quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Gerson Pennella Ritter (O Guardião)

Ouve ao longe o trotar de um cavalo. Seus ouvidos supersensíveis são capazes de sentir o bater de asas de uma borboleta no outro lado da floresta. Ou saber quando os filhotes das aves quebram a casca dos ovos para nascer. Percebe o mais delicado som, mesmo durante uma tempestade.

Qualquer ser vivo ficaria confuso com a infinidade de ruídos que existe dentro de uma floresta, mas para ele não era problema. Da mesma forma que um maestro habilidoso identifica cada som dos diversos instrumentos da orquestra, ele realiza esta façanha multiplicada por um milhão de vezes, selecionando o que pretende ouvir através do seu sofisticado aparelho auditivo.

O cavalo vem num trote lento. Possivelmente o cavaleiro teme ser surpreendido e examina com cuidado o terreno antes de avançar.

Sempre soube que este dia chegaria. Ainda se formava dentro do ovo e o seu fim já lhe tinha sido revelado.

Algumas criaturas não tinham ideia de que morreriam. Outras, como uma maldição recebida com a vida, sabiam, mas não quando.

Os da sua espécie, por alguma razão, só compreendida pelo Criador, sabiam como e quando chegaria o fim. Aliás, muitas coisas ele não entendia sobre as intenções do Criador. Por que existiam coisas más? E por que as coisas boas um dia acabavam?

Em sua mente surge a imagem de um cavalo branco com arreios de prata brilhando ao sol. Assim como brilham as águas do lago a sua frente, refletindo os raios de luz em sua tranquila ondulação.

Amanhece. Havia passado a noite ali, no lado de fora da caverna. Acomodado sobre uma imensa pedra que lembra o ninho onde nasceu. Era seu lugar preferido na floresta para deixar o pensamento voar distraído e meditar sobre como as coisas foram e como serão depois das mudanças que estão para acontecer.

Lembra-se da primeira explosão, do primeiro clarão. Tinha acabado de sair do ovo junto com outros da sua linhagem. Foram escolhidos para testemunhar o início de todas as coisas.

Era a noite anterior ao princípio dos tempos. O espírito do Criador pairava então sobre as águas. Ficaram assustados com a violência da energia que fazia a matéria brotar do meio do nada. Mas o Criador os acalmou e desde então nunca mais sentiu medo.

Ouviu a ordem para que existisse luz. O Sol e a Lua nasceram no horizonte e as estrelas surgiram no céu. Depois o Criador deu outra ordem e as águas se separaram. Ficaram sendo as de cima do firmamento e as debaixo do firmamento.

As debaixo se juntaram a um canto e apareceu a terra seca.

O chão tremeu e o solo fez rugas imensas que subiram até o alto formando a crista das cordilheiras com sua neve eterna. Surgiram as plantas, as árvores floriram e vieram os animais. Multiplicai-vos, disse o Criador, e os seres vivos povoaram a terra.

Tudo ficava bom e o Criador estava satisfeito.

Finalmente veio a humanidade. Lembrou com ternura daquele dia, que era o sexto da criação. Tudo que tinha sentido até aquele momento, enquanto presenciava a Criação do universo, não significava nada perto do que experimentou então. Conheceu o amor. Amou aqueles seres desde o princípio. Pensar neles aquecia o seu coração.

Estica as asas, ronrona satisfeito e fecha os olhos. Uma brisa suave refresca suas escamas.

O som do trote do cavalo se aproxima. Pode agora imaginar o cavaleiro com armadura de oficial do exército romano. O suor descendo pela testa, coração batendo acelerado. Sente uma ligação indissolúvel do coração do guerreiro com o seu próprio coração, como se ambos tivessem sido formados a partir de um mesmo músculo e preparados para bombear o mesmo sangue.

Quando a obra do Criador ficou pronta ele foi enviado para cuidar daquela floresta.

Todo dia sobrevoava as árvores e observava os animais, os rios e as plantas. Cuidava para que nada se desarranjasse. Era sua missão, manter tudo equilibrado e perfeito. Às vezes livrava um pequeno roedor das garras de um lobo. Em outras deixava o predador se alimentar. Tudo para manter o tamanho de cada espécie de acordo com o que lhe fora ordenado.

