Eram sete e meia da manhã, o horário em que a cidade ainda boceja fumaça de óleo diesel e o sol tenta, sem muito entusiasmo, atravessar a névoa de poluição. Lupércio, um homem que mantinha o hábito arcaico de carregar o otimismo como quem carrega um guarda-chuva num dia de nublado, saiu de seu prédio.
Ao cruzar com o porteiro, soltou um "bom dia" cheio de dentes e intenção. O porteiro, absorto em um celular que filtrava o mundo, nem sequer levantou os olhos. O cumprimento ricocheteou no balcão de mármore e caiu no chão, ignorado.
Filosoficamente, o "bom dia" não é um boletim meteorológico. Ninguém está realmente perguntando se o dia será bom; o que se está fazendo é um reconhecimento de existência. Quando Lupércio diz "bom dia", ele está dizendo: "Eu te vejo, você está aqui, somos dois seres humanos ocupando o mesmo fragmento de tempo e espaço". Quando o outro silencia, a resposta implícita é devastadora: "Para mim, você é paisagem. Você é um fantasma de carne que não merece o gasto do meu fôlego".
Lupércio seguiu caminho, mas sentiu um peso sutil nos ombros. Aquele vácuo de resposta gerou um pequeno curto-circuito em sua disposição.
Minutos depois, ao entrar na padaria, o seu segundo "bom dia", direcionado ao atendente, foi recebido com um resmungo ininteligível. A cortesia, que deveria ser a ponte entre dois estranhos, acabara de ser implodida.
A falta de cortesia funciona como uma poluição invisível. Não arde nos olhos, mas oxida a alma da cidade. Um "bom dia" ignorado na calçada se transforma em uma fechada brusca no trânsito dez minutos depois. O silêncio hostil do elevador transmuta-se em uma resposta ríspida em um e-mail de trabalho. A descortesia é contagiosa, ela cria uma cadeia de pequenos ressentimentos que, somados, formam o humor cinzento de uma metrópole.
A cidade, afinal, é um amontoado de solitários tentando não se esbarrar. Quando paramos de nos saudar, as ruas deixam de ser lugares de convivência e passam a ser pistas de obstáculos.
Lupércio, ao chegar ao escritório, já não sorria. Quando a estagiária passou por ele e, com timidez, desejou-lhe uma boa manhã, ele apenas acenou com a cabeça, seco. O vírus da indiferença fizera mais uma vítima. Ele, que fora ferido pelo silêncio, agora usava o silêncio para ferir.
O "bom dia" não respondido é o sintoma de uma sociedade que confunde pressa com importância e anonimato com proteção. Acreditamos que, ao não interagir, poupamos energia. Ledo engano. Gastamos muito mais energia nos defendendo da hostilidade urbana do que gastaríamos lubrificando as relações com um simples reconhecimento verbal. Uma cidade sem cumprimentos é uma floresta de concreto onde todos são presas e ninguém é companheiro.
No final da tarde, ao voltar para casa, Lupércio viu um garotinho na calçada apontando para um cachorro vira-lata.
O menino olhou para Lupércio e disse, com a pureza de quem ainda não aprendeu a ser invisível: "Olha, moço, o cachorro tem uma mancha de coração!".
Lupércio parou. Aquela pequena intervenção humana quebrou a crosta de gelo que o dia havia formado. Ele sorriu. "É verdade, garoto. Tenha um bom final de dia".
O menino sorriu de volta. A ponte estava reconstruída.
Moral:
A cortesia é o lubrificante que impede que as engrenagens da sociedade entrem em combustão. Um "bom dia" não respondido pode parecer uma insignificância, mas é o primeiro tijolo na construção de um muro de indiferença que nos isola. Não cumprimentamos o outro para sermos educados; cumprimentamos para reafirmar que, em meio ao caos de cimento, ainda existem humanos. Se o mundo lhe negar a resposta, continue saudando, pois o pior não é o silêncio que você recebe, mas o silêncio que você deixa crescer dentro de si mesmo.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de FLORESTA, no interior do estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.
Fonte:
FELDMAN, José. Alquimia do tempo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
