Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:
– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.
Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:
– Então isso não pode causar um incêndio?
FALAR DIFÍCIL
A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.
Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:
– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!
Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:
– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.
OS SIMPLES DE CORAÇÃO
Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:
– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?
A empregada veio anunciar o almoço:
– Gente, tá na hora de murçá.
– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.
E ela, imperturbável:
– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.
O TAL DA TELEVISÃO
Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:
– Telefonou um moço para o senhor.
– Deixou o nome?
– Disse que era o tal da televisão.
Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…
No dia seguinte, a mesma coisa:
– O tal da televisão tornou a telefonar.
– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.
Da terceira vez, perdi a paciência:
– Eu não disse que era para perguntar o nome?
– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.
Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.
Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:
– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.
Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.
COME E DORME
E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:
– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.
Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?
Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.
SÓ UMA VEZ
Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.
Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:
– O padeiro.
– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?
Ela ergueu os ombros, com um suspiro:
– Deus quis…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
FERNANDO TAVARES SABINO é consagrado na literatura brasileira como um dos maiores mestres da crônica e da narrativa breve. Com um estilo leve, humorístico e profundamente irônico, o autor transformava os pequenos despropósitos do cotidiano urbano e da burocracia em retratos universais da alma humana. Nasceu em 1923, em Belo Horizonte/MG e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2004, na véspera de completar 81 anos. Sabino teve uma carreira multifacetada que uniu o direito, o jornalismo e o empreendedorismo cultural. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1946. Escreveu para jornais e revistas de grande circulação, como O Jornal, Diário Carioca e Manchete. Fundou em 1960, junto com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor. Anos mais tarde, em 1967, criou a icônica editora Sabiá, responsável por revelar e consolidar grandes nomes da literatura nacional. Exerceu o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres nos anos 1960.
O autor fez parte de uma geração de brilhantes intelectuais mineiros (ao lado de Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos) e transitou entre a crônica, o conto e o romance. Publicou seu primeiro livro de contos, Os grilos não cantam mais, em 1941, com apenas 18 anos. Em 1956, lançou o romance O Encontro Marcado. O livro se tornou um clássico instantâneo da literatura juvenil e existencialista brasileira, narrando os dilemas e angústias de uma geração de jovens intelectuais. Sua escrita é marcada pela simplicidade aparente, clareza verbal, diálogos rápidos e o uso do "humor de situação". Ele evitava rebuscamentos e focava no ridículo das convenções sociais. Ao contrário de autores de difícil digestão, Sabino obteve imenso sucesso comercial sem abrir mão do rigor técnico. Ele conseguiu aproximar o grande público da alta literatura. Recebeu importantes distinções, incluindo o Prêmio Jabuti (1980) pelo romance O Grande Mentecapto e o prestigiado Prêmio Machado de Assis (1999), concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra.
O mundo literário o posiciona, junto a Rubem Braga e Clarice Lispector, como um dos responsáveis por elevar a crônica jornalística ao status de alta literatura no Brasil. Seus escritos continuam populares em escolas e universidades. Sua famosa frase — "De tudo ficaram três coisas: a certeza de que estamos sempre começando, a certeza de que é preciso continuar e a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar" — sintetiza o espírito de sua vasta e acolhedora obra.
Fontes:
Fernando Sabino. Livro Aberto. Publicado originalmente em 2001.
Biografia = Revista Continente; O Estadão; Brasil Escola; Itaú Cultural; Letras da UFMG; Wikipedia; Educação UOL, etc.

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