domingo, 28 de junho de 2026

Ivan Lessa (Arroba pontinho com)


Neste domingo, como era primavera em Londres, choveu, ventou e fez frio. Por isso, fiquei em casa.

Vendo jogo de futebol na televisão, vendo documentário sobre arte na televisão, vendo Arquivos Secretos na televisão.

Como puderam notar, eu tenho televisão em casa.

Televisão a cabo, vídeo, controle remoto, tudo que a tecnologia pertinente me dá direito.

Não tenho — sou obrigado a confessá-lo, com uma certa vergonha —, não tenho computador em casa. Ou micro. Ou PC.

Nem sei direito como chamá-lo, tão distante estou da tecnologia que, para mim, não pode ser mais de ponta.

Mas tenho a intenção de me informatizar agora mesmo, em maio, e leio tudo que posso sobre o assunto.

Na BBC, sei — mal e porcamente, feito se dizia — dar uma chegada aos jornais brasileiros, entrar na parte do correio eletrônico, bater um papo com os amigos distantes, todos eles muito, mas muito mais por dentro do que eu.

Na verdade, quem não tem arroba no título vai de pontinho com.

Nessa história de cibermilionários, conheço pelo menos duas pessoas que estão — mais uma vez usarei gíria antiga — estão “numa boa”.

Os dois vão montar, se é esse o verbo, um website.

Os dois já me convidaram a participar com minha modesta colaboração.

O dinheiro? Também não pode ser mais modesto. É a título especulativo.

Deve dar um dinheirão, dizem — mas primeiro a gente tem que investir e encontrar patrocinador. Conheço esse problema.

Desde meus tempos de publicitário e jornalista, o problema era esse: o homem do dinheiro, o anunciante, o patrocinador.

Agora, em Seattle, estão decidindo algo importantíssimo, garantem-me.

Algo a ver com monopólio, Bill Gates, Microsoft.

Até sexta-feira, deverá sair uma decisão.

Ficarei sabendo pela Net, numa de minhas internatações.

Ou não deverei ficar sabendo.

Pelo seguinte: um desses meus dois amigos, futuro milionário, precisava falar comigo semana passada. Recebi, aqui, em local de trabalho, um bilhete eletrônico pedindo para eu responder nele mesmo dando o endereço de minha residência em Londres.

É que, na revista em que ele trabalha e dirige, os computadores pifaram e, em sua casa, em seu bairro, não havia luz, não havia energia.

Ele queria falar comigo urgente sobre minha colaboração eletrônica.

Não é que eu seja pessimista, mas, cá entre nós, dá para se desconfiar?
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IVAN PINHEIRO THEMUDO LESSA foi um dos jornalistas, cronistas e intelectuais mais brilhantes, irreverentes e ácidos do Brasil. Ele marcou a história cultural do país pelo seu estilo sarcástico e erudito, além de ter sido uma das vozes mais contundentes de oposição à ditadura militar. Nasceu em 1935, em São Paulo (SP). Ele era filho de pais escritores e jornalistas célebres: Orígenes Lessa e Elsie Lessa. Faleceu em 2012, em Londres (Inglaterra), aos 77 anos, em decorrência de um enfisema pulmonar. Apesar de ter nascido na capital paulista, mudou-se muito cedo e foi criado no Rio de Janeiro, vivenciando a efervescência cultural carioca da Zona Sul nas décadas de 1940 e 1950. Em janeiro de 1978, partiu para um autoexílio definitivo em Londres, onde residiu até o fim da vida. Foi um dos fundadores e principais pilares do lendário semanário satírico O Pasquim (criado em 1969), que usava o deboche e a inteligência para desafiar a censura da ditadura militar. Junto com o cartunista Jaguar, Ivan criou o ratinho Sig (inspirado em Sigmund Freud), que se transformou no símbolo oficial do Pasquim. Colaborou com veículos de imenso prestígio nacional, incluindo a revista Senhor, Veja, Playboy, e os jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Durante suas décadas morando na Inglaterra, trabalhou extensivamente para o serviço brasileiro da BBC, onde produzia crônicas radiofônicas e digitais frequentes.
Ivan era considerado o "mestre do escracho e da ironia ferina", misturando referências da literatura clássica com o humor norte-americano e o linguajar urbano brasileiro. Ele usava heterônimos, como Edélsio Tavares, para dialogar consigo mesmo em seus textos. Não pertenceu a nenhuma academia de letras. Ele rejeitava solenemente o formalismo institucional e as convenções da literatura tradicional. Não buscou ou acumulou prêmios literários convencionais, preferindo manter o status de um "saltimbanco do texto". Seu maior reconhecimento sempre veio da aclamação de seus pares intelectuais e de leitores fiéis. Embora sua produção em jornais tenha sido monumental, Lessa foi econômico ao lançar livros, tendo três obras principais: Garotos da Fuzarca (1986) – Seu aclamado livro de contos ficcionais; Ivan vê o mundo: Crônicas de Londres (1999) – Compilado de seus textos escritos para a BBC entre 1987 e 1999; O Luar e a Rainha (2005) – Coletânea que reúne o melhor de seus textos satíricos da fase digital.
Ivan Lessa revolucionou a crônica ao reinventar o humor literário no Brasil. Ele foi responsável por moldar o pensamento crítico de gerações ao cunhar expressões emblemáticas que entraram para a história do país, como o apelido "Bananão" para se referir ao Brasil de forma tragicômica. Ele também imortalizou o aforismo satírico "Brasil: ame-o ou deixe-o — o último a sair apaga a luz do aeroporto", subvertendo o slogan oficial da ditadura militar. Sua prosa única provou que o jornalismo diário e o humor satírico podem alcançar o patamar da mais alta literatura e sofisticação intelectual.

Fontes:
Ivan Lessa. O luar e a rainha. Publicado originalmente em 31 de março de 2000 na BBC Brasil.
Biografia – Cronica Brasileira, O Globo, Wikipedia, Gazeta do Povo, Revista Exame, Amazon, etc.