quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Asas da Poesia * 138 *


Poema Indígena de
PAULA BELMINO
Lagoa Nova/RN

Sangue de Índio

Sou filha de índio
Aprendi com eles a dançar
Na luta pela mata virgem
Pela floresta livre a passear
Tenho seu sangue
Guerreiros sempre a lutar
Cantam e seus males espantam
Assim com eles vivo a cantar
Sou filha de índio
E os animais são meus companheiros
Amo a natureza
E a ela tenho por minha mãe
Planto, reciclo, não derrubo as árvores,
Alimento-me do suor de minha mão
Sou filha de índio
E respeito a diversidade
Faço barulho pra alegrar a vida
Num ritual de felicidade
Sou pintura e riso
Sou cultura em qualquer parte
Sou filha de índio
Sou beleza, cor e arte.
O sorriso é minha arma
Ecoando pelos quatro cantos do mundo
Na dança de amor pelo futuro.
Não esquecendo as raízes
Quero uma terra sem sangue,
Em paz! Homens felizes!
Sou filha de índio
Meu sangue é deles
E por eles existo e vivo
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Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

Velho tema (IV)

Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades de sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.
= = = = = = = = =  x 

Poema de
WISLAWA SZYMBORSKA 
Kornik/Polônia (1923 - 2012)

Álbum

Na minha família ninguém morreu de amor.
Se alguma coisa houve não passou de historieta.
Tísicas de Romeu? Difterias de Julieta?
Alguns envelheceram até ganhar bolor.
Ninguém a definhar por falta de resposta
a uma carta molhada e dolorosa.
Apareceu sempre por fim algum vizinho
com lunetas e uma rosa.
Ninguém a desfalecer no armário de asfixia
de algum marido voltando sem contar.
E os mantos e os folhos e as fitas de apertar
a nenhuma impediram de ficar na fotografia.
E nunca no espírito satânico de Bosch!
E nunca pelos quintais de arma em punho!
De bala na cabeça teve a morte outro cunho
e em macas de campanha alguém os trouxe.
De olheiras fundas como após a grande folia,
até esta aqui de carrapito estático,
se fez ao largo em grande hemorragia
mas não por ti, ó bailarino, e com viático.
Talvez antes do daguerreótipo, alguém,
mas nos deste álbum, ninguém, que eu verifique.
Tristezas dissiparam-se, os dias sucederam-se,
e eles, reconfortados, sumiram-se de gripe.
(Tradução: Júlio Souza Gomes)
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Trova Popular

Por te amar perdi a Deus,
por teu amor me perdi,
agora vejo-me só,
sem Deus, sem amor, sem ti.
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Soneto de
GILSON FAUSTINO MAIA
Petrópolis/RJ

Primavera 

Então ela chegou mostrando as cores, 
transformando a tristeza em alegria, 
trazendo borboletas, poesia, 
suavizando o encontro dos amores. 

Aqui e ali, já estão brotando as flores, 
e os passarinhos, ao raiar o dia, 
no pomar fazem sua sinfonia. 
Vibrem poetas, cantem trovadores! 

Modifica-se, inteira, a natureza. 
A musa mostrará sua beleza 
e o jovem perderá seu coração. 

O sol irá brilhar mais claro agora! 
Capim novo, refaz-se a nossa flora, 
há mais vida no ar e em nosso chão.
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Poema de
JONAS ROGÉRIO SANCHES
Catanduva/SP

Semeaduras de Amor e Sangue

Sulquei a terra e ali plantei
sonhos, sangue e lágrimas;
depois de um tempo eu colhi
mil flores de cores áridas.

Semeaduras de almas inocentes
onde o amor foi a semente,
onde a dor foi o adubo
que fez crescer perdão na gente.

Terras de arados tão febris
que alimentam paixões pueris
que atormentam o trovador
que resolveu morrer de amor.

Terras plantadas, flor que condiz
na madrugada seu olor matiz,
noite enluarada e uma cicatriz
no peito que mata o amor motriz.

Plantei meu sangue pelos terreiros
desse sertão tão meu, brasileiro;
colhi meus sonhos tão inconsequentes
e fui feliz amando a minha gente.
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Soneto de 
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
Mariana/MG, 1729 – 1789, Ouro Preto/MG

VIII

Este é o rio, a montanha é esta,
Estes os troncos, estes os rochedos;
São estes inda os mesmos arvoredos;
Esta é a mesma rústica floresta.

