notável pela criação de heterônimos — personalidades literárias distintas com biografias, estilos e filosofias próprias — que assinaram grande parte de sua produção. Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, em 13 de junho de 1888. Após a morte de seu pai e o novo casamento de sua mãe, a família mudou-se para Durban, na África do Sul, em 1896. Ele viveu lá até 1905, onde recebeu uma educação em inglês e começou a escrever seus primeiros poemas nesse idioma. Ao voltar a Portugal, ele se matriculou no curso de Letras, mas logo o abandonou, dedicando-se à literatura e trabalhando em várias empresas como correspondente comercial. Pessoa estreou como crítico literário em 1912, na revista Águia. Introduziu o modernismo em Portugal e tornou-se um símbolo da cultura portuguesa. Apesar de sua importância, Pessoa publicou poucas obras em vida. Seu reconhecimento pleno veio após sua morte, com a descoberta de um grande número de textos inéditos em um baú. 
A criação de diferentes identidades literárias é a característica mais marcante de sua obra. Os mais conhecidos são: Alberto Caeiro: O "mestre" dos outros heterônimos, poeta bucólico e simples, que valorizava a natureza e o empirismo, com uma filosofia antirreflexiva; Ricardo Reis: Poeta clássico e neoclássico, com referências à mitologia greco-romana e uma busca pela tranquilidade interior; Álvaro de Campos: Engenheiro naval, poeta vanguardista e futurista, caracterizado pela exaltação da vida moderna e da velocidade, mas também pelo tédio e pessimismo; Bernardo Soares: Considerado um "semi-heterônimo", autor do Livro do Desassossego, que reflete sobre a vida, o existencialismo e a solidão. 
Embora tenha tido uma vida amorosa intensa, Fernando Pessoa nunca se casou ou teve filhos. Declarava-se um cristão gnóstico, mas não se filiou a nenhuma instituição religiosa, explorando a temática religiosa em seus escritos. Faleceu em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, devido a uma cólica hepática. 

Fontes:
Fernando Pessoa, O banqueiro anarquista e outros contos filosofais. Disponível em Domínio Público.  
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 156


Era uma tarde úmida, fechada, fria. Horizontes velados. Já me preparava para o trecho da caminhada. Mas... saio para a rua olhar o céu e eis que vejo uma imagem legitimamente preta para os lados do sul do mundo. Foi-se o trecho hoje. Pensei que o mundo iria desabar. Não desabou. Então pude utilizar pela primeira vez neste ano a palavra que criei há tempo e que uso nestas condições: negro-ror-negrume.

Felizmente chegou apenas uma chuvinha serena, sem ventos, chuva céu-andante de outono.

Daqueles sustos que passamos na vida em tantos momentos, mas parecem ser amostras de que nossos caminhos pela existência têm instantes, horas ou dias que parecem nos pôr à prova de alguma coisa.

Tempos negros na atmosfera, tempos escuros nalguns dias, são nuvens passageiras que transitam existências carregadas de incertezas. Como existem as pandelícias, os pandemônios medram em proporções idênticas - temporais, céus azuis, espinhos e flores, o bom e o mau, pedras e urzes, o bem e o mal...

Dualidades que fazem parte dos sabores do viver.
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Texto enviado pelo autor. 
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O Conto Policial Noir


Policial noir (do francês noir, "preto") é um subgênero do policial que se caracteriza por um tom sombrio, atmosfera decadente, protagonistas anti-heroicos e exploração de temas como corrupção, moral ambígua, violência e desilusão. Diferente do policial clássico (focado na razão e na justiça), o noir destaca a fragilidade humana e a impossibilidade de uma justiça absoluta.
 
Origem
 
O gênero surgiu nos Estados Unidos na década de 1930, impulsionado pela Grande Depressão, que gerou um cenário de miséria, corrupção política e desconfiança nas instituições. Seus fundamentos estão em romances e contos de autores como Dashiell Hammett e Raymond Chandler, e foi popularizado nos anos 1940-1950 por filmes noir (cinema preto e branco com estética sombria). A influência se espalhou pela Europa e pelo resto do mundo, adaptando-se a diferentes contextos sociais.
 
