domingo, 7 de dezembro de 2025

Asas da Poesia * 140 *



Haicai de
A. A. DE ASSIS 
Maringá/PR

Sopra o vento as pétalas. 
Narinas correndo atrás 
do perfume delas.
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Carnaval 

São ricas as fantasias
dos meses de fevereiro.
Carnavais - que ironias!
- motivam o ano inteiro.

Arlequim faz palhaçadas
aos olhos das colombinas.
Dançam drogas nas calçadas
— oh, vis armas assassinas!

Tantos pierrôs delinquentes
nestes tempos tão carnais!
Assanham impertinentes
as colombinas sensuais.

Consequência indesejada
por imprudente cegueira,
a aids vem por um nada
e condena a vida inteira.

São lindas alegorias
que se vê passar ali.
Ficam, porém, agonias
no chão da Sapucaí.

Carnaval! Quanta ilusão
de um bloco de tanta asneira!
Eis o vazio coração
numa vida feiticeira!
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Poema de
NÉLIO CHIMENTO
Rio de Janeiro/RJ

Quem ampara os animais
É gente que faz
O mundo parecer melhor
Gente que não para na dó
Faz do amor, verbo de ação
Tira as amarras do coração 
Diante de um corpo desnutrido
Com um olhar perdido
A suplicar por atenção
Um pedaço de pão
Um gesto de carinho
Apenas um tempinho
Longe do desamparo e da solidão
Quem ama, protege, acode
Não se sacode
Desvia e vai embora
Sem demora
Cuidar do que mais importa
Sem entreabrir uma porta
Para a visita da compaixão
Com todos os seres da criação
Quem respeita os animais
Não estará só jamais
Tem a alma bafejada pelos canais
Que abençoam a boa vontade
Dos que deixam rastos de caridade
Por onde passam nesse mundão
Gente que anda pela rua
Iluminada pelo sol ou pela lua
A receber o balsamo merecido
Na pureza de um olhar agradecido
De um cãozinho amparado e protegido

Quem ama de verdade os animais
Acorda feliz e dorme na paz
= = = = = = = = =  

Quadras de
ANTÓNIO FLORÊNCIO FERREIRA
Lisboa/ Portugal, 1848 – 1914

XVI

Meu Amor, estás dormindo,
Não te quero despertar...
Há de ser devagarinho
Que trovas te vou soltar.

De musgo, lírios e rosas
Uma cama irei fazer;
De jasmins e de saudades
O travesseiro há de ser.

Quero que vejas nos sonhos,
Lindos, belos, perfumados,
Os meus olhos, da vigília,
Tristes, lânguidos, magoados...
= = = = = = = = =  

Haicai de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Aromas florais
libertam a poesia—
sinto a primavera.
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Para o amor 
Não desbotar,
Palavras diárias de carinho 
São como lápis de cor
Que dão vida
Aos espaços vazios.
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Trova Popular

Pobre louco apaixonado,
ai de mim! Que não mais via,
que seu amor, pouco a pouco,
esfriava dia a dia.
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Poema de
DIVANI MEDEIROS
Natal/RN

Setembro 

Primavera, mês do florescer, 
Flores desabrocham no alvorecer. 
Muitas adormecem com a chegada da lua, 
Outras acordam para enfeitar a rua. 
Despertam  sorrindo com o sol aquecendo 
Ornamentam jardins e residências.
Com cores variadas,  deixam pétalas nas calçadas, 
Adornam os dias e causam admiração. 
Inspiram  contos,  cordéis, músicas e poesias, 
Presenteando a diversidade  todos os dias...
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Poema de
ATÍLIO ANDRADE
Curitiba/PR

O viaduto 

O viaduto serve de ponte
Para transpor, atravessar 
Para o outro lado 
Mas, também  há  um monte
Embaixo dele a morar
Sem nenhum cuidado
Quando a noite chega
A disputa  acelera
Há  cochichos e gritos da galera
Tornando  a vida um pega
Enquanto  ao redor 
Ninguém  nada vê 
Não  sente a dor
Que sente  você
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Poema de
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

Como já não durmo 
Também não sonho 
O que me inspira 
É o respirar 
Dos pirilampos, em 
Seu efêmero vórtice 
Na espiral de luz.
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Poema de
DANIEL RODAS
Campina Grande/PB

De relva e folhas

acordo cada célula 
de espanto

quando me ponho 
sozinho
na grama sob as estrelas

e meu olhar se
funde
difuso junto aos galhos

como o fluir da
vida
sobre a ferida das horas
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Cantiga de Infantil de Roda

Oh! Sindô le-lê

Oh! Sindô lê-lê
Oh! Sindô lá-lá
Oh! Sindô lê-lê
Não sou eu que caio lá

Oh! Maria quer ser freira.
Não, senhor, quero casar;
Tenho o dia pro trabalho
E a noite pra descansar

Oh! Sindô lê-lê
Oh! Sindô lá-lá
Oh! Sindô lê-lê
Não sou eu que caio lá

Menina da saia curta,
Do cabelo de retrós;
Bota a chaleira no fogo,
Vai fazer café pra nós.

Oh! Sindô lê-lê
Oh! Sindô lá-lá
Oh! Sindô lê-lê
Não sou eu que caio lá

Menina da saia verde,
Não pise neste lameiro;
Não se importe, meu senhor,
Não custou o seu dinheiro.

Oh! Sindô lê-lê
Oh! Sindô lá-lá
Oh! Sindô lê-lê
Não sou eu que caio lá

Eu subi naquele morro,
De sapato de algodão;
O sapato pegou fogo
E eu voltei de pé no chão.

Oh! Sindô lê-lê
Oh! Sindô lá-lá
Oh! Sindô lê-lê
Não sou eu que caio lá
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Hino de 
Gramado/RS

No alto da Serra Gaúcha
Num verde planalto ondulado
Vislumbram-se em meio aos outeiros
O velho e benquisto “Gramado”.

Cantemos num brado festivo
Com calma de ardor juvenil
O amor que nos liga a “Gramado”
Parcela do vasto Brasil.

Descendo as alturas do centro
Por vales, peraus e escarpadas,
Dos homens do campo, as lavouras
Desdobram-se ao longo espalhadas.

Indústria, comércio e colônias,
Num único esforço aplicado,
Retratam o ardor progressista
Que anima o porvir de Gramado.

Riquezas da mãe natureza
Que Deus semeou nesta terra
Ofertam aos muitos turistas
Saúde nos ares da Serra.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Sacode as mágoas das vestes
Arranca os espinhos do peito
Nesse peito que se insufla rarefeito 
Desesperando por alento
Quando tudo parece desabar

És um viajante na estrada
Carregas nas costas a coragem
Dos que sabem trilhar seu caminho
Um guerreiro a iluminar
Os que em ti se sabem abraçar

Ama-te em sentimento primeiro
Sorri à imagem que de ti reflete
És capitão do teu destino
Esse é o maior tesouro
O segredo que terás que desvendar

Ama-te inteiro e em verdade 
Nada menos que isso
Não te conformes com a metade
Verás toda a força que em ti transportas
Guerreiro de luz predestinado a amar.
(do livro Na pele do sentir)
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Os dois galos

Dois galos se meteram em peleja
A fim de se saber qual deles seja
O capataz de um bando de galinhas:
Unhadas e picadas tão daninhas
Levou um, que se deu por convencido,
E andava envergonhado e escondido.

O vencedor se encheu de tanta glória,
Que para fazer pública a vitória,
Pôs-se de alto, voou sobre umas casas;
Ali cantava, ali batia as asas.

Andando nestas danças e cantares,
Veio uma águia, levou-o pelos ares;
E saindo o que estava envergonhado,
Gozou do seu ofício descansado.

Quem contemplasse bem quão pouco dura
Neste mundo qualquer prosperidade,
Livre estava de inchar por vaidade
Com um leve sucesso de ventura.
O que tem a alegria por segura,
É doente, e o seu mal fatuidade;
Que ela passa com muita brevidade,
E vem logo a tristeza, e muito atura.

