sábado, 20 de junho de 2026

José Feldman (O Grande Teatro do Ônibus Lotado)


Há dias em que eu acho que o ônibus não é um meio de transporte. É uma nave espacial. Um laboratório ambulante. Um aquário onde a humanidade vai nadando em círculos, sendo exposta ao mesmo fenômeno: calor, suor, paciência acabando e a inevitável certeza de que alguém vai fazer alguma coisa totalmente desnecessária — e, por algum motivo, sempre às segundas-feiras.

Eu entro no ônibus achando que “hoje eu vou de boa”. Mentira. Ninguém vai “de boa” num ônibus lotado. No máximo, você vai *sobrevivendo*.

Logo na porta, começa a primeira cena: o ritual do “com licença”. A pessoa fala “com licença” como se estivesse pedindo permissão para existir. Ela mal entra e já está ocupando seu espaço como se fosse dono do assento — e com uma felicidade incrível por estar atrasada. Você responde com um sorriso nervoso (aquele sorriso de quem já desistiu de qualquer esperança) e segue.

Acontece então a segunda cena, que é sempre parecida: alguém decide que sabe como funcionam as regras da gravidade.

Você está lá, equilibrado como um pato num passeio de ioga, quando o ônibus dá aquela arrancada brusca. Não é “um leve solavanco”. É uma largada de Fórmula 1. Aí você vê o senhor — ou a senhora, porque neste teatro não existe diferença — que tenta segurar na barra com a dignidade de um atleta olímpico… e falha com convicção. A mão escapa, o corpo acompanha e, por meio segundo, você acha que vai presenciar um pouso forçado.

Mas não. A pessoa se recupera milagrosamente… do jeito mais ridículo possível: ela não cai, mas abraça o ar. É como se tivesse acabado de anunciar: “Eu não caio. Eu flutuo.” Só que flutua dois centímetros e volta.

Eu, que sou uma criatura civilizada, tento ajudar.

“Tá tudo bem?”

Tá, claro. Tudo bem até você perceber que quem deveria estar segurando é a pessoa segurando você pelo casaco com a força de um polvo apaixonado. Aí você percebe que “ajudar” é uma palavra muito otimista pro contexto.

E não demora para surgir o personagem número três: o gênio do corredor.

Você sabe quem é. Sempre tem alguém que acha que o ônibus lotado é uma academia: ele faz malabarismo com carrinho de compras, mochila nas costas e uma sacola tão grande que deve ter sido proibida em convenções internacionais. Ele passa pelo corredor como quem está atravessando o deserto com coragem. Só que, no ônibus, o deserto é seu joelho e o vento é o cheiro do fundo do saco.

Aí ele para.

Justamente quando o ônibus está no apogeu do trânsito e todo mundo está prestes a aceitar a morte.

Ele para para procurar o bilhete, o cartão, a carteira, o documento, a alma, o universo e possivelmente a certidão de nascimento. Ele abre a bolsa com calma cirúrgica, como se o mundo fosse esperar. O ônibus inteiro vira um coro de respiração contida.

E é aí que acontece a tragédia burocrática: o cartão não funciona.

“Ô… funcionou não.”

Diz isso como se fosse uma notícia do tempo. Como se o ônibus não pudesse simplesmente continuar e ele pudesse reclamar do cartão com o motorista por causa da rota do destino. Aí todo mundo olha com cara de “meu amigo, a gente tá sendo esmagado por uma agenda de problemas”.

O motorista, claro, segue como se estivesse encenando uma peça chamada *Coragem e Impaciência*. Ele não tem culpa, mas carrega a culpa, porque é ele que vai ouvir.

E alguém sempre pergunta coisas inúteis, com uma autoridade que não combina com o fato de estar amassado numa pilha humana. Por exemplo:

“Dá pra voltar ali pra eu descer?”

Num ônibus em movimento. Num ônibus lotado. Numa situação em que o corpo de todo mundo já virou um único ser, uma massa ambulante com vontade própria.

E, claro, o pedido vem com um “calma aí” dito ao universo inteiro.

Enquanto isso, o ambiente vai piorando. Porque ônibus lotado não é só espaço. É também clima emocional e acústica. Tem sempre um celular tocando alto o suficiente para você descobrir que a pessoa tem um gosto musical que ninguém pediu e que agora virou patrimônio público.

Você ouve:
- “A ligação gratuita é até tal horário”
- a música que parece gritar “estou numa propaganda”
- e a voz do outro lado falando como se o ônibus fosse um confessionário.

Aí entra o momento mais clássico: o alarme do “membro fantasma”.

A pessoa segura na barra e, quando o ônibus dá uma freada, ela faz aquele movimento automático de levantar a mão para segurar de novo… só que não pega em nada.

Você vê claramente nos olhos: “eu estava segurando… acho que…”

E o ônibus, como um vilão cinematográfico, decide exatamente neste instante que a próxima parada é em 3 segundos. A freada vem. A mão vai ao ar. O corpo tenta resistir. E a pessoa — num gesto que mistura pânico e orgulho — se recupera como se tivesse feito aquilo de propósito para dar um show.

Enquanto isso, tem outro tipo de pessoa que é o *professor de comportamento*.

É aquela que sempre acha um jeito de mandar aviso para o ônibus inteiro, como se fosse o mestre de cerimônias:

“Pessoal, calma… segurem aqui.”

Segura aqui. Segurem aqui. Segurem aqui.

Você não sabe se a pessoa está avisando ou comandando. Porque o que ela fala não parece pedido. Parece ordem de operação. Ela diz isso com a autoridade de quem já nasceu com apito no pescoço.

E o pior: todo mundo até presta atenção por 2 segundos. Só por 2 segundos.

Porque aí o ônibus faz uma curva — uma daquelas curvas que deveriam ser feitas somente por atletas — e todo mundo volta ao estado inicial: ser humano amassado e resignado.

Chega então o momento “altamente improvável”.

Uma criança começa a chorar.

Não é um choro pequeno. É um choro de ópera. É um choro que ecoa no teto do ônibus como se fosse som de igreja. E os adultos fazem aquela coisa maravilhosa de *competência improvisada*: cada um tenta resolver o problema do universo com o que tem à mão.

“Tá doendo? Deixa eu ver.”

“Ele tá com fome.”

“Não… ele tá entediado.”

“Olha, dá um doce.”

Mas aí você descobre que não tem doce. Nunca tem doce. E mesmo que tivesse, quem trouxe? Ninguém trouxe doce. A criança chora como se tivesse treinado para isso, como se tivesse ensaiado na semana toda.

E, de repente, surge o milagre: o choro para.

Como? Ninguém sabe. A criança viu algo. Ou lembrou de alguma coisa. Ou entrou num modo dramático e decidiu encerrar.

Aí todo mundo suspira aliviado.

E é exatamente nesse instante que acontece a última situação ridícula do ônibus: o microevento do “desculpa”.

A pessoa vai levantar para descer e encosta em você com o calcanhar, o cotovelo, a sacola, a intenção. Ela vira para pedir desculpas com uma voz mansa:

“Foi mal, viu.”

Mas a face diz claramente:
“Foi culpa do universo, mas eu aceito que a culpa pode cair em mim também.”

E você responde com educação. Sempre com educação. Porque ônibus lotado ensina uma coisa: a civilização é frágil, mas você tenta segurar.

Quando eu finalmente chego ao meu ponto e desço, eu penso:

“Graças a Deus terminou.”

Mas aí eu olho para o ônibus e tenho a certeza absoluta: ele só começou.

Porque lá dentro sempre existe um próximo capítulo. Um próximo “com licença” sincero, um próximo cartão que não funciona, uma próxima mão que não acha a barra, uma próxima criança que vai cantar o hino do desespero…

E eu, mesmo depois de descer, ainda sinto o balanço, como se o ônibus tivesse me adotado pelo resto do dia.

No fim, eu acho que ônibus lotado é isso: não é transporte. É comédia. É tragédia em capítulos curtos. É um circo sem palhaço, onde o palhaço é a vida — e o picadeiro é o corredor apertado.

E, sinceramente? Eu sempre volto. Porque ninguém aguenta a rotina sem pelo menos uma dose de ridículo embalado em lotação.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.