O banco de ferro fundido e ripas de madeira envelhecida era o mesmo, mas o solo sob os pés de quem ali sentava parecia pertencer a planetas diferentes.
De um lado, o Sr. Fidelsino, cujas mãos pareciam um mapa de estradas de terra, de tantas rugas e vincos. Ele não olhava para o relógio; olhava para o movimento das folhas de um carvalho. Para ele, o tempo não era uma seta disparada, mas um ciclo que insistia em se repetir. Do outro lado, separado por apenas alguns palmos de madeira descascada, estava o jovem Luigi, de dezoito anos, com os olhos fixos em uma tela de vidro que brilhava mais que o sol daquela tarde.
Fidelsino observava o real: o gari que varria a calçada com uma rítmica preguiçosa, a pomba que disputava uma migalha com um pardal, o modo como a luz do fim da tarde dourava o topo dos prédios. Ele via o espaço.
Luigi, por sua vez, habitava o fluxo. Seus dedos dançavam freneticamente sobre o vidro, saltando de uma rede social para outra, de um meme em Tóquio para uma notícia em Londres. Ele estava ali fisicamente, mas sua mente habitava um "não-lugar", uma dimensão onde a geografia não importava e o silêncio era um erro de conexão.
— Você reparou que a luz está mudando? — perguntou Fidelsino, sem tirar os olhos do horizonte.
Luigi sobressaltou-se. Levou um segundo para desconectar o cabo invisível que o ligava à nuvem.
— A luz? Ah, sim... vai escurecer, né? — respondeu, já sentindo a vibração de uma nova notificação no bolso.
— Não é só que vai escurecer, meu jovem. É que a cor das coisas morre um pouco antes de renascer amanhã. É o momento em que o mundo descansa o olhar.
Luigi sorriu, um sorriso educado, mas tingido de uma certa impaciência moderna.
— Eu vejo o pôr do sol todo dia no meu feed. Fotos incríveis, em alta resolução, de lugares que o senhor nem imagina.
Fidelsino assentiu devagar.
— A foto guarda a imagem, mas não guarda o vento. Ela congela o tempo, mas não te deixa sentir o tempo passar. Você vê o mundo inteiro por esse aparelho, mas será que sente o cheiro da chuva que está vindo ali daquela nuvem escura?
Luigi olhou para cima. Realmente, o céu pesava. Ele não tinha percebido. Estava tão ocupado acompanhando a vida de mil "amigos" distantes que não notou a natureza se manifestando a dois metros do seu nariz.
Ali, naquele banco, chocavam-se duas filosofias de existência. Fidelsino era a contemplação: o valor do que é lento, único e perecível. Luigi era a acumulação: o valor do que é instantâneo, múltiplo e arquivável. Um via o mundo como um jardim a ser cultivado com a paciência do olhar; o outro via o mundo como um cardápio de estímulos a serem consumidos com a voracidade do clique.
O velho via a beleza na cicatriz do tronco da árvore; o jovem buscava o filtro que escondesse as cicatrizes da realidade.
Quando os primeiros pingos grossos de chuva começaram a bater na madeira do banco, Luigi levantou-se num salto, preocupado em proteger o celular. Fidelsino levantou-se devagar, fechando o casaco, sentindo a água fresca no rosto com uma gratidão quase religiosa.
— O mundo é muito grande para caber no seu bolso, rapaz — disse o velho, antes de caminhar sob o temporal.
Moral:
A tecnologia nos deu janelas para o mundo inteiro, mas corremos o risco de esquecer como abrir a porta e sair para a rua. Quem só enxerga através de telas acaba conhecendo a imagem de tudo, mas a essência de nada. A vida não acontece no registro, mas no momento em que os olhos encontram a realidade sem filtros.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.
Fonte:
FELDMAN, José. A Alquimia da Vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
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