sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 77 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

No trinado de um chorinho,
fala a música por mim...
da sacada, o seu lencinho
ela acena e diz que... sim!
= = = = = = = = =  

Soneto de
ANÍBAL BEÇA
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Soneto quebradiço

Mão minha com maminha movediça
traçando vai na limpa areia branca
versos cambaios, frouxos, na liça
língua caçanje, claudicante, manca.

No pé quebrado o ritmo se atiça
para dançar com rimas pobres, franca
trança de cambalhota tão cediça,
que me corrompe o salto e que me estanca.

Queda de braço nas quebradas quebras
vou me quebrando como um bardo gauche:
pelas savanas sou mais uma zebra.

Mas consciente desse torto approuch
já me socorre a gíria de alma treta
para solar meu solo nos ouvidos moucos. 
= = = = = = = = =  

Trova de
RITA MOURÃO 
Ribeirão Preto/SP

Ante a bandeira hasteada
revendo as lutas, conceitos,
o pobre sem pão, sem nada
pede à pátria os seus direitos.
= = = = = =

Poema de
SILVIAH CARVALHO
Manaus/AM

Seu amor é tudo

Antes que seja aprisionada pelo seu sorriso,
E sinta que a vida não fará mais sentido sem você
Antes que tenha certeza que você é tudo que preciso
Antes que eu perca a razão e no amor volte a crer

Antes que sua solidão misture com minha carência
E suas mãos toquem novamente as minhas
Antes que eu seja vencida por minha impaciência
E passe a crer que perto de você eu não esteja sozinha

Eu voarei rumo aos pinheiros, perto da tristeza
Onde as noites são frias, os dias são longos
Eu estarei a meditar na sua simplicidade e pureza

Na paz que emana de você, na sua doçura e nobreza
Eu irei pensar no silêncio da minha incompreensão
Não diga nada, talvez eu não resista à dor de um sincero não

Eu cheguei no tempo que é para ti a alto-reconstrução
Em que preferes a solidão latente no seu meigo olhar
Eu irei antes que, seja dominada pelo desejo de ficar

E quando este papel envelhecer,
Saiba que esta poetisa que hoje te escreve apesar
De nada ser, desejou ter tudo, e este tudo é você.  
= = = = = = = = =  

Trova de
ADELIR MACHADO
São Gonçao/RJ, 1928 - 2003, Niterói/RJ

Quanta harmonia esquecida
no mundo sem coração
que deixa a infância perdida
nas ruas da solidão.
= = = = = = = = =  

Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Não darei um só passo onde me prenda
(Fernandes Valente Sobrinho in "Poemas Escolhidos", p. 101)

Não darei um só passo onde me prenda
O espectro de um amor que já passou
E o resto de um sorriso que raiou
Que fazem com que agora eu me arrependa.

Mas este coração não tem emenda
E sonha com o que ainda não achou
E de todos os gostos que provou
Elege o teu beijar de que faz lenda.

Procuro outros caminhos onde passe
Sem ver em cada rosto a tua face
Trazendo o que a teu lado eu já vivi.

É falsa a tentativa dos meus passos
Que lembrando o calor dos teus abraços
Simplesmente me levam para ti.
= = = = = = = = = 

Trova de
AMÁLIA MAX
Ponta Grossa/PR, 1929 – 2014

Eu só conquistei da vida,
por mais que forçasse os braços,
uma fronte embranquecida
e um coração em pedaços.
= = = = = = = = =

Poema de
AFONSO FREDERICO SCHMIDT
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP

Simpatia

Numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrada vão:
o cão estima a criança,
e a criança estima o cão.

Que delicada aliança
dos seres da criação:
uma risonha criança,
um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança
e sorriu lá na amplidão:
ele gosta da criança,
que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,
os dois felizes lá vão:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.
= = = = = = 

Trova de
CLARINDO BATISTA DE ARAÚJO
Jardim do Piranhas/RN, 1929 – 2010, Natal/RN

Cada dia mais tristonho
carrego o peso das eras,
vendo afogar-se meu sonho
num dilúvio de quimeras!
= = = = = = = = =  

Poema de
FILEMON MARTINS
São Paulo/ SP

Meu verso

Meu verso vem do Nordeste, 
vem do roçado, vem do Sertão, 
vem das veredas lá do agreste, 
vem das cacimbas e dos grotões. 

Meu verso vem dos garimpos, 
das catras dos garimpeiros, 
da coragem dos vaqueiros 
vestidos no seu gibão, 
vem do sereno da noite 
do perfume do Sertão. 

Meu verso simples, sem medo, 
vem do sítio, do rochedo, 
vem do povo do Sertão, 
que com a luz do arrebol 
trabalha de sol a sol 
para ganhar o seu pão. 

Vem da Serra do Carranca 
onde a beleza não manca, 
e a onça faz sentinela. 
Da Serra da Mangabeira 
onde a Lua vem brejeira 
tecer a renda mais bela. 

Meu verso vem da goiaba, 
do puçá e da mangaba, 
da seriguela e do mamão. 
Da pinha e da acerola, 
da atemoia e graviola 
plantadas no roçadão. 

Nasceu na bela Umbaúba, 
Boa Vista, Bela Sombra, 
na Lagoa de Prudente, 
na Chiquita e no Vanique, 
onde há muito xique-xique 
e o sol parece mais quente. 

Brejões, Lagoa do Barro, 
Santo Antonio, Traçadal, 
Olho D´Água, Rio Verde, 
Baixa dos Marques, Coxim, 
Ibipetum, depois Pintada, 
onde passa a velha estrada, 
Zequinha e Lamarca morreram. 

Sodrelândia, Deus me Livre, 
Pé de Serra, Poço da Areia, 
Riacho das Telhas também. 
Poço do Cavalo, Matinha, 
Mata do Evaristo e Veríssimo, 
Olhodaguinha e Ipupiara. 

Meu verso nasceu no mato, 
não tem brilho, nem ornato, 
vem do Morro do Mocó, 
da Serra do Sincorá, 
vem do morro do Araçá, 
nasceu pobre e vive só...
= = = = = = = = =  

Poetrix de
VALQUÍRIA CARDARELLI
São Paulo/SP

Mundo da lua

Nos olhos
Nada de mim:
Apenas sonho(s)
= = = = = = 

Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN+

Caminho do sertão 
(a meu irmão João Câncio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço
Vê-la através da mata. Nos caminhos
A sombra desce; e, sem achar descanso,
Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

É noite já. Como em feliz remanso,
Dormem as aves nos pequenos ninhos...
Vamos mais devagar... de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.

Brilham estrelas. Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece
Que a noite ensina ao desespero e à dor...

Ao longe, a Lua vem dourando a treva...
Turíbulo imenso para Deus eleva
O incenso agreste da jurema em flor.
= = = = = = 

Trova de
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
Bauru/SP

Quase um dilúvio parece,
a forte chuva lá fora,
unida ao pranto que desce
nesta saudade que chora!
= = = = = = = = =

Hino de 
AÇUCENA/ MG

Salve Açucena, terra querida!
Jubilosos te dedicamos um hino!
Repletos de encanto e de vida,
Muito promissor é o teu destino!

(Refrão)
Recebe o afeto, que sincero parte.
De cada peito de um filho teu.
Este procura, com espontânea arte,
Dar-te um brilho como sendo seu.

As tuas montanhas, sempre verdejantes,
Apontam mui risonhas, o teu porvir.
As tuas brisas puras, refrigerantes,
Calcam o viajor ao teu seio vir.

A ti, com perfeita serenidade,
Que faz lembrar noite de luar amena,
Os teus filhos, com felicidade,
Bendizem, unânimos, ó Açucena.
= = = = = = = = =  

Trova de
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
Niterói/RJ, 1929 – 2012, Rio de Janeiro/RJ

O céu, o ar e o luar,
a mata, animais e flores...
E o homem quer acabar
essa harmonia de cores!...
= = = = = = = = =  

Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

Tempo de escola

Logo quando amanhecia!
Mamãe entrava a chamar:
- Vamos crianças levantem!
Está na hora de estudar.

Levantava-me com pressa,
No meu rio ia banhar
Mas antes de alguém sair,
Tinha de a cama arrumar.

Quando tudo terminava...
Mamãe da mesa chamava:
- Venha tomar seu café!

Pra não chegar atrasada,
Corria naquela estrada,
Porque ia mesmo a pé.
= = = = = = = = =  = = = = 

Trova de
HÉRON PATRÍCIO
Ouro Fino/MG, 1931 – 2018, Pouso Alegre/MG

Dentro da noite, um chorinho
cai do silêncio, em cascata...
É o soar de um cavaquinho
dando tons à serenata!
= = = = = = = = =  

Cantiga Infantil de Roda
CADÊ?

