segunda-feira, 8 de junho de 2026

Baptista-Bastos (Um pouco de ternura)

Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstrata, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeitas. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse diarista. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em redor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?

— Bom…bom — Não sabia o que responder.

— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crônica humilde.
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Armando Baptista-Bastos (Lisboa/Portugal,1934 – 2017) é considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos. Iniciou-se como jornalista no jornal “O Século”, tendo trabalhado também no ”República,”, “Europeu”, “O Diário”, “Diário Popular” e nas revistas “Cartaz”, “Almanaque”, “Época” e “Sábado”. Foi, igualmente, redator em Lisboa da Agência France Press. Usando o pseudônimo de Manuel Trindade, trabalhou na RTP – Rádio e Televisão de Portugal, nos tempos do governo de Marcelo Caetano. Foi despedido por ter sido considerado um “adversário do regime”. Porém, é no vespertino “Diário Popular”, onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que deixa sua marca,"com um estilo inconfundível" — no dizer de Adelino Gomes. Foi docente na Universidade Independente, onde lecionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas. Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc.

Baptista-Bastos recebeu, entre outros, os seguintes prêmios:
Prêmio Nacional de Reportagem / Prêmio Gazeta de 1985, atribuído pelo Clube de Jornalistas; Prêmio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983); Prêmio Porto de Lisboa de 1988; Prêmio Pen Clube de 1987 - «A Colina de Cristal»; Prêmio Cidade de Lisboa de 1987 - «A Colina de Cristal»; Prêmio da Crítica 2002 (Atribuído, em 2003, ao romance “No Interior da Tua Ausência», e como consagração de uma obra literária); Grande Prêmio da Crônica da APE (Associação Portuguesa de Escritores), atribuído, em 2003, ao livro «Lisboa Contada pelos Dedos», publicado em 2001; 
Prêmio Gazeta de Mérito, atribuído, por unanimidade, pelo Clube de Jornalistas, em 2004.

Algumas obras do autor:
O Cinema na Polêmica do Tempo / 1959; O Filme e o Realismo / 1962; O Secreto Adeus / 1963; O Passo da Serpente / 1965; Cão Velho entre Flores / 1974; Viagem de um pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura / 1981; Elegia para um Caixão Vazio / 1984; A Colina de Cristal / 1987; Um Homem Parado no Inverno / 1991; O Cavalo a Tinta-da-China / 1995; No Interior da Tua Ausência / 2002.

Baptista-Bastos é o autor do texto e da entrevista do filme “Belarmino”, realização de Fernando Lopes, geralmente considerado como um dos clássicos do Cinema Novo português. Trabalhou com Rogério Ceitil e Fernando Matos Silva nos documentários “Ribatejo” e “Alentejo”.

Fonte:
Projeto Releituras. Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
http://www.releituras/bbastos_ternura.asp.htm

José Feldman (Ecos do Deserto) 12. O Mercado do Silêncio de Samarcanda

A fama de Mustafá, o peregrino ganhou tais proporções, que um sheik de Bagdá o convidou para se hospedar em seu palácio, desde que contasse suas histórias que penetravam e encantavam a alma de todos. 

Mustafá sentava-se em almofadões, com o sheik sentado em sua cadeira e os súditos espalhados pelo salão, sentados no chão. Falava pausadamente, gesticulando muito, atraindo a atenção de todos os ouvintes.

“Saiba, ó Rei dos Tempos e Senhor da Justiça, que as palavras que agora saem de minha boca não são frutos da mera imaginação, mas sementes colhidas nos portos onde o sol se põe e a lua descansa. Sou Mustafá, o Peregrino, e meus pés já beijaram as areias de Mogadíscio e minhas mãos já tocaram as sedas de Samarcanda.

"Acomode-se, ó Sultão de Bagdá, pois o que vou narrar agora não é para ouvidos apressados. Bebam seus chás com calma, pois a história do Mercado de Silêncio de Samarcanda exige que a alma esteja em repouso.

“Há muitos anos, quando minhas sandálias ainda eram novas e meu coração buscava o que os olhos não podiam ver, atravessei as montanhas de gelo até chegar às muralhas azuis de Samarcanda. Mas não entrei pelo portão dos mercadores barulhentos. Fui guiado por um velho dervixe (andarilho místico) até um bairro onde as ruas eram cobertas por tapetes de lã grossa e as paredes eram revestidas de cortiça e veludo.

“Ali, ó Sheik, ficava o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio).

“Ao cruzar o arco de entrada, o som do mundo morria. Não se ouvia o tinir das moedas, nem o grito dos vendedores de halva (doce de gergelim), nem o relincho dos camelos. O silêncio era tão denso que se podia ouvir o bater das asas de uma borboleta a dez côvados de distância. Era um lugar de paz profunda, uma serenidade que descia sobre os homens como o orvalho da manhã.

“Nesse mercado, as transações não eram feitas com a língua, mas com o coração . Se um homem desejava um frasco de essência de jasmim, ele não perguntava o preço. Ele sentava-se diante do mercador, ambos em silêncio, e olhavam-se nos olhos. Ali, o vendedor lia a necessidade do comprador, e o comprador sentia a amana (honestidade/confiança) do vendedor.

“Vi um homem oferecer uma única tâmara seca por um colar de safiras. Em qualquer outro lugar, seria loucura ou insulto. Mas ali, naquele silêncio sagrado, o mercador aceitou com um aceno de cabeça. Por quê? Porque aquela tâmara era o último alimento daquele homem, dada com um sacrifício que valia mais que todo o tesouro do Califa. O valor das coisas não era medido pelo ouro, mas pela intenção.

“Certa tarde, vi um jovem gharib (estrangeiro) entrar correndo, gritando por socorro porque perdera sua caravana. No momento em que sua voz rompeu o ar, as mercadorias nas prateleiras — as sedas, as cerâmicas, as especiarias — perderam a cor, tornando-se cinzas como as cinzas de uma fogueira. O silêncio era a magia que mantinha a beleza viva. O jovem, percebendo o sacrilégio, caiu de joelhos e cobriu a boca. Um ancião apenas tocou seu ombro e lhe entregou um copo de água. Naquele silêncio, o jovem encontrou a direção que nenhum mapa poderia dar.

“Dizem, ó Sheik, que o Mercado de Silêncio foi construído sobre o túmulo de um alim (sábio) que acreditava que 'a palavra é prata, mas o silêncio é ouro'. Saí de lá dias depois, mas minha voz nunca mais foi a mesma. Aprendi que, quando calamos a língua, a alma começa a falar.

“Saí de Samarcanda levando apenas um pequeno saco de seda vazio. Quando as pessoas me perguntavam o que comprei no Mercado de Silêncio, eu apenas sorria. Pois o que comprei lá não cabe em caravanas: comprei a capacidade de ouvir a voz de Alá no sussurro do vento do deserto."

“Escutai com vossa alma, ó guardiões da paz, pois o Souq al-Samt (Mercado do Silêncio) não é apenas um lugar em Samarcanda, mas um espelho da Verdade divina.

“A moral desta história, ó Sheik, é que o valor de um homem e de suas posses não reside no preço que a língua apregoa, mas na intenção que o coração sustenta. Vivemos em um mundo de ruído, onde acreditamos que quanto mais alto gritamos nossa importância, mais seremos ouvidos. Contudo, o mercado nos ensina que a verdadeira paz profunda e a bênção só florescem onde o ego se cala.

“Muitas vezes, uma única tâmara dada com sacrifício vale mais que mil dinares (moedas de ouro) dados com orgulho. A beleza do mundo é uma magia frágil que se desfaz diante da arrogância e do barulho desnecessário. Quem aprende a silenciar a sua língua descobre que o universo inteiro começa a falar, e que as trocas mais valiosas da vida são aquelas feitas em espírito de honra e confiança, sem que uma única palavra precise ser gasta.”

Mustafá inclinou a cabeça, encerrando o relato.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Patologista clínico Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados.  Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

Vinícius Novaes (A despedida)

Ela se despediu em silêncio. Achou melhor assim. Somente suas lágrimas denunciavam a tristeza e o desejo de querer estar distante daquele quarto à meia luz. Era um final de tarde melancólico. Talvez, um dos momentos mais doloridos de sua vida. Ela entrou e viu seus sentimentos espalhados pelo chão. Fragmentos de um amor marcado pela intensidade, lembranças de conversas que invadiam a madrugada, de gargalhadas que esvaziavam o fôlego, de uma paixão em êxtase, de planos e decepções: tudo estava ali, jogado no chão.

Aquela não era a primeira separação na vida de Joana. Mas era, sim, a primeira vez que o amor lhe dava um adeus inexplicável. Esse amor, intenso, foi embora lhe sorrindo, mostrando toda a sua racionalidade incompreendida. Joana estava sem ação. Seu corpo, já bem frágil pelo fim, se debruçava sobre a cama numa tentativa quase remota de juntar as migalhas daquele sentimento que viveu numa plenitude jamais vista.

Seus pensamentos voavam... E suas lágrimas caiam.

As mãos iam fechando as caixas enquanto o seu coração ia fechando as portas para um sentimento. Era um adeus dado para o silêncio. Simplesmente. Ela não acreditava no fim. Sua inteligência bem que tentava compreender tudo aquilo, mas os seus sentimentos não a deixavam assimilar aquele adeus. O ‘nunca’ era algo difícil de entender. Aquele era um amor que não voltaria nunca mais. E isso lhe causava uma imensa dor. Um aperto no peito que lhe parecia roubar a alma por alguns instantes.

Joana era uma figura abstrata atirada no meio de bilhetes apaixonados. O seu choro era, talvez, um ensaio para se ver livre daquele peso chamado dor. Pena que as lágrimas não aliviavam em nada o seu sofrimento. Muito pelo contrário: parecia ficar ainda mais intenso. Pois as lágrimas explodiam a cada vez que Joana apanhava alguma coisa para colocar naquela caixa de papelão.

Foi assim quando os seus olhos fitaram um porta-retrato no canto da cama. Era a foto do seu primeiro encontro com aquele que, hoje, alimentava a sua tristeza. Fora num parque que os dois se encontraram pela primeira vez. Tímida e incrédula, até então, nas coisas que iam além da racionalidade, seu coração começou a bater mais forte assim que se encontrou com Jorge. Tudo mudou. Sua vida ficou mais colorida. Eles se beijaram ali mesmo, embaixo do velho Jequitibá.

“Eita que besteira!”, pensou enquanto se debruçava mais um pouco sobre a cama. Suspirou. Secou sua tristeza. E continuou a apanhar as suas lembranças. Encontrou uma fita da Legião – sua banda favorita. Costumava dizer que seu amor era embalado pela voz do Renato, o Russo. Adorava todas as músicas, menos “Vento no Litoral”. Achava a mais triste de todas.

Mas, naquele dia, meio involuntariamente, sua boca cantarolou: “Agimos certo sem querer/ Foi só, o tempo que errou/ Vai ser difícil sem você/ Porque você esta comigo/ O tempo todo/ E quando vejo o mar/ Existe algo que diz/ Que a vida continua/ E se entregar é uma bobagem”.

Bobagem ou não, Joana já havia se entregado. Estava praticamente desfalecida em cima da cama. Suas mãos agarravam o lençol azul-marinho. Era parte de suas lembranças que, naquele momento, estavam quase se perdendo em meio a uma tristeza profunda. Mesmo assim, ela tentou se reerguer. Balançou por causa do nervosismo. Ainda conseguiu dar alguns passos em direção a porta, mas caiu logo adiante. E tudo foi ficando escuro.
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Vinícius Novaes é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo, escreve roteiros e é autor do livro 'Eu te amo, mas estou bêbado'. Com passagens pelo grupo Bandeirantes e Rede Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, está como editor do site do PROPMARK.

Fonte:
Projeto Releituras. Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
http://releituras/ne_vnovaes_despedida.asp.htm

sábado, 6 de junho de 2026

Asas da Poesia * 189 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/Guanajuato/México

Descida

De que adianta a rebeldia se, imediatamente, encontramos o universo intocado?
Emil Cioran (filósofo romeno, 1911 – 1995)

Descemos,
disso não há dúvida.

A frágil paz em que vivíamos
foi destruída para sempre.

O que nos resta?

Escolher entre a conformidade
e a sedição.

Permanecer em silêncio ou escrever,
é tudo o que resta.

Sim, de fato,
abominar a neutralidade,
existir apesar de tudo,
apesar dos presságios,
apesar da perdição.

Descemos,
como o sol ao fim do dia,
e como a lua,
nos rebelamos. 
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Trova Humorística de
NEWTON MEYER
Pouso Alegre/MG, 1936 – 2006

Careca? Não creio sê-lo, 
e o fato impede que eu minta:
Tenho um fio de cabelo,
mas, quase com metro e trinta!
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Poema de
LURDIANA ARAÚJO
Brasília/DF

Fogueira

Coração, deixa de besteira,
O amor é apenas uma fogueira
Queima a alma inteira.

Como fogo na lareira
Vai nos queimando como madeira
Nos consumindo a vida inteira.

É uma chama traiçoeira
Quer nos sufocar, apedrejar,
Aniquilar.

Nunca tente pular esta fogueira
Uma ferida corta a carne quer não queira,
E nos aprisiona nesta chama traiçoeira.

É inútil relutar, nem mesmo nossas cinzas,
Conseguem se libertar de alguma maneira.
O amor é apenas uma fogueira, chama traiçoeira.
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Aldravia de
GLÓRIA FONTES PUPPIN
Rio de Janeiro/RJ

transformar
  é
  difícil
    mexe
    com
      inconsciente
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Soneto de
CHICO MIGUEL
(Francisco Miguel de Moura)
Teresina/PI

Nós e o planeta

Nascemos num oceano de incertezas,
São vidas sobre vidas, muitas vidas.
Que no combate até desconhecemos
Se são amigos nossos ou inimigos.

A ciência desvenda-nos perigos
De vírus a bactérias, faz vacinas
Contra os males fatais que nos imolam,
Pois somos nós os monstros. E sorrimos.

Também, com relação ao universo,
Somos futuros vírus já dispersos,
Na Terra, onde seremos os seus réus.

Fazemos, desta casa azul, um lixo…
Pensando (ou sem pensar) que com tudo isto
Estamos, corpo e alma, indo pro céu.
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Trova de
CEZÁRIO BRANDI FILHO 
Juiz de Fora/MG

Quanta gente gostaria
de ter a vida da gente,
sem saber que isso seria
trocar tristezas, somente.
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Poema de
ANA HATHERLY
(Anna Maria de Lourdes Rocha Alves Hatherly)
Porto/Portugal, 1929 – 2015, Lisboa/Portugal

Pensar é encher-se de tristeza

To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale

Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço seu imenso clamor
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Quadra Popular de 
MINAS GERAIS

Morena, se tu soubesses
o quanto eu te quero bem,
tu não rias, não brincavas,
perto de mim, com ninguém.
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Soneto de
ALFREDO SANTOS MENDES
Lisboa/Portugal

Adeus juventude

Depois da juventude ultrapassada,
a vida passa a ter outro sentido.
E todo o aprendizado adquirido,
Será o nosso guia de jornada!

Teremos pela frente, tudo ou nada.
Qual deles será de nós, o nosso adido?
Será que ficaremos no olvido?
Nossa porta estará sempre fechada?

Há que sorrir em cada despertar.
E nunca esquecer de comentar:
que há mais um dia todas as manhãs!

E quando já passados muitos anos,
não devemos chorar os desenganos,
mas olhar com orgulho nossas cãs!
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer;
mas, zangado, morde e arranha:
- É gato? - Não... é mulher!
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Poema de
WALLACE STEVENS
Reading/ Pensilvânia/EUA, 1879 – 1955, Hartford/Connecticut/EUA

O Homem da Neve 

É preciso uma mente de inverno
 Para olhar a geada e os ramos
 Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
 Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
 Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
 Em qualquer miséria no som do vento,
 No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
 Cheia do mesmo vento
 Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
 E, ausente, observa
 Nada que não está lá e o nada que é.
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Haicai de
IRENE M. FUKE
São Paulo/SP

Mãos arroxeadas
Se aquecem ao sol de inverno.
Mendigo na praça.
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Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1958, Rio de Janeiro/RJ

A velha mangueira

No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.

Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa…
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa…

Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.

E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
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Trova de
OLÍVIA ALVAREZ M. BARROSO
Parede/Portugal

A vida, com temperança,
vinda desde pequenino,
é rumo de confiança,
ensinamento divino.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE
Feito um filme de cinema,
ao beijar a tua face,
te dediquei um poema
do amor... que agora renasce!
JOSÉ FELDMAN 
(Floresta/PR)

GLOSA
Feito um filme de cinema,
daqueles, do tempo antigo,
onde a atriz era de extrema
beleza, sonhei contigo!

Na penumbra do cinema,
ao beijar a tua face
veio-me, logo, o dilema:
qual será o desenlace?

Hoje, lembrando da cena
passada na mocidade,
te dediquei um poema
para matar a saudade.

Desperto da sonolência
veio-me, como num passe
de mágica, a efervescência
do amor... que agora renasce!
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Aldravia de
MARÍLIA SIQUEIRA LACERDA
Ipatinga/MG

a
vida
corre
depressa
qual
aldravias
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Soneto de
ERNÂNI ROSAS
(Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida)
Florianópolis/SC, 1886 – 1955, Rio de Janeiro/RJ

Convalescente

Convalesço dos males da Quimera
partindo sempre de um desejo rude,
a malograda sorte da galera
que aportar com delírio nunca pude…

Do amor, nada pretendo com veemência
pela vida misérrima que arrasto!
Eu sinto o frágil coração tão gasto
às futuras e rudes penitências…

Desconheço o rigor dessa ironia
Quando o sol tomba na água e eril centelha
sem n´a apagar em fulva alegoria…

Amo a noite, amo o espelho do Universo
nunca a chaga de um Deus que se avermelha
no sangue que palpita no meu verso!…
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Trova de
ALMIR PINTO DE AZEVEDO 
Cambuci/RJ

Trovadores versejando
com dom divino e fecundo,
com suas mãos derramando
beleza e paz pelo mundo...
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Poema de
AIRES ALMEIDA SANTOS
Chinguar/Angola, 1922 - 1991, Benguela/Angola

Poema para minha filha

Para ti, querida
Rosas e mel
E estrelas rutilantes,
Risos gritantes,
Muita ternura e carinho

E o Sol
Brilhando muito
Em frente ao teu caminho.

Deixa comigo o fel, 
A dor, o desespero 
Deixa que eu fira a pele 
Nos ásperos abrolhos 
Da vida.

Deixa chorar meus olhos
 Deixa comigo
 O peso do sonho tão antigo.

Para ti, querida 
Paz, amor, ternura 
Estrelas rutilantes, 
Rosas e Mel…
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Haicai de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Cansaço

Dormir sem sonhar
com os fatos de uma vida
pra não mais chorar.
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Setilha de
DELCY CANALLES
Porto Alegre/RS

O bálsamo da esperança
nos vem com a Primavera,
que chega alegre em setembro,
depois de uma fria espera,
pois ela é a estação das flores,
dos perfumes, dos amores,
dos sonhos e da quimera!
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

O mar, a jangada, o vento;
a bordo, ao luar, nós dois.
Construa no pensamento
a cena que vem depois...
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Hino de 
UBERABA/ MG

Da jornada de fé, corajosa
De bandeiras por todo o Brasil,
Tu surgiste, Uberaba formosa,
Na campina, sob um céu de anil.

És Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão
Valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central
Do Brasil

Não transiges com teu inimigo,
Mas acolhes, gentil, em teu colo,
Os que vêm ao trabalho, contigo,
Procurando elevar o teu solo.

És Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central
Do Brasil 

Tuas matas, teus campos, teu montes,
De riquezas sem par, peregrinas,
Construíram, entre teus horizontes,
A mais bela das joias mais finas!

És, Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central do Brasil.
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O Louvor à Terra do Zebu
O Hino de Uberaba, como muitos hinos municipais, é uma composição que exalta as qualidades e a história da cidade, localizada no estado de Minas Gerais, Brasil. A letra do hino destaca a bravura e a fé dos fundadores da cidade, que é descrita como tendo surgido corajosamente durante a expansão territorial do país, marcada pelas bandeiras, expedições que adentravam o interior do Brasil em busca de riquezas e terras para colonizar.

A canção prossegue enaltecendo Uberaba como um 'florão', uma joia preciosa e rica do sertão brasileiro, destacando sua beleza e valor. A menção ao 'Planalto Central' situa geograficamente a cidade, que embora não esteja no Planalto Central do Brasil, está em uma região elevada do território mineiro. A letra também faz referência à hospitalidade do povo uberabense, que acolhe a todos que chegam para trabalhar e contribuir com o desenvolvimento local.

Por fim, o hino celebra as riquezas naturais de Uberaba, como suas matas, campos e montes, que são comparados a 'riquezas sem par'. A cidade é conhecida por sua importância na agropecuária, especialmente na criação de gado zebu, e o hino faz jus a essa característica ao construir uma imagem de Uberaba como uma 'joia mais fina' entre as cidades brasileiras, ressaltando seu valor único e sua contribuição para a riqueza nacional.
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Poetrix de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

doa-se

coração adestrado
com pedigree, vacinado,
só não obedece ao dono
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Soneto de
ELISA BARRETO
Santos/SP

Velhas fotografias

Velhas fotografias, amarelas,
lembram vidas da vida que passou.
São guardiãs fiéis, são sentinelas,
que a arte no papel eternizou.

Guardam características singelas
de épocas que a evolução tragou.
Na estrutura da vida são janelas
que o palácio do tempo conservou.

Olham-me da parede, penduradas,
como a indagar-me, muito admiradas,
por que eu as fito tão frequentemente . . .

È que as fotografias tomam vida
e a alma de alguém, quando nos foi querida,
nelas palpita misteriosamente.
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Nas areias calcinadas
desse deserto sem fim...
A vida deixou pegadas
perdidas dentro de mim!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O doido que vende siso

Um doido, pelas ruas, pelas praças,
Dizia, em seu pregão: «Quem compra siso?»
E os sempre crentes homens acudiam
À compra diligentes.
Primeiro, de barato, dava o doido
Muita careta, muita monaria;
Mas, logo que ensacava na algibeira
Dinheiro dalgum zote,
Com um bofetão, que vinha rebolindo,
Lhe dava duas braças de barbante
Aos tais fregueses, em lugar de siso.
Uns se agastavam; mas que vale irar-se?
Ser, por iras, de todos mais zombado?
Rir como os outros fora mais acerto;
Ou safar-se, sem chus, nem bus, levando
O bofetão, e o fio.
Quer bem levar de todo a surriada
Quem esquadrinha sentido figurado
No proceder dum louco.
Que razão há que dar de doidarias?
Quanto chocalha em testos desvairados
A mão do Acaso o volve.
Mas fio e bofetão davam tortura
A certas cachimônias.
Um dos logrados vai-se ter com um sábio,
Que logo lhe emborcou, sem muito empacho,
O oráculo seguinte:
«Hieroglíficos meros vende o doido.
Deve o prudente duas braças pôr-se
Longe, de quem tem eiva no miolo,
Se afagos tais não quer recolher dele.
Bom siso vos vendeu. Não sois logrado.»
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