Também tinha que manter os humanos afastados da floresta. Seguidamente eles tentavam uma invasão e os afugentava com voos rasantes, cuspindo fogo e rugindo como um trovão. Não os feria, não queria lhes fazer mal. Apenas os assustava para proteger a floresta. Eles o chamavam de besta. Não se aborrecia, sabia que era uma das mais perfeitas criaturas que já existiram. Um dos poucos que tinham o privilégio de olhar a face do Criador.

Lembrou-se do sonho que tivera na noite anterior. A floresta se transformara em fazendas de criação de animais e plantações que se perdiam no horizonte. Os mesmos animais e as mesmas plantas se repetindo lado a lado numa imagem que o deixava atordoado. Muitas chaminés fazendo fumaça e pessoas caminhando ansiosas em todas as direções. Sabia que o futuro seria assim, quando os humanos fossem deixados por sua própria conta com a responsabilidade de cuidar da Criação. Seriam tempos sombrios até aprenderem a lição que lhes era reservada.

O cavaleiro traz um escudo com a figura de uma cruz. No alto do capacete surgem plumas e a capa vermelha, presa ao pescoço, esvoaça ao vento. Na mão direita uma lança ameaçadora.

Não reage e nem tenta fugir. Experimenta sentir a paz da missão que termina. É o último guardião da última floresta preservada do mesmo jeito desde o dia da Criação.

Sente poeira de terra levantando e pedregulhos arremessados pelas patas da montaria que aumenta a velocidade ao aproximar. O cavaleiro imagina que o surpreende dormindo e quer aproveitar a ocasião.

A vida em torno parece suspensa, aguarda o resultado daquele momento em que outra era começa. O vento para de soprar e as águas do lago ficam duras como um espelho. Nuvens escuras cobrem o sol.

Sente que os cascos do cavalo pisam suas asas. Não se mexe. Está na hora.

O aço frio da lança perfura seu corpo, penetrando através do único ponto vulnerável da sua carcaça, entre a base superior das asas. Percebe que também o cavaleiro sente no peito a dor do ferimento que provoca. O coração é atingido. O guerreiro apeia e se aproxima. Traz nos olhos a tristeza de quem cumprira um destino que não escolhera.

Depois a vida se aquieta. Vem o silêncio. Antes de tudo desaparecer sente a mão, que há pouco segurava a lança, afagando sua cabeça.
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Gerson Pennella Ritter é formado em Publicidade e Propaganda e Ciências Contábeis. Aos nove anos, ao descobrir o universo do Sítio do Picapau Amarelo, começou a sonhar em escrever. A vida foi dando voltas e mais voltas, sempre empurrando os planos da infância para mais tarde. Aos 64 anos, resolveu que chegou a hora de transformar os velhos sonhos em realidade.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 80 *


Trova de
JOSAFÁ SOBREIRA DA SILVA 
Rio de Janeiro/RJ

Nas cordas do coração,
em sonhos, dedilho, triste,
estilhaços da canção
que rasguei, quando partiste..
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Soneto de
ANÍBAL BEÇA
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Profissão de fé

Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No voo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.
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Poetrix de
RICARDO ALFAYA
Rio de Janeiro/RJ

exposição

Enxugo dilemas
No varal, toalhas
Manchadas de poemas.
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Poema de
LYGIA MENEZES
Maceió/AL (1913 – ????)

Consolo

Jamais chores, mulher, jamais lamentes
a dor profunda que te punge a alma.
Não digas a ninguém o mal que sentes,
sofres em silencio e tua dor se acalma.

Nas horas longas de tormento infindo
não te deixes vencer. Mulher, canta,
disfarça sempre a tua dor sorrindo
e finge que o tormento não te espanta.

Jamais recues no meio da jornada,
prossegue até o fim do teu caminho.
— Para colher a rosa aveludada,
a mão às vezes fere-se no espinho.
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Trova de
EDUARDO DOMINGOS BOTTALLO
São Paulo/SP

Um corpo espetacular
do jeito que um cara quer,
só faltou, pra completar,
a garota ser mulher…
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Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Quis o tempo que neste tempo espere
(Joaquim Sustelo, in "No Silêncio do Tempo", p. 74)

Quis o tempo que neste tempo espere
Lento, o correr das horas e dos dias
E o vento vai ditando as profecias
Com que o tempo o meu peito sangra e fere.

