quarta-feira, 25 de março de 2026

Asas da Poesia * 167 *


Poema de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

É Natal... (será?)

Saudades daqueles Natais folguedos 
quando eu, igual a toda meninada,
pedia pro Papai Noel, brinquedos:
uma bola, um carrinho ou uma espada!
Na cartinha, escrevia: Meu querido
Papai Noel, eu quero de presente...
e nela eu descrevia o meu pedido
da maneira mais simples e inocente!
Hoje vejo um Natal bem diferente,
quando as lojas, com seus "papais noéis",
procuram, de maneira indiferente,
tão somente exaurir os saquitéis,
impondo a todos tudo é "presente",
e pondo Jesus Cristo pra viés!
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Soneto de
BENI CARVALHO
Aracati/CE, 1886 – 1959, Rio de Janeiro/RJ

O cais

Quando te vejo, velho cais, em ruínas,
perscruto a tua vida secular:
— Manhãs radiosas em que te iluminas!
— Serenas noites de encantado luar!

Viste, partindo, ao canto das matinas,
velhas naus, brancas velas, pelo mar:
— Dourados sonhos, ilusões divinas,
ânsia de descobrir e conquistar!

Hoje, todo em tristeza, te esbarrondas;
mas uma voz oculta, dentre as ondas,
te diz: "A sorte não te foi tão má:

Terás, em ti, esta legenda impressa:
— Recolheste o sorrir do que regressa
e a saudade de quem não voltará".
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Trova Premiada na Academia Brasileira de Trova/1991 de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Eu sempre lutei sentindo,
nesta arena em que se vive,
a mão de Deus dirigindo
cada conquista que eu tive. 
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Perguntas vãs

Que me vale a vida sem amor;
amor sem carinho;
carinho sem ternura;
ternura sem meiguice;
meiguice sem querer;
você em saudade;
saudade sem você?!
– Nada!...
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Trova Popular

Eu amante e tu amante,
qual de nós será mais firme?
Eu como o sol a buscar-te,
tu como a sombra a fugir-me?
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

Tenho a alma vestida de saudade
(Maria Paulina de Sousa in "Coração à Solta'', p. 45)

“Tenho a alma vestida de saudade”
Como a noite se cobre de negrume
A dor se desabafa num queixume
E a candura se enfeita de verdade.

Partindo, tu levaste a claridade
Desse dia sem paz e sem perfume
Na lareira apagou-se o brando lume
E de mim fizeste uma só metade.

Tenho o corpo dorido pela espera
Que tu voltes e faças Primavera
No chão que tanta chuva já bebeu.

Vem antes que eu me torne um malfeitor
A saudade me faça um pecador
E eu vá deixando, aos poucos, de ser eu.
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Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Cinema mudo: o pianista,
na solidão da coxia,
valorizando o artista,
tocava.., ninguém o via.
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Poema de
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

Tu passaste por este jardim

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de amoras pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu.

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo nas rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor.

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se os íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor.

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansas nos leitos
Deste lindo amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sanguíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor.

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Flagrando a esposa e o banqueiro,
pensa bem e esquece o orgulho:
-Vou precisar de dinheiro...
e sai... sem fazer barulho!
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Soneto de
CARLYLE MARTINS
Fortaleza/CE (1899 – 1986)

O enterro do sol

O sol empalidece entre a seda macia
de um leito de rubis e opalas recamado.
As montanhas, entoando o funeral do dia,
de aromas sem iguais vão perfumando o prado.

Há um pesar pela terra inteira, que dir-se-ia
tudo na escuridão já ficou mergulhado.
Ao longe na ampla várzea enlutada e sombria,
vagaroso  se arrasta, em fileiras, o gado.

Torpor e indecisão. Vai chegando a penumbra.
Nuvens fogem do céu. Nada mais se vislumbra
nas matas onde a treva está quase a envolvê-las.

A noite, como um duende, a estender-se por tudo,
atira sobre a terra um manto de veludo
e desfia, no espaço, um rosário de estrelas.
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Só poderás vivenciar
no amor toda a imensidão,
se souberes retirar
as pedras do coração!
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Poema de
ROSE ROSÁRIO
Bragança/PA

Broto de sensível inteligência 

Escritor lavra letras!
Traz real significado. 
Dignifica a existência.

Perpetua com louvor, sua vivência 
tanto mais alegre caminhante liberto, 
seguindo toada, pegadas da essência.
Tenros raios, poeticidade, o aurorescer 
cúmplice, vê brotar sensível inteligência.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

É um mero gesto, impensado,
mas causa tamanha dor,
tentar voltar ao passado
e reviver um amor!
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Soneto de
AMÉLIA TOMÁS
Cantagalo/RJ (1897 – 1992)

Canta!

Encarcera em teu verso, a cantar, tudo quanto
te cerca: — a luz, o som, a flor que o aroma encerra.
E celebra, em glorioso e sempiterno canto,
o céu, a noite, o sol, o luar, o campo e a serra.

Que o riso estue e vibre, e guaie e gema o pranto
dentro do verso teu como dentro da Terra!
Haja nele, da tarde ao pôr-do-sol, o encanto,
e haja o heroico clangor das trombetas da guerra!

Guarda do vento a raiva e as queixas merencórias.
Prende a sua expressão dentro da rima escassa,
desde o sopro da brisa à vergasta de Bóreas!

E canta o teu Amor num surto honesto e terso:
Celebra-o! Exalta-o! pois que Deus te fez a graça
de saberes cantar a tua mágoa em verso!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Pintura Íntima

Teus predicados ocultos são tantos,
Tens, com eles, as bênçãos de Jesus.
Atenta que os picos de teus encantos,
Vistos por Deus, não são vistos à luz.

Destarte, faz teu coração magnânimo
Comandar, desde dentro de teu peito,
A prática do bem com todo o ânimo;
Sem alarde, sem vangloriar o feito.

Faz sempre prevalecer a moral
Frente ao foco material desprezível.
É o bem tomando o lugar do mal,
É o imortal se impondo ao perecível.

Fortalece-te mais interiormente,
Pondo à frente de tudo o coração.
Para os necessitados, sê presente;
Estende a mão amiga a teu irmão.

A beleza física não perdura.
Ela escapa do progresso moral.
Daí, a busca por outra pintura;
Pintura íntima, espiritual.
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Sonho

NO TOPO:
"Naquele dia, tristonho,
Pousaste os olhos nos meus:
- Vivi na tarde do sonho,
Morri na noite do adeus!"
MARIA THEREZA CAVALHEIRO
São Paulo/SP , 1929 – 2018

SUBINDO:
"Morri na noite do adeus"
quando de casa, saíste,
meu sofrimento só Deus
sabe que ainda persiste.

"Vivi na tarde do sonho"
quando entraste em minha vida,
tornei-me um homem risonho,
mas, chorei na despedida.

"Pousaste os olhos nos meus"
dando-me luz e esperança,
quase fui um semideus
e sorri como criança.

"Naquele dia, tristonho"
como doeu, ao saber,
que foste embora, suponho,
por deixar de me querer.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

A liberdade germina
quando um povo pulsa e anseia,
qual semente pequenina
que rasga o solo e se alteia!
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Hino de 
PARANAGUÁ/ PR

Aos nossos mares vieram dantes,
Altivas naus, velas possantes,
Inflando à brisa de monção...
E, a voz dos lusos pioneiros,
O Itiberê viu os primeiros
Sinais de civilização.

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!

Hulhas éris de cataratas,
Onde rebrilham tantas pratas!
Terras verdes dos pinheirais!
Talvez não fosseis Paraná
Sem lusas quilhas vindo cá,
Em busca de ouro e de cristais...

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!

Sejamos pela liberdade
Ao lado da fraternidade,
Em fortes elos da união,
Que o nosso orgulho e a nossa glória
Têm uma página da história
Do Paraná e da Nação!

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!

Seja a grandeza nosso Norte
A paz e o amor - numa coorte
De bênçãos sempre a nos sorrir
E à luz da estrela do civismo
Entre canções de patriotismo
Eia! Marchemos ao porvir!

Estribilho
Salve! Salve! Berço amado
Do Paraná sempre êxul!
Pórtico todo encantado
Aos sertanejos do Sul!
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Poema de
ZACHAROULA GAITANAKI
Atenas/Grécia

Primavera

A natureza se levantou
e se vestiu em cores familiares,
o ar transporta milhares de cheiros,
fragrâncias de flores
e o sol brinca na terra.
Em toda parte está 
a sabedoria de Deus
e a gente faz silêncio.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O leão vencido pelo homem

Pôs-se em venda uma pintura
Onde estava figurado
Leão de enorme estatura
Por mãos humanas prostrado.

Mirava a gente com glória
O painel. Eis senão quando,
Um leão que ia passando,
Lhe diz: «É falsa a vitória.

Deveis o triunfo vosso
A ficção, blasonadores!
Com mais razão fora nosso,
Se os leões fossem pintores.»
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Mensagem na Garrafa 163 = A parábola da rosa


AUTOR ANÔNIMO

Um certo homem plantou uma rosa e passou a regá-la constantemente e, antes que ela desabrochasse, ele a examinou.

Ele viu o botão que em breve desabrocharia, mas notou espinhos sobre o talo e pensou, Como pode uma bela flor vir de uma planta rodeada de espinhos tão afiados?

Entristecido por este pensamento, ele se recusou a regar a rosa, e, antes que estivesse pronta para desabrochar, ela morreu.

Assim é com muitas pessoas.

Dentro de cada alma há uma rosa: as qualidades dadas por Deus e plantadas em nós crescendo em meio aos espinhos de nossas faltas.

Muitos de nós olhamos para nós mesmos e vemos apenas os espinhos, os defeitos.

Nós nos desesperamos, achando que nada de bom pode vir de nosso interior. Nós nos recusamos a regar o bem dentro de nós, e, consequentemente, isso morre.

Nós nunca percebemos o nosso potencial.

Algumas pessoas não veem a rosa dentro delas mesmas;

Alguém mais deve mostrá-la a elas.

Um dos maiores dons que uma pessoa pode possuir ou compartilhar é ser capaz de passar pelos espinhos e encontrar a rosa dentro de outras pessoas.

Esta é a característica do amor - olhar uma pessoa e conhecer suas verdadeiras faltas.

Aceitar aquela pessoa em sua vida, enquanto reconhece a beleza em sua alma e ajuda-a a perceber que ela pode superar suas aparentes imperfeições.

Se nós mostrarmos a essas pessoas a rosa, Elas superarão seus próprios espinhos.

Só assim elas poderão desabrochar muitas e muitas vezes.

Leonardo da Vinci (A Figueira)


Era uma vez uma figueira que não dava frutos. Todos passavam por ela sem olhá-la.

Durante a primavera as folhas cresciam, mas quando chegava o verão, e as outras árvores estavam carregadas de frutos, nada aparecia em seus galhos.

- Eu gostaria tanto que me apreciassem! - suspirou a figueira - queria só produzir frutos como as outras árvores!

Tentou e tornou a tentar até que, em certo verão, viu-se carregada de figos. O Sol fez os figos crescerem e incharem, tornando-os doces e perfumados.

Todos repararam nisso. Jamais alguém tinha visto uma figueira tão carregada de frutos. E imediatamente houve uma correria para ver quem colhia mais figos. Subiram pelo tronco. Curvaram os galhos mais altos com varas compridas e o peso das pessoas fez com que alguns ramos ficassem partidos. Todos tentavam roubar os deliciosos figos, e em breve a pobre figueira viu-se toda torta e quebrada.

Moral da Estória:
Portanto, àqueles que querem chamar a atenção pode acontecer, para sua desgraça, receberem mais do que desejam.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual.

Fontes:

Dicas de Escrita (A Crônica) 3. Crônica Crítica

Título: "O Silêncio da Indiferença"

Na esquina da minha rua, uma criança de olhos grandes e famintos estende a mão. Ao seu lado, um cachorro magro observa, como se estivesse esperando um milagre. O que me chama a atenção não é apenas a cena, mas a pressa dos pedestres que passam, ignorando a realidade crua que se desenrola diante deles. 

Estamos tão ocupados em nossas rotinas que esquecemos o que realmente importa. O que é mais fácil: olhar para o lado e seguir em frente ou parar e oferecer um pouco do que temos? A indiferença se tornou um hábito, uma forma de proteção contra a dor do mundo. Mas, afinal, até quando vamos fechar os olhos para a miséria alheia?

As redes sociais bombardeiam nossas mentes com imagens de felicidade e sucesso, mas e as vozes que nunca aparecem nas fotos? O que fazemos por aqueles que não têm acesso a esse mundo perfeito? O silêncio da indiferença ecoa mais alto do que as palavras de solidariedade que, muitas vezes, são apenas postagens vazias.

A criança continua ali, com seu olhar esperançoso, enquanto seguimos nossas vidas como se nada estivesse acontecendo. A pergunta que fica é: quem é mais pobre? Aquele que não tem comida ou aquele que se recusa a enxergar a realidade?

ANÁLISE DOS ELEMENTOS UTILIZADOS

1. Narrador:

- A voz do narrador é pessoal e observacional, refletindo suas emoções e opiniões sobre a situação social.

2. Tema:

- O tema central é a indiferença social, abordando a pobreza e a falta de empatia na sociedade contemporânea.

3. Estilo Crítico:

- O autor critica a apatia das pessoas diante da miséria, utilizando um tom provocativo que instiga o leitor a refletir sobre sua própria postura.

4. Elementos Descritivos:

- Descrições vívidas da criança e do cachorro criam uma imagem emocional que impacta o leitor, fazendo-o sentir a gravidade da situação.

5. Ironia:

- O uso da ironia é sutil, especialmente ao contrastar a felicidade nas redes sociais com a realidade das pessoas em situação de vulnerabilidade.

6. Perguntas Retóricas:

- O autor utiliza perguntas retóricas para envolver o leitor e provocar uma reflexão mais profunda sobre suas atitudes e responsabilidades.


Esse exemplo e análise mostram como uma crônica crítica pode ser poderosa ao abordar questões sociais, utilizando elementos literários para criar impacto e reflexão.
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continua...

FonteS:
I. A. Dola 
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terça-feira, 24 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 4. A verdadeira riqueza

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus atentos amigos. Sentem-se mais perto, pois o segredo que vou lhes contar agora é como o almíscar: quanto mais se espalha, mais doce se torna o ambiente. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje as estrelas nos guiam até o Cairo, onde as areias guardam lições que o ouro não pode comprar.

"Bismillah" (Em nome de Deus), abramos o cofre do conhecimento.

Havia um jovem chamado Karim que, ao ficar órfão, recebeu de seu pai uma herança incomum: uma pequena bolsa de couro contendo apenas três moedas de cobre e um pergaminho que dizia: "Estas são as moedas da sabedoria. Use-as quando o caminho escurecer e a dúvida for sua única companheira."

Karim, decepcionado, pois esperava joias ou propriedades, partiu para a grande cidade para tentar a sorte. 

No caminho, encontrou um ancião sentado à beira de uma estrada empoeirada. 

"Ya Waladi" (meu filho), disse o velho, "estou com fome e não tenho nada além de conselhos para vender."

Karim, movido por compaixão, entregou a primeira moeda de cobre. O velho sorriu e disse: – "Nunca tome uma decisão importante enquanto a raiva governar seu sangue." 

Karim guardou a frase e seguiu.

Mais adiante, em um mercado movimentado, ele viu um homem errante sendo injustiçado. Ele entregou a segunda moeda a este homem, um sábio errante que fora confundido com um ladrão. 

O sábio lhe disse: – "A verdade dita no momento certo vale mais que mil orações em silêncio."

Por fim, ao chegar às portas de um palácio onde se buscava um novo conselheiro para o Vizir, Karim encontrou um mendigo cego. 

"Inshallah" (Se Deus quiser), disse o mendigo, "você encontrará o que busca se ouvir o que o coração dita e não o que o ego grita." 

Karim deu sua última moeda e o mendigo sussurrou: – "A verdadeira riqueza é o que você dá, pois é a única coisa que levará para o túmulo."

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensou Karim, sentindo-se estranhamente leve. Ao entrar no palácio, ele não tentou impressionar o Vizir com títulos ou mentiras. Quando o Vizir perguntou o que ele trazia para oferecer ao reino, Karim contou as três lições.

O Vizir, cansado de bajuladores que só queriam ouro, viu em Karim a clareza de um oásis. 

"Shukran" (Obrigado), disse o governante, "você não trouxe moedas de metal, mas moedas que nunca perdem o valor." 

Karim tornou-se o conselheiro mais respeitado da região, provando que a herança de seu pai era, de fato, a maior de todas as fortunas.

Que a sabedoria seja sempre a vossa moeda de troca mais valiosa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Foi Delegado de Ubiratã da UBT, atuou como subdelegado de Arapongas e Campo Mourão. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Pérgola de Textos (textos de sua autoria). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.).
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Nilto Maciel (A menina dos olhos)

Corríamos pelo campo, não sei bem com que intenções. Possivelmente desejávamos pegar borboletas ou grilos. Talvez quiséssemos apenas correr. Não consigo lembrar-me dessas migalhas. Já faz muito tempo. Eu devia ser um pedacinho de gente de uns cinco ou seis anos.

Havia uma cerca de arame a dividir o terreno em dois mundos opostos: de um lado capim rasteiro; de outro, terra nua. E tratamos de transpô-la. E já então arrastava-nos a determinação de achar não sei o quê. Uns pareciam mais decididos, como se comandassem os demais. Raquel sobretudo, que caminhava à frente e de vez em quando parava, abaixava-se, cutucava o chão. Uns acercavam-se dela, faziam-lhe perguntas, arranjavam gravetos e espetavam a terra. Imitavam-na ou queriam agradá-la. Outros, como eu, permaneciam ao largo, mais curiosos que agitados, à espera de novas invenções de Raquel.

Aqui e ali a terra se apresentava fofa, como se a tivessem revolvido profundamente. E eu sentia medo, a imaginar cadaveres enterrados, tesouros encobertos, buracos que fossem dar no país dos anões. Raquel, porém, parecia saber de tudo, conhecer palmo a palmo o terreno e nem sequer se espantava quando metia o pé num buraco mais fundo.

Pouco a pouco, só eu permaneci mais afastado e até voltei à cerca. O ciúme não me deixava ir atrás de Raquel, feito um qualquer. Por que não me havia falado nada? Por que não me dava atenção? Por que preferia a companhia dos outros?

Ela falava sem parar e todos a escutavam. Apontava para o chão, como se explicasse coisas muito interessantes, a origem dos buracos, o nome dos mortos, o valor dos tesouros, a vida dos anões. Eu não conseguia ouvir sua voz, e mais me emburrava.

  Para onde fosse Raquel, iam os outros, como se ela os tivesse atados por cordões. Arrastava-os de lá para cá, de cá para lá. E eu sem saber o que tanto buscavam. A casa do preá, o ovo da galinha, a cova da avozinha?

Primeiro Raquel apalpava o chão com um pé, o corpo sustentado no outro, para só então seus súditos criarem coragem de avançar, como se a terra pudesse abrir-se para os engolir.

A cada passo de Raquel meu coração dava um pulo e eu fechava os olhos para não vê-la desaparecer. Abria-os, o coração de novo a pular, e já ela aparecia noutro lugar, um passo aqui, pum-pum, um passo acolá, pum-pum.

Súbito Raquel afundava e gritava, estarrecida, chorava e agitava as mãos, perdida. E os outros corriam, chocavam-se, tombavam, e eu ainda agarrei-me à cerca, a ferir-me as mãos, paralisado, frio.

E muitos anos depois, toda vez que eu via Raquel, eu a imaginava morta, a passear na sua transparência através das paredes, dos objetos, de mim mesmo, e vir alojar-se bem dentro de meus olhos.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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Dicas de Escrita (A Crônica) 2. Temas e estilos presentes nas crônicas

TEMAS DA CRÔNICA

1. Cotidiano:
  
 - A crônica frequentemente aborda situações do dia a dia, como a rotina, hábitos e pequenos eventos que fazem parte da vida comum.

   - Exemplo: A experiência de ir ao mercado ou um passeio no parque.

2. Relações Humanas:

   - Explora interações, amizades, amores, e conflitos familiares, refletindo sobre as emoções e dinâmicas sociais.

   - Exemplo: Um reencontro inesperado com um amigo de infância.

3. Questões Sociais:

   - Pode abordar problemas sociais, políticos e culturais, trazendo uma crítica ou reflexão sobre a realidade.

   - Exemplo: A desigualdade social em uma grande cidade.

4. Memórias e Nostalgia:

   - Muitas crônicas trazem lembranças, revivendo experiências passadas e refletindo sobre o que significam para o autor.

   - Exemplo: Recordações de festas de infância ou tradições familiares.

5. Humor e Ironia:

   - O humor é um tema recorrente, usado para tornar a narrativa leve e divertida, mesmo ao tratar de assuntos sérios.

   - Exemplo: Situações embaraçosas ou mal-entendidos cômicos.

6. Natureza e Cotidiano:

   - Pode descrever a relação do ser humano com a natureza, refletindo sobre a importância da preservação e do contato com o ambiente.

   - Exemplo: A beleza de uma manhã ensolarada ou a transformação das estações.

ESTILOS DA CRÔNICA

1. Estilo Pessoal:

   - O autor expressa suas opiniões e emoções de forma subjetiva, criando uma conexão íntima com o leitor.

   - Exemplo: Um relato pessoal sobre uma experiência marcante.

2. Estilo Crítico:

   - O autor utiliza a crônica para criticar comportamentos sociais ou políticos, instigando reflexões profundas.

   - Exemplo: Uma análise das consequências de uma política pública.

3. Estilo Humorístico:

   - Emprega o humor como principal recurso, utilizando ironia e sarcasmo para abordar temas variados.

   - Exemplo: Uma descrição engraçada de uma situação cotidiana.

4. Estilo Reflexivo:

   - Foca em provocações e reflexões sobre a vida, a sociedade e o ser humano, levando o leitor a pensar mais profundamente.

   - Exemplo: Reflexões sobre o envelhecimento ou a passagem do tempo.

5. Estilo Narrativo:

   - Conta uma história, com personagens e enredos, mas de forma mais leve e breve do que em outros gêneros como o conto.

   - Exemplo: Uma história sobre um evento inusitado em uma festa.

Esses temas e estilos tornam a crônica um gênero muito versátil e atraente, permitindo que cada autor imprima sua própria voz e perspectiva.
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