sábado, 23 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 78 *


Poema de
Antero Jerónimo
Lisboa/Portugal

Joga borda fora os desejos sem rumo 
o marasmo dessa vontade à deriva
com que renuncias às coisas simples do mundo. 
Vive o momento…
= = = = = = = = =  

Trova de
Georgina Ramalho
Rio de Janeiro/RJ

Que bela nossa existência
a correr, pipa empinando...
Nossa alma é, na essência,
uma criança brincando.
= = = = = =

Poema de
Fernando Pessoa
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
= = = = = = 

Trova de
Ercy Maria Marques de Faria
Bauru/SP

Renúncia é uma ponte estreita,
onde das extremidades,
pode-se ouvir sempre à espreita,
chorando duas saudades...
= = = = = = 

Soneto de
João Batista Xavier Oliveira
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP

O bem maior

Entre nós uma lança em duas pontas
voltadas bem direto a nosso peito,
porém compreensão com o respeito
são atributos de insondáveis montas.

Na conta permanente do direito
espaços dão às asas, sempre prontas,
os ares das visões do preconceito
e afastam as algemas tão medrontas.

É assim que um grande amor entre pessoas
atrai as vibrações das almas boas
com a esperança de um mundo melhor.

Respeito o teu espaço em todo meio
assim como respeitas meu passeio.
Nosso trabalho ao bem é bem maior!!
= = = = = = 

Trova de
Maria Aparecida F. de Vasconcelos
Santos/SP

A essência do trovador
está na sua humildade
de lindas trovas compor
com amor e humanidade.
= = = = = = 

Soneto de
Castro Alves
Freguesia de Muritiba (hoje, Castro Alves)/BA (1847 – 1871) Salvador/BA

Último Fantasma

Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...

Baixas do céu num voo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!...

Onde nos vimos nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...

Quem és tu? Quem és tu? — És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!…
= = = = = = = = =  

Trova de
Rita Mourão 
Ribeirão Preto/SP

Para ter felicidade,
ao buscá-la eu pressuponho,
que seja qual for a idade
felicidade é ter sonho.
= = = = = =

Soneto de
Aníbal Beça
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Simples soneto

Desejado soneto este que é escrito
sem as firulas graves do solene,
que leva na palavra o simples rito
da fala cotidiana. Não condene

no entanto, a falta de um estro especioso,
nem de brega rotule esse meu vezo.
Apenas sinta o som oco e poroso
do fundo mar de anêmonas, o peso

rarefeito das algas nos peraus.
Essa cantiga filtra nossos medos,
as culpas e os tabus, e dá-me o aval

para buscar o simples e em querê-lo
ornamento de estética espartana
na faxina ao supérfluo que se espana.
= = = = = = = = =  

Trova de
Zaé Júnior
Botucatu/SP, 1929 – 2020, São Paulo/SP

Brancas, rubras, amarelas,
de rosas colho um balaio!
Mas te ofereço as mais belas,
as rosas rosas de maio!
= = = = = =

Poema de
Silviah Carvalho
Manaus/AM

A súplica do beija-flor

...Quanto a mim, da solidão me vesti,
Vi sangrar o meu coração sem paz,
A segredar à noite tudo que vivi,
Reluto sozinha, não volto atrás.

O sossego das noites não refrigera meus dias,
Poeta beija-flor... Perdi essa identidade!
Exilada morro aos poucos e comigo a poesia,
Tantos “não” que do “sim”, sinto saudades.

Quisera ressuscitar-me, não mais amar...
Já não percebo do amor o fulgor,
Só o silencio que sua ausência deixou.

