sábado, 21 de março de 2026

Asas da Poesia * 165 *


Poema de
MYRTHES MAZZA MASIERO
São José dos Campos/SP

Em fogo brando

Enquanto escolhos os feijões,
sem querer faço alusões;
um grão..., dois...
e enfim,
não sobra tempo pra mim!
Corro para lavar o arroz,
deixo a mágoa pra depois.
Enquanto lavo as verduras,
me frito em conjeturas...
Enquanto escorro os legumes,
vou ruminando os queixumes.
Enquanto tempero a carne,
sinto ligar meu alarme...
Enquanto destrincho o frango,
fervo a raiva em fogo brando.
Enquanto aqueço a gordura,
unto as minhas queimaduras.
Enquanto o fogo se mantém,
Santo Deus! Sou uma refém...
Enquanto misturo os molhos,
cascas de sonhos, recolho.
Enquanto a salada esfria,
asso a vida em banho-maria.
Na hora de pôr a mesa
é que refogo a tristeza.
Mas quando sirvo o cozido...
Ah! Nem tudo está perdido!...
* = * = * = * = * = * = * = * 

Soneto de
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Artesão

Quisera ser poeta... Sou apenas
um humilde artesão da poesia,
que lida com palavra, a duras penas,
para louvar o amor com alegria.

Trabalho quando as noites são amenas
e tenho a alma cheia de estesia;
tal qual oleiro que produz dezenas
de vasos até ver o que queria...

O artífice de si só dá o melhor,
na busca de alegrar seu bem maior,
que é uma das razões de seu viver.

Se não tem perfeição de um bom poeta,
coloca o coração no que arquiteta...
Por seu amor..., não importa se morrer!
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova Premiada  de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto De Barros 
Rio de Janeiro/RJ

De tanto voar sozinho
No rumo de alguma flor,
Meu coração passarinho
Fez ninho no teu amor.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Regresso

Que fazes aqui?!
Mandaram-te embora
                         E somente agora
                    vens procurar
                          o teu ninho antigo
                            para te abrigar?!...

Pobre coitada!...
Por que fostes assim desprezada?...
...tamanha maldade fizeram contigo...

Mas, se vens para ficar
Com este primeiro
E verdadeiro
amigo,

Podes entrar... venha, SAUDADE,
Fique comigo!...
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova Popular

Das lágrimas faço contas
com que rezo às escuras;     
oh! morte que tanto tardas!        
oh! vida que tanto duras!    
* = * = * = * = * = * = * = * 

Soneto de 
WALTER BENJAMIM 
(Walter Benedix Schönflies Benjamin)
Berlim/Alemanha (1892 - 1940) Portbou/Espanha

A Mão que a Seu Amigo Hesita em Dar-se 

Perguntaste se eu amo o meu amigo?
como rompendo um demorado açude
na tua voz quis hausto que transmude
todo o cristal dos ímpetos consigo

Neste meu choro enevoado abrigo
pôs-me a palavra o peito em alaúde
que uma doce pergunta tua ajude
no sim furtivo que eu levei comigo

Mas a meu lábio lento em confessar-se
um mestre inda melhor o cunharia
A mão que a seu amigo hesita em dar-se

ele a tomou o que mais firme a guia
para que ao coração secreto amando
ao mundo todo em rimas o vá dando.
(Tradução de Vasco Graça Moura)
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova de
ANTONIO ALEIXO
(António Fernandes Aleixo)
Vila Real de Santo António/Portugal (1899 — 1949) Loulé/Portugal

Uma mosca sem valor
pousa com a mesma alegria,
na cabeça de um doutor
como em qualquer porcaria.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Poema de
RITA MARCIANO MOURÃO
Ribeirão Preto/SP

Fonte de inspiração

O dia amanhecia flamejante.
Dentro de mim também flamejava, amanhecia.
No carro de boi, Sô Quincas Carreiro carreava
nossas tralhas e alegrias.
íamos para vila assistir aos rituais da Semana Santa.
Meu pai, minha mãe e eu,
todos no carro que seguia rangente estrada afora.
Cantávamos hinos de louvor.
O carro também cantava um monólogo triste
que invadia os grotões do sertão das Minas Gerais.
Dentro dele eu, meio santa, meio profana,
sonhava encontrar meu seguidor entre os seguidores de Cristo.
Quanto sonho, quanta esperança no coração daquela
criança verde!
O tempo passou e cumpriu sua meta, à revelia.
O asfalto engoliu a terra, a estrada ficou cinzenta
e meus sonhos mudaram de cor.
Só o carro de boi varou meus sentimentos,
atravessou fronteiras
e até hoje me fala de POESIA!
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova Humorística de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Não houve pancadaria
nem sufoco na paquera...
“Sou homem”, disse a Maria.
Ainda bem que o Zé... não era!
* = * = * = * = * = * = * = * 

Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Folhas Esparsas

Quando a tarde, ao cair, toda dourada,
lenta transmuda em gradações cambiantes,
sinto minh’ alma sensibilizada,
afinar-se ao sabor dos tons mutantes.

E os versos que componho em tais instantes
assumem cor ardente ou desmaiada:
vivos do leve Alegro aos sons vibrantes,
tristes, do grave Adágio à dor velada.

São notas desprendidas da Sonata,
dispondo um clima de jovial Cantata,
ou da Pavana o sufocado grito.

São folhas soltas, pelo vento esparsas…
Verdes ou murchas, voam como garças,
deixam meus sonhos no azul do infinito.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Deves repartir teu pão
com quem pede, no momento,
pois, às vezes, a inversão
ocorre ao sabor do vento...
* = * = * = * = * = * = * = * 

Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Reencontro

Exalas cada manhã 
tuas cores, pairando 
nas esquinas frias 

ilusões, ou serão velhas poesias?
Um badalar do sino, timidamente, 
anuncia em vozerios, tuas magias
ou será um poeta (re)descobrindo 
este renascimento todos os dias?
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Tua voz a sussurrar,
quando estamos nos amando,
parece a brisa do mar,
mansas ondas encrespando...
* = * = * = * = * = * = * = * 

Soneto de
LUIS VAZ DE CAMÕES
Coimbra/Portugal (1524 – 1580) Lisboa/Portugal

XIX

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
            
Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Poema de
ROBERT FROST
(Robert Lee Frost)
São Francisco/EUA (1874 – 1963) Boston/EUA

A Família da Rosa

 A rosa é uma rosa
E sempre foi rosa.
Mas hoje se usa
Crer que a pera é rosa
E a maçã vistosa
E a ameixa, uma rosa.
Pergunta a amorosa
Que mais será rosa.
Você, claro, é rosa –
Mas sempre foi rosa.
(Tradução: Renato Suttana)
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Cuidado, amigo, atenção... 
não beba o primeiro trago. 
– Quando se escuta o trovão, 
o raio já fez o estrago!
* = * = * = * = * = * = * = * 

Indriso de
ISIDRO ITURAT
Villanueva e La Geltrú/Espanha

O Ladrão de Lençóis

Um raio de lua que é pássaro e homem
através do xadrez do vitrô entra,
e de halo, então, passa a corpo denso.

É chamado pelo dormir das que não sabem
de seus sonhos e, assim, os lençóis
rouba. E quiçá deixe como se um orvalho

que fica no corpo ou como um sabor

de lua nos lábios ou um sonhar que esteve.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Deu a tantos seu carinho
que no enlace, em confusão,
deu o sim para o padrinho
e o beijo no sacristão!
* = * = * = * = * = * = * = * 

Hino de 
SÃO MATEUS DO SUL/ PR

Fulgurante no vigor da mocidade
São Mateus, bela cidade, meu torrão,
Eu te adoro como adoro a liberdade
E a ti levanto um altar no coração
Terra sublime, por Deus amada,
Tu és a fada do meu sonhar.
Neste regime de ardor e zelo
Ao bom e belo te quero amar.

ESTRIBILHO
Rainha bela do Iguaçu tão majestosa
Neste alvor esperanço e juvenil
Na tua vida já lutaste vitoriosa
Com amor pela grandeza do Brasil.
Terra sagrada, São-Mateuense
Que luta e vence com rigidez
Nesta alvorada de grandes feitos
Batem os peitos com altivez.

Da colina que entronizas dignamente
Ao longe vedes tuas matas de valor,
E ao beijar num longo beijo reverente
Teus alvos pés, o Iguaçu com tanto amor,
Bela cidade dos bons ervais
Que tem jamais tristeza e dor.
Na mocidade robusta e forte
Confieis a sorte do teu valor.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Mágoas e queixas

Fazer versos é fácil - dir-me-eis -
se lerdes minhas páginas singelas
e simplesmente reparardes nelas
mágoas que nem de longe conheceis....

Se assim pensardes, nunca entendereis
da própria alma as fatídicas procelas
surgindo à noite, não em tardes belas,
e sois felizes porque não sofreis...

Se, no entanto, sentirdes a tristeza
transparecendo aqui nas entrelinhas
destes versos, que os leva a correnteza

a transbordar em zonas ribeirinhas,
é possível que tendes, com certeza,
queixas amargas iguais às minhas !
* = * = * = * = * = * = * = * 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Os lobos e as ovelhas

Os lobos e as ovelhas, que tiveram
Uma guerra entre si, tréguas fizeram:
Os lobos em reféns lhes entregavam
Os filhos; as ovelhas os cães davam.
Os lobinhos, de noite, pela falta
Dos pais, uivavam todos em voz alta:
Acudiram-lhes eles acusando
As ovelhas de um ânimo execrando;
Pois contra o que é razão e o que é direito,
Algum mal a seus filhos tinham feito:
Faltavam lá os cães que as defendessem,
Deu isto ocasião a que morressem.

Haja paz, cessem guerras tão choradas;
Mas fiquem sempre as armas e os soldados,
Que inimigos que são atraiçoados,
Tomaram ver potências desarmadas.
Não durmam, nem descansem confiadas
Em ajustes talvez mal ajustados:
Nem creiam na firmeza dos tratados,
Que os tratados às vezes são tratadas.
Só as armas os fazem valiosos;
E ter muitos, soldados ali juntos
Respeitáveis a reis insidiosos;
Senão, para os quebrar há mil assuntos;
E mais tratados velhos, carunchosos,
Firmados na palavra dos defuntos.
* = * = * = * = * = * = * = * 

Mensagem na Garrafa 161 = Pastel, Guaraná e Deus


AUTOR ANÔNIMO

Um menino pequeno queria encontrar com Deus, e sabia que tinha um longo caminho pela frente.

Encheu uma mochila com pastéis e guaraná e começou a caminhada.

Andou umas 3 quadras e encontrou um velhinho sentando num banco da praça olhando os pássaros.

Sentou-se junto dele e abriu a mochila.

Ia tomar um gole de guaraná, quando olhou o velhinho e pensou se ele estaria com fome. Ofereceu-lhe um pastel. 

O velhinho muito agradecido aceitou e sorriu ao menino. Tinha um sorriso tão incrível que o menino quis vê-lo sorrir de novo.

Ofereceu-lhe guaraná. Mais uma vez o velhinho aceitou e sorriu ao menino. O menino estava muito feliz!

Ficaram sentados ali sorrindo, comendo pastel e bebendo guaraná pelo resto da tarde sem falarem um ao outro.

No início da noite, o menino estava cansado e resolveu voltar para casa, mas antes de sair ele se voltou e deu um grande abraço no velhinho.

O velhinho deu-lhe o maior sorriso que o menino já havia recebido.

Quando o menino entrou em casa, a mãe, surpresa, pergunta, ao ver a felicidade estampada na face do filho: "O que fizeste hoje que te deixou tão feliz?

Ele respondeu: "Passei a tarde com Deus" e acrescentou "Você sabe, ele tem o mais lindo sorriso que eu jamais vi!"

Enquanto isso, o velhinho chega em casa radiante, e o filho pergunta: 

"Por onde estiveste, que chegas tão feliz?"

Ele respondeu: "Comi pastéis e tomei guaraná no parque com Deus!"

Antes que seu filho pudesse dizer algo ele falou: "Sabes, Ele é bem mais jovem do que eu pensava!!!"
* * * * * * * * *

Nunca subestime a força de um sorriso, o poder de uma palavra, o valor de um ouvido de ouvir, de um elogio honesto, de um ato de carinho. Tudo isso pode fazer virar uma vida. 

Por medo de diminuir deixamos de crescer. Por medo de chorar deixamos de sorrir!!!

Renato Benvindo Frata (Segunda-feira)


O sinal de fé por três vezes: testa, lábios e peito, com olhos fechados, joelhos dobrados. A seguida genuflexão. O agradecimento à noite, para benzer o dia. A profissão de fé, o sentimento de paz, o pensamento positivo.

O espelho do banheiro retrata o sorriso alargando a cara de meio sono. Os olhos teimosos se abrem até a metade; o ranço da cama ainda se gruda às costas, e o pijama amassado posto no cesto, compõe, embaixo dos fios do chuveiro o “bom dia”, na sequência de atos inspiradores ao dia.

Pardais no telhado teimam em bem acordar o sol com chilreares curtos, repetitivos e barulhentos. Como gritam os pequeninos!

É algazarra de segunda, que se repetirá na terça, na quarta, na quinta... sem pressa de acabar.

A primeira da segunda-feira.

Um ou outro barulho de carros, choro de meninos, carroceiro que ralha com a parelha teimosa, o farinhar de vassouras, enquanto cenas da novela se repetem nas bocas de quem as manobra, sem a preocupação com o volume de suas vozes.

A segunda é feita de barulho!

Do banho à roupa limpa, bem passada; do cheiro de sabonete e amaciante; do sapato engraxado, gravata de nó ajustado e paletó escovado; do perfume do café colorindo a cozinha, do pão aquecido, sorriso franco e encontro de lábios em desejo de “bom dia”.

A segunda é feita de cuidados — e promessas para logo mais à noite.

A pasta com papéis, os documentos pessoais e o dinheiro, as chaves do carro, o livro começado, a olhada rápida para conferir os ponteiros, o sentimento de pressa, o pensamento em cuidados — especialmente nas esquinas. Nas esquinas moram os demônios.

Um tchau com abraço e outra bicota, a passada de mão no cachorro que abana a alegria com o rabo, a chave na porta, os olhos de brilho vivaz, o querer medita o sucesso. O dia vai ser supimpa!

A segunda será especial.

Abre as grandes portas da garagem, as do carro, entra, senta-se, vira a chave, aquece o motor e sai. Ou tenta.

De motor ligado e freio puxado, abre a porta, olha os pneus — e xinga.

Range os dentes, desliga o motor, bate a porta.

Tranca a outra enorme e sai. A pé. Vai chegar atrasado.

A segunda nunca seria segunda se tudo se desse de primeira.
======================================
Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

Folclore do Uruguai


O folclore uruguaio é rico e diversificado, resultado da mistura de influências indígenas, europeias e gaúchas.
 
Personagens e Criaturas
 
Paloma Pecho Rojo: 
Da tradição charrúa com sincretismo religioso, é uma paloma (pomba) com peito vermelho que visita casas para avaliar a bondade das pessoas e levar essas informações a Deus. Se passar perto de uma casa de alguém muito bom, pode conceder um desejo. 

Abuelo Ñandú: 
Também da tradição charrúa, é um ñandú gigante que vive no céu e teria criado as Três Marias com sua pata. Antigamente vivia na Terra, mas foi expulso e agora prega o futuro, tendo avisado os charrúas sobre a chegada dos europeus. É considerado o avô de todos os uruguaios.

Churrinche: 
Nasce de um chefe de tribo indígena que, em uma batalha, retirou seu coração do peito e o transformou em um pássaro vermelho flamejante para não ser capturado pelos inimigos. Voa pelas florestas cantando uma melodia semelhante a um chiado.

Negrito del Pastoreo: 
É um espírito protetor das fazendas e do gado. Descreve-se como um homem negro de pequena estatura, vestido com roupas tradicionais gaúchas, que ajuda a cuidar do rebanho e a resolver problemas dos trabalhadores rurais.

Gigante de Montevidéu: 
Da lenda charrúa, é um gigante sábio e poderoso que protegia o povo. Cansado, decidiu descansar sob o Cerro de Montevidéu, prometendo que sempre estaria presente para ajudar em momentos de necessidade.

Cão Negro das Estâncias: 
É uma criatura sobrenatural que paira pelas propriedades rurais à noite. É descrito como um cão preto enorme, com olhos brilhantes, e pode ser um protetor dos honestos ou um presságio de desgraça para os injustos.

Lobisomem: 
Originário da mitologia guarani, é o último filho varão de Tau e Keraná, um dos 7 monstros guaranis. Transforma-se em uma criatura meio-homem meio-lobo toda sexta-feira de lua cheia, com olhos de fogo, pelo escuro e cheiro fétido. A única forma de libertá-lo é com uma arma branca ou bala abençoada.

Outras Lendas Importantes
 
Origem da Erva Mate: 
Existem várias versões, sendo uma das mais conhecidas a de Caá-Yaríi, onde um jovem enviado por Deus recompensa um índio e sua filha por sua bondade, fazendo nascer a planta e ensinando a preparar a infusão. Outra versão diz que deusas da lua e das nuvens presentearam um gaúcho ou índio que as salvou de um jaguar com a erva mate, chamada de "bebida da amizade".

Passagem da Cruz: 
Conta a história de um homem que, após mudar de vida graças a um talismã, foi morto por invejosos. Sua alma passou a vagar como uma luz azulada, até que as pessoas começaram a pregar cruzes na região e uma árvore se formou na forma de uma cruz, tornando o local sagrado.

Luz Mala: 
É uma lenda gaúcha sobre fenômenos luminosos misteriosos que aparecem nas áreas rurais, associados a almas em pena ou a eventos sobrenaturais. Acredita-se que podem levar as pessoas ao perigo ou confundi-las nos caminhos.

As lendas uruguaias/indígenas que abordamos têm fortes paralelos com narrativas de outros povos ao redor do mundo, refletindo valores universais e adaptações culturais específicas.
 
1. Churrinche x Seres Ligados à Essência do Povo
 
Thunderbird (Povos Nativos Norte-Americanos): 
Assim como o Churrinche representa a essência resistente dos povos indígenas uruguaios, o Thunderbird é um pássaro sagrado que simboliza a força e a proteção das tribos. Ambos ligam a identidade do povo a criaturas que carregam a história e a energia dos ancestrais.

Garuda (Mitologia Indiana): 
Garuda é um pássaro divino que representa a liberdade e a luta contra a opressão, assim como o Churrinche surge de um sacrifício para evitar a derrota de seu povo.
 
2. Abuelo Ñandú x Guardiões Cosmológicos
 
Kukulkan (Maias) e Viracocha (Incas): 
Abuelo Ñandú é um guardião que liga Terra e Céu, prevendo eventos e transmitindo sabedoria — assim como Kukulkan (a serpente emplumada) representa a conexão entre os mundos e Viracocha é o deus criador que guarda o conhecimento ancestral.

Zeus (Mitologia Grega) ou Odin (Mitologia Nórdica): 
Esses deuses também são figuras de sabedoria suprema que observam os humanos do céu e interferem em momentos cruciais, assim como Abuelo Ñandú cuida de seus descendentes.
 
3. Paloma Peito Vermelho x Figuras de Sacrifício e Amor Materno
 
Coruja (Mitologia Grega e Africana): 
Em algumas tradições africanas, a coruja é uma ave ligada ao sacrifício maternal e à proteção dos filhotes. Na Grécia antiga, representa a sabedoria, mas também a dor de mães que perderam seus filhos.

Isis (Mitologia Egípcia): 
A deusa Isis sacrificou-se para salvar seu filho Hórus, simbolizando o amor materno extremo — assim como a Paloma Peito Vermelho dá sua vida pelos pintinhos.

Pomba Branca (Simbolismo Cristão Global): 
A pomba é universalmente ligada à paz e ao divino no cristianismo. A versão com influência cristã da Paloma Peito Vermelho aproxima-se disso, ao associar o sacrifício da ave ao de Jesus, assim como a pomba branca representa o Espírito Santo.
 
4. Pontos em Comum Universais
 
Ligação com a natureza: 
Todas as lendas conectam seres humanos a animais ou elementos do meio ambiente, refletindo uma visão de mundo onde a natureza não é separada do espiritual — algo presente em povos como os aborígenes australianos, os celtas e os japoneses.

Sacrifício pelo grupo: 
O bem-estar da comunidade sobre o indivíduo é um valor central em lendas de diversas culturas, desde os heróis da mitologia nórdica até os guerreiros astecas.

Memória ancestral: 
A transmissão de conhecimento através de figuras sagradas é comum em todos os povos, garantindo que a história e os valores sejam preservados ao longo das gerações.
* = * = * = * = * = * = * = * 
Continua… Lenda do Churrinche
===============================
Fontes
https://www.reddit.com/r/uruguay/
https://www.instagram.com/p/DC1uWWouNzm/ 
https://www.reddit.com/r/uruguay/comments/r8cw78/leyendas_de_uruguay_poco_conocidas/ 

sexta-feira, 20 de março de 2026

José Feldman (Pranto Divino)

 

Artur de Carvalho (Está tudo acabado entre nós)


Foi um choque para a família. 0 irmão mais novo anunciou oficialmente que pretendia se separar da esposa. Aparentemente, o casamento andava às mil maravilhas. Estavam prosperando, ele como gerente de uma multinacional, ela como professora universitária. Moravam numa bela mansão na qual mantinham um cachorro com pedigree, periquitos, uma chinchila e um filho muito inteligente — isso sem contar dois carros zero na garagem, um deles importado. Parecia o casamento perfeito, porém, de uma hora para outra, a papelada já estava nas mãos dos advogados.

O cunhado e o pai pensaram em intervir, mas foram as mulheres da família que tomaram a iniciativa. A mãe e a irmã marcaram uma reunião com ele, que aparentemente se mantinha irredutível. A razão era simples: não estava mais apaixonado pela mulher.

— Mas ninguém continua apaixonado depois de dez anos de casado, meu filho — dizia a mãe.

— A senhora não ama mais o pai?

— É claro que amo seu pai!

— Então, é o pai que não te ama?

— Para de falar bobagens!

— Mas foi a senhora mesmo que acabou de dizer que a paixão acaba depois de dez anos. E vocês são casados há mais de quarenta!

— Não fica mudando de assunto! — interveio a irmã.

— Eu não estou mudando de assunto. Estou só falando que, depois de dez anos, as mulheres começam a esquecer umas coisas. De levar um cafezinho na cama de vez em quando, por exemplo.

— Larga de ser machista, oras.

— Não é questão de machismo. No começo de casados, você não levava um cafezinho de manhã na cama pro meu cunhado? Ou preparava um jantarzinho especial? E você nunca falou que ele era machista. Agora, há quanto tempo você não faz nada parecido?

— O meu casamento não está em discussão agora... — a irmã emburrou.

— Quer dizer que você está largando a sua mulher só porque ela não leva café na cama pra você? — a mãe tentou entrar na conversa de novo.

— É. Por essas e por outras. Ela não tira mais cravo das minhas costas também.

— Cravos?

— É, cravos. No começo de casados, eu chegava em casa e me deitava no sofá da sala. E ela vinha se chegando, se chegando, e de repente, sem eu nem perceber como, ela já tinha tirado a minha camisa e começado a espremer uns cravos. A gente passava horas ali, daquele jeito. Agora eu nem me lembro mais da última vez que fiquei sem camisa perto dela.

A irmã e a mãe resolveram desistir. A coisa era mais séria do que elas imaginaram.

Uma semana depois, o pai e o cunhado marcaram uma reunião com ele também. Sentaram no barzinho e pediram três chopps. 0 primeiro a falar foi o candidato a divorciado.

— E aí, como vão indo as coisas?

— Lá em casa, está saindo tudo às mil maravilhas. Precisa ver só. Na semana passada, sua irmã me levou café da manhã dois dias seguidos na cama. Com frutas e geleias.

— E sua mãe, então? Toda noite agora, ela faz uma comidinha especial. Ontem à noite, até acendeu umas velas nos castiçais! A única coisa esquisita é que não para de perguntar se eu não quero que ela me tire uns cravos das costas. Você falou alguma coisa além do combinado, não falou?
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fontes:
Artur de Carvalho. E quando você menos espera... PAH!. Editora Via Lettera, 1969.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Dicas de Escrita (O subtexto de um conto) 2, final


Para esta cena, vamos focar em um conflito de herança e desapego. O filho quer que a mãe venda a casa para ele quitar dívidas, mas nenhum dos dois menciona "dinheiro" ou "venda" uma única vez.

A tensão mora no subtexto do cuidado forçado e da resistência silenciosa.

A Xícara Trincada

O café esfriava entre os dois. Ricardo passou o dedo pela borda da xícara de porcelana, seguindo a linha de uma trinca antiga que cortava o desenho das flores.

— Essa casa está ficando grande demais para a senhora limpar, mãe — disse ele, sem desviar o olhar do defeito na louça.

Dona Helena ajeitou a almofada no sofá, as costas retas como se estivesse diante de um juiz. Ela olhou para a mancha de umidade no teto, aquela que parecia um mapa, e depois para as mãos do filho, que não paravam de tamborilar na mesa.

— O silêncio preenche bem os espaços, Ricardo. E o cachorro gosta do quintal.

Ricardo soltou um suspiro curto, o som de um pneu esvaziando. Ele se levantou e caminhou até a cristaleira, tocando em um bibelô de cristal que estava ali desde antes de ele nascer.

— O telhado vai precisar de reforma logo. E aquela árvore na frente... as raízes estão levantando a calçada. O pessoal da prefeitura não perdoa.

Ele virou o bibelô de costas.

— Eu vi que abriram aquele condomínio novo perto do centro. Tem elevador. Tudo plano. Segurança vinte e quatro horas.

Dona Helena pegou a xícara trincada. Bebeu o café frio em um gole só, sentindo o amargor no fundo da garganta.

— Prefiro as raízes — ela respondeu, pousando a xícara exatamente sobre o pires, fazendo o estalo da porcelana ecoar pela sala. — Elas dão trabalho, mas seguram o chão.

Ricardo apertou a chave do carro no bolso. O metal espetou sua palma.

— Entendo. Bom, passei só para ver se a senhora precisava de algo.

— Preciso que feche bem o portão ao sair, querido. Às vezes o vento empurra e ele acaba batendo.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 

Análise do Subtexto:

A xícara trincada e o telhado: Ricardo usa problemas físicos da casa para sugerir que a mãe é "incapaz" ou que o lugar é um fardo, escondendo seu desejo de liquidar o imóvel.

O condomínio novo: É a sugestão de "depósito de idosos", apresentada como uma conveniência moderna.

As raízes: A resposta da mãe é clara: as raízes são sua história e sua identidade. Ela prefere o "trabalho" de ficar à "facilidade" de partir.

O portão: O pedido final dela não é sobre o vento; é um aviso de que ela quer manter o mundo dele (e suas intenções) do lado de fora.

Antônio Maria (Mulher dos outros)


Dia claro. Primeiras horas do dia claro. Havíamos bebido e procurávamos um café aberto, para uma média, com pão-canoa. Quase todos estavam fechados ou não tinham ainda leite ou pão. Fomos parar em Ipanema, num cafezinho, cujo dono era um português e nos conhecia de nome de notícia. Propôs-nos, em vez de café, um vinho maduro, que recebera de sua terra, "uma terrinha (como disse) ao pé de Braga". Não se recusa um vinho maduro, sejam quais forem as circunstâncias. Aceitamo-lo. Nossa grata homenagem a José Manuel Pereira, que nos deu seu vinho.

Nesse café, além de nós, havia um casal, aos beijos. As garrafas vazias (de cerveja) eram quatro sobre a mesa e seis sob. Beijavam-se, bebiam sua cervejinha e voltavam a beijar-se. Não olhavam para nós e pouco estavam ligando para o resto do mundo. Em dado momento, entraram dois rapazes e pediram aguardente no balcão. Ambos disseram palavrões, em voz alta. O casal dos beijos e da cerveja parou com as duas coisas. Outros palavrões e o cabeça do casal protestou:

— Para com isso, que tem senhora aqui!

Um dos rapazes dos palavrões:

— Não chateia!

— Não chateia o quê? Para com isso agora!

Um dos rapazes do palavrão:

— E essa mulher é tua mulher?

— Não é, mas é mulher de um amigo meu!

A briga não foi adiante. Todos rimos. O dono da casa, os rapazes dos palavrões, o casal. Está provado que: quem sai aos beijos com mulher de amigo não tem direito a reclamar coisa alguma.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Antônio Maria Araújo de Morais, Cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fontes:
Joaquim Ferreira dos Santos (org.) “Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria”. RJ: Civilização Brasileira, 2002.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing