Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Olivaldo Júnior (Delicada)

Mulher na praia, de Silvério Reis
Era uma jovem de coração tão delicado que assustava. Não dava um passo além da luz que, como se estivesse num teatro, parecia iluminá-la. Sempre no centro de sua vida, Marina sabia bem o que dizer, quando dizer, como dizer, enfim, não perdia o foco, a força de sua voz, nem mesmo sendo tão delicada. Talvez, por isso mesmo, fosse tão forte. Nara Leão, segundo ouvi Maria Bethânia dizer numa entrevista, já ensinava: se estiver cantando num lugar com muito barulho, vá cantando mais baixo, pois, assim, você força a quem estiver falando alto a baixar o tom, o que nos leva a crer que silêncio demais também incomoda. Quantos decibéis, hein?

De coração tão delicado, delicadinho, Marina espraiava suas ondas azuladas como beijos frios na areia quente por onde passava. Um dia, um belo moço a trouxe à luz de sua história, e, juntos, formaram um casal. Totalmente o oposto de Marina, ele era bruto, não lhe dava tempo para dizer as coisas do jeito que ela gostava, como leves sussurros ao pé do ouvido numa noite de lua. Ensolarado, feroz, vociferava a qualquer gesto mais doce de sua amada, dizendo que não era fresco e que, se quisesse um maricas, que fosse procurar outro barco, em outra encosta, porque ele era macho, homem com h maiúsculo. Marina chorou. Não queria isso.

Terminado este namoro, sobrevieram outros, mas nada de encontrar um delicado coração que ao seu fizesse par. Bateria apenas solo um coração delicadinho como o dela? Não sei, mas, nos dias de hoje, mais se valoriza quem atropele o semelhante que quem ceda seu lugar ao outro. Gentileza é coisa rara, artigo de luxo, na loja de costumes. Acostumada a ser lívida, leve como a brisa de um verão que é quase outono, Marina estava um tanto desiludida. Seu coração, delicadinho, era amassado com frequência, e ela, sem defesa, se magoava e via seu coração, em pétalas, tão delicado, virar tapete. Olhando a si mesma, chorou, e o chão ficou inteiro em flor.

Hoje, numa praia de um litoral qualquer, Marina se rende ao som do mar e já não pensa muito em par ideal. Mantém acesa a delicada chama rubra que a mantém como a pessoa que ela foi e, se Deus quiser, sempre será. Magoa-se menos quando o amor naufraga nas ondas frívolas da ilusão, acreditando, ainda, no delicado azul que envolve o céu, que chove em nós quando amorosos, confiantes em que o delicado em nós não se perdeu. Ironia, sarcasmo, violência, tudo isso é parte do humano. Será que precisamos ser só isso? Estar só nisso? Marina acreditava que não. Fizera simpatia para Santo Antônio. Junho estava aí. Não, "não aprendeu dizer adeus".

Fonte:
O Autor

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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