sexta-feira, 27 de março de 2026

Asas da Poesia * 168 *


Poema de
SEBAS SUNDFELD
Pirassununga/SP, 1924 – 2015, Tambaú/SP

Retrocesso

Sonhos menineiros
acordam-me manhãs de saudade.
E eu caminho
pelas calçadas antigas do passado,
à procura do carinho criança
que deixei brincando
com as mentiras da vida;
da bondade ternura que o coração perdeu
pelas esquinas do mundo;
das venturas inocentes que deixei por aí
rabiscadas
nas paredes envelhecidas do tempo.
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Soneto de
ANIBAL BEÇA
Manaus/AM (1946 – 2009)

Soneto de aniversário

Setembro me agasalha nos seus galhos
e de amor canto no seu verde ventre:
Eis a ventura vaga em danação,
bronze canonizado nas cigarras.

O canto é breve, fino, e já anuncia
o inconfundível som do último acorde:
aquele dó de peito em nó estrídulo.
Como Bashô sonhara, é despedida

que mal se sabe, é morte anunciada,
canora liturgia sazonal.
Em setembro me mato e me renasço

em canto livre, rouco, sem ter palco,
representando de cor e salteado
o meu 13, que é fado e sortilégio.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Auto retrato

O homem
Só descobre o verdadeiro
Sentido do ridículo
Quando se vê aprisionado
Na estupidez
A que ele próprio
deu causa.
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Trova Popular

Se eu pensara quem tu eras,
quem tu havias de ser,
não dava meu coração
para tão cedo sofrer.
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Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Soneto único

Vejo a sombra partir-se pelo meio
e pôr-me duas pálpebras na face;
minha boca de sede bebe o seio
de alguma estrela que me amamentasse;

tem um peso de terra o corpo alheio
que há no meu corpo; em meus ouvidos nasce
uma árvore cantando um vento cheio
de céu em cada enlace e desenlace;

em minhas mãos paradas pousam ninhos;
vão os passos de todos os assombros
andando as minhas veias de caminhos;

e há, para o voo aceso numa aurora,
pressentimentos de asas nos meus ombros
— quando a Moça da Foice me namora.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Cada vez que faço um verso,
A inspiração se renova...
como pode o universo
caber dentro de uma trova?
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Poema de
CECÍLIA MEIRELES
(Cecília Benevides de Carvalho Meireles)
Rio de Janeiro/RJ, 1901 – 1964

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Cada amigo tem um jeito
que eu não julgo nem desdenho.
Ninguém, no mundo, é perfeito…
Defeitos? … eu também tenho!
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Soneto de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Despedida 

O mais duro de todos os momentos, 
que magoa fortemente o coração, 
é quando o pranto escorre com emoção 
cheio de dor, cheio de desalentos! 

A despedida é mais que uma agressão, 
que chega destruindo os sentimentos, 
numa tempestade de fortes ventos, 
como se fosse o adeus, uma explosão! 

Roubando, assim, toda a felicidade, 
sinto no peito, essa cruel verdade: 
As despedidas são violações! 

Dizer adeus é algo que angustia, 
como um mar negro, pleno de agonia, 
onde se afogam tantas emoções!
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Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Restou a imensa saudade,
pois no tempo, que passou,
a ingrata felicidade
o próprio rastro apagou.
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Poema de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Semente

Renasço cada manhã,
ecoando em silêncios
esta intensa sensação

de sentir-se viva, uma ilusão
em que fragmentos da alma
unem-se aos ecos no chão,
germinando de novo a vida...
abraçando a voz do coração.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

O resplendor deste olhar
ilumina o meu caminho.
Pássaro errante a voar,
volto sempre ao nosso ninho.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Veio

Di-lo tanto fulgor maravilhoso, di-lo
Este clarim de sol rubro do meu anseio,
Este verde de mar, como um sono tranquilo,
Este límpido céu azul, como um gorjeio,

Alto, bem alto, assim, para que eu possa ouvi-lo,
Que ela, vencendo o mar, transpondo o serro, veio,
Todo cheirando, em flor, o perfumado seio,
Bela, sonora, ideal, como a Vênus de Milo...