De mudanças o mundo está tão cheio.
Que hoje rio, amanhã estou sentindo
Uma grande desgraça que me veio:
Delira quem dos tristes anda rindo;
Que é absurdo gostar do mal alheio,
Quando o próprio a instantes está vindo.
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sábado, 6 de dezembro de 2025

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Agora, Inês é morta”


A frase se tornou um ditado popular que expressa uma decisão já foi tomada, uma ordem expedida, um fato consumado, uma oportunidade perdida ou um erro grave cometido, sem possibilidade de retorno. Quando é utilizada, reflete de imediato uma situação irreversível do ponto de vista fático, perante a qual qualquer ação no sentido de modificá-la, revela-se inútil. 

Por incrível que pareça, essa expressão se originou numa tocante história de amor entre D. Pedro I, príncipe herdeiro de Portugal e dona Inês de Castro, nos idos do século XIV. A partir da tragédia que permeou esse relacionamento amoroso, seu significado é apenas um – de que não adianta fazer ou tentar fazer coisa alguma ou chorar pelo leite derramado, pois a situação não se reverte, o estrago já está feito, o que era possibilidade virou certeza, restando induvidoso ser tarde demais para resolver ou mitigar o problema.

A charmosa Inês de Castro era a dama de companhia predileta da esposa do príncipe D. Pedro I. Era filha de D. Pedro Fernandes de Castro, mordomo-mor do rei D. Afonso XI de Castela e da dama portuguesa Aldonça Lourenço de Valadares. Seu pai era neto, por via ilegítima, de D. Sancho IV de Castela, um dos fidalgos mais poderosos do Reino de Castela.  

D. Pedro, herdeiro do trono português, casou-se com dona Constança, porém foi pela sua mais bela dama de companhia que ele viria a se apaixonar perdidamente, ficou por ela, como dizem vulgarmente, “arriado dos quatro pneus”. E esse proibitivo romance obviamente não foi aceito pela Corte, na conservadora Europa daquele tempo. E tamanho foi o incômodo daquele romance de alcova, que o Rei de Portugal mandou exilar dona Inês de Castro num distante castelo, situado nos limites da fronteira com a Espanha, esperando que o proposital isolamento operasse o efeito do esquecimento entre os dois, tentativa vã - diga-se de passagem - pois apesar nos limitados meios de comunicação daquele século, os amantes continuavam a se corresponder frequentemente, como de resto acontece nas melhores famílias da atualidade.

Com a morte de dona Constança, surgiu para D. Pedro a oportunidade de ouro de finalmente realizar seu sonho e desposar dona Inês, mesmo contra a vontade paterna. Por isso fez gestões no sentido de providenciar seu imediato regresso à Corte para com ela se unir, desta vez sem impedimentos, o que não foi suficiente para deixar de escandalizar a nobreza de Portugal, fazendo surgir  aberta hostilidade entre pai e filho, pois era intenção do rei realizar o casamento do seu primogênito com uma dama da nobreza, de sangue azul, iniciativa solenemente repudiada por D. Pedro, que recusou incisivamente esse novo casamento de fachada, com alguém que não amava.

Do relacionamento dos dois amantes, visto pela nobreza como absurdamente irregular, resultou intensa prole (4 filhos), o que serviu para agravar ainda mais as já deterioradas relações entre o Rei e o Príncipe, exacerbada pela boataria da ameaça política dos fofoqueiros de plantão, que se dedicavam a especular quem seria desses rebentos o futuro herdeiro do trono, todos torcendo para que o Rei D. Afonso IV tomasse uma posição mais firme, drástica se fosse necessário, no sentido de pôr fim àquela incômoda e instável situação.

Essa oportunidade surgiu quando o Rei, aproveitando a ausência de D. Pedro em rápida viagem, foi pessoalmente com alguns fiéis escudeiros até onde se encontrava dona Inês e sem mais delongas, a executaram sem piedade, provocando sua morte, como era de se esperar, a profunda fúria e justificada revolta de D. Pedro contra D. Afonso IV, situação que perdurou até o falecimento deste último, quando então D. Pedro se tornou de fato e de direito o oitavo rei de Portugal em 1357, com o título de D. Pedro I.  