Características Principais
 
- Atmosfera: Cenários urbanos decadentes (becos escuros, bares mal-assombrados, escritórios sujos), clima opressivo e uso de luz e sombra para criar tensão.

- Personagens: Detetives amadores ou privados anti-heroicos (cínicos, mas com um código moral próprio), mulheres fatais (femme fatales) que atraem e traem, vilões que são reflexos da corrupção do sistema.

- Temas: Moralidade ambígua, poder e ganância, traição, solidão, a fragilidade da justiça e a decadência da sociedade.

- Narrativa: Ponto de vista em primeira pessoa (geralmente do detetive), linguagem crua e direta, enredos que misturam investigação com drama pessoal.
 
Principais Contos de Policial Noir
 
1. "O Campeão" (1923, Dashiell Hammett)
Um dos primeiros contos noir, com o detetive Continental Op investigando um crime envolvendo boxe e corrupção, estabelecendo o tom cínico do gênero.

2. "A Mulher Que Odiava os Homens" (1933, Dashiell Hammett)
Conto que apresenta uma femme fatale manipuladora, explorando a relação entre desejo e perigo.

3. "O Homem que Odiava os Animais" (1939, Raymond Chandler)
Primeiro conto com o detetive Philip Marlowe, onde ele investiga um crime envolvendo um homem rico e sua esposa, destacando a corrupção entre a elite.

4. "Fui Morto Ontem" (1940, Cornell Woolrich)
Conto que mistura noir com suspense psicológico, onde um homem acorda acreditando que foi assassinado e precisa descobrir a verdade sobre sua própria morte.

5. "A Janela Indiscreta" (1948, Cornell Woolrich)
Marco do gênero, com um homem acidentalmente testemunhando um crime ao observar a janela do vizinho — adaptado por Alfred Hitchcock para o cinema.

6. "O Cão que Não Latia" (1942, Raymond Chandler)
Conto de Philip Marlowe que investiga o desaparecimento de um cachorro, desvendando uma teia de crimes e traições.

7. "A Noite é Meia-Noite" (1947, David Goodis)
Conto que retrata um ex-presidiário tentando se redimir, mas envolvido em um novo crime — explorando temas de redenção e destino.

8. "O Assassino" (1953, Roald Dahl)
Conto que narra o crime do ponto de vista do assassino, invertendo os papéis tradicionais e destacando a crueldade e a banalidade do mal.

9. "A Estrada da Perdição" (1950, Jim Thompson)
Conto que segue um psicopata que planeja um assassinato para roubar dinheiro, explorando a mente do criminoso de forma crua e realista.

10. "O Crime do Século" (1955, Mickey Spillane)
Conto do detetive Mike Hammer, conhecido por sua violência e moralidade extremista, representando o lado mais duro do noir americano.

11. "A Cidade é um Labirinto" (1963, Ross Macdonald)
Conto do detetive Lew Archer, que investiga um crime envolvendo uma família rica e segredos de geração — misturando noir com drama familiar.

12. "O Caso do Juiz Que Sumiu" (1975, Rubem Fonseca)
Conto brasileiro que adapta o noir ao contexto urbano de São Paulo, explorando corrupção política e violência, com um tom cru e realista.

13. "A Morte e a Menina" (1992, Ariel Dorfman)
Conto que mistura noir com drama político, onde uma mulher confronta seu algoz de ditadura — explorando justiça e vingança em um contexto de opressão.

14. "Noite de Cães" (2005, Denis Johnson)
Conto que segue dois criminosos fugindo pela América rural, explorando temas de solidão, violência e o fim do sonho americano.

15. "O Homem que Teve Medo da Luz do Dia" (2012, Lawrence Block)
Conto do detetive Matthew Scudder, que investiga um crime envolvendo tráfico de drogas e corrupção policial — representando o noir contemporâneo.

Fontes:
A. I. Dola, 2026.
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Sílvio Romero (João Gurumete)

Nota do Blog:
O conto abaixo é uma variante brasileira do clássico conto de fadas europeu, popularizado pelos Irmãos Grimm, conhecido principalmente como "O Alfaiate Valente" ou "O Pequeno Alfaiate Valente".  As semelhanças com outras histórias baseiam-se no arquétipo do herói esperto e pequeno que supera oponentes fisicamente superiores (gigantes, monstros, reis) através da astúcia, inteligência e sorte.
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(Folclore do Pernambuco)
HAVIA UM SAPATEIRO MUITO TOLO que tinha um discípulo, que o aconselhava. Uma vez o sapateiro, botando um caco com goma para esfriar, caíram nele sete moscas, que ficaram presas e morreram. O discípulo, vendo aquilo, aconselhou ao mestre que escrevesse em letras grandes na copa de seu chapéu: João Gurumete que de um golpe matou sete. Assim ele fez. 

O povo quando viu aquilo ficou pensando que o sapateiro era um homem muito valente. Aconteceu que apareceu um bicho bravo, que andava acabando tudo, comendo a gente. Era um bicho de sete cabeças e sete línguas; todos os dias ele vinha buscar sua porção de gente, e de sete em sete, já tinha acabado os meninos da cidade e estava devorando as donzelas. 

O rei mandou suas tropas acabar com o bicho, mas nada puderam fazer. Foram dizer ao rei que havia na cidade um homem muito destemido que só dum golpe tinha matado sete, e que só ele é que podia dar cabo do bicho. O rei mandou chamar o João Gurumete e o mandou acabar com aquela fera. 

O sapateiro ficou muito assustado mas não deu a entender ao rei, e disse que ia matar o monstro. 

Saindo da presença do rei, foi ter com o discípulo, quase chorando, que o valesse, que desta feita ele morreria. O discípulo lhe disse: “Não tem nada; lá onde se encontra o bicho há uma igreja velha; você corra, quando o avistar, e entre pela igreja adentro, e saia por um buraco que tem no fundo, e deixe estar que o bicho há de entrar também, e então você feche a porta, e ele fica preso lá dentro e morre de fome, e está acabada a história.” 

João Gurumete ficou muito contente e partiu; muita gente o acompanhou para ver a morte do monstro. Quando o Gurumete avistou o bicho meteu-se no mundo largo numa desfilada e entrou pela igreja adentro. O bicho fera o acompanhou e entrou também. O sapateiro saiu pelo buraco que havia no fundo da igreja, e o bicho, por ser muito grande, não pôde passar por ali. O povo que estava da banda de fora fechou a porta, e o animal morreu lá dentro de fome. João, então, cortou-lhe as sete cabeças e foi levar ao rei, que lhe deu o título de conde e muito dinheiro.

Quando foi de outra vez apareceram três gigantes muito grandes e temíveis que estavam assolando tudo, matando e roubando, e ninguém podia dar cabo deles. Avisaram ao rei que só o Gurumete era capaz de acabar com aquela peste. O rei mandou-o chamar e lhe encarregou de livrar a cidade de tanto flagelo. 

O sapateiro desta vez saiu mais morto do que vivo, e foi ter com o seu discípulo, dizendo: “Agora sim, estou perdido; aquele bicho sempre era bicho e foi fácil o enganar; mas estes gigantes são gente, e como eu hei de acabar com eles? Desta eu me vou...” 

O discípulo lhe disse: “Não tem nada; vá escondido; antes dos gigantes chegarem, trepe-se num pé de árvore, onde eles costumam comer e descansar, e amarre lá em cima três pedras muito grandes que correspondam à cabeça de cada um. Quando eles estiverem dormindo, corte a corda de uma pedra e deixe cair a pedra em cima da cabeça do primeiro; depois a outra, e depois a outra, e deixe estar.” 

João Gurumete partiu; chegando na tal árvore muito grande, avistou logo as três covas, que já havia no chão, feitas pelo peso dos corpos dos gigantes, por ali dormirem. Pegou em três pedras muito pesadas e amarrou lá era cima em três galhos da árvore, que correspondiam às cabeças dos três gigantes, e trepou-se também lá muito quietinho e escondido nas folhas.

Quando os gigantes vinham chegando foi aquele zoadão, e o Gurumete teve tanto medo que quase roda de cima em baixo. Os gigantes lá chegaram, e quase batiam com as cabeças onde estava o mestre sapateiro. Ali comeram e beberam a rachar; ficaram muito tontos, se deitaram e pegaram no sono. 

Aí o João cortou a corda de uma das pedras que caiu bem em cima da cabeça de um deles, que acordou e disse: “Má está a história; vocês já começam com as brincadeiras, já estão me dando cocorotes*.” 

Tornaram a pegar no sono. Aí o Gurumete pegou e cortou as cordas de outra pedra, que bateu na cabeça de outro gigante, e ele pensando também que era algum cocorote dado por um dos camaradas, zangou-se muito, e disse que se a coisa continuasse ele ia às vias de fato. Fizeram muita algazarra e tornaram a pegar no sono. Daí a pedaço o sapateiro largou a derradeira pedra, que bateu na cabeça do terceiro. Eles não tiveram mais dúvida, não: bateram mão nos alfanges e avançaram um para o outro, e brigaram até ficarem todos três estendidos no chão. João Gurumete desceu, cortou as cabeças dos três e levou-as para mostrar ao rei.

Houve muitas festas; o conde Gurumete recebeu o título de general e muito dinheiro, e ficou muito rico.

Daí a tempos saíram umas guerras para o rei vencer, e as tropas do rei estavam já quase acabadas e morto o general Lacaio, em quem os soldados tinham mais ânimo. O rei ficou muito desanimado, e os conselheiros lhe disseram que não havia remédio senão chamar o general conde João Gurumete, que de um golpe matou sete: o rei mandou-o chamar para ir vencer as guerras, e então lhe havia de dar sua filha em casamento. 

Desta feita o sapateiro quase cai para trás de medo. Foi ter com o discípulo e disse: “O bicho e os gigantes eram tolos, e agora as guerras com ferro e fogo... Valha-me Deus!”

O antigo discípulo o animou, dizendo: “Vista-se com a fardamenta do general Lacaio, monte-se no seu cavalo e deixe estar o resto.”

O Gurumete partiu; lá no acampamento dos soldados não sabiam ainda da morte do general Lacaio, porque os enganavam dizendo que ele tinha ido à corte falar com o rei. Gurumete meteu-se na fardamenta de Lacaio, montou-se bem armado no cavalo dele, e avançou pra frente. O cavalo disparou, e o sapateiro, que não sabia montar, ia caindo e pôs-se a gritar: “Lá caio, lá caio, lá caio!...” 

Os soldados, que ouviram isto, supuseram que era seu antigo general, avançaram com força e derrotaram os inimigos. Assim acabaram-se as guerras, ficando Gurumete por vencedor, e casou-se com a filha do rei.

Na noite do casamento houve uma grande festa, e o antigo sapateiro bebeu demais, e quando foi se deitar, caiu na cama como um porco roncando e pôs-se a sonhar alto: “Puxa mais este ponto, bate esta sola, encera a linha, olha a tripeça!” 

A princesa ficou muito espantada e desgostosa e queixou-se ao pai no outro dia que estava casada com um sapateiro, tanto que ele tinha sonhado toda a noite com os objetos de sua tenda. 

O rei mandou ficar tropa à espreita e disse à filha: “Se ele esta noite sonhar como ontem, me avisa que ele será preso e morto”.

O discípulo de Gurumete soube disto e o avisou: “Olhe que você está pra levar a carepa, se esta noite sonhar com coisas da tenda, como na noite passada; não beba hoje nada; e quando for pra cama finja que está dormindo e sonhando com uma guerra, grite aos soldados, pegue na espada, risque pelas paredes, e deixe estar.” 

Assim fez.

Na cama fingiu que dormia, pôs-se a gritar, comandando as tropas, pegou na espada e quase feriu a princesa que teve um grande susto. O rei, que ouviu isto, ficou muito satisfeito e repreendeu a filha, dizendo: “Estás casada com um grande homem, um valente guerreiro, e me andas com histórias de sapateiro! Não me repitas outra.” 

Daí por diante Gurumete dormiu em paz, sonhando sempre com suas solas e sapatos.
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Cocorotes = Assim chama-se a pancada dada na cabeça com os dedos fechados com força; é diferente de cafuné, que é um estalo doce dado com as unhas na cabeça.
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fontes:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.  
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