Cadê o toucinho que tava aqui? 
O gato comeu.
Cadê o gato? 
Foi pro mato.
Cadê o mato? 
O fogo queimou.
Cadê o fogo? 
A água apagou.
Cadê a água? 
O boi bebeu.
Cadê o boi? 
Tá amassando o trigo.
Cadê o trigo? 
A galinha ciscou.
Cadê a galinha? 
Tá botando o ovo.
Cadê o ovo? 
O padre comeu.
Cadê o padre? 
Tá rezando a missa.
Cadê a missa? 
Tá dentro do livrinho.
Cadê o livrinho? 
Foi pelo rio abaixo.
Vamos procurar o livrinho?
= = = = = = = = =  

Quadra Popular 

Teus vestidos eu não acho
muito decentes, minha prima:
são altos demais por baixo
e baixos demais por cima.
= = = = = = = = =  

Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

O toque do teu vento

Os sons dos sinos de vento
Embalam a solidão
Que fragmenta a ampulheta,
E refugia-se no vitral
Da janela antiga,
Trincada com o toque
Do  teu vento,
As cores voam,
E pousam na taça de cristal.
= = = = = =

Trova de
JOÃO FREIRE FILHO
Rio de Janeiro/RJ, 1941 – 2012

Sonhando horizontes novos,
pela harmonia que irmana,
vislumbro a paz entre os povos
à luz da harmonia humana!
= = = = = = = = =

Poema de 
ANTÓNIO SILVA GRAÇA
Moçambique, 1937 – 2019, Lisboa/Portugal

Fusão das Liturgias

Fusão física de cores
que recolho em fios de luz.
Luz suspensa na noite,
instante caído de uma pétala.

 Leio as nuvens e reparo
que o léxico celeste confere
uma vontade sólida.
 
Na solidez deste dia
vou separando as águas da minha mitologia
das outras que retornam, serenas.
As horas são agora
modelos equilibrados
da organização do tempo.

 E os dias,
revoltas de uma qualidade sóbria.
A luz deixou de ser de bronze
para ser um fio dolente
iluminando com minúcia cada hora.

 No cadinho liso do silêncio
fundo liturgias.
= = = = = = 

Trova de
JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO
Vila Nova de Famalicão/Portugal, 1922 – 2004, Rio de Janeiro/RJ    

A gente, às vezes, a exorta
mas raramente a procura...
E a Harmonia é a grande porta
por onde passa a Ventura!
= = = = = = = = =  

Poema de 
JOAQUIM NAMORADO
Alter do Chão/ Portugal (1914 – 1986) Coimbra/ Portugal

Um traço largo e profundo
debrua um corpo cansado,
sob a forma rígida de um braço
desenha-se o músculo empedernido
dos trabalhos.
Mapa da vida o teu rosto.
lavrado pelo trabalho,
um pergaminho vincado
da cicatriz da amargura.
Mas no fundo dos teus olhos,
tão firmes e tão seguros,
raia a certa madrugada
dos mundos futuros.
= = = = = = = = =

Trova de
MILTON NUNES LOUREIRO
Campos/RJ, 1923 – 2011, Niterói/RJ

Podem chamar-me os ateus
de tolo ou mesmo demente,
mas harmonia, só Deus
põe dentro da alma da gente...
= = = = = = = = =

Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

Ironia de Natal

Disseram que meu pai tinha viajado,
mas não saiu de mala nem sacola...
E tudo desde então ficou mudado.
Venderam meu carrinho e minha bola...

E aos poucos, eu fui vendo, desolado
morrer o passarinho na gaiola.
O fogão cada vez mais apagado
e meus irmãos deixarem de ir à escola...

Depois era preciso "se mudar";
um homem trouxe escrito num papel
que minha mãe, ao ler, pôs-se a chorar...

Era Natal e minha mãe, descrente,
saindo às ruas, qual Papai Noel,
foi dando os filhos todos de presente…
= = = = = = = = = 

Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

A solidão me angustia
e à noite aumenta o meu drama,
vendo a cadeira vazia
que a tua ausência reclama!
= = = = = = 

Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Talentos

Se eu tivesse talento de um pintor,
ia passar a vida a retratar
o teu rosto a sorrir, meu grande amor,
razão de meu viver e meu sonhar!