Por muito que eu estime e considere
O saber que em teu seio me trazias
Eu noto que também tu me escondias
O limbo que a vil morte nos confere.

Passa em mim sem causar ruína ou dano
Faz do meu ser um templo mais humano
Liberto de dor, mal, culpa ou pecado.

Estarei aqui pronto a receber
A vida que me queiras conceder
Cumprindo humildemente esse meu fado.
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Aldravia de
ZÉLIA DENDENA SAMPAIO
Porto Alegre/RS

virtude
o
perfume
da
veraz
solidariedade
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Poema de
LAÉRCIO BORSATO
Poços de Caldas/MG

Como um pássaro

Desperta! Como pássaro vá àquele monte
E sinta a fragrância disposta nos ares;
Vislumbra encostas e a imensidão dos mares:
Vê raiar a aurora, na fímbria do horizonte!

Dessas maravilhas me fale, me conte.
Traga no olhar, quando um dia voltares,
A total independência de teus cismares:
Andando descalça, bebendo da fonte.

Conte- me, gesticule grite e entusiasme,
Com tal euforia, que a ouvi-la me pasme,
Ao ver reflorir total deslumbramento...

Porque assim me farás contente e feliz!
Fazê-la feliz é tudo o que sempre quis:
Ai estará o limiar de meu contentamento!
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Trova de
EDUARDO A. O. TOLEDO 
Pouso Alegre/MG

O amor se faz infinito,
longe do bem e do mal,
quando brota do granito
e se transforma em cristal!
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/ SP

Sem fronteiras 

Viajo com as nuvens. Sou poeta. 
Gosto de dar vazão ao pensamento. 
Sou capaz de chegar ao firmamento 
e voltar para a terra como atleta. 

Na terra, pego a minha bicicleta, 
vou pedalando mesmo contra o vento, 
enquanto os versos nascem no acalento 
de uma paixão suave e não secreta. 

Não há fronteiras, pois o amor é brando, 
poetas são assim, vivem sonhando 
com um mundo feliz e mais humano. 

Não importa se a vida é muito breve, 
o amor é intenso e o fardo fica leve 
quando o perdão se torna soberano.
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QUADRA POPULAR

Lambari está pelejando
pra nadar n’água parada;
eu também estou pelejando
pra arranjar a namorada.
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Poema de
TERESINKA PEREIRA
Ohio/Estados Unidos

O mesmo de sempre

Pouco posso ver
debruçada na janela
que é a minha plataforma
para vigiar o mundo.
Mais que tudo, vejo as árvores
que tapam os edifícios em frente.
Não conheço meus vizinhos,
mas sei das horas que saem
e regressam de seus trabalhos
em seus carros sempre novos.
Minha vida continua
sem mudanças, porque
desejo esta simplicidade.
O futuro e' uma mistificação
do caminho pelo qual
temos que passar
para seguir vivendo.
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Trova de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

No miolo de um livrinho,
sufocado por mim mesmo,
nosso amor está sozinho,
decorando o tempo a esmo.
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Hino de 
ESPLANADA/ BA

Oh Esplanada que alegria!
O mundo reconhece seu valor
A mais querida da Bahia
Um povo cheio de amor

Oh Esplanada que alegria!
Cantar em versos seu esplendor
Terra tão linda e abençoada
Pelo Cristo Redentor

Cedinho depois das estrelas
Antes do Sol nascer
Esplanada com seu povo se levanta e canta
Fazendo o futuro acontecer

Canta, canta Esplanada, canta
Que a alegria e
A esperança é tanta
Todo mundo vem te admirar

A beleza das lagoas
Suas praias, o seu mar,
O teu clima tão gostoso
Faz o teu povo cantar!

Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
Esplanada minha vida, meu amor
Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
Abençoada pelo Cristo Redentor

Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
Abençoada pelo Cristo Redentor
Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
A minha terra, a minha vida, meu amor!

No brilho do Sol
Apitava o trem
Trazendo os Capuchinhos
pra fazer o bem (2x)

O teu solo generoso
Tudo que se planta dá
Pecuária, agricultura
Tem lavoura, tem fartura,
Tem petróleo a jorrar

Cantarei seu nome
Aonde quer que eu vá
Esplanada minha terra
Sempre, sempre irei te amar.

Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
Esplanada minha vida, meu amor
Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
Abençoada pelo Cristo Redentor

Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
Abençoada pelo Cristo Redentor
Eu amo Esplanada, eu amo Esplanada
A minha terra, a minha vida, meu amor! 
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Não chamem de mundo-cão
o feio mundo do mal.
No cão pulsa um coração
melhor que o nosso, em geral.
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

Ser poeta

Poeta chora ou ri durante a vida,
sempre buscando amor e sentimentos
que o levem a viver sem ter lamentos,
e num certo  momento se divida.

Ser poeta é lidar com atrevimentos
e tornar esta vida enternecida...
É tornar-se o pastor e dar guarida
às almas tão carentes de argumentos.

Na jornada mantém o bom humor,
transformando em beleza seus momentos...
Mesmo nos tristes acrescenta o amor.

Ser poeta é trazer a boa nova
libertada de todos os tormentos.
Para integrar-se ao mundo se renova.
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Aldravia do
MESSODY RAMIRO BENOLIEL
Rio de Janeiro/RJ

Após
nossos
corpos
entrelaçados
anoiteceu
silenciosamente
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Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Chuva de saudade

O barulhinho da chuva,
Deslizando no telhado
Deságua em versos
Tece um poema de amor,
Saudade que cintila,
Quando a lágrima
Escapa e deixa
A janela entreaberta...
Apaga-se o incenso.
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Trova de
WANDIRA FAGUNDES QUEIROZ 
Curitiba/PR

Defender a Ecologia
de forma séria e decente,
é preservar a harmonia
da própria casa da gente.
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Soneto de
ALCEU WAMOSY
Uruguaiana/RS, 1895 — 1923, Santana do Livramento/RS

Duas almas

Ó tu que vens de longe, ó tu que vens cansada,
entra, e sob este teto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho.
Vives sozinha sempre e nunca foste amada...

A neve anda a branquear lividamente a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã quando a luz do sol dourar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, horrenda e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...
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Trova de
NILTON MANOEL
Ribeirão Preto/SP, 1945 – 2024

Sonhando de trova em trova
pela estrada da poesia,
minha vida se renova
no correr de cada dia.
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Poema de 
AUTORIA ANÔNIMA

Desabafo de um Cão

Não pense tão indiferente
só porque não sou gente,
só porque não sei falar.
Também sou um ser vivente,
sinto as dores que você sente,
mas não posso me expressar.

Sou um bicho abandonado,
pela vida maltratado,
sempre escorraçado
e até mesmo apedrejado.
Vivo sedento e faminto,
ninguém quer saber o que sinto.

Se fico doente e triste,
vejo logo um dedo em riste,
e vem a sentença fatal:
"Melhor matar esse animal!
Ele deve estar raivoso!"
Para sua comodidade
vive dizendo inverdade,
fazendo muita maldade,
seu mentiroso!

Mesmo que eu esteja raivoso,
já foi descoberta a vacina.
Mas para a sua raça humana
ainda não existe remédio.
Você mata o próprio irmão,
assalta,
faz guerra.
Mata com ou sem razão,
as vezes só por ambição.
É bem pior que eu
que chamam de vira-lata!

Estou triste, apavorado,
pois a qualquer instante
posso ser sacrificado.
Mas você não se importa
nem com o seu semelhante.
Você sim está doente:
egoísta, indiferente,
mas se algo ruim acontece
logo lembra que há Deus,
chora, reza e faz prece,
mas Deus só ajuda aquele
que de todos se compadece!

Lembre-se do que escreveu
São Francisco de Assis:
"Quem maltrata um animal
JAMAIS PODERÁ SER FELIZ!”
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Trova de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Trago uma lição comigo
que aprendi desde criança:
Quem tem um cachorro amigo,
não perde nunca a esperança!
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Olavo Bilac (Mãe Maria)

É ainda esta, no fim de minha longa vida, tão cheia de alegrias e de tristezas, a recordação mais funda que guardo dentro da alma.

