Aberta a porta, Joaquim passeou a vista pela sala e pôs-se a abrir as janelas de vidro. Tudo em perfeita ordem, como haviam deixado no dia anterior. Mesas, cadeiras, armários, carimbos, cinzeiros, tudo em seus devidos lugares. Com pouco, chegariam os outros. E mais um dia igual ao passado. O mesmo toque-toque das máquinas, as mesmas perguntas, as mesmas tarefas, as mesmas horas lentas.
Seguiu em frente e chegou ao banheiro. Nada escapava ao seu olhar vigilante. Precisava ver se também lá havia ordem e respeito. Um dia pegaram um rapaz e uma moça agarrados no banheiro destinado ao público, ao fundo do corredor.
Empurrou a porta, como se tivesse medo de encontrar fantasmas, e virou pedra. Que horror! Deus, que horror! Meu Deus!!! Um corpo pendurado, horrível, rijo, apavorante. Ou não era verdade, sonhava, delirava? Abriu, arregalou os olhos. Talvez fosse pura impressão, um pensamento de medo, desses de todo dia. Olhou para o vaso, a pia, o espelho. Sim, havia um corpo pendurado, os pés enormes entre o chão e a vida. E se estivesse vivo, se ainda não tivesse morrido?
Desesperado, Joaquim tocou o corpo, exatamente a perna do enforcado, e, a esperança num olho, a piedade noutro, olhou o rosto desfigurado do morto. E deu um pavoroso grito. Aquele corpo era o seu. Sim, tudo no outro assemelhava a ele.
Preocupado, deu dois passos para trás e se viu no espelho, triste e pesaroso. Ora, aquilo devia ser um boneco. Brincadeira dos colegas. Sim, só podia ser um boneco. Horrível boneco morto.
Olhou mais uma vez para a língua estirada do outro. Aquele rosto, na verdade, parecia o seu. As mesmas feições, os mesmos braços cabeludos, sua roupa preferida, aqueles sapatos rotos e sujos, tão idênticos aos que usava todo dia. Pura coincidência, mero acaso, como diziam. E, decidido, puxou a porta do banheiro. Precisava avisar a polícia. Antes da chegada dos colegas. Com urgência. Um crime bárbaro na repartição, uma desgraça, um suicídio talvez. E pôs-se a discar números e mais números. Que não davam em nada. Discava, discava, e nada. Melhor mesmo ir à polícia. Pegava um táxi, contava tudo ao motorista e, em poucos minutos, se livrava daquilo. Deixava janelas e portas abertas. Os colegas chegariam logo. Não podia esperar.
— Quem é o morto, Seu Joaquim? — irritou-se o policial de plantão.
Não sabia, talvez o conhecesse, porém não lhe sabia o nome. Além do mais, podia ser um simples boneco. Trabalho perfeito, obra de artista. O policial trancou a cara mais ainda, deu um murro na mesa e urrou. Não admitia gracinhas. Ou Joaquim não desconfiava das boas surpresas reservadas a quem brincava com a polícia? E acendeu um cigarro nauseabundo, soprou a fumaça na direção do interrogado, gargalhou.
— Confesse logo, seu engraçadinho.
Joaquim diminuiu de tamanho, encolheu-se todo e pôs-se a balbuciar inúteis defesas. Sim, tudo não passava de sonho. Ninguém se matara, ninguém se enforcara. Não havia corpo nenhum pendurado no banheiro da repartição. Que tolice procurar a polícia para contar sonhos!
— Confesse, Seu Joaquim — gritou de novo o policial, arma apontada para a cabeça do pequenino informante, que diminuiu ainda mais de tamanho.
E os colegas? Já teriam visto o cadáver? Certamente lamentavam seu derradeiro ato. Tão trabalhador, tão honesto, tão cumpridor dos deveres! Por que se matara? Dívidas? Amor? Dúvidas? Tumor? Precisava voltar logo, tudo não passara de sonho, alucinação, pensamento ruim. Continuaria abrindo a porta e as janelas da repartição, averiguando palmo a palmo as salas, como sempre fizera.
— Confessa ou não confessa? — berrou mais alto o policial.
Assustado, Joaquim Xavier fechou a porta do banheiro. Os colegas chegavam, em grupo, na alegria de um novo dia.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999).
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)
Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