Tudo cheio de horror se manifesta,
Rio, montanha, troncos, e penedos;
Que de amor nos suavíssimos enredos
Foi cena alegre, e urna é já funesta.

Oh quão lembrado estou de haver subido
Aquele monte, e as vezes, que baixando
Deixei do pranto o vale umedecido!

Tudo me está a memória retratando;
Que da mesma saudade o infame ruído
Vem as mortas espécies despertando.
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Poema de
INGMAR HEYTZE
Utrech/Holanda

Trabalho Noturno

O tic-tac do despertador. O sussurro da caldeira.
O fremir do frigorífico quando liga e desliga.
Os batimentos da chuva contra a janela.
A escuridão apodera-se de nós.

 O sono entrega o coração e a respiração
ao ritmo da noite.
A alma a secar calmamente pendurada
nas suas cordas branco-prateadas.

A manhã inverte os papeis.
O barulho do chuveiro. O apito da chaleira.
O café a gotejar. A escuridão
esconde-se nas cortinas

e espera, e espera, apenas espera e,
espera.
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Soneto de
BASTOS PORTELA
Recife/PE, 1890 – 1956

Esplendor efêmero

És moça e bela. Assim, hoje pões e dispões;
E, feliz, num requinte fátuo de vaidade,
Vais pela vida, altiva, a esmagar corações...
Nada encontras no amor que te amargure ou enfade!

Mas, quando, um dia, enfim, atingires a idade
Em que se perdem, para sempre, as ilusões,
Tu me dirás, então, o que é sentir saudade
E o que é chorar no horror de longas solidões...

A beleza desfeita, humilde, decadente,
Serás a flor que, num jardim, murcha e descora,
Ao crepúsculo azul da tarde, mansamente...

E vendo-te passar, como os fantasmas, eu...
Eu sofrerei, talvez, como quem lembra ou chora
Uma bela mulher que se amou, e morreu!
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Poema de
FERNANDO NAMORA 
Condeixa-a-Nova/ Portugal, 1919 – 1989, Lisboa/Portugal

Poema para Iludir a Vida

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul. 

O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
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Hino de 
Jaraguá do Sul/SC

Entre montes te vejo engastada,
Marginando corrente prateada...
Vibra um povo querendo progresso,
Crescimento, trabalho e sucesso.

Jaraguá do Sul és vibrante,
Não haverá quem te suplante,
Teu povo alegre e varonil,
Tem por lema: Avante Brasil.

De teus campos abertos em flor,
Da indústria a todo vapor,
Brotam rios de riqueza a sorrir.
Para o dia de amanhã que surgir.

Teu brasão tem o verde: é esperança,
O vermelho, este povo que avança.
Ao lufar da bandeira marchamos
Pela terra que é nossa e que amamos.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A raposa e o busto

Era um busto famoso, um todo teatral...
Por entre a multidão, o burro, esse animal
Que não sabe julgar senão as aparências,
Gabava da escultura as raras excelências.

A raposa, porém, um tanto mais sabida,
Aproxima-se e diz: «Não vi, por minha vida,
Cabeça tão perfeita!... É mágoa verdadeira
A falta que lhe faz lá dentro a mioleira!»

Aos centos, pelo mundo, os homens conto
Que são bustos perfeitos neste ponto.
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Quadrão em Oito* de
LACERDA FURTADO**

Quadrão para Joaquim Batista de Sena

Namorando a Salomé, 
Vi a barca de Noé, 
Palestrei com Josué, 
Com Jacó e Salomão; 
Travei luta com Sansão, 
Nadei no delta do Nilo, 
Montado num crocodilo, 
Cantando os oito em Quadrão!
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* QUADRÃO EM OITO
Ao longo do tempo, o Quadrão tem sido o gênero a receber o maior número de alterações, não só na sua forma interna, mas, também, na estrutura das estrofes, em geral. O Quadrão antigo é formado por uma estância de oito linhas, pertencente à família dos setessílabos, rimando o primeiro verso com o segundo e o terceiro; o quarto com o oitavo, e o quinto com o sexto e o sétimo, contando, no final, o estribilho de sua denominação. O Quadrão em oito apareceu com ligeira modificação na sua forma interna, isto é, o quarto verso que rimava somente com o oitavo passou a rimar também com o quinto. (http://www.bahai.org.br/cordel/generos.html)

