Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 30 de janeiro de 2016

Contos Populares Portugueses (Os Dois Soldados)

Havia dois rapazes que eram muito amigos. Um era um ano mais velho do que o outro, de modo que, quando o mais novo sentou praça, já o mais velho tinha um ano de serviço militar. Eram muito bem comportados e andavam sempre juntos. Saiu o mais velho da praça, e voltou passados treze meses a visitar o amigo. Era um dia em que este estava de serviço ao quartel. O soldado pediu ao seu capitão dispensa do serviço, e logo que este soube que era para acompanhar o seu velho amigo e patrício dispensou-o do serviço, mas não o dispensou de recolher a certas horas.

Foram os dois amigos passear e entraram numa casa de comidas e bebidas. Conversaram, conversaram, até que foram avisados pelo dono da casa de que eram horas de fechar o estabelecimento.

- Pois que horas são?

- Meia-noite.

Ficou o soldado muito aflito: era a primeira vez que apanhava um castigo. Saiu da casa e o seu amigo ficou.

Próximo do quartel viu ele um sujeito montado num cavalo e notou que o cavalo trazia as patas enroladas em trapos. Espreitou.

O sujeito aproximou-se de uma casa alta, de cuja janela desceram pequenos fardos, mas muito pesados, e, no fim, uma senhora, que desceu por uma escada de corda. Em seguida, ela montou com o sujeito no cavalo, e este partiu a grande galope. O soldado trazia consigo a baioneta e foi seguindo o cavalo. A curta distância parou o cavalo, e o cavaleiro ordenou à senhora que se apeasse. Ela assim fez.

- Faça o ato de contrição, porque vai morrer - disse ele.

- Eu não fiz mal nenhum, por que razão me quer matar?

- Pois supunha que eu casasse consigo? Eu só queria o seu dinheiro. Agora estou governado, mas é preciso que morra aqui!

E, dizendo estas palavras, avançou para a senhora. A este tempo estava próximo o soldado, que arrancou a sua baioneta e matou o indivíduo, que era um terrível ladrão.

Em seguida, o soldado montou no cavalo a senhora e as malas e foi levar tudo à casa da infeliz. Esta deu ao soldado um lenço com moedas de ouro e pediu-lhe que todos os dias às onze horas lhe passasse defronte da casa. Ora a menina era filha de um mercador muito rico.

Dirigiu-se o soldado para o quartel ao romper da manhã e logo foi avisado pela sentinela de que o capitão estava muito zangado por ele faltar à hora do recolher.

Apresentou-se o soldado ao capitão, e tais foram as desculpas e tão bom era o seu comportamento, que não foi castigado.

No dia seguinte, pelas onze horas, passou o soldado defronte da janela do mercador, e a filha deste atirou-lhe outra bolsa de dinheiro, que ele apanhou. Repetiu-se isto mais vezes, até que o soldado entendeu que fazia um pecado em receber aquele dinheiro. Dirigiu-se a uma igreja e encontrou um cardeal, a quem pediu que o ouvisse de confissão, e nesta contou tudo. O cardeal aconselhou-o a que apanhasse o dinheiro, visto que a senhora lho dava. No outro dia, passou o soldado defronte da loja do mercador e viu lá o cardeal, que o chamou. Estiveram conversando por algum tempo, o suficiente para o soldado ficar a saber que o cardeal era irmão do mercador, e portanto tio da senhora que ele salvara da morte.

Logo que foram horas de jantar, foi o soldado convidado a jantar, convite que aceitou.

No fim do jantar, disse o cardeal para o irmão:

- Se a tua filha fosse salva por um homem, que farias tu?

O mercador respondeu:

- Se esse homem fosse solteiro, dava-lhe a minha filha em casamento.

Então o cardeal pediu ao irmão que desse a sua filha em casamento ao soldado.

Deram-se todas as explicações que o caso exigia e o nosso soldado casou com a filha do mercador.

Fonte: Viale Moutinho (org.) . Contos Populares Portugueses. 2.ed. Portugal: Publicações Europa-América.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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