Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 16 de janeiro de 2016

Contos Populares do Tibete (O Homem Bom)

Era uma vez um homem muito bom e generoso. Suas obras faziam-no querido e admirado por todos. Certo dia, chegou a seu povoado um lama muito famoso. O homem pediu para falar com o famoso lama, e quando este desejo lhe foi concedido, prostrou-se aos pés do santo homem e lhe falou assim:

— Queria chegar a ser um iluminado, cheio de compaixão e sabedoria, para poder ajudar a todos os seres vivos e dedicar a minha vida ao ensinamento de Buda. Que devo fazer?

O lama viu que o homem era sincero em suas intenções. Recomendou-lhe, então, que fosse às montanhas e que passasse a sua vida orando e meditando. Deu ao bom homem uma oração especial para invocar e lhe explicou que se assim procedesse continuamente e com grande devoção, então, poderia estar certo de que se converteria num iluminado, capaz de ajudar a todos os demais com sua sabedoria e compaixão.

O homem fez tal como o lama lhe havia recomendado. Partiu para as montanhas que rodeavam o povoado, entrou numa caverna e se pôs a meditar com o maior fervor. Durante muitos anos, foi perseverante, mas, apesar disso, não obteve a iluminação.

Passados vinte anos, o famoso lama visitou novamente o povoado. O homem bom soube da sua chegada e desceu da sua caverna nas montanhas para obter uma audiência com ele.

Teve de esperar muitos dias, pois muita gente fazia fila para ver o famoso lama e obter a sua bênção. Finalmente, lhe foi concedido ver o santo homem. Depois de lhe ter rendido homenagem prostrando-se três vezes aos seus pés, e de ter-lhe oferecido uma echarpe branca, o bom homem contou ao lama a sua situação:

— Tenho estado há vinte anos orando e meditando como o senhor me recomendou — disse —, mas ainda não obtive a iluminação. Devo estar fazendo algo errado. O lama adotou um porte solene e perguntou ao homem:

— O que eu lhe disse que fizesse?

O homem bom contou-lhe tudo o que havia estado fazendo durante os vinte anos.

— Oh! — disse o lama — temo que isso não tenha servido para nada. Foi errado o que eu lhe disse, e agora nunca mais obterá a iluminação.

O homem bom ficou desesperado, e, lançando-se aos pés do lama, chorou.

— Sinto muito, disse o lama, mas não posso fazer nada por você.

O homem bom, que já estava muito velho, sentiu que havia perdido vinte anos de sua vida. De volta à sua caverna, perguntava-se: "Que vou fazer? Durante todos estes anos, acreditei que poderia obter a iluminação e agora devo abandonar toda a esperança de alcançar esse objetivo.

Sentou-se sobre a laje que, durante vinte anos, tinha sido seu travesseiro, sua cama e sua mesa, cruzou as pernas, fechou os olhos e pensou: "Vou continuar com a minha oração e com a minha meditação, porque, que outra coisa, se não isso, poderia fazer agora?"

Assim, pois, sem nenhuma esperança de obter a iluminação, pôs-se a meditar e a invocar as orações que se haviam tornado tão familiares a ele, durante todo aquele seu longo retiro. E, imediatamente, obteve a iluminação. Viu o mundo em toda a sua realidade. Tudo estava claro. Compreendeu, por fim, que havia sido apenas a sua ânsia por obter a iluminação que o impedira de alcançá-la. Agora, poderia ajudar a todos os seres vivos a encontrarem a paz, graças a sua sabedoria e sua compaixão. Agora, abandonaria a sua caverna e voltaria ao mundo para espalhar os ensinamentos de Buda.

Saiu da sua caverna e contemplou o povo lá embaixo. Tantas vezes o havia visto antes, mas nunca com tanta claridade como agora. Por um momento, acreditou ouvir o doce riso do famoso lama, enquanto levantava os olhos para o céu e contemplava o imenso arco-íris que se estendia sobre os picos nevados.1
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Nota
1. Neste relato vemos um exemplo da colocação de prática, por parte do lama, de uma das virtudes (ou perfeições: paramitâ-s) do bodhisattva: a upâya-kausalva ou "habilidade nos meios".

Fonte:
Jayang Rinpoche. Contos Populares do Tibete. (Tradução: Lenis E. Gemignani de Almeida).

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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