Eu preciso me redescobrir no teu olhar,
Voar na essência e sabor do seu vasto jardim,
Alimenta esse beija-flor, traga néctar pra mim...
= = = = = = = = =  

Trova de
Raymundo de Sales Brasil
Santo Amaro/BA

A cor dos teus olhos faz
o que só fazem os vinhos:
Me embriaga e é bem capaz
de embriagar os vizinhos.
= = = = = =

Poema de
Domingos Freire Cardoso
Ilhavo/ Portugal

Enerva-me esta chuva impertinente
(Fernandes Valente Sobrinho in "Poemas Escolhidos", p. 127)

Enerva-me esta chuva impertinente
Que tomba lá dos céus feitos de breu
E as gotas são o pranto que nasceu
De nuvens que tivessem dor de gente.

O vento ainda faz mais repelente
Cada pingo que o meu rosto ofendeu
Lágrima que do ar se desprendeu
Como um cristal da mágoa que alguém sente.

A chuva tudo alaga, tudo invade
Deixando o fino véu dessa umidade
Caído pelo chão, pênsil dos ramos.

E sobe uma revolta ao meu olhar;
Por que há de a Natureza assim chorar
Do modo como nós também choramos?
= = = = = = = = = 

Trova de
Ana Maria Guerrize Gouveia
Santos/SP

Desperta-me a Paz de um grito: 
quando os sonhos são diversos... 
rebuscando no infinito, 
o amor com Chuva de Versos!!!
(dedicado ao Almanaque Chuva de Versos, de josé Feldman)
= = = = = =

Poema de
Afonso Frederico Schmidt
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP

Os pequenos varredores

Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...

Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.

De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.

Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.

Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.

E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa…
= = = = = = 

Trova de 
Carolina Ramos
Santos/SP

Pequenino grão latente,
que brota e aos poucos se expande,
criança é humana semente,
na conquista de ser grande.
= = = = = =

Soneto de
Filemon Martins
São Paulo/ SP

Garimpando a felicidade

Vou garimpando pela vida afora
a lição de Humildade que conforta
e traz ao coração a Luz da aurora,
mesmo que a crença já pareça morta.

De solo em solo, busco sem demora
o cascalho do Amor que aduba a horta.
Busco a pedra da Fé, que revigora
e prepara o caminho abrindo a porta.

Não quero, meu amigo, andar a esmo,
minha sorte depende de mim mesmo,
que a vida pode ser melhor assim.

E se meus passos forem tão errantes,
buscando joias, pedras, diamantes,
- não haverá felicidade em mim!
= = = = = = = = =  

Poetrix de
Geraldo Trombin
Americana/SP

Fundo musical

Pisou fundo no acelerador,
Bateu de frente com o infortúnio.
Marcha fúnebre!
= = = = = = 

Cantiga Infantil de Roda
Rock Do Ratinho
(Cyro de Souza)

Era uma vez um ratinho pequenino
que namorava uma ratinha pequenina
e os dois se encontravam todo dia
num buraquinho na esquina

rock rock rock rock rock
é o rato e a ratinha namorando
rock rock rock rock rock
é o rato e a ratinha se beijando

o ratinho lhe trazia todo dia
um pedaço de toucinho fumeiro
um tiquinho de manteiga, um queijinho
e um pouquinho de manteiga no focinho

rock rock rock rock rock
é o sino da igreja badalando
rock rock rock rock rock
é o ratinho e a ratinha se casando…
= = = = = = = = =  

Quadra Popular

Na rua não sei de onde
puseram não sei que santo,
pra rezar não sei o quê,
e ganhar não sei lá quanto.
= = = = = = = = =  

Poema de
Vanice Zimerman
Curitiba/PR

Janela de sonhos...

A janela entreaberta
Ainda à espera
Dos sons da tua volta...
Há tanto silêncio
Em tua ausência,
Que inquieta  a alma...
Busco teu olhar, tuas mãos
E não as encontro,
Encontro à saudade
Que se despe
Das rendas tecidas de poesias
E deságua
Em lágrimas…
= = = = = =

Poetrix de
Anthero Monteiro
São Paio de Oleiros, Santa Maria da Feira/Portugal

Morte 

uma cadeira vazia na alameda
sentada numa tarde de outono
a olhar o meu ponto de fuga 
= = = = = =

Soneto de
Jerson Brito
Porto Velho/RO

Alforria!

Os meus devaneios perfumas, adoças
Fervente desejo se alastra, domina
Persigo no sonho essa boca ferina
Procuro o sabor das carícias tão nossas

Não deixes sedentas de amor belas taças
Permitas que o mel do prazer entre em cena
Não prives de luz e esplendor minha pena
Injusto é manter nestes versos mordaças

Aflige-me tanto esperar outra chance
De ver vicejando o gostoso romance
Repleto de cores, fulgor, alegria

Revolta-se o canto sem ter alimento
Em vão é conter tal impulso... Nem tento!
As letras suplicam sem pejo: "alforria!"
= = = = = = 

Trova de
José Kalil Salles
Barbacena/MG

Amor é brasa vibrante
no peito dos sonhadores,
dos poetas, dos amantes
e também dos trovadores.
= = = = = = 

Folclore Brasileiro em Versos de
José Feldman
Floresta/PR

O Boto cor de rosa

Em um rio profundo, um encanto a surgir,
é o Boto, o sedutor nas noites de luar,
com seu corpo elegante e brilhante olhar,
transforma-se em homem… com o amor a emergir.

As moças encantadas ao som do seu cantar,
sentem seu perfume, a volúpia despertando,
mas ao amanhecer é um mistério pairando,
o Boto desaparece deixando a saudade a flutuar.

Ele é o amante das águas serenas,
com segredos guardados, e histórias amenas.
Na dança das marés, um sonho a vagar,

e enquanto a lua reflete no rio,
os corações pulsando um doce desafio,
na lenda do boto, a vida a se propagar.
= = = = = = 

Trova de
Janske Niemann Schlenker
Curitiba/PR

Minha tristeza é tão linda
(não dói e não me angustia).
Uma tristeza bem-vinda
quando se torna Poesia!
= = = = = = 

Soneto de 
Alfredo Santos Mendes
Lisboa/Portugal

Plagiadores

Há poetas que sabem enganar.
Pois nasceram eternos fingidores!
E fingem serem grandes escritores,
Mas palavras de outros, vão buscar!

Já dissera Pessoa, a versejar:
Que chegava a fingir que suas dores,
Das quais ia sentindo seus horrores,
Eram dores, que fingia acreditar!

Por isso muita gente anda a fingir,
Que escreve nos poemas seu sentir,
E orgulhoso os lê, à descarada!

O seu fingir é forte, tem poder!
Que consegue a si próprio fazer crer,
Que não é poesia plagiada!
= = = = = = 

Trova de
Roza de Oliveira
Curitiba/PR

Quando o infortúnio surgir,
tenha calma, muita calma!
Que gigante há de ferir
esse Davi de sua alma?
= = = = = = 

Soneto de 
Frei Agostinho Da Cruz
Ponte da Barca/Portugal, 1540 – 1619, Setúbal/Portugal

À coroa de espinhos

A que vindes, Senhor do Céu à terra,
Terra que sendo vossa vos enjeita,
E que tanto vos honra e vos respeita,
Que em não vos receber insiste e emperra?

Ah! Quanta ingratidão nela s’encerra!
Quão mal de vossa vinda se aproveita!
Pois se põe a tomar-vos conta estreita,
Mais brada contra vós, quanto mais erra.

E vós de vosso amor puro forçado
Os malditos espinhos lhe pisais,
Dos quais ainda sendo coroado,

A maldição antiga lhe trocais
Na bênção, que lhe dais crucificado,
Quando morto d’amor, d’amor matais.
= = = = = = 

Trova de
Roberto Tchepelentyky
São Paulo/SP

À noite, em frente á TV,
a vovó e o manto dela...
Ela dorme e nada vê,
o manto assiste à novela...
= = = = = = 

Spina de 
Solange Colombara
São Paulo / SP

Ode a São Paulo 

Cidade de encantos
em cantos boêmios
ou versos cantados 

pelo poeta, em teus anseios. 
Em tuas esquinas há poesia, 
em teus becos, ecos falados
em rimas. Teus nobres tons,
eternizam a vida em legados.
= = = = = = 

Trova de 
Rodolpho Abbud
Nova Friburgo/RJ (1926 – 2013)

Contemplo o céu para vê-las
com um respeito profundo,
pois na raiz das estrelas
eu vejo o dono do mundo.
= = = = = = 

Soneto de 
Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP

Meu anjo amigo

Quando voltar a minha inspiração,
que tirou férias longas, pelo jeito,
vou ter o que preciso bem à mão,
para acabar com a dor deste meu peito!

Em versos vou dizer da ingratidão
que suporto calado e contrafeito,
dês que meu bem negou-me o seu perdão,
com enfado deste amor não tão perfeito!

Hoje a tristeza é dona de minha alma...
Roubou-me a voz e a minha velha calma!
E fez o amor virar meu inimigo!

Se agora, então, também meu estro falha,
com quê me salvarei nesta batalha?
- Volta, ó poesia, ó vem, meu anjo amigo!
= = = = = = 

Trova de
A. A. de Assis
Maringá/PR

A mais bonita homenagem, 
concede-a Deus, qual troféu, 
a quem completa a viagem, 
sem mancha, do berço ao céu!
= = = = = = 

Poema de
Yolanda Marazzo
São Vicente/Cabo Verde

Derrocada

A asa de um morcego transparente
e no canto um olho descaído
de pestanas longas espreitando
o ácido viscoso da loucura
escorrendo pelos telhados do mundo

Viajante incansável do pasmo
no silêncio das órbitas vagabundas
dos mares-mortos delírio-espasmo
do cansaço mole das brisas vazias
que do nada se afirmam nas florestas
do ódio de gigantes e anões liliputianos

Blocos monolíticos tristes quedos
imagens-desespero cancerosos
miasmas-visco cobras moribundas
agonizando em convulsões de magma
lanças setas envenenadas dirigidas
ao coração das virgens e crianças

Sombra parda pálida acutilante
teu vulto de insônia transparente
boia nas trevas flutuantes
da noite dos espiões pelas estradas
das feras que matam as ovelhas
e apunhalam pastores no caminho

Sombra feroz invernal medonha
destroços e cadáveres pútridos
sugando o seio das madonas
e acalentando monstros nas cavernas
pelas horas taciturnas do medo dos teus passos.
= = = = = = 

Haicai de 
Guilherme de Almeida 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP+

Pescaria

Cochilo. Na linha
eu ponho a isca de um sonho.
Pesco uma estrelinha.
= = = = = = 

Soneto de
Jerónimo Baía
Coimbra/Portugal, 1620/30 – 1688, Neiva/Portugal)

Falando com Deus

Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.
= = = = = = 

Trova de
Renato Alves
Rio de Janeiro/RJ

Quem não tem medo da morte,
quem nunca faz nada em vão,
quem, antes de tudo é um forte...
Este é o homem do sertão!
= = = = = =

Mensagem na Garrafa 144 = Antero Jerónimo (Lisboa/Portugal)


Antero Jerónimo 
(Lisboa/Portugal)

Doses intensas de desejo adensam o ar de rarefeitos odores.

A razão é um pássaro temeroso, em voo desgovernado, despenhando-se pelas escarpas salientes da paixão.

As palavras ensaiam dialetos de sedução, promessas de prazer em momento de antecipação.

O universo confidencia amores intrépidos em teu regaço pagão.

Lânguidos são os olhares, pestanejando na sede fátua de anunciada insatisfação.

Os lábios comprimem-se boquiabertos, mudos de espanto, enquanto ouvidos guardam segredos.

Os corpos espreguiçam-se na constância de ininterruptas vagas, imagens de fogo alimento de imaginação.

O prazer é uma casa de portas viradas do avesso, refúgio de vontades em corpos subjugados.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Antero Maria Jerónimo, é natural do concelho de Abrantes/Portugal, onde nasceu em 1962. Casado, pai de duas filhas, é aposentado do Exército. Os livros sempre lhe foram fiel companhia desde tenra idade, mas só começou a escrever a partir de 2013. Participa regularmente em tertúlias e eventos literários. Há uma página de autor no Facebook “Na Pele do Sentir” que serviu de inspiração ao nome deste livro. Obteve o 2.º lugar no II Concurso Literário da Edições Vieira da Silva, entre 120 autores a nível Nacional. É autor do programa de rádio “Ligados à Poesia” na RLX- Rádio Lisboa, desde 2021, onde divulga poesia de vários autores. Tem também um espaço de entrevistas “Autores Com Voz” no Youtube para dar a conhecer autores. Editou dois livros de poesia Janela do Tempo, em 2015, e Na Teia do Esquecimento, em 2022. Desde 2013 e até ao presente participou em mais de três dezenas de Coletâneas e Antologias Poéticas.
Fontes:
Facebook do autor
Dados Biográficos = Edições Vieira da Silvana 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Paulo Roberto de Oliveira Caruso (Sem crédito)

(Menção honrosa no Prêmio Literário “Gonzaga de Carvalho”, 2025, da Academia de Letras de Teófilo Otoni)

Josinelson sempre quis ser famoso. Não importava se tinha méritos para tanto ou não. Justamente como os tais que se acham “bambambãs” e, por meio de golpes cibernéticos, se apropriam do dinheiro da conta bancária de idosos pelo Brasil afora e depois em trajes sumários postam fotos direto de Dubai (ou outro lugar igualmente muito frequentado por (sub)celebridades) ostentando champanhas caras em iates. 

O entregador de pizzas já tinha tentado fazer mil dancinhas para o aplicativo W, cantado estridentemente para o aplicativo Y, fantasiado-se das formas mais estranhas para o aplicativo Z, mas nunca passava dos mil e quinhentos seguidores nas redes sociais, o que o deixava perplexo.  

Um dia, em mais uma correria com a bicicleta para lá e para cá no Centro de Teófilo Otoni para mais uma entrega, quando virava a Rua Frei Gonzaga para a seguir pegar a Avenida Getúlio Vargas, chocou-se com um motociclista que vinha na contramão. 

Josinelson voou com pizza e tudo e desabou dolorosamente sobre o asfalto encharcado de uma típica chuva de verão. Embora o capacete tenha preservado a cabeça do ciclista e o mesmo não tenha tido hemorragias graves, ficou de braços e pernas esparramados por alguns segundos até que transeuntes sinalizassem o local e ajudassem no trânsito. Enquanto isso, Maicon, o motociclista já tinha se evadido a mil, deixando o pobre coitado estatelado como uma estrela-do-mar.  

O entregador, com a visão prejudicada pelo golpe e pela chuva, olhava vaga e palidamente para o céu cinzento, mas era o suficiente para perceber a chegada de populares. Uns só vinham para observar a indignidade do rapaz, ao passo que outros de fato procuravam auxiliá-lo com a sinalização da via, dando apoio moral, chamando o SAMU e não deixando que tocassem no corpo, ante a possibilidade de, com o peso do capacete, haver até mesmo uma fratura na coluna. 

- Fooootos... fotos... – balbuciou o coitado ávido por se tornar famoso! Afinal, ele percebia alguns flashes e perguntas sobre o que tinha se passado. Na sua cabeça, ele finalmente ficaria famoso, mesmo que daquele jeito... Ao menos no jornal do bairro. Enfim os quinze minutinhos de fama!

Já no hospital, com todos os cuidados de saúde a que tinha direito na enfermaria, assistia ao telejornal local. A essa altura seus olhos nem piscavam mais, ávidos que estavam por ter seu nome exposto no mais assistido noticiário das redondezas. E foi então que, após os reclames dos comerciais, assistiu perplexo à reportagem.

“Um entregador de aplicativo cujo nome a família preferiu não revelar, enquanto andava de bicicleta saindo da Rua Frei Gonzaga para a Avenida Getúlio Vargas, foi covardemente atropelado por Maicon Antunes Friederickssohn em sua Harley-Davidson Sportster 885. O motociclista, que trafegava em velocidade acima do permitido, após ser alcançado por populares e conduzido à 15ª DP, apesar do índice alcoólico, pagou fiança e seguiu para casa. Ele é filho do miliciano Raul Sacaninha, trinta e oito anos, de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, e está na cidade para o Festival de Cerveja Artesanal”.    

Absolutamente perplexo, Josinelson, que no momento se encontrava sozinho no quarto, esbravejou consigo mesmo: “Não é possível! Família é para isso mesmo, né? Eu corro atrás de reality shows, vou à porta de emissoras, faço um baita sacrifício e, quando aparece a chance, nem dão o meu nome aos repórteres! Já o tal do Maicon levou todo o crédito! Vou ter que fazer o quê? Me jogar da janela?”
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Paulo Roberto de Oliveira Caruso, poeta, trovador, haicaísta, cordelista, contista, cronista, nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1975. Radicou-se em Niterói/RJ. Servidor público do Estado, formado em Administração e Direito pela Universidade Federal Fluminense e estudante de Letras na mesma entidade. Fez Especialização em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho. Comendador humanitário da paz pelo InBrasCI (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais-RJ) / World Parliament of Security and Peace (WPO), desde 2014; Doutor Honoris Causae, pela Academia Capixaba de Letras e Artes de Poetas Trovadores – Clube dos Trovadores Capixabas (ACLAPT-CTC), de Vitória (ES) 2019; pertence à  ABT (Academia Brasileira de Trova); ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranapuã); ALAV (Academia de Letras y Artes de Valparaiso - Chile) (Membro correspondente); ANBA (Academia Niteroiense de Belas Artes) (membro associativo); ALTO (Academia de Letras de Teófilo Otoni) (Membro correspondente); ALAF (Academia de Letras e Artes de Fortaleza) (Membro correspondente); IWA (International Writers Association) (Membro correspondente); NLABA (Nucleo de Letras y Artes de Buenos Aires (Argentina) (Membro correspondente); AIUC (Academia Internacional da União Cultural), no Rio de Janeiro (Membro efetivo e fundador); Confraria Brasileira de Letras (acadêmico efetivo) entre outras. Participa de mais de uma centena de antologias desde 2010; Escreveu prefácios e apresentações para obras de outros escritores; Realizou diversos concursos literários; Revisões de livros de escritores; Jurado em concursos literários; Palestras sobre literatura, Premiado em diversos concursos de Trovas, Contos, Crônicas, Cordel, Poesias, no Brasil e Exterior, etc. Lançou o livro “Sonetos Diversos”, 2019 (impresso).
Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Carina Bratt (Brejo de Jacó)

DONA PERERECA DO OLHO VERDE era uma mulher de poucas palavras, contudo carregava em seus costados, muitos segredos. Confidências, como uma síndrome do arco da velha. Quando saia à rua, para fazer supermercado, a sua figura simples e jovial se transformava num rosto fechado, no tempo em que o seu olhar se fazia enigmático. Pelo sim, pelo não, esse modo de agir deixava transparecer a quem se encontrasse com ela, a dúbia impressão de existir algo profundo. Algum motivo escuso que a anciã escondia a sete chaves por trás da máscara da sua aparência serena. 

Os vizinhos contíguos, apenas especulavam, mas na realidade ninguém realmente sabia o que se passava ou o que rolava além das paredes de sua residência, uma espécie de fortaleza erigida num quintal imenso, sem falar do casarão que lembrava a casa de Margarida Bonetti*. Essa bela construção se via cercada por um muro demasiadamente alto, o que impedia os bisbilhoteiros de plantão xeretarem além do que se fazia permitido. 

A bem da verdade, quando debandava para a rua, voltava cheia de sacolas de compras e escancarava um pesado portão de ferro deslizante que emitia um som lastimoso sobre trilhos cobertos de grossas camadas de ferrugens oxidadas. Somente nessas oportunidades tudo o que um dia prosperou em um espaço acolhedor, se moldava em lembranças de um pedacinho da mais pura luxúria dos idos de outrora. Havia uma piscina em forma de coração repleta de água podre e escura. Logo à frente, ao redor da casa, uma quadra cheia de árvores centenárias dava conta do tamanho do abandono que perdia o viço a cada novo raiar de dia naquele pedaço que em tempos distantes brilhava aos assombramentos dos moradores mais longevos. 

Por outro lado, o portão cerrado, vivalma conseguia vislumbrar coisíssima alguma. Em um belo dia, Manhoso, o cachorro dela, um labrador retriever, por puro descuido de sua dona, fugiu. Da casinha onde ele dormia, incrivelmente partiu atrás. Desde esse dia, ambos nunca mais foram vistos. Menos de uma semana após esse evento, embrenhada em idêntica rota de sumiço sem vestígios, dona Perereca do Olho Verde, igualmente pareceu (ou pelo menos deu a entender) ter seguido a mesma rota, como se no mesmo plano traçado, tivesse sido engolida pela Terra. 

Por conta desse evento, nunca mais a pequena Palmital do Brejo Seco deu conta do seu paradeiro. Sua magnânima propriedade, aos poucos e no correr dos meses do abandono e da solidão se deteriorou de vez. Hoje, tantos anos passados, o belo e esplendoroso retiro virou refúgio de moradores de ruas e bandidos. Dependendo das horas, passar em frente se faz temeroso, principalmente quando cai a noite. Os inquilinos, (antigos vizinhos) que ocupam ambos os lados da rua estão à deriva. Entregues ao “salve-se quem puder”. Correm o risco iminente, esses pacatos, serem assaltados ou no pior dos casos, mortos. 

A polícia militar jura de pés juntos que faz rondas diuturnamente.  Uma mentira das mais deslavadas. Na verdade, tudo não passa de “conversas para boi dormir” e roncar. Seu Neco, um confinante antigo, elaborou algumas ideias que igualmente outros mais longevos (como ele), em questão do tempo de convivência na comunidade acharam interessante pôr em pratos limpos. As ideias se consubstanciavam em pegarem desprevenidos o prefeito e seus asseclas pelos fundilhos das calças, quando por volta das vinte e uma horas ou mais precisamente no momento em que os safardanas  costumam dar o ar da graça, com seus “amiguinhos e amiguinhas” numa espécie de bar dançante de seresteiros coligado a um inferninho conhecido como "Recanto do Vem Que Tem”, e aplicar-lhes uma surra memorável ou em outras palavras, trazer à baila uma esfrega bem talhada até deixá-los com os ossos em pandarecos. 

Essas biscas abandonavam o bordel impreterivelmente por volta das três da manhã, municiados numa algazarra infernizante. Nos mesmos moldes, peitar (em idêntico “saco de gatos”) os militares que apregoam dar “cobertura” aos moradores, segurança que na realidade todos sabiam, esses fardados somente “se faziam presentes”, de fato, para apadrinharem, em troca de polpudas gratificações, nas funções de “guarda-costas” protegendo das “incomodações”, as turminhas não só do prefeito mas também de seus fiéis subordinados. A façanha ia um pouco além. 

Pega-los de calças curtas, no exato momento em que os safardanas se preparassem para voltarem para suas casas, numa espécie de condomínio de alto luxo distanciado exatos dois quilômetros e pouco do centro. Um outro morador, antigo tenente do exército, se juntou ao grupo, se enturmou com o cabeça e as ideias de seu Neco no tempo em que apresentou mais uma lista de soluções brilhantes para dar uma lição memorável à elite intocável dos senhores salafrários da pequena localidade.  

— Não podemos somente grampear o prefeito — esclareceu. Nos mesmos moldes, carecemos de englobar os pilantras fardados que marcam presença em continência (não às nossas famílias que aqui residem), notadamente aos “vagabundos” de ternos de grife, e as “lambisgóias” enfurnadas em seus vestidos baratos, com a finalidade única de se banquetearem nos fazendo de bestas e tapados. Necessitamos de uma ação devastadora, uma tomada de terreno definitiva que acabe de uma vez com essa farra que está nos colocando à margem de uma tragédia anunciada. 

E assim foi feito. Numa emboscada urdida e bem planejada, pegaram o prefeito quando saía do “Recanto Vem que Tem”. Lincharam as suas acompanhantes e puniram sobejamente os fardados. A ação desse grupo apelidado de “Fantasmas do diabo” foi tão perfeita e impecável, tão arrebatadora e eficaz, que ficou conhecida como “Combate de extermínio”. No final, o ilustre prefeito precisou ser internado. Os militares (também surpresos de “calças nas mãos”), se viram surrados a paus, sapatadas, cassetetes e chicotadas. O seu carro e o do vice e as duas únicas viaturas da unidade militar viraram uma enorme fogueira. As mundanas partícipes da pouca vergonha acabaram numa situação vexatória e, claro, não muito decente. 

O mais legal, como o furdunço foi levado a efeito em horário nobre, tido nas redondezas como em "nome das altas horas”, ou seja, em salvaguardo do sagrado e intocável silêncio onde toda a comunidade trabalhadora que vivia unicamente para a labuta digna e honesta dormitava no descanso dos justos, ninguém foi reconhecido, preso ou processado. Bem que depois tentassem. Apesar dos reforços vindos (dia seguinte) de cidades próximas, os envolvidos nos bacanais e, de roldão, os libertinos e desordeiros da elite alcunhada como "os deuses impalpáveis”, da cidade, sem sequer, um dos mandachuvas terem ficado de fora, a quadrilha de farândolas sofreu na pele duros golpes, uma experiência pra lá de inesquecível e inusitada. 

O cerco aos "magnatas” foi tão carinhosamente engendrado, que nas culminâncias nenhum morador se viu responsabilizado ou detido, acabando a sobra (como sempre) para os pobres e infelizes moradores de rua que ocupavam desordenadamente o casarão de dona Perereca do Olho Verde. A escaramuça acabou de uma só vez com as sacanagens do prefeito e sua gangue, com os policiais corruptos e as prostitutas do bar "Recanto Vem que Tem”, que encerrou as suas funções definitivamente.    
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Explicação necessária: Por qual motivo o texto ser rotulado como " Brejo de Jacó? Na Bíblia, Jacó foi um personagem importante. Neto de Abraão, filho de Isaque e Rebeca, e irmão gêmeo de Esaú. Ele é conhecido por sua história complexa, marcada por enganos, mas também por sua transformação e fé em Deus. Jacó é considerado um dos patriarcas do povo judeu e sua história é narrada no livro de Gênesis. 

* Margarida Bonetti ainda vive em sua mansão em ruínas em São Paulo. Por muitos anos, submeteu a emprega doméstica em regime de escravidão. A referida mansão hoje é um ponto turístico da capital de São Paulo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
CARINA BRATT nasceu em Curitiba/PR. Trabalha como secretária particular e assessora de imprensa do jornalista Aparecido Raimundo de Souza, em Vila Velha/ES. Escreve crônicas em uma coluna denominada "Danações de Carina" para um site de Portugal.
Fontes:
Texto enviado pela autora.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing