domingo, 21 de junho de 2026

Fernando Sabino (Empregadas )


DESAVENÇA

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:

– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.

Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:

– Então isso não pode causar um incêndio?

FALAR DIFÍCIL

A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.

Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:

– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!

Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:

– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

OS SIMPLES DE CORAÇÃO

Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:

– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?

A empregada veio anunciar o almoço:

– Gente, tá na hora de murçá.

– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.

E ela, imperturbável:

– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O TAL DA TELEVISÃO

Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:

– Telefonou um moço para o senhor.

– Deixou o nome?

– Disse que era o tal da televisão.

Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…

No dia seguinte, a mesma coisa:

– O tal da televisão tornou a telefonar.

– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.

Da terceira vez, perdi a paciência:

– Eu não disse que era para perguntar o nome?

– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.

Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.

Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:

– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.

Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

COME E DORME

E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:

– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.

Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?

Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

SÓ UMA VEZ

Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.

Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:

– O padeiro.

– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?

Ela ergueu os ombros, com um suspiro:

– Deus quis…
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FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. 
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.

Fontes:
Fernando Sabino. Livro Aberto. Publicado originalmente em 2001.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

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