Fosse vaidade ou amor, desespero ou ciúme,
Que a trouxeram aqui, como um leve perfume,
Ou fossem, ai! de mim! raivas e temporais,

Veio, mas com a graça e a própria luz do dia...
Ó prazer que me faz soluçar de alegria,
E respirar, e crer nos deuses imortais!
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Trova Premiada em São Paulo/SP, 2013 de
DULCÍDIO DE BARROS MOREIRA SOBRINHO
Juiz de Fora/MG

Nos bons e nos maus momentos,
quando a emoção cala a voz,
externando os sentimentos,
as rosas falam por nós.
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Rita

Você era tão bonita…
De uma beleza sem igual.
Eu, como tal,
encantado com a sua silhueta
retratava na memória
você vestida de azul…

De um azul que cintilava
como o céu na sua mais fascinante imagem.
Lembro-me ainda de quanta bobagem
o tempo que desperdicei
por não ter coragem
de revelar pra você a minha fascinação.
Não mereço perdão!

Devia castigar-me
por ter sido tão covarde.
Talvez fosse a idade
Talvez a timidez.
Só sei que a perdi de vez.
 
Perdi você Rita, que era tão bonita,
pra alguém que sequer merecia o seu olhar.
E você olhou
apaixonou-se
entregou-se
E se acabou na desventura
acreditando naquela criatura
que não soube amá-la
não soube respeitá-la
acabando por entregá-la
ao desgraçado mundo da ilusão.

Dói-me o coração
de vê-la descuidada
desiludida, acabada, desfigurada,
como não existisse mais nada…

Ou razão pra viver.
Ah! Rita, você era tão bonita…
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

No carrão recém-comprado
da motorista barbeira:
“Atenção, muito cuidado...
amaciando carteira!”
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
(Filemon Francisco Martins)
São Paulo /SP

Saudade

NO TOPO:
A distância é que nos mata
porque vem logo a saudade;
saudade - presença ingrata
de antiga felicidade.
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

SUBINDO:
De antiga felicidade
que o tempo tentou levar,
meu coração tem vontade
de outra vez recomeçar.
    
Saudade - presença ingrata
que no coração perdura,
minha imagem não retrata
0 meu viver de amargura.

Porque vem logo a saudade
morar em meu peito agora?
Antes que tudo se acabe
quero ver a luz da aurora.

A distância é que nos mata
e o castigo tem sabor:
- quanto mais forte a chibata,
mais aumenta o nosso amor.
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Se me pisas com descaso,
eu gemerei dolorida,
que as flores morrem num vaso,
porém, num jardim, têm vida!
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Hino de 
TERESINA/ PI

Risonha, entre dois rios que te abraçam
Rebrilhas sob o Sol do Equador
És terra promissora onde se lançam
Sementes de um porvir pleno de amor

Do verde exuberante que te veste
Ao Sol que doura a pele à tua gente
Refulges, cristalina, em chão agreste
Lírio orvalhado, resplandente

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

O nome da rainha, altivo e nobre
Realça a faceirice nordestina
Na graça jovial que te recobre
Teresa, eternizada Teresina

Cidade generosa, a tez morena
Do povo honrado, alegre, acolhedor
A vida no teu seio é mais amena
Na doce calidez do teu amor

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória

Teresina, eterno raio de Sol
Manhã de claro azul no céu de anil
És fruto do labor da gente simples
Humilde entre os humildes do Brasil

Verde, que te quero verde
Verde, que te quero glória
Ver-te que te quero altiva
Como um grito de vitória
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Soneto de
ALBERTO DE OLIVEIRA
Palmital de Saquarema/RJ (1857-1937) Niterói/RJ

A Casa da Rua Abílio

A casa que foi minha, hoje é casa de Deus.
Tem no topo uma Cruz. Ali vivi com os meus,
Ali nasceu meu filho, ali, na orfandade
Fiquei de um grande amor. Às vezes a cidade

Deixo e vou vê-la, em meio aos altos muros seus.
Sai de lá uma prece, elevando-se aos céus.
São as freiras rezando. Entre os ferros da grade,
A espreitar-lhe o interior, olha a minha saudade.

