Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Contos Populares do Tibete (O Transformador do Tempo)

Era uma vez um homem sábio. Viajava por toda a vasta terra do Tibete, e se detinha nos povoados e cidades onde quer que se requeressem seus serviços. Podia predizer o futuro, podia vaticinar a uma família os dias mais favoráveis para viajar ou comerciar, e podia, inclusive, mudar o tempo. O homem sábio era muito admirado e as pessoas lhe pagavam muito bem os seus serviços.

A julgar por seu aspecto, dever-se-ia desculpar a quem pensasse que era pobre. Os que o conheciam sabiam muito bem que não era assim. Ouvindo-o falar, podia-se tomá-lo facilmente por um homem de cabeça louca, mas aqueles que iam lhe pedir ajuda, tinham, sem dúvida, outra ideia. Esse homem estranho, com sua chuba andrajosa, um tamboril duplo e uma conca feita de um crânio pendurados no cinturão,1 não era nem pobre nem estúpido. Possuía, segundo diziam alguns, poderes mágicos. Ele usava estes poderes para o bem de todos os seres, mas — e isto era o essencial do caso — se alguém ousasse criar-lhe dificuldades, ele podia desviar seus poderes mágicos para outros usos, e acabar, assim, com qualquer oposição. Era conhecido por todo o mundo como o "transformador do tempo".

Se alguém tivesse podido ver, por acaso, o que continham a chuba e o surrão do transformador do tempo, teria descoberto muitos tesouros, pois, ao não ter residência fixa, ele viajava com todos os seus pertences de um povoado a outro. Vê-lo celebrar uma cerimônia era algo que ensinava muito, e o povo se congregava para observar quando o transformador do tempo parecia entrar num estado de transe, golpeando o seu tambor com ritmos sempre cambiantes e fazendo gestos com a mão livre2 para invocar o poder dos deuses. Sentava-se horas cantando em oração com uma voz grave e profunda que parecia provir das próprias entranhas da terra, pedindo aos deuses que derramassem seu poder e sua bênção sobre os que assistiam à cerimônia. O sorriso do transformador do tempo era como o sol. Todo o seu rosto se iluminava e seus olhos refletiam um calor que ninguém podia deixar de perceber.

Certo dia, depois de terminar uma cerimônia de bênçãos sobre uma família, o transformador do tempo apanhou os obséquios de comida que a família lhe ofereceu e se dispôs a dirigir-se para outro povoado situado a várias jornadas de marcha. Enquanto isso acontecia, o transformador do tempo era observado por uma lebre muito grande, a qual, com os olhos cheios de avidez e o estômago protestando de fome, contemplava o homem e a sua comida com inveja.

"Vou encontrar um modo — pensou — de roubar a comida desse trapaceiro esfarrapado". E, assim, com a cabeça ocupada em elaborar um plano, a lebre seguiu o transformador do tempo em sua viagem.

Não haviam chegado muito longe ainda, quando a lebre ouviu um bater de asas e sentiu umas delicadas patas pousarem-se nas suas costas. Era uma urraca.

— Olá, lebre, disse a urraca. Você tem podido achar comida?

— Não, respondeu a lebre, e estou fraca e faminta. A comida anda muito escassa.

— Sei disso muito bem, minha amiga — disse a urraca. Vamos viajar juntas; quem sabe, assim, a nossa sorte muda.

Dito isso, a urraca levantou vôo e seguiu a lebre em sua viagem.

No dia seguinte, a lebre e a urraca se encontraram com um raposo. A urraca se perturbou e ficou subindo e baixando pelo ar.

— Este raposo me está parecendo muito fraco — disse a urraca à lebre. Se ele morrer, poderemos nos dar um banquete de carne de raposo.

— Olá, raposo! — disse a lebre. Aonde você vai?

O raposo levantou a cabeça e falou assim à lebre:

— Tenho muita fome e meus filhos também.

Ando buscando comida.

— Venha conosco — disse a lebre —, se formos juntos a situação pode melhorar.

E assim, a lebre, a urraca e o raposo caminharam juntos, mas somente a lebre sabia que estavam seguindo os passos do transformador do tempo.

Por fim, chegaram a um bosque, cuja sombra das árvores foi um alívio para os três animais. A urraca se deteve para pegar algumas bagas de um arbusto, mas estas não foram do agrado da lebre e do raposo, que afastaram seus focinhos com repugnância.

Foi aí que, atrás de uma grande árvore, enxergaram a imponente figura de um lobo. Petrificados de terror, a lebre e o raposo permaneceram totalmente imóveis; quanto à urraca, guinchando atemorizada, levantou voo e foi pousar-se no ramo mais alto de uma árvore. O lobo, perturbado pelo barulho da urraca, virou-se e ficou diante do olhar assustado dos outros dois animais.

— Não se assustem — grunhiu o lobo —, sou demasiado velho para caçar.

A lebre avançou cautelosamente, pouco a pouco:

— Como você come se não pode caçar?, perguntou.

— Esse é o problema — respondeu o lobo —, pois tenho filhotes para alimentar. E baixando os olhos tristemente, acrescentou: Já não sou tão forte e veloz como era.

— Venha conosco — disse a lebre, com seus grandes olhos brilhando de emoção —, tenho um plano que pode ser de ajuda para todos nós.

— E qual é o plano? — perguntou a urraca, que tinha abandonado seu lugar seguro para participar da conversa.

— Vocês vão ver — disse a lebre. Na nossa frente está indo um transformador do tempo.

— Um transformador do tempo! — repetiram em coro os demais animais. E de que modo ele pode ser de ajuda para nós?

— O transformador do tempo não é um homem pobre — prosseguiu a lebre. Já o tenho visto guardar muita comida nas suas bolsas.

Ao ouvirem isto, os demais animais experimentaram um súbito interesse.

— Pois bem, o que eu sugiro é que você, amigo — disse indicando o raposo —, se deite numa vala e finja estar morto. A urraca fará ruído para atrair o transformador do tempo para você. Quando ele deixar suas coisas para ir ver você, o lobo e eu, que somos os mais fortes, lhe tiraremos as coisas e escaparemos.

— Mas, que acontecerá se ele me apanhar e me matar? — perguntou o raposo, que preferia não ser quem iria ficar na vala.

— Ele não vai apanhar — piou a urraca. Você pode saltar por cima das suas costas e escapar.

De má vontade, o raposo concordou com o plano:

— Mas, primeiro, disse, temos que alcançar o transformador do tempo, e nenhum de nós está podendo ir tão depressa, devido à nossa fraqueza por falta de comida.

A lebre esteve um momento pensativa e logo disse:

— O transformador do tempo se dirige a um povoado próximo. Pois bem, se formos pelo rio, o alcançaremos antes que ele chegue ali.

Os animais se dirigiram ao rio e, por sorte, encontram um grande tronco que boiava perto da margem. A lebre, o raposo e o lobo subiram ao tronco e logo deslizaram pela água em velocidade crescente, enquanto a urraca voava sobre suas cabeças, pronta para avisá-los quando divisasse o transformador do tempo.

Quando a urraca viu que já haviam passado na frente do transformador do tempo um trecho considerável, fez sinal aos animais para que descessem à terra. Isto não foi nada fácil, pois se viram obrigados a abandonai" o tronco e a alcançar, nadando à margem — uma experiência da qual a lebre poderia muito bem ter-se poupado.

Tal como a lebre havia planejado, o transformador do tempo, ao ouvir os gritos da urraca e ao vê-la voando sobre uma vala, deixou suas coisas e se aproximou para investigar. Quando viu o raposo esticado no fundo da vala, pensou que devia estar morto. "Tem um bonito pelo — pensou o transformador do tempo —, vou esfolá-lo". Mas, justo no instante em que introduzia a mão em sua chuba para pegar a faca, o raposo, incapaz de permanecer quieto um minuto mais, saltou fora da vala e escapou.

E, quando o transformador do tempo, surpreso, se virou para ver o raposo fugindo, pôde ver, também, rapidamente, o lobo e a lebre que desapareciam ao longe, levando as coisas dele, e eram seguidos nisso pelo raposo e pela urraca, afogueados.

Quando os animais se sentiram seguros, detive-ram-se para repartir os pertencentes do transformador do tempo. A astuta lebre se encarregou dos trâmites. À urraca deu o chapéu do transformador do tempo. Ao lobo deu as botas; e ao raposo, o grande tambor ritual. Para si mesma, deu-se toda a comida.

Os animais ficaram tão contentes com suas novas posses, que nem perceberam que haviam sido enganados pela astuta lebre, e todos partiram alegres, cada qual segurando firmemente seus mal-ad-quiridos lucros.

Mas, nem tudo saiu bem para os animais. O lobo, com suas botas novas, saiu para caçar ovelhas. Mas, impossibilitado por seu pesado calçado de correr ligeiro, tropeçou, e quase acaba morto ao ser pisoteado pelas ovelhas.

A urraca, com o enorme chapéu que quase lhe cobria o corpo inteiro, sentou-se embaixo de um iaque. Este lhe soltou um "bolo" enorme em cima do chapéu, apanhando a urraca e causando-lhe quase a morte por asfixia.

O raposo foi para a sua casa a reunir-se com a família, que esperava ansiosamente o seu regresso. Sua mulher e seus filhos se encontravam numa ponte que passava por cima de um impetuoso rio, esperando para dar-lhe boas-vindas. Ao aproximar-se da ponte e ver a família esperando-o ali, o raposo se pôs a golpear o seu tambor ritual tão fortemente, que seus filhos, assustados, se atiraram ao rio e se afogaram.

  Pouco tempo depois, todos os animais voltaram a se reunir. O raposo, a urraca e o lobo contaram seus infortúnios, mas a lebre permanecia sentada em silêncio, à sombra de uma grande árvore. Depois que os animais contaram suas histórias, todos eles se voltaram com ansiedade para a lebre. Esta falou assim:

— Amigos meus, cometemos um erro grave. O transformador do tempo tem poderes mágicos e, ao roubarmos seus pertences, atraímos a desgraça sobre nossas próprias cabeças. Vocês todos pensaram que saíram prejudicados, mas, olhem só para mim. E, dizendo isto, a lebre saiu da sombra da árvore que a havia mantido oculta até então. Também eu saí prejudicada, disse, pois. enquanto comia a comida do transformador do tempo, parti o lábio.

Os animais ficaram sem fala ao verem a rachadura no lábio da lebre, que chegava até o nariz. E a lebre continuou:

— Assim, todos os seres, humanos ou animais, quando me virem, saberão que fazer o mal somente traz sofrimentos para aquele que o faz.

E até hoje, passadas tantas gerações, a lebre leva ainda no lábio o sinal herdado de sua astuta antepassada.
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Notas
1. Trata-se, respectivamente, do damaru (palavra da mesma origem que "tambor", e o kapâla (aparentada com o grego kephalé, "cabeça"). O primeiro é um objeto ritual, que reproduz o "som da imortalidade". O kapâla (tibetano, thod pá) é o crânio de libações que contém a água da vida, objeto simbólico que vemos, na iconografia tibetana, acompanhando figuras como Padmasambhava ou Naropa, o mestre de Marpa, ou divindades terroríficas como Mahâkâla ou Cakra-samvara. 2. Trata-se de mudrás (tibetano, phyag-rgya), gestos rituais executados com as mãos. O sentido literal desta palavra é o de "carimbo", e, por analogia, designa uma atitude interior conformada a uma realidade arquetípica. Encontramos estes gestos nas íóguicas, na dança e na iconografia hindus, cuja essência, comum às três, foi "transvasada" ao budismo, onde encontrou uma plasmação quase sacramentai na imagem de Buda.

Fonte:
Jayang Rinpoche. Contos Populares do Tibete. (Tradução: Lenis E. Gemignani de Almeida).

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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