Se meu engenho fosse de escultor
talentoso, eu iria trabalhar
dia e noite, buscando com ardor,
tua imagem da pedra retirar...

Mas meu talento é pouco para tanto,
eu só posso sonhar com teu encanto,
sem jamais conseguir representá-lo.

Pois nem sequer eu numa simples trova
consegui retratar-te, como prova
de quanto és linda, para meu regalo!
= = = = = = 

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Daquele amor proibido
eu guardo, da mocidade,
um lenço amarelecido
e um dilúvio... de saudade!
= = = = = = = = =

Poema de 
ARTHUR RIMBAUD
França, 1854 – 1891

A Eternidade
 
De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? – A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
(Tradução: Augusto de Campos)
= = = = = = 

Trova de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Eu sempre lutei sentindo,
nesta arena em que se vive,
a mão de Deus dirigindo
cada conquista que eu tive.
= = = = = = = = =

Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
Ouro Preto/MG, 1870 – 1921, Mariana/MG

Os cavalos de fogo

A luz dissolve as pedras. E os cavalos
de fogo se projetam contra o vento.
Lá se vão eles, potros de ar sangrento,
por entre os sóis que intentam sufocá-los.

Lá se vão eles, potros de ar cinzento,
como se a própria luz incendiária
lhes desse uma aparência imaginária
de cor, de som, de céu em movimento.

E então o céu me envolve. Eis que me arrasta
o seu raro esplendor, o trepidante
fremir de intenso azul. No alto me espera

uma forma incorpórea, a visão casta
do que fascina e queda agonizante...
— Campo do amor chamando a primavera.
= = = = = = 

Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

Com refulgências estranhas
de ternura e de calor,
são duas gemas castanhas
os olhos do meu amor!
= = = = = =

Carol Canabarro (Alter ego)

Escrever uma crônica sobre alguém que impactou minha vida parece simples e objetivo. Parece. Para identificar essa pessoa, precisei revisar meus passos, observar aonde meus pés pisaram em pegadas já existentes e aonde, propositalmente, desviaram. Foi uma longa caminhada.

Quando criança, assistia na TV minha princesa favorita. Queria ser como ela. Uma jovem loira, olhos claros, personalidade forte e justiceira. Uma vez até me fantasiei dela. Depois cresci e abandonei Adora em Etheria, bem no fundo de uma gaveta no meu subconsciente.

Ao me apaixonar pelo handebol, sofri influência do meu irmão (que sempre jogou melhor do que eu), de algumas jogadoras europeias e do Ayrton Senna. Compartilhando seu dia a dia, meu irmão logo perdeu lugar na fila, das europeias fiquei só com o corte de cabelo. Ter um joelho esquerdo frágil dificultou seguir seus passos. Já Senna, um fenômeno na vida pessoal e profissional, dispunha de ferramentas que o permitiam acelerar em curvas que meus pés não puderam acompanhar.

Por gostar de mitologia, admirava Atenas. Deusa da sabedoria e da guerra. Li muito sobre ela, o que acabou separando nossos caminhos. Suas intemperanças não condiziam com o título e acabei deixando ela para lá. Como pode seres tão poderosos ser tão chiliquentos? Fica difícil louvar. Qualquer que seja o deus ou deusa.

Por um período, me voltei para família. Avó, pai, mãe, dinda, tia, tio, sogra. Fantásticos. Em comum, todos davam o melhor de si diante das adversidades. Mas eles também bateram muita cabeça. Às vezes, a minha. Continuavam no hall dos admiráveis, mas não chegaram a ser ídolos. Humanos demais.

De tempos em tempos, me apaixono. Já tive fase Da Vinci, genial em tudo que fazia; Érico Veríssimo, com sua escrita historicamente referenciada; Fernanda Montenegro, capaz de interpretar as mais diversas emoções com maestria; Dercy Gonçalves, de boca livre e peito (metafórico e literal) desnudo; Gabriela Prioli, sendo (bem) mais do que um rostinho bonito; Viola Davis, com o poder de transcender toda uma indústria. Porém, em algum ponto o caminho deles se separa do meu. Pode ser pelo tempo em que viveram, pelas condições que tiveram ou pelas aspirações que sobraram ou faltaram. Como se me dessem a mão por parte do trajeto, mas nunca trilhassem o percurso inteiro comigo.

Na música, as referências são muitas, de Aretha Franklin a Zeca Pagodinho. Meu gosto é eclético, feito criança escolhendo cobertura em buffet de sorvete. Se o cantor ou cantora tem algo a dizer, ouço e aplaudo. Mas não durmo na fila para comprar ingresso. Na trilha sonora da minha vida cabe todo tipo de artista, desde que ele use sua voz para dar voz. Falar por falar, até ventríloquo fala.

Revisando minha vida, encontrei pegadas da Dona Claudete, funcionária do prédio, que sempre sorri e faz questão de chamar todos os condôminos pelo nome. Achei também a profe Jurema, com seu puxão de orelhas que me faz refletir até hoje sobre ser solidária com meus pares e esperar os diferentes tempos de aprendizado. Gente que passa por mim e deixa sua marca. Umas tatuagens maiores, outras menores, todas permanentes.

É como se eu olhasse a todos e todas feito estrelas-guia, que me orientam até certo ponto e, depois, sou eu quem precisa desbravar a mata com minha própria espada. Sem contar as falsas estrelas: aqueles que mostram o caminho que não deve ser seguido. Desses, evito dar nomes, porque a crônica é para enaltecer e me nego a registrar seus nomes na história. Pelo menos não na minha.

Sou uma mistura, uma rede de cada um que cruzou minha vida e que ainda irá cruzar. Sim, a crônica sobre alguém especial é possível, mas exigiria livros e livros para me satisfazer. Escolher um é negar todos os outros. E morro de medo de ser injusta.

Deve ser meu lado She-ra gritando para sair da gaveta.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Carol Canabarro, é de Porto Alegre/RS, apaixonada por literatura e animais. Foi atleta, garçonete, especuladora financeira e professora. pós-graduanda em Literatura, Arte e Filosofia da PUC-RS. Escritora, formada no curso de Escrita Criativa da Metamorfose, autora de "Mirando o gol, acertando as estrelas".
Fontes:
https://www.carolcanabarro.com.br/
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Geraldo Pereira (Os Caminhos de Lili)


Esse traçado urbano que percorro agora, sob os acordes mais que nostálgicos da orquestra de frevo, foram os meus caminhos também em tempos idos e vividos. Velhas igrejas erguidas na frouxidão do mangue, ruas antigas enfeitadas com trilhos. Tudo isso me traz de volta um passado assim revivido, durante o desfile do Nem Sempre Lili Toca Flauta. Um bloco que sai no Recife, mas chega a Tóquio, na palavra escrita em bom português por Harumi Royama, morta de saudades das alamedas estreitas de São José, sem saber ainda das mudanças no roteiro das lembranças. Onde estão as lojas de minha infância? Os lugares dos meus presentes de Natal? Cantos ou recantos das escolhas carnavalescas, do quepe de almirante ou do gorro de marinheiro! O meu pai fazia questão de sair no sábado de Zé Pereira, andar pela cidade e comprar o lança-perfume, a fantasia e os confetes.

A Casa do Atleta e a Casa do Esporte, a Capa Argentina e a 4.400! A Editora Nacional e depois a ponte, a Sloper e a Viana Leal! Não passei na Sertã, onde estava o consultório do meu tio, em cujas mãos zunia a broca que escavacava os meus dentes. E o sanduíche da Confiança? Pão de caixa prensado e o queijo se derretendo! Ou o sorvete do Gemba e o chá da Casa Matos? Tudo isso está gravado na minha memória! Tudo isso eu pude reviver ao som do frevo cantado e da manhosa musicalidade, revendo os meus dias da adolescência, que se foram nas brumas do tempo. Mais ainda com o passeio a Bezerros, onde os mascarados, papangus, fazem a festa o dia inteirinho, com o abraço caloroso e a saudação ruidosa. Não fosse a higiene do banheiro público, muitos teriam ficado na cidade até a noite chegar!