Um sussurro também, em sons dispersos,
Ouvia não há muito a casa. Eram meus versos.
De alguns, talvez, ainda, os ecos falarão.

E em seu surto, a buscar eternamente o belo,
Misturado à voz das monjas do Carmelo,
Subirão até Deus nas asas da oração.
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Sob os feitiços do amor 
e amante desse pecado, 
como é bom ser pecador, 
refém de um beijo roubado!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O gato e o macaco

Ratão era um malandro. Se era um gato!
Beltrão, outro maior, porque era mono.
Gozavam ambos um viver pacato,
Servindo com preguiça o mesmo dono.

Este par de tratantes
Tinha perdido o medo a toda a gente.
Furtavam a valer! E felizmente
Que — não sendo os criados vigilantes —
Não punham pé em casa dos estranhos.
O Beltrão, que larápio! E malfazejo.
O Ratão, esse andava atento ao queijo
E já nem se importava com murganhos.

Um dia os dois, sentados
À lareira,
Recebendo o calor, muito chegados,
Viam assar castanhas. E pensavam,
Sentindo comichões de ladroeira:
«Quem as surripiasse! Tinha graça!»
Era um belo petisco que papavam,
E pregavam por cima uma pirraça.

Beltrão, já com a boca muito aguada,
Pespegou no colega uma palmada
E disse-lhe, a sorrir, com muitas manhas:
«Quero admirar a tua habilidade!
Tu dizes que és esperto,
Que tens agilidade...
Ora vê lá se safas as castanhas!...
Não és capaz. Vamos a ver se acerto.

É difícil, é fato,
Mas... Ah! que se eu tivesse mãos de gato,
As castanhas saltavam cá para fora!»
Ratão, sem mais demora,
Inchado de fumaças de quem pode,
Com muita ligeireza
Arreda a cinza, escalda-se, sacode
Os dedos, vai com mais delicadeza...
Pá! rola uma castanha, duas, três!...
Beltrão ria-se, vendo
Executar esta partida nova.
«Que grande ligeireza!» E ia comendo.
Chega a criada... Zut! Mas desta vez
O hábil Ratão saiu-se mal. Que sova!

Uma observação aqui registro:
Seria muito fácil quanto a mim,
Mudar este macaco num ministro
E transformar o gato em galopim*.
(tradução: Garcia Monteiro)
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* Galopim = cabo eleitoral.
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Mensagem na Garrafa 164 = O porco e o cavalo


AUTOR ANÔNIMO

Um fazendeiro colecionava cavalos e só faltava uma determinada raça. Um dia ele descobriu que o seu vizinho tinha este determinado cavalo. Assim, ele atazanou seu vizinho até conseguir comprá-lo. 

Um mês depois o cavalo adoeceu, e ele chamou o veterinário que após examina-lo disse: 

- Bem, seu cavalo está com uma virose, é preciso tomar este medicamento durante 3 dias, no terceiro dia eu retornarei e caso ele não esteja melhor, será necessário sacrificá-lo. 

Neste momento, o porco escutava toda a conversa. 

No dia seguinte deram o medicamento e foram embora. O porco se aproximou do cavalo e disse: 

– Força, amigo! Levanta daí, senão você será sacrificado! 

No segundo dia, deram o medicamento e foram embora. 

O porco se aproximou do cavalo e disse: 

- Vamos lá, amigão, levanta senão você vai morrer! Vamos lá, eu te ajudo a levantar... Upa! Um, dois, três. 

No terceiro dia deram o medicamento e o veterinário disse: 

- Infelizmente, vamos ter que sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos. 

Quando foram embora, o porco se aproximou do cavalo e disse:

- Cara, é agora ou nunca, levanta logo! Coragem! Upa! Upa! Isso, devagar! Ótimo, vamos, um, dois, três, legal, legal, agora mais depressa vai... Fantástico! Corre, corre mais! Upa! Upa! Upa!!! Você venceu, Campeão! 

Então, de repente o dono chegou, viu o cavalo correndo no campo e gritou: 

– Milagre! O cavalo melhorou. Isso merece uma festa..."Vamos matar o porco!"

Ponto de reflexão: 
Isso acontece com frequência no ambiente de trabalho. Ninguém percebe, quem é o funcionário que tem o mérito pelo sucesso. 

"Saber viver sem ser reconhecido é uma arte." Se algum dia alguém lhe disser que seu trabalho não é o de um profissional, lembre-se: Amadores construíram a Arca de Noé e profissionais, o Titanic. 

Procure ser uma pessoa de valor, em vez de ser uma pessoa de sucesso.

Eduardo Martínez (Doutor sim, senhor!!!)


Uma das maiores bobagens que considero é alguém querer impor que a palavra doutor só pode ser usada por aqueles indivíduos que possuem doutorado. E, antes que alguém venha aqui tentar atrapalhar o meu raciocínio, deixe-me, por favor, expor as minhas ideias.  Aliás, você vai querer me ouvir ou vai ficar aí repetindo a mesma ladainha que encaixotaram na sua cabeça?

Pois bem, a palavra doutor vem de uma outra, menor em tamanho, mas tão ou ainda mais importante, que é douto. Você sabe o que é douto? Douto quer dizer sabedoria, conhecimento e mais uma pá de coisas. Então, o que temos até aqui é que doutor veio de douto, não o contrário. 

Já doutorado, segundo o dicionário, é a graduação de doutor. Ih, me pegou!!! Não exatamente, pois isso é no âmbito acadêmico. Ou seja, não é porque as universidades utilizam a palavra doutor apenas para quem fez doutorado, que não podemos utilizá-la para todos aqueles que possuem vasto conhecimento em qualquer área, seja ela qual for. Isso mesmo!!! Simplesmente porque já existia, muito antes, uma palavrinha chamada douto, que deu origem à outra, que, por sua vez, também pariu uma terceira. 

Obviamente, há a utilização acadêmica da palavra doutor, que é um título muito difícil de ser conquistado e, naturalmente, deve ser enaltecido. Não estou aqui para falar mal das universidades, já que, sem o conhecimento produzido e repassado por elas, continuaremos a ser uma colônia exportadora de soja até que todo o meio ambiente seja degradado, como temos visto, especialmente nos últimos anos. No entanto, cismo em chamar de doutor, por exemplo, um indígena com vastos saberes sobre sua cultura.
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 14.05.2022
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/05/doutor-sim-senhor.html
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Hans Christian Andersen (É a pura verdade)


- Que história medonha! - disse a galinha.

Ela estava em um quarteirão da cidade - não naquele onde acontecera o caso, E repetia:

- Que história medonha! E acontecer num terreiro! Eu nem tenho coragem de dormir sozinha esta noite... O que vale é que estão tantas hoje no poleiro!

E ela contou a história. As outras galinhas ficaram com as penas em pé, e a crista do galo achatou-se. É a pura verdade!

Mas vamos contar do princípio.

O sol já ia entrando, e as galinhas subiram para o poleiro. Havia uma delas, toda branca, de pernas curtas, porque era nanica, que punha ovos regularmente, e era um modelo de galinha, em todos os sentidos. Quando ia voando para o poleiro, bateu com o bico no peito, e caiu uma peninha. E ela disse:

- Lá se foi uma pena! Ora, quanto mais eu me bicar, mais bonita fico!

Disse isso rindo, porque era uma galinha brincalhona, e vivia caçoando com as outras. E logo tratou de dormir.

Era já noite escura. As galinhas estavam empoleiradas ao lado umas das outras, mas a que ficava ao lado da galinha alegre não podia dormir. Ela ouviu e não ouviu, como devia fazer neste mundo quem quer viver em paz, contudo não pode deixar de dizer à vizinha:

- Ouviste o que ela estava dizendo? Eu não cito nomes, mas há aqui uma galinha que quer arrancar todas as penas do corpo, para ficar bonita. Se eu fosse o galo, não me importava mais com ela.

Justamente acima das galinhas estava aninhada a coruja, com o marido e os filhos. Toda a família tinha ouvido fino, e todos eles ouviram tudo o que a galinha disse. Piscaram os olhos, e a mãe-coruja, batendo as asas, recomendou:

- Não ouçam, não ouçam isso! Mas creio que vocês ouviram o que diziam lá embaixo, não? Eu ouvi, com estes ouvidos que a terra há de comer! E a gente tem de acreditar no que ouve, senão fica surda. Pois já naquele galinheiro alguém que se esqueceu tão completamente das boas maneira que deve ter uma galinha que arranca todas as penas enquanto o galo está olhando para ela!

- Que horror! - disse o pai-coruja. - Vou contar isso aos vizinhos.

E saiu voando.

- Hu...huu...huu! - piava ele, em frente do pombal próximo.

E disse às pombas que estavam lá dentro:

- Vocês ouviram? Vocês ouviram? Hummm...huuu!...Pois a galinha arrancou todas as penas do corpo, por causa do galo. Ela vai morrer de frio? Quem sabe lá se até já não morreu?

- Cou...Cou...Cooou! Onde? Onde? Onde!...- gritaram as pombas.

- Ali naquele galinheiro - respondeu o pai-coruja. - Eu mesmo vi! Parece impossível, mas é a pura verdade!

- Eu creio... Eu creio...- arrulhavam  as pombas; porque tinham em grande respeito o pai- coruja.

E desceram do pombal, para arrulhar no pátio:

- Escutem! Escutem! Uma galinha, dizem até que duas galinhas, arrancaram todas as penas do corpo, para ficarem diferentes das outras, e chamarem assim a atenção, E isso é muito perigoso, porque  a gente pode apanhar frio, e morrer de febre! Elas já morreram!

E o galo, voando para cima do muro do jardim, cantava:

- Acordem! Acoooordem!

Ainda tinha os olhos meio fechados de sono, mas assim mesmo cantava:

- Três galinhas morreram! Elas se depenaram todas! ...É uma história medonha, mas eu não vou guardá-la só para mim, não! Passa adiante! Passa adiante!

- Passa adiante! Passa adiante! - repetiram os morcegos.

E as galinhas cacarejavam, e os galos cantavam:

- Passa adiante! Passa adiante!

E a história viajou assim, de galinheiro em galinheiro, e foi bater afinal naquele de onde tinha saído.

- Cinco galinhas arrancaram as penas do corpo, para ver qual delas ficava mais delgada! Bicaram-se tanto, que morreram todas. Que vergonha! Além do descrédito da família, ainda o prejuízo do dono!

A galinha que tinha perdido uma peninha não reconheceu, é claro, sua própria história e, como se prezava de ter boa conduta, disse:

- Eu acho que essas galinhas só merecem desprezo, mas há muitas dessa espécie! A gente não deve deixar isso ficar assim: é preciso que a história saia nos jornais. Desse jeito se espalhará por todo o país, e servirá para as galinhas honestas se acautelarem.

E a história foi publicada nos jornais.
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fontes:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. 
Disponível em Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

quinta-feira, 26 de março de 2026

José Feldman (Presente Complicado)


Tiago encarava a vitrine de uma loja de cristais com a mesma expressão de um homem tentando desarmar uma bomba usando um palito de dente. O Dia dos Namorados era em doze horas, e o cérebro dele estava operando em modo de segurança.

Desesperado, ele abriu o grupo "Os Intocáveis (e o Tiago)" no WhatsApp.

Tiago: "Socorro. Emergência nível 5. O que eu dou para a Marcela? Orçamento: até 300 reais e minha dignidade."

A resposta foi instantânea. Beto, o amigo "fitness" que toma vitaminas no café da manhã, foi o primeiro.

Beto: "Mano, fácil. Um kit de suplementos e uma luva de academia nova. Ela vai entender que você se preocupa com a saúde dela. Amor é cuidado, parça."

Tiago: "Beto, a Marcela acha que 'fazer cardio' é andar do sofá até a geladeira. Se eu der isso, ela termina comigo antes do jantar."

Juca, o eterno romântico (e ligeiramente cafona), entrou na conversa.

Juca: "Não ouve o Beto, Tiago. Mulher gosta de sensibilidade. Compra um urso de pelúcia gigante. Aqueles que ocupam metade da cama e seguram um coração escrito 'Você é meu tudo'. É infalível."

Rodolfo, o pragmático do grupo, mandou um áudio de 30 segundos rindo.

Rodolfo (Áudio): "Urso, Juca? Sério? O Tiago quer namorar a menina ou montar uma creche? Tiago, escuta quem entende: dá uma AirFryer. É útil, é moderna e ela vai fazer batata frita pra você. É o presente que se paga sozinho."

O grupo virou um caos. As notificações não paravam.

Juca: "AirFryer? Que horror, Rodolfo! Você quer que ela se sinta uma dona de casa dos anos 50? O urso transmite afeto!"

Rodolfo: "O urso transmite ácaro, Juca! A AirFryer transmite crocância!"

Beto: "Se não for o kit de suplementos, dá um smartwatch que conta passos. Pelo menos ela monitora o sono."

Tiago: "GENTE, FOCO! Ela gosta de coisas fofas, mas nem tanto. Gosta de comer, mas não quer cozinhar. E ela odeia suar."

Aí apareceu a mensagem de Vini, o amigo que sempre tentava ser "cult".

Vini: "Tiago, dê uma planta. Mas não uma flor qualquer. Uma Costela de Adão. É estético, é hipster, simboliza o crescimento da relação."

Rodolfo: "Uma planta? O cara quer um presente, não uma obrigação de regar algo todo dia. Dá logo um cartão presente da Netflix e um balde de pipoca."

Juca: "Você é um monstro sem coração, Rodolfo. Tiago, ignora esses bárbaros. Compra uma estrela. Tem um site que você batiza uma estrela com o nome dela. É eterno."

Beto: "Batizar uma estrela? Ah não, Juca. Aí você zerou o game da cafonice. Tiago, se você der uma estrela, eu mesmo te bloqueio."

Tiago lia tudo suando frio. O grupo agora discutia se era melhor uma fritadeira elétrica ou um corpo celeste distante.

Tiago: "E se eu der um perfume?"

Rodolfo: "Risco alto. Se ela não gostar, vai dizer que você acha que ela é fedorenta."

Juca: "Dá uma joia! Prata! Um pingente de coração!"

Vini: "Muito clichê. Dá um livro de poesias búlgaras."

Beto: "Dá um tapete de ioga."

Tiago bloqueou o celular. A discussão no grupo já tinha migrado para "Qual a melhor marca de creatina" e "Por que o Rodolfo odeia romance". Ele entrou em uma loja de departamentos, viu uma luminária de mesa em formato de lua e uma caixa de bombons importados.

Ele comprou os dois.

No dia seguinte, no jantar:

— Tiago, que lindo! — disse Marcela, abraçando a luminária — É tão poético, parece que você trouxe a lua pra mim.

Tiago sorriu, aliviado, e sentiu o celular vibrar no bolso. Era uma nova mensagem no grupo.

Rodolfo: "E aí, deu a AirFryer? Se não deu, me avisa que eu compro a minha, tá na promoção."

Tiago apenas guardou o celular e atacou os bombons.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing 

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Vai pro quintos dos infernos”


A expressão "QUINTOS DO INFERNO" surgiu na fase do Brasil Colônia, quando nosso país era o saco de pancadas de Portugal e os galegos mandavam e desmandavam aqui dentro. 

Era também a época das grandes navegações, quando Portugal reinava nos mares e inegavelmente conquistou locais longínquos com suas indefectíveis caravelas com a cruz de malta, posteriormente transformadas em colônias, sendo igualmente exploradas economicamente, propiciando aos lusos substanciais lucros, que sustentavam as tradições e o luxo da monarquia portuguesa.

Virou expressão costumeira quando nossos patrícios viam uma embarcação chegando de muito longe, proveniente do Brasil, quase em uníssono os circunstantes presentes no cais do porto dizerem: “Lá vem mais uma nau, dos quintos do inferno”. Esse indigitado “inferno” era como os portugueses chamavam o Brasil ainda em seus primórdios, selvagem e inculto. 

Que mal lhe pergunte: e os “quintos”, de onde mesmo surgiram? 

Pois é... Eles faziam referência ao imposto de 20% (correspondente a um quinto) de todo o ouro que era extraído das generosas minas brasileiras, cuja arrecadação, que se podia estimar em toneladas, era simplesmente levada via marítima para o território português, para abastecer as burras da monarquia, isso quando não passava diretamente para a Inglaterra, que com seu poderia bélico naval garantia o livre trânsito dos navios lusitanos, com suas preciosas cargas de especiarias e outros gêneros extremamente valiosos. 

Por isso, dizer para alguém que fosse para o quinto dos infernos, naquela época recuada significava mandar essa pessoa (muitas vezes banida) para o lugar longínquo e desconhecido que era o Brasil. A propósito, a cobrança dos tais 20% foi uma das principais causas da Inconfidência Mineira, revolta que acabou sendo reprimida em 1789 pela Coroa Portuguesa de forma draconiana, como sabemos.

Daí a ser consolidada como uma expressão de puro xingamento foi um passo, a partir principalmente de quando se descobriu a sensação de alívio ou desforra de mandar alguém chato ou impertinente, para o quinto dos infernos. 

Mutatis mutandis, dá também no mesmo mandar o distinto “pro raio que o parta”, outra expressão popular usada para extravasar a raiva, indignação ou desprezo em relação a outrem, com a subjacente sugestão de que o dito cujo desapareça, “vá cantar em outra freguesia” ou “vá plantar batatas”... Viu só como o nosso português de cada dia é rico em tiradas que o povo usa sem se dar conta ou saber das motivações que lhes deram origem?

Na música popular brasileira, um cantor intitulado “Missionário”, gravou em 2024 pela USADISCO a música denominada “QUINTO DOS INFERNOS”, que se ninguém nunca ouviu, não está perdendo absolutamente nada. 

Trata-se de uma espécie de xote gaúcho, que se por um lado desperta nos afoitos a vontade de dançar, mercê do ritmo marcante da sanfona, a letra revela-se grotesca, verdadeiro monumento ao mau gosto, em especial para os curtem os encantos e a magia do que temos de bom e de melhor na MPB.

Como se não bastasse, existe também uma cerveja mexicana batizada de “QUINTO DOS INFERNOS”, produzida pela cervejaria UberBrau, diz que elaborada para a celebração da vida, utilizando cinco maltes diferentes e uma única variedade de lúpulo, com aroma floral e sabor levemente caramelizado.

Aposto que nem chega aos pés da festejada aguardente “Santo Grau”, de qualidade superior, fabricada em Minas Gerais e ideal para confraternizações ou coquetéis à base de caipirinha, para celebrar os bons momentos da vida com os amigos na amena temperatura das Alterosas, quando se revela imbatível. Há os abstêmios que não chegam nem perto, é claro, mas isso são casos à parte... 
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Floresta (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor

José Luiz Boromelo (Papagaio)


O casamento estava programado para o final do ano, depois de uma década de namoro. Jussara pensava em antecipar a cerimônia por conta dos problemas de saúde do pai, mas o quadro se agravou repentinamente e não houve como reverter a situação, deixando uma lacuna na família. A irmã mais velha morava distante e não demonstrou interesse em cuidar da mãe com idade avançada, mesma situação do caçula, que há muito deixara a casa materna para alcançar sua independência financeira. Depois de algum tempo a mãe acabou sucumbindo, acometida por profunda tristeza.

Logo ficou evidente a disputa entre os irmãos pela partilha dos bens. Por conta da enfermidade paterna, os gastos com assistência médica dilapidaram o patrimônio familiar, deixando uma extensa lista de compromissos assumidos. Depois de muita encrenca o imbróglio finalmente foi solucionado judicialmente com a divisão proporcional a cada herdeiro, após a quitação de todos os débitos junto aos credores. Ironicamente coube-lhe tão somente a guarda do estimado papagaio, recusado pelos demais por sua mania em incomodar os moradores com seu falatório ininterrupto impregnado de expressões proibidas para menores, uma lembrança viva do irreverente e saudoso pai.

Sem outra alternativa, a mulher se viu obrigada a cuidar do psitacídeo, mesmo contrariada com seu comportamento bizarro recorrente. Por diversas vezes tentou incutir em seu vasto repertório de interjeições promíscuas alguma coisa mais amena que permitisse a presença do animal na companhia de crianças e visitantes sem maiores constrangimentos, mas o empenado teimava em destilar seu repertório a quem quisesse ouvir, sem qualquer distinção. Ressentido com a ausência do dono repetia sistematicamente tudo o que lhe fora ensinado, exibindo suas tiradas escatológicas em volume considerável até que finalmente foi levado ao ambiente rural, onde poderia gritar à vontade sem que causasse incômodo a alguém.

Eis que um belo dia a filha se deparou com um envelope lacrado esquecido entre os pertences do genitor. Era um testamento registrado em cartório, que destinava alguns bens para os herdeiros legais, até então desconhecidos pela família. O pai fora previdente o suficiente, ocultando deliberadamente as propriedades dos imóveis no intuito de preservar parte do patrimônio ante a doença que lhe consumia lenta e inexoravelmente. Ocorre que uma cláusula condicionante exigia comprovadamente a guarda e o bem estar do bendito papagaio pela família, que diante da situação tentou desesperadamente reaver o animal. Em vão, pois o “louro” desbocado agora fazia companhia ao estimado dono, desfiando seus impropérios em outras paragens bem mais sublimes que as do insalubre convívio humano. Apesar das ações na justiça questionando a decisão maior do patriarca, sua derradeira vontade prevaleceu. A ave acabou contribuindo, sem querer, com diversas entidades assistenciais, contempladas com doações tão generosas e muito bem vindas.
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José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Fontes:
Imagem criada com IA Microsoft Bing

Dicas de Escrita (A Crônica) 4. Crônica Reflexiva

Título: "As Pequenas Coisas"

Certa manhã, enquanto caminhava pelo parque, percebi a beleza do simples. O sol filtrava-se entre as folhas, criando uma dança de luz que iluminava o caminho. Um grupo de crianças brincava, suas risadas ecoando como música. Em meio à correria do dia a dia, muitas vezes esquecemos de apreciar esses momentos.

Parei para observar um velho banco de madeira, gasto pelo tempo. Quantas histórias não teria ele ouvido? Casais apaixonados, amigos se reencontrando, pessoas solitárias buscando um momento de paz. Cada rachadura era uma memória, cada lasca uma vivência.

Refletindo sobre isso, percebi que a vida é feita de pequenas coisas. Não são os grandes eventos que nos definem, mas os instantes simples que nos tocam. Um sorriso, uma conversa despretensiosa, a brisa fresca no rosto. Às vezes, é preciso desacelerar para enxergar o que realmente importa.

A correria nos faz perder a conexão com o presente. Estamos tão focados no futuro que esquecemos de viver o agora. Ao final do dia, o que levamos conosco? Não são os planos que fizemos, mas as memórias que construímos. E, neste momento de reflexão, decidi que, a partir de hoje, vou valorizar mais as pequenas coisas.

Análise dos Elementos Utilizados

1. Narrador:

A voz do narrador é introspectiva e pessoal, compartilhando suas reflexões sobre a vida e a importância dos momentos simples.

2. Tema:

O tema central é a valorização das pequenas coisas da vida, destacando a necessidade de desacelerar e apreciar o presente.

3. Estilo Reflexivo:

O tom é contemplativo, convidando o leitor a pensar sobre suas próprias experiências e a importância de viver o momento.

4. Elementos Descritivos:

Descrições sensoriais (como a luz do sol e o som das risadas) ajudam a criar uma atmosfera que envolve o leitor, permitindo que ele sinta a cena.

5. Metáforas e Simbolismos:

O banco de madeira simboliza a passagem do tempo e as experiências acumuladas, enriquecendo a reflexão sobre a vida.

6. Conclusão Pessoal:

O autor conclui com uma decisão pessoal, que serve como um convite para o leitor também reavaliar suas prioridades e valorizar o presente.


Esse exemplo e análise demonstram como uma crônica reflexiva pode tocar o leitor, utilizando elementos literários para criar uma conexão emocional e convidar à introspecção.
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continua...

Fontes:
A. I. Dola , 2026.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing