Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Jorge Luis Borges (Emma Zunz)

No dia catorze de janeiro de 1922, Emma Zunz, ao voltar da fábrica de tecidos Tarbuch & Loewenthal, achou no fundo do saguão uma carta, datada no Brasil, pela qual soube que seu pai havia morrido. Enganaram-na, à primeira vista, o carimbo e o envelope; logo, inquietou-a a letra desconhecida. Nove ou dez linhas rabiscadas queriam tomar a folha; Emma leu que o senhor Maier havia ingerido por erro uma forte dose de veronal e havia falecido no dia três do corrente mês no hospital de Bagé. Um companheiro de pensão de seu pai assinava a notícia, um tal Fein ou Fain, do Rio Grande, que não podia saber que se dirigia à filha do morto.

Emma deixou cair o papel. Sua primeira impressão foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; logo de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; logo, quis já estar no dia seguinte. Ato contínuo compreendeu que essa vontade era inútil porque a morte de seu pai era a única coisa que havia acontecido no mundo, e continuaria acontecendo sem fim. Recolheu o papel e foi a seu quarto. Furtivamente guardou-o em uma gaveta, como se de algum modo já conhecesse os fatos posteriores. Já havia começado a vislumbra-los, talvez já era o que seria.

Na crescente escuridão, Emma chorou até ao fim daquele dia o suicídio de Manuel Maier, que nos antigos dias felizes foi Emanuel Zunz. Recordou verões em uma chácara, perto de Gualeguay, recordou (tratou de recordar) sua mãe, recordou a casinha de Lanús que lhes arremataram, recordou os amarelos losangos de uma janela, recordou o carro de prisão, o vexame, recordou os anônimos com o artigo sobre "o desfalque do caixa", recordou (porém isso jamais esquecia) que seu pai, na última noite, lhe havia jurado que o ladrão era Loewenthal. Loewenthal, Aaron Loewenthal, antes gerente da fábrica e agora um dos donos. Emma, desde 1916, guardava o segredo. A ninguém o havia revelado, nem mesmo à sua melhor amiga, Elsa Urstein. Talvez evitava a profana incredulidade; talvez acreditava que o segredo era um vínculo entre ela e o ausente. Loewenthal não sabia que ela sabia; Emma Zunz derivava desse fato ínfimo um sentimento de poder.

Não dormiu naquela noite, e quando a primeira luz definiu o retângulo da janela, já estava perfeito o seu plano. Procurou que esse dia, que lhe pareceu interminável, fosse como os outros. Havia na fábrica rumores de greve; Emma se declarou, como sempre, contra toda a violência. Às seis horas, concluído o trabalho, foi com Elsa a um clube para mulheres, que tem academia e piscina. Inscreveram-se; teve que repetir e soletrar seu nome e seu sobrenome, teve que rir das piadas vulgares que comentam na revisão médica. Com Elsa e com a menor das Kronfuss discutiu a que cinematógrafo iriam no domingo à tarde. Logo, falou-se de namorados e ninguém esperou que Emma falasse. Em abril, faria dezenove anos, mas os homens lhe inspiravam, ainda, um temor quase patológico... De volta, preparou uma sopa de tapioca e uns legumes, comeu cedo, deitou-se e obrigou-se a dormir. Assim, laboriosa e trivial, passou a sexta-feira quinze, a véspera.

No sábado, a impaciência a despertou. A impaciência, não a inquietude, e o singular alívio de estar naquele dia, finalmente. Já não tinha mais o que tramar e o que imaginar; dentro de algumas horas bastaria a simplicidade dos fatos. Leu em A Imprensa que o Nordstjärnan, de Malmö, zarparia essa noite do dique três; telefonou para Loewenthal, insinuou que desejava comunicar, sem que as outras soubessem, algo sobre a greve e prometeu passar pelo escritório, ao escurecer. Sua voz tremia; o tremor convinha a uma delatora. Nenhum outro fato memorável ocorreu essa manhã. Emma trabalhou até às doze e combinou com Elsa e com Perla Kronfuss os pormenores do passeio do domingo. Deitou-se depois de almoçar e recapitulou, de olhos fechados, o plano que havia tramado. Pensou que a etapa final seria menos horrível que a primeira e que lhe depararia, sem dúvida, o sabor da vitória e da justiça. Logo, alarmada, se levantou e correu à gaveta da cômoda. Abriu; debaixo do retrato de Milton Sills, onde a havia deixado a noite passada, estava a carta de Fain. Ninguém podia havê-la visto; começou a lê-la e a rasgou.

Referir-se com alguma realidade aos fatos dessa tarde seria difícil e talvez improcedente. Um atributo do infernal é a irrealidade, um atributo que parece mitigar seus terrores e que os agrava talvez. Como tornar verossímil uma ação na qual quase não acreditou quem a executava, como recuperar esse breve caos que hoje a memória de Emma Zunz repudia e confunde? Emma vivia em Almagro, na rua Liniers; consta-nos que essa tarde foi ao porto. Por acaso no infame Passeio de Julho viu-se multiplicada em espelhos, publicada por luzes e desnudada pelos olhos famintos, porém mais racional é conjeturar que ao princípio errou, inadvertida, pela indiferente recova... Entrou em dois ou três bares, viu a rotina ou o procedimento de outras mulheres. Encontrou por fim homens do Nordstjärnan. De um, muito jovem, temeu que lhe inspirasse alguma ternura e optou por outro, talvez mais baixo que ela e grosseiro, para que a pureza do horror não fosse mitigada. O homem a conduziu a uma porta e depois a um turvo saguão e depois a uma escada tortuosa e depois a um vestíbulo (no qual havia uma janela com losângulos idênticos aos da casa em Lanús) e depois a um corredor e depois a uma porta que se fechou. Os fatos graves estão fora do tempo, já porque neles o passado imediato fica meio truncado pelo porvir, já porque não parecem consecutivas as partes que os formam.

Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações inconexas e atrozes, pensou Emma Zunz uma única vez no morto que motivava o sacrifício? Eu tenho para mim que pensou uma vez e que nesse momento perigou seu desesperado propósito. Pensou (não pôde não pensar) que seu pai havia feito à sua mãe a coisa horrível que a ela lhe faziam agora. Pensou isso com débil assombro e se refugiou, em seguida, na vertigem. O homem, sueco ou finlandês, não falava espanhol; foi uma ferramenta para Emma assim como esta foi para ele, mas ela serviu para o gozo e ele para a justiça.

Quando ficou só, Emma não abriu em seguida os olhos. No criado-mudo estava o dinheiro que o homem havia deixado: Emma voltou a si e o rasgou como antes havia rasgado a carta. Rasgar dinheiro é uma impiedade, como jogar fora o pão; Emma se arrependeu, apenas fez um ato de soberba e naquele dia... O temor se perdeu na tristeza de seu corpo, no nojo. O nojo e a tristeza a encadeavam, mas Emma lentamente se levantou e começou a se vestir. No quarto não restavam cores vivas; o último crepúsculo se agravava. Emma pôde sair sem que a notassem; na esquina subiu a um Lacroze, que ia ao oeste. Escolheu, conforme seu plano, o assento mais dianteiro, para que não vissem sua cara. Talvez lhe confortou verificar, no insípido movimento das ruas, que o acontecido não havia contaminado as coisas. Viajou por bairros decrescentes e opacos, vendo-os e os esquecendo no ato, e desceu em uma das embocaduras de Warnes. Paradoxalmente a sua fatiga vinha a ser uma força, pois a obrigava a se concentrar nos pormenores da aventura e lhe ocultava o fundo e o fim.

Aaron Loewenthal era, para todos, um homem sério; para seus poucos íntimos, um avarento. Vivia nos altos da fábrica, sozinho. Estabelecido no desmantelado subúrbio, temia os ladrões; no pátio da fábrica havia um grande cão e na gaveta de sua mesa, ninguém ignorava, um revólver. Havia chorado com decoro, no ano anterior, a inesperada morte de sua mulher — uma Gauss, que lhe trouxe um bom dote! — mas o dinheiro era sua verdadeira paixão. Com íntimo rubor sabia que era menos apto para ganhá-lo do que para conservá-lo. Era muito religioso; acreditava ter com o Senhor um pacto secreto, que o eximia de obrar bem, a troco de orações e devoções. Calvo, corpulento, enlutado, de óculos esfumaçados e barba loira, esperava de pé, perto da janela, o relatório confidencial da operária Zunz.

Viu-a empurrar a grade (que ele havia entreaberto de propósito) e cruzar o pátio sombrio. Viu-a fazer um pequeno rodeio quando o cão atado ladrou. Os lábios de Emma se atarefavam como os de quem reza em voz baixa; cansados, repetiam a sentença que o senhor Loewenthal ouviria antes de morrer.

As coisas não aconteceram como havia previsto Emma Zunz. Desde a madrugada anterior, ela havia sonhado muitas vezes, manejando o firme revólver, forçando o miserável a confessar a miserável culpa e expondo o intrépido estratagema que permitiria à Justiça de Deus triunfar sobre a justiça humana. (Não por temor, mas por ser um instrumento da Justiça, ela não queria ser castigada). Logo, um só balaço na metade do peito rubricaria a sorte de Loewenthal. Mas as coisas não ocorreram assim.

Diante de Aaron Loewenthal, mais que a urgência de vingar seu pai, Emma sentiu a de castigar o ultraje padecido por tudo isso. Não podia deixar de matá-lo, depois dessa minuciosa desonra. Também não tinha tempo a perder em teatralidades. Sentada, tímida, pediu desculpas a Loewenthal, invocou (na qualidade de delatora) as obrigações da lealdade, pronunciou alguns nomes, deu a entender outros e se interrompeu como se a vencesse o temor. Conseguiu que Loewenthal saísse para buscar um copo de água. Quando este, incrédulo de tais espaventos, porém indulgente, voltou da sala de jantar, Emma já havia tirado da gaveta o pesado revólver. Apertou o gatilho duas vezes. O considerável corpo se desmoronou como se os estampidos e a fumaça o tivessem quebrado, o copo de água quebrou-se, a cara olhou-a com assombro e cólera, a boca da cara a injuriou em espanhol e em idisch. As más palavras não recuavam; Emma teve que dar fogo outra vez. No pátio, o cão acorrentado desatou a ladrar, e uma efusão de brusco sangue emanou dos lábios obscenos e manchou a barba e a roupa. Emma iniciou a acusação que tinha preparada ("Vinguei meu pai e não poderão me castigar...") mas não a acabou, porque o senhor Loewenthal já tinha morrido. Não soube nunca nem chegou a entender.

Os latidos tensos lhe recordaram que não podia, ainda, descansar. Desarrumou o divã, desabotoou o paletó do cadáver, tirou-lhe os óculos salpicados e deixou-os sobre o fichário. Logo pegou o telefone e repetiu o que tantas vezes repetiria, com essas e com outras palavras: Aconteceu uma coisa que é incrível... O senhor Loewenthal me fez vir com o pretexto da greve... Abusou de mim, matei-o...

A história era incrível, de fato, mas se impôs a todos, porque substancialmente era certa. Verdadeiro era o tom de Emma Zunz, verdadeiro o pudor, verdadeiro o ódio. Verdadeiro também era o ultraje que havia padecido; só eram falsas as circunstâncias, a hora e um ou dois nomes próprios.

Fonte:
Pequena Antologia para se Ler Jorge Luis Borges. Digital Source.

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to