A tarde estava ensolarada, mas o vento ainda trazia um resto de frio da noite anterior. Euzébio apareceu na porta de Brigite com um cachecol amarrado no pescoço e uma expressão de quem já estava cansado antes mesmo de sair.
— Vamos, depressa! Se chegarmos atrasados, perco o melhor lugar para gritar com o juiz — ele rosnou.
— Eu não queria nem vir, você que insistiu — ela resmungou, enfiando um chapéu enorme que cobria metade da cara. — E por que eu tenho que ir com você? Se brigarmos no caminho, ninguém me salva.
— Se não fosse eu, você passaria o dia todo olhando para o muro e reclamando que ele não anda! — ele retrucou, andando rápido. — E lembre-se: hoje é dia do time da cidade, o Clube Atlético de Paraíso. Qualquer um que não torça por eles é inimigo meu!
— Pois fique sabendo que eu vou torcer pelo outro, o Esporte Clube do Vale. — ela disse, de repente — A cor deles é azul, e azul é bonito. O seu é vermelho, parece sangue de porco!
— Vermelho é cor de vitória, sua desentendida! — Euzébio berrou, parando no meio da calçada. — Você não sabe nada, não é mesmo?
— Sei que gosto de azul, e isso basta! — ela rebateu, passando por cima dele. — Futebol é só gente correndo atrás de uma bola, não vejo graça nenhuma. Mas já que vim, vou escolher o lado que me agrada.
Chegaram ao estádio, barulhento e cheio. Sentaram lado a lado, mas com um espaço imaginário maior que o campo entre eles. O jogo começou, e logo a primeira bola subiu.
— Isso, chuta logo! — Euzébio gritou, batendo no banco. — Que perna mole, parece que ele tem medo da bola!
— Acho que ele devia correr mais devagar — Brigite opinou, com ar sério. — Senão cansa e não chega a lugar nenhum.
— Correr devagar? É futebol, não passeio de burro! — virou-se para ela, vermelho. — Você não entende nada!
— Entendo sim! — ela defendeu-se. — Se correm muito, a bola fica sozinha e se sente abandonada. Coitada.
O homem ao lado, torcedor do Paraíso, não aguentou:
— A senhora brinca, né? O negócio é velocidade!
Brigite virou-se para ele, indignada:
— E quem perguntou a você, moço? O senhor tem cara de quem também não sabe nada. Deve torcer por time pequeno!
— Pequeno nada! — gritou outro, do lado oposto. — O Paraíso é gigante!
— Gigante é o tamanho da ignorância daqui — ela devolveu, firme. — O Vale é mais elegante, só isso.
— Elegante é o cabelo do goleiro, que parece um ninho! — Euzébio meteu-se. — O seu time não tem força, só tem nome bonito!
— Nome bonito vale mais que força de boi — ela retrucou. — E aquele homem ali, do seu lado, ele está com a camisa suja. Que vergonha!
— A camisa é de batalha! — gritou o próprio dono da camisa. — Você devia era ficar em casa costurando meias!
— E você devia era tomar banho! — ela respondeu, tão alta que ouviu até a torcida do outro lado.
O jogo seguiu, mas ninguém mais olhava direito para a bola. A discussão alastrou-se: de um lado, quem apoiava Euzébio e dizia que futebol é raça; do outro, quem achava Brigite certa e falava que estilo é tudo.
— Ela tem razão! O juiz está cego, mas pelo menos a cor do Vale é mais limpa! — alguém berrou.
— Cego é quem concorda com ela! — interferiu outro. — Futebol não é moda!
— Euzébio, chama seus amigos, que eu já arrumei os meus! — Brigite avisou, cruzando os braços.
— Amigos meus não gostam de azul! Mas vou chamar mesmo para ver quem ganha! — ele respondeu, já levantando a voz.
Na marcação de escanteio, até os jogadores pararam. O capitão do Paraíso olhou para a arquibancada:
— O que está acontecendo aí? É jogo ou assembleia?
— É que a senhora diz que azul é melhor! — Euzébio gritou, apontando para ela.