Vendo-se legitimado no trono, fez o novo monarca o que toda pessoa vingativa faz com seus adversários, ontem ou hoje: perseguiu e matou de forma particularmente cruel e sofrida cada um dos assassinos de D. Inês, arrancando-lhes o coração antes do golpe fatal, escapando ileso apenas um deles, que conseguiu fugir para a França e já em seu leito de morte, anos depois, conseguiu ser perdoado pelo seu abominável crime.   Consumada a vindita, D. Pedro mandou construir um imponente túmulo para D. Inês de Castro no mosteiro de Alcobaça, para onde trasladou o corpo de sua amada. 

Reza a lenda que antes da inumação do corpo para sua definitiva morada, Dom Pedro I promoveu uma macabra cerimônia de coroação do cadáver, obrigando todos os nobres da corte, que antes a hostilizavam, a beijarem a mão sem vida do cadáver, como forma de submissão, desagravo e público reconhecimento de que ela fora um dia a verdadeira rainha de Portugal. 

Outra lenda, tão improvável quando essa, diz que as lágrimas de D. Inês, vertidas quando estava prestes a ser assassinada pelo Rei e seus asseclas, formaram a Fonte das Lágrimas em Coimbra, no interior da Quinta das Lágrimas belo sítio cercado por jardins exuberantes e matas históricos (onde também existe a Fonte dos Amores) à margem esquerda do Rio Mondego, que nasce na Serra da Estrela e deságua no Atlântico junto à Figueira da Foz.. 

Com um tema propício a tantas especulações e usado popularmente para definir situações irremediáveis, a música popular brasileira não deixou por menos e a banda CE-040, concebeu uma música com essa temática, cuja letra se inspira no controvertido episódio da história portuguesa, aqui narrado:

“Agora é tarde, Inês é morta...
Cedo ou tarde, pouco me importa.
Depois, quem era essa Inês?
E o que foi que ela fez?
Ao menos não dessa vez,
Não quero ouvir clichês. 
Sou eu que vou dizer,
Querer pra mim é poder.
Posso chorar no leite derramado (...)”.

A expressão popular “AGORA, INÊS É MORTA” tornou-se também o nome de banda de punk paulista, que com sucesso, lançou um EP de 6 músicas e outro de 2 denominados INÊS É MORTA (em 2018); os EPs “Abismo” (em 2019); “Mentir” (em 2020), “Sozinha” (2021), “Espectro do Tempo” (em 2021), “Quarta Parede” (também 2021) e “Apogeu”, já no ano de 2022, quando felizmente foi superada a fase mais aguda da pandemia do Covid 19, de triste, sofrida e desagradável memória para todos nós.
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Pará e da Confraria Brasileira de Letras, no Paraná. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro efetivo do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados, é coautor de outros quatro e recebeu três prêmios literários.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Asas da Poesia * 139 *


Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

A lua enluara
a reza, a seresta, a ceia.
E os que ainda sonham
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Poema de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Não deixa te levar pela vingança, 
pois isto não é coisa de Cristão: 
perdoa! Com amor, e sem tardança 
vai lá, e abraça, e beija o teu Irmão! 

Se um dia alguém te fizer qualquer mal, 
não vira-lhe o rosto, imita a Jesus, 
o grande perdoador que, no final, 
perdoou os que lhe puseram na Cruz! 

Se alguma ovelha encontra-se afastada, 
procura-a, pois, pra Deus ela é preciosa; 
encontra-a, e traze-a de volta, "puxada" 
pelas cordas do amor..., esta "teimosa"!
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Soneto de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

O Caminho

Dize a palavra que te encerre o sonho,
aquela que resuma o teu desejo;
evita aquela de pesar medonho,
aquela de lamento malfazejo.

Dize a palavra que te encerre o sonho
com a mesma intensidade do teu beijo!
Evita o murmurar insano, e põe o
teu pensamento a trabalhar, que vejo

que aquilo que dizemos é que é ouvido,
ainda que o façamos em segredo...
— Não há palavra sem repercussão!...

Na estrada em que o homem vai, tão comovido,
seja de sua pátria, ou do degredo,
antes, por ela, andou seu coração!
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Quadra de
ANTONIO ALEIXO
Vila Real de Santo António/Portugal, 1899 — 1949, Loulé/França

Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das suas promessas
ganhando o pão que tu comes.
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Poema de
DILMA DAMASCENO
Caicó/RN

A Menina de Caicó

Imagino as “madeixas do sertão”,
com tranças enfeitadas de bonina,
realçando a paisagem campesina,
- a confundir-se com a plantação -,
no decorrer da flórida estação!

… E nas águas do Itans azul-turqueza,
- ao sabor indelével da pureza -,
imagino “a menina de Caicó”,
- pintando sonhos e remando só -,
em sintonia com a natureza!
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Trova Popular

Menina dos olhos verdes,
dá-me água pra beber;
não é sede, não é nada,
é vontade de te ver.
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Soneto de
JANSKE NIEMANN SCHLENCKER
Curitiba/PR

Deixa que eu brinque

Deixa que eu brinque por aí, à toa;
as aves brincam, brinca a ventania...
Brincam as flores com a luz do dia
e a borboleta que por elas voa.

Deixa que eu brinque, ainda que me doa
ver escapar-se a límpida alegria
do mesmo olhar, cuja inocência via
em qualquer coisa alguma coisa boa.

Deixa que eu brinque como se, inocente,
eu não soubesse que viver é queixa,
é choro apenas... E eu só peço: deixa...

Deixa que eu brinque levianamente
como se tudo - a nossa vida inteira -
jamais passasse de uma brincadeira...
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Poema de
FLORBELA ESPANCA
(Florbela d'Alma da Conceição Espanca)
Vila Viçosa/Portugal, 1894 — 1930, Matosinhos/Portugal

Poetas

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Feitos as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!
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Soneto de
VINÍCIUS DE MORAES
(Marcus Vinícius da Cruz de Melo Moraes)
Rio de Janeiro/RJ (1913 – 1980)

Soneto do Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
= = = = = = = = =  

Poema de
HÉLDER PROENÇA
Bolama/Guiné Bissau, 1956 – 2009, Bissau/Guiné Bissau

Não posso adiar a palavra

Quando te propus
um amanhecer diferente
a terra ainda fervia em lavas
e os homens ainda eram bestas ferozes

Quando te propus
a conquista do futuro
vazias eram as mãos 

negras como breu o silêncio da resposta

Quando te propus
o acumular de forças
o sangue nômade e igual
coagulava em todos os cárceres

em toda a terra
e em todos os homens

Quando te propus
um amanhecer diferente, amor
a eternidade voraz das nossas dores
era igual a «Deus Pai todo poderoso criador dos céus e da terra» 

Quando te propus
olhos secos, pés na terra, e convicção firme
surdos eram os céus e a terra
receptivos as balas e punhais

as amaldiçoavam cada existência nossa

Quando te propus
abraçar a história, amor
tantas foram as esperanças comidas
insondável a fé forjada

no extenso breu de canto e morte

Foi assim que te propus
no circuito de lágrimas e fogo, Povo meu
o hastear eterno do nosso sangue
para um amanhecer diferente!
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Soneto de
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS, 1972 – 2007, Rosário do Sul/RS

A Câmara Escura

Há momentos em que nos despedaçamos
Contra as arestas do nosso próprio ser,
Então a duras penas nós juntamos
Nossos cacos num mosaico de viver.

Na imagem interior restam fissuras
Como fossem cicatrizes das batalhas
Que travamos não com outras criaturas
Mas conosco mesmo e nossas falhas.

“Mas então, onde é que entra o mundo
Nessa tua síntese autofágica,
Se consideras só teu ser profundo?”

Na câmara da alma é o contrário:
O mundo é o ser na caixa mágica
Como reflexo invertido num armário...
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Poema de
MARCIANO LOPES E SILVA
Porto Alegre/RS (1965 – 2013) Maringá/PR

Na Correnteza do Tempo

Negro impasse:
erguer ruínas
ou contorná-las 
em abismo?

Perplexo, vivo à deriva:
caçador de cacos
na correnteza do tempo.
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Indriso de
ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha

Cantiga do Viajante sem Sono

Não podem dormir os meus olhos,
não podem dormir,
porque a serrana diz

que quisera ver-me amanhã.
Não podem dormir os meus olhos,
não podem dormir,

porque a verei no prado,

porque a verei amanhã.
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Hino de 
Manacapuru/ AM

Salve, Manacapuru
Taba altiva do rio Solimões,
Salve, Manacapuru
Tu plasmaste nossos corações
Salve, Manacapuru
Terra fértil de um povo viril,
Os teus filhos se orgulham de ti,
E engrandecem a todo o Brasil

Eme a má, ene a na, tens maná
Ce a cá, manacá tens tu
Pê u pu, erre uru, formado está
O teu nome Manacapuru

Salve, Manacapuru
Tens nas águas piscosas, fartura,
Salve, Manacapuru
Teus rebanhos a carne assegura
Salve, Manacapuru
Tens, minério, castanha e madeira
A instrução de moral e civismo
De há muito é a tua Bandeira.
= = = = = = = = =  

Poema de
HAROLDO DE BRITTO GUIMARÃES
Goiatuba/GO (1928 – 1998) Goiânia/GO

O Disco 

Dispa-se de toda angustia
de toda a paixão, de todo o ódio:
- Olhe o disco rodando.
Sinta-o não porque ele traga
Chopin, - um, samba, moda de viola, um valsa,
um tango para os desesperados desta noite.

Sinta todo o encantamento da infância
num disco a girar! coisa estranha é, voz humana
brotando de pedra escura do limbo
que gravou a natureza selvagem da Noite.
Sinta a sua infância ou a sua velhice
observe um disco a girar:
girando no tempo, na face das águas ...
= = = = = = = = =  

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Os peixes e o pastor que toca flauta

Tirso, jovem amante pegureiro,
Que aos sons da flauta o canto acrescentava,
Tocava um dia à borda de um ribeiro
Que com as linfas os prados refrescava.

Tocava Tirso; e a sedutora Aninha
Pescava ao mesmo tempo;
Mas — fatal contratempo! —
Nem um só peixe lhe acudia à linha!

O pastor, que com seu mavioso canto
Atraía inumanas,
Aos tais das barbatanas
Desta sorte cantou: «Deixai o encanto

Da náiade que amais; d’outra mais bela
Não temais a prisão:
Cruel pode ser ela
Com os humanos — com os peixes, não!

Cruel fosse!... a morrer quem não se afoita
Àquelas mãos galantes?»
Os tais peixinhos — moita!...
Não acodem à linha como dantes.

Tirso vê que se cansa
Em vão cantar; na água a rede lança;
E aos pés da pastorinha
Depõe o peixe que fugira à linha.

Reis, que em razões sutis fazeis estudo
Para convencer a estranhos,
Malograis vossos empenhos;
Lançai as redes. O poder faz tudo.
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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Sammis Reachers (Deambulações urbanas num domingo carioca)


São dezessete horas de um domingo de primavera. Cumprindo uma missão agora há pouco na UERJ do Maracanã, aquele monstro de concreto, ao sair me deparei com os vazios e desertos de uma cidade grande aos domingos de tarde. Foi instantâneo: me recordei de quando era rodoviário e solteiro e, ao trabalhar nos domingos, por vezes ao largar daquele trampo feito de sacolejar e de pessoas, saía sozinho pelos vazios urbanos de Niterói ou Rio, desarvorado, desavisado e destemidamente. Sem destino ou maiores objetivos. Que solidão especial, trotando lotada de melancolia e levando na carroça sua refém apaixonada, pois adoentada da Síndrome de Estocolmo, a poesia... Sim, muitos poemas nasceram nessas andanças. Não, nunca fui assaltado ou indagado. Deus e minha cara de cana (e minha decana bolsa atravessada nas costas) talvez tenham me guardado.

Outro detalhe que me traz reflexão é que a melancolia de andar numa mata, campo ou descampado deserto é diferente da de andar num deserto urbano. Cada qual tem sua docilidade, mas o campo fala de sentimentos atávicos, instintivos ou transcendentes do que é puramente humano; já a urbe possui uma "linha de ansiedade" (é o melhor termo que pude) toda própria, o humano se celebra e exaure em seus próprios maquinários concretos e simbólicos, num jogo de topofilia/ topofobia que nos faz querer continuar o jogo do ver e do rever, do estar e do deixar de estar, enquanto somos acolhidos/moídos pelo espaço que incessantemente nos ressignifica enquanto o ressignificamos. Jogo por sinal tão caro à corrente da Geografia que me apraz, a Geografia Humanista ou Fenomenológica.

Divagações livres, mas as deambulações (deambular é justamente andar à toa) hoje interditadas a um homem casado.

Bem, melhor assim.
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Sammis Reachers Cristence Silva nasceu em 1978, em Niterói/RJ, mas desde sempre morador de São Gonçalo/RJ, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Licenciado em Geografia atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É autor de dez livros de poesia, três de contos/crônicas e um romance, e organizador de mais de cinquenta antologias.  Aos 16 anos inicia seus escritos e logo edita fanzines, participando do assim chamado circuito alternativo da poesia brasileira, com presença em jornais e informativos culturais. Possui contos e poemas premiados em concursos do Brasil, bem como textos publicados em antologias e renomadas revistas de literatura.

Fontes:
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A. A. de Assis (Filharada rebelde)


Um poeta paulistano, em crônica recente, confessou que foi um guri ranheta e levado da breca. Se mais tarde se tornou um rapaz bonzinho, foi graças à boa e firme educação que recebera da mãe: “Mamãe me ‘domesticou’, arrancou as ervas daninhas do meu íntimo, amansou a fúria de um espírito quase indômito. Quem me conhece talvez ache que estou exagerando. Mas eu era uma criança difícil, de gênio bravio, impulsivo e inconsequente. Dei muito trabalho a ela, mas valeu a pena. Com ela aprendi a ter bons modos, pedir a bênção aos meus tios, tratar as mulheres com respeito e igualdade e não ser machista, ser pontual e cumprir minhas obrigações,  chamar os mais velhos de ‘senhor’ ou ‘senhora’. Sobretudo, ela me incutiu a crença em Deus, a reverência a um Ser Superior”.      

Súbito pensei: ele é então uma sinédoque  ou metonímia da história humana. A humanidade é quenenzinho se fosse um guri rebelde e inquieto que Deus criou com máximo amor e faz tempo vem tentando civilizar, na esperança de algum dia vê-lo apto a ser transferido para um lugar bonito e alegre chamado Céu. 

Tal qual foi o menino, assim é a filharada de Deus: uma criançada “difícil, de gênio impulsivo e inconsequente”. Tem dado muito trabalho ao Pai, mas vale a pena insistir. Falta ainda  arrancar muita erva daninha, porém a essência é boa.

Deus é um Pai paciente e entende muito bem de crianças. Vai deixando a gente fazer traquinagens, dar topadas, cair-levantar, dar de cara na parede. Adota a velha didática do aprender errando. Errando e aprendendo, numa hora dessas a gente finalmente toma tenência na vida, pega rumo e vira gente de verdade.

O Pai poderia simplesmente dar um “stop” nessa maluquice geral, pronunciar um novo “Fiat” e num de repente mudar a cabeça, o coração e a alma da filharada toda, deixando todo mundo bonzinho. Estaria assim inaugurada a era do pleno amor.

Ninguém mais brigaria com ninguém, ninguém mataria, ninguém roubaria, ninguém mentiria, ninguém humilharia os diferentes, ninguém faria maldades contra os mais fracos, ninguém mais fabricaria bombas e mísseis, ninguém mais morreria de doenças  tipo egoísmo-ambição-inveja-raiva-rancor-arrogância-preconceito.

Só que o Pai prefere deixar a gente aprender por experiência própria. Desse jeito o aprendizado será mais consistente. Quando Ele achar que chegou a hora, reunirá a filharada toda numa grande festa. Até lá, poeta.  
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 30.10.2025)
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.
Fontes:
Texto obtido no facebook do autor.
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