quinta-feira, 18 de junho de 2026

Arthur Thomaz (Um dia na vida de Romildo, o Desastrildo)


Romildo, cujo apelido entre os amigos e familiares era Desastrildo, trabalhava como marceneiro em uma pequena construtora. 

Ao toque do despertador, não conteve o ímpeto de quebrar o aparelho, xingando a segunda-feira. Um dos pedaços do despertador atingiu a testa da esposa.

Ouviu a lamúria dela.

– Romildo, você continua o mesmo trapalhão.

Apressado, queimou a boca com o café quente demais. Muita demora no ponto de ônibus, e teve que embarcar em um coletivo lotado. Ficou colado a uma moça, que parecia ter tomado um banho com um perfume de discutível qualidade, e que o deixou impregnado com aquele cheiro nauseabundo o dia inteiro.

Nisso, a ponta da sombrinha de uma velhinha que estava atrás dele cutucou suas costas. Irritado, deu um safanão sem olhar, quase derrubando a senhora, que teve de ser amparada pelos outros passageiros.

A idosa xingou-o com todos os palavrões que conhecia, desferindo-lhe golpes com a sombrinha, o que o obrigou a descer em um ponto anterior ao seu destino. Chegou atrasado ao serviço, ouvindo um palavrão do patrão.

Devolveu o palavrão, mas só mentalmente. Na hora do almoço, ao abrir a marmita, ela escorregou das mãos, derrubando toda a comida no chão. À tarde, chateado e com fome, distraiu-se e deu uma martelada no próprio dedo. Teve que continuar trabalhando assim até o fim do expediente.

Para relaxar dos problemas do dia, Romildo foi até o “buteco” tomar algumas bebidas e conversar com os amigos habituais. Um deles disse:

– Romildo Desastrildo, seja bem-vindo, mas tome cuidado com as suas trapalhadas.

Todos riram, inclusive Romildo, que, cansado, sentou-se à mesa dos amigos e pediu uma dose de cachaça para brindar com eles. Ao primeiro gole, engasgou e foi ajudado pelos companheiros, recuperando-se. Com voz rouca, disse:

– É melhor eu ir para casa, chega de confusão por hoje.

Todos ao redor riram e concordaram. Chegando em casa, ao fechar o portão, prendeu, sem querer, o rabo do cachorrinho que veio contente recebê-lo. Ouviu lá de dentro o palavrão com que a esposa o brindou.

Ressabiado, entrou em casa, já sabendo que as reprimendas da mulher continuariam por muito tempo, e que a comida do jantar não seria esquentada por ela. Muito cansado, foi para a cama e, na hora em que estava quase adormecendo, os pés frios da esposa encostaram nele.

Pensou:

– Será que nem aqui eu terei paz?

A resposta veio logo a seguir. Para culminar, a esposa insinuou-se desejando um ato de amor. Esgotado, ele fingiu estar dormindo profundamente, mas ela insistiu até conseguir seu intento.

No dia seguinte, Romildo Desastrildo acordou extremamente cansado, antevendo mais um dia repleto de catástrofes. Levantou-se, pisou no cachorro que dormia ao lado da cama e assim iniciou seu dia…
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.