Olho pela vidraça do meu quarto e vejo um mar de escuridão salpicado por pequenos quadrados de luz. A cidade, em sua grande maioria, já se recolheu sob o manto do silêncio e do esquecimento. As avenidas, antes barulhentas, agora repousam como rios de asfalto deserto. No entanto, na fachada do prédio da frente e nas silhuetas das casas distantes, algumas janelas permanecem acesas. São pequenos faróis amarelos e brancos rasgando a madrugada. Fico a pensar sobre quem são esses sentinelas da noite e qual mistério suspendeu o sono de cada um deles.
A madrugada possui uma densidade diferente do dia; ela dilata o tempo e despe as aparências. Cada janela acesa é o cenário de um drama humano invisível. Num segundo andar, a luz suave de um abajur pode iluminar o cansaço sagrado de uma mãe que nina o filho febril, medindo o tempo pelas batidas do próprio coração. Duas casas adiante, o brilho azulado de uma tela de computador denuncia o jovem universitário devorando apostilas sob o peso da cobrança, ou o trabalhador autônomo que estica as horas para garantir o pão que a luz do sol vai exigir. Há, nessas luzes, o suor da responsabilidade e o medo do amanhã.
Mas a insônia não se alimenta apenas de obrigações. Há janelas acesas pelo peso do peito. A madrugada é o tribunal do qual ninguém consegue fugir. É o momento em que os fantasmas dos erros passados, os lutos não chorados e as decisões adiadas ganham corpo e cobram audiência. Alguém, agora mesmo, caminha descalço pela cozinha, bebe um copo d'água e encara o vazio, prisioneiro de uma ansiedade que não cabe nos limites do travesseiro. A escuridão lá fora funciona como um espelho amplificador: sem o barulho do trânsito para distrair, a mente é forçada a escutar a própria voz.
Por outro lado, existem as luzes da faísca criativa e da paixão. A noite sempre foi a cúmplice dos artistas, dos poetas e dos inventores. Quando o mundo silencia, a censura da lógica diurna diminui, e as ideias fluem com a liberdade dos rios selvagens. Aquela lâmpada forte no último andar pode muito bem ser o refúgio de um escritor moldando personagens, ou de um músico ajustando os acordes de uma melodia que só faz sentido no silêncio. Há também os amantes que conversam baixinho para não acordar a casa, estendendo a despedida porque o presente é bom demais para ser interrompido pelo sono.
Assistir a essas janelas é compreender a profunda e paradoxal solidão humana. Estamos todos geometricamente próximos, separados por poucos metros de calçada ou por paredes finas de concreto, mas imensamente distantes em nossas vigílias particulares. Cada habitante da madrugada enfrenta o seu próprio deserto, seja ele feito de dor, de amor, de dever ou de genialidade. Quem está acordado às três da manhã compartilha uma irmandade secreta com todos os outros insones, mesmo sem jamais saber seus nomes.
Quando os primeiros raios de sol começarem a clarear o horizonte, essas janelas vão se apagar uma a uma. Os mistérios da noite serão engolidos pela rotina barulhenta do novo dia, e aquelas pessoas vão cruzar umas com as outras na padaria ou no ônibus, disfarçadas de normalidade. Mas, por algumas horas, sob o império da escuridão, elas foram os únicos pontos de consciência de uma cidade adormecida. Elas provaram que, enquanto o mundo repousa na segurança do inconsciente, o espírito humano continua acordado, queimando e buscando sentido.
Moral:
A luz que brilha na janela da madrugada revela que, mesmo na mais profunda escuridão, a mente humana nunca cessa de carregar as suas próprias dores, deveres e esperanças.
Fonte:
FELDMAN, José. A alquimia da vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.