Após modificações no universo multifacetado da cantoria, os Quadrões foram incluídos nas Décimas e hoje temos quatro modalidades deste gênero com dez pés, todos mantendo o estribilho na última linha das estrofes.  Além dos cantadores Antônio Batista Guedes, Simplício Pereira da Silva e Manoel Furtado, os saudosos irmãos Batista (Dimas, Lourival e Otacílio), foram os grandes mestres deste estilo especial de cantoria, inclusive tendo sido (os Batista) os criadores do famoso “Quadrão Perguntado”, que recebeu esta denominação por ser uma espécie de diálogo constituído de perguntas e respostas intercaladas, obedecendo a métrica e a rima, pelos dois cantadores. (Fonte: Lilian Maial ) 

** Lacerda Furtado = não encontrei dados de nascimento e/ou morte deste poeta. Se alguém souber, favor me enviar para atualizar no blog.
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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Renato Benvindo Frata (Piá* de Homem)


- O menino tá ficando homem - disse meu pai - irá comigo... - ao que ela sorriu, puxou-me para o quarto dando-me para vestir uma calça comprida, camisa e a cinta que ele ajustara para minha cintura. E logo me apresentei.

- Ahl bom... vestido igual a mim... como homem. Vamos, que o seu Chiquinho nos espera.

Era alto, espadaúdo, magriça e de pele tão branca que o avermelhado do sangue, em relação aos cabelos claros, fazia-o mais branco.

Deu-me o dedo indicador que agarrei com força, e foi nesse toque que senti o quão forte era a sua mão. A junção de calor me deu segurança; afinal, era a primeira vez que eu iria a uma barbearia, e a se comparar as ferramentas do barbeiro com a tesoura de costura de minha mãe, picotando-me as mechas, o aparato dele com tesoura, pente, escova, navalha, talco, toalhas e Gumex a gosto, era a novidade a quase me deixar nervoso. Que logo se desfez, quando seu Chiquinho, ao me cumprimentar, estendeu–me um pirulito que foi logo desembrulhado e colocado na boca.

- Como quer o corte? - perguntou - à la Humphrey Bogart ou a Yul Brynner?

Dei de ombros, sem entender, até que meu pai interveio:

- Bodinho, no capricho!

E riu da piada sobre os artistas, um de cabelo alinhado, garboso e belo a atrair olhares femininos, e o outro completamente careca, cara de rude, cenho fechado, que vim conhecer e admirar só depois, nos filmes em Cinemascope. O Hamphrey era namorador, o Yul, matador de bandidos. Humphrey Bogart provocava suspiros às moças casadoiras nos filmes de romance, enquanto Yul Brynner se destacava nos de ação a arrancar aplausos da molecada, coisas que a memória armazena para não esquecer.

Terminado o trabalho, segurei de novo seu indicador e o contato das mãos grandes, como na vinda, me deu sensação de segurança, ao tempo que me levou a ver no pai não o mandão que era, mas um homem forte e decidido. 

Deu-se ali a ligação de firmeza, de certeza, altivez que só eu desfrutava perante as outras pessoas das calçadas, porque aquele homem alto de pele avermelhada que unia sua mão à minha, era o meu pai e ele estava ao meu lado a provocar em nós sentimento da cumplicidade de amigos caminhando lado a lado, devotando amizade, companheirismo, confiança, crédito e, por consequência, felicidade e demais adjetivos que se queira dar à relação que se fazia diferente das até então.

Eu estava a sair pelas ruas sem a presença da mãe que geralmente me guiava como criança, e poderia ter ido ao banco com ele, ao bar, ao jogo de bocha, às discussões políticas, mas não: fora ao barbeiro, como faziam os homens a cada mês, incursão primeira que marcou indelével o relacionamento.

Mão com mão vale mais que um abraço apertado, quando há no toque a reciprocidade.
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* Piá = termo utilizado no Paraná que significa criança do sexo masculino.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil..

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
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Aparecido Raimundo de Souza (Só ficou, de fato, a escuridão)


AS MINHAS MENINAS se foram. De repente, partiram, bateram asas como pássaros assustados numa manhã solitária. Minhas princesas voaram para longe. Alçaram um voo sem volta para um planeta desconhecido que não sei dizer com precisão onde fica situado. Acredito, inclusive, que viajaram para um lugar onde meus passos não alcançam. Ficou por aqui morando comigo o silêncio. De roldão, além do silêncio, se engrandeceu o eco das risadas que antes preenchiam a casa. Se solidificou o choro convulso quando eu ralhava por alguma discordância, ou por uma arte não prevista. Ficou mais, se fez presente um vazio denso que se alastrou com a ausência infame que pesa mais do que qualquer lembrança. Igualmente restou o vácuo dos carinhos que me endereçavam; uma com os olhinhos perdidos num ponto distante; a outra, chupando o dedinho como se pensasse num amanhã que ainda nem havia chegado para nós. 

Hoje, preso e acorrentado nesta solidão, procuro caminhos, sendas, trilhas e veredas. Invento mapas, crio expectativas, ensaio palavras, faço músicas, escrevo crônicas, mas o destino delas, o paradeiro, eu sei, (não, eu não sei), se esconde atrás de janelas e portas invisíveis. E eu, aqui, aos setenta e dois anos, sigo perguntando ao vento: como chegar até onde elas estão? O vento não responde. Não sei! As minhas meninas desapareceram como quem fecha uma porta sem fazer barulho. Não houve aviso, não houve bilhetes na mesa. Apenas o vazio pesado e denso, esse hóspede antigo que sabe se instalar sem pedir licença. De repente, elas, as minhas meninas, se tornaram sombras em outro quintal — risos em outras casas, segredos em mãos que não conheço o calor do toque. E eu, meu Deus, eu fiquei aqui, permaneci estancado, tentando decifrar o mapa de um território que não existe, 

E ainda agora, aqui estou, procurando incansável e atônito, atalhos em ruas e vielas, alamedas e desvãos que não levam a lugar algum, a não ser para dentro da minha própria solidão. Venho aprendendo, dia após dia, que o tal do desconhecido é uma espécie de labirinto de Dédalo. Sei que há vida lá dentro, ouço barulhos, distingo vozes, risos — por vezes choros, mas não consigo enxergar, ver claramente o âmago da realidade. É como se o tempo tivesse engolido as minhas meninas e cuspido apenas lembranças frágeis como migalhas de um vidro enorme quebrado em mil pedaços. No silêncio da noite, tarde da noite, a coisa fica mais insuportável. Escuto, mergulhado nos meus medos, passos que não vêm. Invento diálogos, imagino retornos, contudo, do nada, o tudo, o tudo se dissolve como fumaça em meio à forte ventania. 

Talvez seja isto: eu preciso urgentemente aprender mais, ou seja — careço de conviver com o que não se alcança, com aquilo que se perde sem explicação. Enquanto não distingo, sigo assim, me abalando entre o peso da ausência e a leveza da esperança. Vou à frente, mas à esmo, ao Deus dará, como um autônomo — tipo uma espécie de robô que escreve cartas ao vento, na expectativa de que um dia ele descubra o caminho de volta. E nele, traga as minhas meninas. Pois é, meu Deus! As minhas meninas se foram. Não houve despedida, não houve promessas de retorno. Apenas um silêncio pesado, denso, volumoso, insípido, que se instalou como poeira sobre móveis antigos, cobrindo cada canto da casa. De repente, elas se tornaram invisíveis, como se tivessem atravessado uma fronteira secreta — um portal que só elas conheciam. 

Eu, eu fiquei aqui, permaneci do lado de cá, tentando decifrar sinais, rastros, pegadas, qualquer vestígio que me indicasse o caminho para chegar até elas. O desconhecido é um senhor sem rosto, sem voz, sem saída, e cada tentativa de alcançá-lo me devolve ao mesmo ponto, qual seja, a ausência. Sei que é inusitado pensar que o tempo continua, segue adiante, mesmo quando a vida parece suspensa. As horas passam, ou melhor, voam, os dias se acumulam, se atropelam e eu sigo colecionando perguntas sem respostas. Onde, onde estão? Quem as guarda? Que vozes as chamam agora? Às vezes imagino que se tornaram personagens de um livro-romance que nunca li, vivendo capítulos que não me pertencem. Outras vezes, penso que são como estrelas: astros distantes, mas ainda brilhando em algum lugar lá em cima, no imenso céu, mesmo que eu não consiga vê-las.

O desconhecido é mais que um senhor sem rosto, é uma sombra tenebrosa que não se revela.  Mesmo tapa, uma porta fechada, sem chave, um nome que não se pronuncia. E eu, aqui, eu aqui, sigo escrevendo cartas que nunca serão entregues, tentando dar forma ao vazio, como se pedisse socorro a alguém que nunca virá para me dizer “ei, ser vivente, elas apesar dos pesares, voltarão, se acalme, estão chegando”. Talvez seja isto que restou: eu no meu oco tentando aprender a toque de caixas, a porradas de uma vida vazia e cruel a conviver com o invisível, com o que me escapa das mãos. Aceitar que há histórias que não se contam, destinos que não se alcançam — tendo consciência de que a perquisição de toda esta infelicidade atroz segue sendo uma só: até quando? Só Deus tem as respostas. Enquanto estas indagações não são respondidas, eu sigo.

Me embrenho, me descabelo, entre o peso esmorecido e consternado da ausência e a leveza gélida, perversa e lancinante da imaginação. Me infiltro às apalpadelas, entre o silêncio mordaz e pétreo que dói e as palavras impiedosas que tentam preencher o meu “eu interior”. Sigo como quem caminha em direção ao nada. Me enlaço acreditando que o nada também pode guardar segredos. Talvez seja isso: eu, aqui, sem saída, sem horizonte, aprendendo de alguma forma, ainda que meio destrambelhado e feérico, que nem tudo precisa ser efetivamente revelado. Tenho urgência em tomar ciência, ou consciência, de que há histórias as mais diversificadas que se escrevem no invisível. Mesmo modo, destinos que se cumprem longe dos nossos olhos. E que, mesmo sem saber como chegar, colocar na cabeça, de uma vez para sempre, que ainda é possível, ainda é possível ESPERAR.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Reside atualmente em Vila Velha/ES.
Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Guirlanda de Versos * 45 *

 

Mensagem na Garrafa 148 – Luiz Otávio (Oração do Poeta)

 

LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1977, Santos/SP
Oração do Poeta 

Senhor!

Eu vos agradeço, humildemente, por terdes, entre muitos, dado a mim o dom da poesia!

Fazei que jamais eu esqueça de que nada sou, e que de Vós, tudo me veio!

Não permitais que eu use os meus versos para bajular os poderosos e humilhar os pequeninos!

Nas vitórias de meus irmãos que eu sinta a mesma alegria que sentiria se elas fossem minhas!

Se generosamente, a mim trouxerem coroas de louro, que eu as receba com a mesma humildade com que Vós aceitastes a coroa de espinhos!

Que na realidade eu não seja outro diferente daquele mostrado na minha poesia!

Que eu ouça com serenidade as críticas dos amigos, as invejas dos invejosos, e os elogios dos bajuladores!

Que eu cante singelamente, como um pássaro liberto, o canto que Vós me destes sem me preocupar com os aplausos deste mundo!

Que meus versos sirvam de estimulo aos jovens,
de consolo aos velhos,
de esperança aos aflitos,
e de paz aos angustiados.

Que minha vida e minha poesia, nos minutos de alegria

e nos momentos de dor, sejam sempre condensadas numa só palavra: 
A M O R!…

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domingo, 30 de novembro de 2025

Asas da Poesia * 137 *


Soneto de
MARTINS FONTES
Santos/SP 1884 – 1937

O que se escuta numa velha caixa de música

Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser u prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.

Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.
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Aldravia de
DORÉE CAMARGO CORRÊA
Rio de Janeiro/RJ

mãe
natureza
espalha
ruídos
palavras
amor
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Soneto de
CID SILVEIRA
São Vicente/SP, 1910 – ????

A Rua da Vida
À Affonso Schmidt

Esta é rua da vida. E a vida se revela,
a rua sem pudor, completamente nua.
Mas, mostrando-se nua, a vida não é bela
e não é boa a vida através desta rua.

O convite que sai da entreaberta janela
tem a fascinação indizível da sua
promessa de pecado! E, atraída por ela,
a sombra do homem pelas portas se insinua ...

Marítimos gingando o corpo forte e suado,
malandros de chinelo, asiáticos franzinos,
toda esta malta vil que o homem detesta

vem deixar, nesta rua, um pouco do passado;
vem cumprir, nesta rua, os seus torvos destinos
para que possa haver a nossa rua honesta! 
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Poema de
ONÉSIMO DA SILVEIRA
Ilha de São Vicente/Cabo Verde

As águas

 A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!

(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)   

Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!   

 Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Até que ao olhar brando e calmo da manhã
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!  
Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...
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Quadra Popular

Eu amante e tu amante,
qual de nós será mais firme?
Eu como o sol a buscar-te,
tu como a sombra a fugir-me?
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Soneto de
REGINALDO ALBUQUERQUE
Campo Grande/MS

Soneto ao soneto

Na tua imortal forma, exata e nobre, 
onde a musa imprevista se aventura 
fino pelo de címbalos te encobre, 
desafiando o estro e a razão mais pura. 

Afirmam os incautos que és de cobre, 
arcaico para quem a tessitura 
de cantar o atual jamais se dobre 
ao rigor triunfal que em ti perdura. 

Varinha de condão da antiguidade 
soneto, tua síntese inquieta 
contém sonho, esperanças e saudade… 

Para sempre será o teu reinado, 
enquanto houver no mundo algum poeta 
ou o pulsar de um peito enamorado!
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Soneto de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Dilema

Tenho vivido um dilema
que tem me tirado o sono,
na cama vejo o problema...
já não sei mais quem é o dono.

Deitado, quando eu me viro
vocês podem até rir,
sinto na nuca um respiro...
minha cadela a dormir.

Fico pensando, portanto,
afinal, eu mando ou não?
A safada estica tanto,
que acabo caindo no chão.

A vida é tão engraçada...
"Êta" cadela folgada!!!
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Sextilha de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Teia de Trovas

Se teia tem as aranhas
para pegar seu sustento
não vejo nada de mal
este seu mais novo intento
de criar "Teias de Trovas"
para tecermos as novas
trovas em encadeamento!
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Escada de trovas de
FILEMON FRANCISCO MARTINS
São Paulo/SP

“A lua divina e bela,
num capricho assim desfeito,
invade a minha janela
e vem sonhar no meu leito.”
Hedda Carvalho 
Nova Friburgo/RJ

“E Vem Sonhar No Meu Leito”
nesta noite enluarada,
quero ver-te junto ao peito
esperando a madrugada.

“Invade A Minha Janela”
fique aqui, feliz e calma,
que o perigo da procela
não resiste a paz da alma.

“Num Capricho Assim Desfeito”
ainda há luz e beleza
que o clima fica perfeito
- o amor é paz e  certeza.

“ A Lua Divina E Bela”
reina perene no céu,   
lua que a todos,  revela
quem ama, não vive ao léu.
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Soneto de
ARTUR EDUARDO BENEVIDES
Pacatuba/CE, 1923 – 2014, Fortaleza/CE

Do Amor

O amor, este vasto querer bem,
Esse entregar-se quando se é tomado,
Essa estrada de luz, esse ar sagrado,
Esse sentir-se em vésperas, também.

Essa fonte que júbilos contém,
Esse rio em que nado, deslumbrado,
Esse momento retransfigurado, 
Esse fogoso e louco palafrém

– É a força infinita da esperança,
Tão poderoso, que se nos alcança,
Alvorada repõe em nossa vida.

E sendo a longa estrela dos caminhos,
É rosa a nos ferir com seus espinhos,
Do eterno, porém, sendo a medida.
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete, 1906 – 1994, Porto Alegre

Ao longo das janelas mortas

Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrível!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso
Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho…
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Spina de
CARLA BUENO OLIVEIRA
São Paulo/SP

Esqueço de tudo

Esqueço de tudo
Desde que conheci
Você, meu universo.

Você tornou-se a minha vida
A razão de tudo, enfim,
De existir cada novo verso
Foi tão bom isso acontecer
Não poderia ser o inverso!
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Glosa de
NEI GARCEZ 
Curitiba/PR

Curitiba, Mocidade! 

MOTE:
Curitiba, tanta graça,
só você não fica idosa ;
sempre que no tempo passa,
cada vez é mais formosa!

GLOSA:
Curitiba, tanta graça
que recebe de seu povo,
aqui mesmo desta praça,
ou turista, sempre novo.

De esmerado tratamento
só você não fica idosa,
pelo próprio sentimento
desta clã tão generosa.

Exubera tanta graça
ao turista mais viajado:
sempre que no tempo passa
seu visual é elogiado.

Curitiba, mocidade,
de beleza majestosa,
quanto mais aumenta  idade
cada vez é mais formosa!
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Soneto de
CHARLES BAUDELAIRE
Paris/França, 1821 – 1867

A Beleza

Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra,
E meu seio, onde todos vem buscar a dor,
É feito para ao poeta inspirar esse amor
Mudo e eterno que no ermo da matéria medra.

No azul, qual uma esfinge, eu reino indecifrada;
Conjugo o alvor do cisne a um coração de neve;
Odeio o movimento e a linha que o descreve,
E nunca choro nem jamais sorrio a nada.

Os poetas, diante do meu gesto de eloquência,
Aos das estátuas mais altivas semelhantes,
Terminarão seus dias sob o pó da ciência;

Pois que disponho, para tais dóceis amantes,
De um puro espelho que idealiza a realidade.
O olhar, meu largo olhar de eterna claridade!

(Tradução de Ivan Junqueira)
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