Na volta, uma parada em Gravatá para degustar um feijão verde bem cuidado e um bode guisado, contando com o acolhimento do Sr. Camilo Brito, português bom de prosa, leitor dos fatos antigos, das origens nacionais e das viagens de seus patrícios às terras do Brasil. Dado ao cultivo de belas orquídeas e no antes do tempo caçador sem histórias. Arraigado à melosidade do fado, que canta a tristeza, atiçando as saudades. Na casa ao lado, entretanto, o som deixava escapar vozes diferentes daquelas que Momo reconhece: “Quem eu quero não me quer/Quem me quer mandei embora/...” Chego mais perto e permito ao imaginário fantasiar o momento, considerando que o dono do bangalô era um cinquentão saudosista que não gosta do tríduo! Prefere ouvir a melodia das saudades.

O melhor de tudo, porém, no Carnaval que se foi, como tantos outros, está no presente que recebi de vizinho meu, Guedes de sobrenome. Uma cópia de gravação antiga da Banda do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal. Ali está a sonoridade dos meus começos! Versos puros de meus princípios, de vivências que experimentei quando era imberbe quase! Ficava horas ouvindo As Pastorinhas ou A Dama das Camélias, o Rasguei a Minha Fantasia ou o Hino do Carnaval Brasileiro. Naqueles distantes antanhos poucos tinham radiola em casa e poucos podiam deliciar-se com essas músicas. Mas, a vizinha do lado, que só me procurava quando precisava remendar o pneu da bicicleta Monark, tinha um equipamento assim e gostava de rodar essas belezas todas. Como ouvir a ninguém incomoda, eu também escutava!

E a quarta-feira chegou, amanheceu com o mundo parado e as cinzas nas avenidas e nas ruas, menos nas alamedas dos meus sonhos e de meus devaneios, nos quais reina a majestade das recordações, acomodada no trono doirado das lembranças.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.
Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
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Dicas de Escrita (Como fazer um Prefácio)

Um prefácio de livro é um texto introdutório que geralmente apresenta o livro ao leitor, contextualizando a obra e, em alguns casos, o autor. Ele serve para criar uma conexão inicial com o leitor, despertar seu interesse e prepará-lo para a leitura. 

Como fazer um prefácio:

1. Decidindo quem escreverá o prefácio:

Pode ser o próprio autor ou outra pessoa, como um colega escritor ou especialista. 

2. Apresente o livro e o autor:

Brevemente, introduza o tema do livro e, se for o caso, o autor, suas motivações e trajetória. 

3. Contextualize a obra:

Explique o contexto em que o livro foi escrito, as razões que levaram o autor a escrever, as fontes utilizadas, as dificuldades enfrentadas, etc. 

4. Crie uma conexão com o leitor:

Utilize uma linguagem envolvente, desperte a curiosidade e mostre o valor da obra para o leitor. 

5. Seja instigante:

Deixe o leitor curioso para saber mais sobre o livro, mas evite spoilers. 

6. Estruture o prefácio: 

Abertura: Comece com uma frase impactante que prenda a atenção do leitor. 

Desenvolvimento: Apresente as informações relevantes sobre o livro e o autor. 

Conclusão: Encerre com uma mensagem que reforce o valor da obra e convide o leitor a continuar a leitura. 

O que incluir no prefácio:

Apresentação do autor:
Se for um autor iniciante, o prefácio pode ser uma oportunidade para apresentar sua trajetória e experiência. 

Motivação para a escrita:
Explique as razões que levaram o autor a escrever o livro. 

Contexto histórico e social:
Dependendo do tema do livro, pode ser útil contextualizar a obra em seu tempo. 

Processo criativo:
Detalhes sobre como o livro foi escrito, as dificuldades enfrentadas e as fontes utilizadas. 

Impacto da obra:
Pode-se mencionar o impacto que o livro pode ter nos leitores ou em determinado público. 

Agradecimentos pelo autor:
É comum que o autor agradeça a pessoas ou instituições que o ajudaram na produção do livro. 

Dicas:

O prefácio não deve ser uma análise crítica da obra. 

Evite revelar detalhes que possam estragar a surpresa do leitor. 

Seja breve e objetivo, um prefácio muito longo pode desmotivar o leitor. 

Se o livro for uma reedição, o prefácio pode explicar as mudanças e novidades da nova versão. 

Se o livro tiver um prólogo, o prefácio pode complementar a introdução, apresentando o autor e o contexto. 

Lembre-se que o prefácio é um espaço para criar uma conexão com o leitor e apresentar a essência da sua obra.

Fontes:
Texto obtido com IA do Google
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