Fechando os olhos, para mais claramente evocar a memória dos dias da minha infância, vejo logo, nitidamente desenhada pela minha saudade, a doce figura da velha mão Maria. Tão velha!... Quando nasci, já o seu cabelo encarapinhado embranquecia. Ainda viveu comigo uns treze anos. E nunca ninguém me soube dizer onde morreu, e onde foi dormir o último sono o seu corpo de velha escrava, alquebrado por quase um século de cativeiro e de trabalho.
* * *

Comprar e vender escravos era, naquele tempo, uma coisa natural. Ninguém perguntava a um negro comprado o seu passado, como ninguém procurava saber de onde vinha a carne com que se alimentava ou a fazenda com que se vestia. De onde vinha a velha Maria, quando, logo depois de meu nascimento, meu pai a comprou? Sei apenas que era africana; e tinha talvez um passado terrível: porque, quando a interrogavam a esse respeito, um grande terror lhe dilatava os olhos, e as suas negras mãos reluzentes e calejadas eram sacudidas de um tremor convulsivo.

Conosco, a sua vida foi quase feliz. Na cidade, o cativeiro era infinitamente mais brando que na roça. Aqui, se havia menos trabalho sem tréguas, não havia, ao menos, o chicote do feitor. Lá fora, sim! Lá fora, era a labuta estalfante do café, os dias terríveis sob o sol implacável, a comida pouca e o castigo muito. Maria, quando eu às vezes lhe perguntava o que era a roça, ficava calada, olhando o chão, como se estivesse revendo com horror o tormento dessa vida antiga. Um dia, despiu a meio a camisa de algodão grosso, e mostrou-me as costas e o peito. A pele preta estava de espaço a espaço cortada de largos vergões, cicatrizes, sinais de queimaduras. Eu, com os meus inocentes olhos de seis anos, olhava aquilo sem compreender. “Como foi isso, mãe Maria?”. “Maldades dos homens, sinhozinho, maldades dos homens...”. 

Certa noite, como ela me contasse uma história em que se falava de crianças roubadas aos pais, perguntei: “Você nunca teve filho, mãe Maria?” A pobre negra limpou uma lágrima, e não respondeu: mudou de conversa, e continuou, com a sua meia língua atrapalhada, a contar a história, — uma dessas compridas histórias da roça, em que há saci-pererês e caiporas, almas do outro mundo e anjos do céu. E eu olhava-a, com uma secreta mágoa... Não que compreendesse bem aquilo: mas a minha inteligência de criança já adivinhava uma parte daquela dolorosa vida de cativa.

Como ainda me lembro dessas noites!... Era na sala de jantar, que tinha uma grande varanda, deitando para o quintal. Estou ainda vendo o velho sofá de madeira negra em que meu pai dormia a sesta, a longa tábua de engomar em que as mucamas passavam a ferro a roupa branca, e perto da mesa em que ardia o grande lampião de azeite, minha mãe imóvel e pálida, na sua feia e enorme cadeira de paralítica.

Moça ainda, ficara ela assim, logo depois de ter eu vindo ao mundo. Como a perdi muito cedo, não me lembro bem dela: apenas sei que era bonita e que não falava nunca. Olhava para mim, para meu pai, para as escravas, com um olhar apagado, de louca resignada e mansa.

Assim, a velha Maria foi minha verdadeira mãe. Havia ainda em casa uma senhora idosa, prima de meu pai, que era quem dirigia tudo. Essa, porém, apenas tinha tempo para governar as escravas, fazer doces, e cuidar das costuras e das roupas engomadas. — Boa mãe Maria! era ela quem me aturava... Quando eu não queria obedecer, procurava fingir-se zangada, e ameaçava-me: “Nhô Amâncio! Nhô Amâncio!” E acalmava-me, por fim, prometendo-me uma nova história. 

Sentava-se no chão, cruzava as pernas, e começava. Ouvia-se apenas na sala o ressonar de meu pai que dormia a sesta, o pigarro da velha prima que cosia, o ruído que faziam os ferros de engomar sobre as tábuas, e a voz arrastada de mãe Maria, falando de saci-pererês, de caiporas, de almas do outro mundo e de anjos do Senhor.

Todo aquele enredo fantástico, em que passavam bruxas cavalgando cabos de vassouras, príncipes que roubavam princesas, arcanjos que desciam do céu para curar as feridas dos escravos no tronco, negras aleijadas, que invocavam o diabo, à meia-noite, no meio do mato, e eram afinal arrebatadas por ele, numa nuvem de fogo e enxofre, — tudo aquilo se atropelava na minha cabeça, cansando-me, dando-me arrepios e vertigens de medo.

Daí a meia hora, pesavam-me as pálpebras. Aos meus ouvidos, a voz de Maria chegava cada vez mais fraca: até que quase sumia de todo, parecia vir de longe, de muito longe, vaga e indistinta como um eco. Eu deixava cair a cabeça sobre o seu colo e dormia. E era ela quem, carinhosamente, me levava para a cama, era ela quem me despia, e, obrigando-me a ficar de joelhos, tonto de sono, me fazia repetir o Padre Nosso, estropiado pela sua língua de africana.
* * *

Quando tive de ir para o colégio, — um internato sério de onde os alunos só saíam uma vez por ano, chorei muito tempo, abraçando Mãe Maria, agarrado à sua grossa saia de riscado azul. Ela chorava também, chamando-me seu filho, beijando-me, consolando-me:

— Vai, Nhô Amâncio! Vai, meu filho! Vai pra ser homem! Vai, Nhô Amâncio! A sua negra velha fica rezando a Nosso Senhor! A velha fica rezando!

Pela mão de meu pai, fui pela rua, soluçando, soluçando.
* * *

Oh! os primeiros dias de internato! Que casa! As salas, muito altas e muito claras, tinham um silêncio que dava medo. Entre as bancas de estudo, o padre Francisco passeava, batendo com força os tacões dos sapatos, fungando pitadas de rapé. Eu, com a morte da alma, lembrava-me da casa, lembrava-me da varanda que dava para o quintal, de minha mãe imóvel na sua enorme e feia cadeira de paralítica, da velha prima que costurava, e de mãe Maria... de mãe Maria!... e das suas mãos calejadas e reluzentes! E do seu cabelo encarapinhado! E da sua voz! E das suas histórias! E as letras do livro iam-se confundindo e dançando, vistas através das lágrimas que me embaciavam os olhos.

Mas passou a primeira semana, passou o primeiro mês, passou o primeiro trimestre. Criei amizade aos companheiros. E a minha saudade foi diminuindo, diminuindo, diminuindo...

Quando o primeiro semestre findou, já mãe Maria, e sua face, e sua carapinha, e as suas mãos, e a sua voz, e as suas histórias, me apareciam indistintamente, como no fundo de um passado remoto. À noite, quando me deitava, depois do exercício violento da cabra-cega e da barra, o sono já não me deixava pensar naquela que ficara rezando a Nosso Senhor por Nhô

Amâncio. Nhô Amâncio só se lembrou de mãe Maria quando as férias chegaram...

“Ah! Nhô Amâncio! — dizia a preta chorando, de joelhos, beijando-me as mãos — como Nhô Amâncio está crescido e bonito!”

Um ano de colégio bastara para me transformar. E, agora, eu aparecia à velha ama-seca, como um novo sinhô-moço, — um sinhô-moço que tinha onze anos, que já sabia ler e escrever, que já se julgava um homem, e que às histórias atrapalhadas e tolas de mãe Maria preferia a malha e a ginástica.

A vida da casa era a mesma. Apenas mãe Maria, não tendo agora sinhô-moço para criar, passara a tratar da lavagem da roupa.

E era no quintal que estava agora quase sempre, de saia levantada, patinhando na água da barreia, indo de coradouro a coradouro, — um pouco mais velha, um pouco mais trôpega, mas ainda robusta.

Foi durante essas férias que se deu o caso, cuja recordação ainda hoje, no fim da minha longa via, tão cheia de alegrias e de tristezas, é a mais viva das que guardo dentro da alma.
* * *

Uma tarde, mãe Maria lavava roupa no quintal. Desci. Ao fundo, ficavam os cercados das galinhas. Comecei a atirar-lhes pedras. Mãe Maria protestou logo: “Nhô Amâncio! que maldade, menino! Deixa os bichos, Nhô Amâncio!” Eu ria, e continuava.

Entre mim e os cercados do galinheiro, ficavam os coradouros. As pedras passavam sobre a cabeça da velha.

— “Nhô Amâncio! Nhô Amâncio! Deus castiga, Nhô Amâncio!” — repetia a preta, mas sem gritar, receando que meu pai a ouvisse. E eu ria, e continuava. 

Correu então para mim... Eu ria. E as pedras passavam por elas, rentes algumas, na direção dos cercados.

Não sei como foi... Vi-a cambalear e cair, levando as mãos à cabeça, de onde o sangue corria aos borbotões. Senti no coração uma pancada seca, dolorosa. Uma nuvem de pranto me cresceu nos olhos. Corri para a velha, com a garganta sufocada de soluços.

Uma pedrada lhe quebrara a cabeça: e o sangue ensopava a sua carapinha dura, já quase toda branca. Principiei a gritar, alucinadamente. E ela, trêmula, desfalecida, apertando a ferida com a mão manchada de vermelho, murmurava:

“Não grita, Nhô Amâncio! Não grita! Não foi nada! Não grita, que Sinhô ouve!”

Mas eu gritava. Todo o antigo afeto esquecido renascia ali, diante da minha velha mãe Maria, toda banhada em sangue, ferida por mim. Toda a casa acudira aos meus gritos. Vi junto de nós meu pai, a prima, as escravas. Então tive medo do castigo...

Mas a velha negra já tinha um sorriso nos lábios. E, olhando meu pai, que indagava a causa daquilo, dizia: “Não foi nada, Sinhô, não foi nada! A negra velha escorregou no sabão, e quebrou a cabeça nas pedras. Mas Nhô Amâncio acudiu logo. Não foi nada, Sinhô não foi nada!”
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Quando, pensada a ferida, eu, a sós com ela, a vi salva e repousada, — caí nos seus braços, pedindo-lhe perdão, cobrindo de beijos aquela face que me parecia tão bela, tão clara, tão iluminada, como a face de um daqueles anjos do Senhor, de que ela me falava nas suas compridas histórias da roça. E ela, chorando também:

“Que é isso Nhô Amâncio? Que foi que mãe Maria fez?... Tinha que ver que Nhô Amâncio fosse apanhar um sova por causa do cangalho de uma negra velha!...”
* * *

Daí a um ano, quando de novo voltei do colégio, ainda abracei mãe Maria. Vi-a e abracei-a ainda. pelo Natal, dois anos seguidos. Depois... morto meu pai, morta minha mãe, vendidos todos os escravos da casa, — nunca tive quem me dissesse onde foi dormir o seu último sono a minha velha mãe Maria, alquebrada por quase um século de cativeiro e trabalho.
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Olavo Bilac, nasceu em 1865, no Rio de Janeiro/RJ. Cursou Medicina, abandonou o curso, tentou estudar Direito, também não concluiu, e passou a escrever para jornais cariocas. Em 1888, publicou seu primeiro livro — Poesias. No entanto, Bilac era firme em seus posicionamentos políticos e discordava do governo de Floriano Peixoto. Por fazer críticas a ele, foi preso em 1892 e também em 1894. O início do regime republicano, portanto, não foi muito agradável para o poeta. Em 1897, fundou, com outros intelectuais, a Academia Brasileira de Letras e ocupou a cadeira de número 15, cujo patrono é o escritor romântico Gonçalves Dias (1823-1864). No ano seguinte, passou a trabalhar como inspetor escolar. A partir daí, o escritor empreendeu uma campanha em prol do nacionalismo, e, inclusive, escreveu a letra do Hino à Bandeira, além de ter defendido o serviço militar obrigatório. Morreu em 1918, no Rio de Janeiro, deixando certo mistério sobre sua vida íntima. Nunca se casou. Um poeta parnasiano, crítico e nacionalista, mas, ao mesmo tempo, boêmio e libertário. Um homem rigoroso e prático, mas que tinha, possivelmente, uma alma romântica. Enfim, um indivíduo complexo, detentor de uma genialidade que o consagrou como Príncipe dos Poetas. 

Fontes:
Olavo Bilac e Coelho Neto. Contos pátrios para crianças. Publicado originalmente em 1931. Disponível em Domínio Público. 
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Célia Xavier de Camargo (A cobra)

Caminhando por uma estrada de terra batida, no meio da mata, Lúcia ia tranquila.

Morava num sítio das redondezas e dirigia-se à escola, distante uns quinhentos metros de sua casa.

De súbito, dentre a vegetação, surgiu, se arrastando, enorme e ameaçadora cobra. Colocando-se no meio do caminho, ela armou o bote e ficou esperando.

A princípio, assustada, a menina parou. Pensou em voltar. Naquele momento, porém, lembrou-se de tudo o que já aprendera. Sua mãe sempre lhe dizia que tudo na Natureza é criação de Deus, e que devemos respeitar qualquer forma de vida, fosse humana, animal ou vegetal.

Assim, enchendo-se de coragem, tendo o cuidado de manter uma boa distância, dirigiu-se ao réptil dizendo:

– Minha amiga Dona Cobra. Nada tenho contra a senhora. Ao contrário, somos todos irmãos, porque filhos de um mesmo Pai, que é Deus. Estou indo para a escola e preciso passar por este lugar, que a senhora está ocupando. Assim, se fizer gentileza de deixar-me passar, eu lhe ficarei muito grata.

A voz da menina, serena e doce, aquietou o animal, que a contemplava com seus olhinhos miúdos. Depois, parecendo compreender o que lhe foi dito, coleou pela terra lentamente, desaparecendo no meio do mato.

Lúcia, grata a Deus pela proteção que lhe dera, continuou seu trajeto até a escola.

Durante horas, ali permaneceu entregue às atividades escolares, esquecendo-se do incidente. Mais tarde, quase no horário de tocar o sinal para a saída, chegou alguém. Era um homem que tinha socorrido um menino. Ainda assustado, contou ele:

- Eu vinha a cavalo pela estradinha, quando vi um moleque ao longe, na minha frente. Ele tinha um pau na mão, e brincava, batendo nas árvores à beira do caminho, assustando os passarinhos e afugentando os pequenos animais. Percebi quando uma enorme cobra surgiu à sua frente. Quis avisá-lo do perigo, gritar para que ficasse quieto, sem fazer movimentos bruscos, mas não deu tempo. O menino, ágil, levantou o porrete, tentando esmagar a cobra. Ela, porém, foi mais rápida e, dando um bote certeiro, picou-o

- E o garoto, como está? - perguntou a professora, aflita.

- Felizmente, foi socorrido a tempo. Encontra-se no hospital da cidade, sob cuidados médicos. Como ele estivesse com uma mochila escolar, pelo horário, cheguei à conclusão de que era um aluno que tinha “matado” a aula, e a trouxe para a senhora. Aqui está ela! - disse ele, entregando a mochila à professora.

- É do Roberto! Bem que estranhei ele não ter comparecido hoje à escola! Muito obrigada, senhor. E os pais dele, já foram informados?

- Exatamente por isso vim aqui. Não sei onde ele mora. Se me disser o endereço do garoto, irei avisar à família dele.

A professora explicou onde Roberto morava, e o bom homem despediu-se, apressado.

Após a saída dele, Lúcia comentou:

- Deve ser a mesma cobra que encontrei hoje cedo na estrada!

- É verdade? Você viu uma cobra? Conte-nos! Como foi isso? - quis saber a professora. E Lúcia, diante da classe que a ouvia com atenção, relatou o que tinha acontecido com ela, como se portou diante do perigo e como a cobra se afastou, sem molestá-la.

O silêncio se fez na sala. Todos estavam perplexos e pensativos. Ficou muito claro como o comportamento de cada um determinara uma reação diferente no animal. O respeito de Lúcia e a agressão de Roberto geraram consequências diversas.

A professora, satisfeita com a lição, completou:

- Se Roberto tivesse vindo para a escola, como era seu dever, não estaria agora sofrendo e nem dando preocupação a seus pais. Nada mais há para ser dito. Está terminada a aula.
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Célia Xavier de Camargo é natural de Gália/SP, espírita, escritora com 23 livros publicados. É formada em Direito, sendo atualmente professora aposentada. Casada com 4 filhos. Reside em Rolândia – PR. Residiu por muitos anos na cidade de Marília (SP), onde participou ativamente do movimento espírita. Em 1980 iniciou-se na psicografia, publicando 15 livros de diversos autores espirituais, disponíveis nas livrarias espíritas. Tendo atuado por muitos anos na área infanto-juvenil de educação espírita, desde o ano de 1985, é responsável por uma página inteiramente dedicada à criança no mensário O Imortal, de Cambé/PR. Palestrante por todo o Brasil divulgando o Espiritismo. O livro “Um anjo em nossas vidas”, faz parte do Clube do Livro do Instituto Chico Xavier.

Fontes:
Jornal O Imortal. Cambé/PR: Fevereiro de 2000.
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