— E ele diz que vermelho é cor de gente! — ela gritou de volta. — O senhor, que é jogador, decide: qual é a certa?
O capitão do Vale sorriu, brincalhão:
— Eu sou do Vale, então… azul é rei!
— Vê? Disse ele! — ela comemorou, como se tivesse ganhado a Copa.
O outro capitão bateu o pé:
— Você fala isso porque joga lá! Qualquer um sabe que vermelho pega fogo no adversário!
— Fogo é o que vai pegar na sua língua! — Brigite rebateu.
— Olha lá, eles estão se metendo também! — Euzébio notou, já animado com a confusão. — Acho que agora vai ter que jogar com a boca também!
— Melhor do que jogar com os pés que têm. — ela resmungou. — Nenhum sabe chutar direito.
O juiz apitou forte, mas ninguém ouviu. A conversa virou uma troca de comentários engraçados, mas cada vez mais calorosa:
— Se a senhora entende tanto, por que não entra no lugar do técnico? — desafiou um torcedor.
— Porque ele não deixa ninguém falar! — Brigite respondeu. — Igual a esse velho aqui, que acha que sabe tudo.
— E você acha que sabe o quê? Fala mais que rádio ligado! — Euzébio cortou.
— Pelo menos minha voz é mais afinada que o seu grito!
— Mais afinada que um galo rouco é fácil!
O jogo virou uma balbúrdia generalizada. Até os jogadores entraram na discussão, em vez de se posicionarem, começaram a dar palpites:
— Que a senhora acha de usarmos as chuteiras azuis?
— Nada disso! Se for vermelho, dá mais charme!
Até o goleiro do Paraíso gritou da área:
— Eu aceito qualquer cor, desde que não me peçam para explicar as regras! Eu também não entendo muito!
— Viu? Até ele concorda comigo! — Brigite disse, triunfante. — Futebol é só cor e barulho, o resto é invenção!
— É porque você não quis aprender! — Euzébio quase pulou o banco. — Regra é sagrada!
— Regra sagrada é a de não deixar o vento entrar na janela. — ela rebateu — Essa sim eu sei de cor.
O juiz, já sem paciência, apitou tão forte que doeu nos ouvidos:
— A partida está parada há dez minutos por causa de uma discussão de cores! Quem quiser falar de moda, vá para uma loja!
— É o que eu digo! — Brigite gritou. — Ele também não entende!
— Entende, mas não sabe argumentar! — Euzébio completou.
A torcida toda riu, mas ninguém parou. O jogo só recomeçou quando um jogador chutou a bola sem querer na direção da arquibancada — e parou bem entre os dois velhos.
Brigite olhou, depois Euzébio olhou.
— Agora é com você — ela disse, empurrando- com o ombro. — Se errar, a culpa é sua.
— Se eu acertar, você passa a torcer pelo meu time por um mês! — ele desafiou.
— E se eu pegar, você passa a usar azul na camisa!
— Feito!
Euzébio tentou pegar, escorregou no banco e quase caiu. Brigite, ao tentar segurá-lo, acabou empurrando a bola de volta ao campo com a cabeça.
A torcida berrou: GOL!
— Isso foi meu! — ela gritou.
— Não, foi eu que a coloquei no lugar! — ele gritou.
Os jogadores aplaudiram, rindo:
— Então fica assim: o gol é dos dois!
— De jeito nenhum! — falaram ao mesmo tempo. — Se é para dividir, não quero!
No final da tarde, saíram do estádio, roxos de tanto falar.
— Você só ganhou porque ninguém quis brigar mais. — Euzébio disse.
— E você só não perdeu porque eu deixei. — Brigite respondeu. — Mas saiba: se houver outro jogo, eu volto a torcer contra.
— E eu volto a provar que você está errada. Aliás… a sua cabeça bateu forte na bola. Deve ter ficado mais dura ainda.
— Melhor dura que mole como a sua, que nem lembra o nome do time direito!
E assim, entre um insulto e outro, foram andando, deixando para trás um estádio que, pela primeira vez, tinha mais história na torcida do que no placar.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.
