domingo, 21 de junho de 2026

José Feldman (A Visita do Tio Teodorico)


Na nossa família, o protocolo burguês sempre foi tratado com a seriedade de um tratado de paz da ONU. Minha mãe, criatura que mede a dignidade humana pelo número de fios do lençol e pela prataria brilhando na cristaleira, passou a semana inteira em estado de pré-infarto. O motivo de tanto frenesi cívico era um só: a iminente chegada do Tio Teodorico.

Teodorico era o irmão mais moço do meu pai, uma espécie de ovelha negra que, em vez de se formar em Direito para virar burocrata, resolveu sumir no mundo e virar "consultor de assuntos aleatórios" no interior de Goiás. Ninguém sabia direito o que ele fazia, mas todos tinham certeza de que ele não usava gravata. E na cartilha da nossa respeitável família da classe média alta, um homem sem gravata é um homem sem caráter.

Para receber o parente exótico, minha mãe montou uma operação de guerra que faria o cerco de Stalingrado parecer uma brincadeira de estalar bombinha de São João. O cardápio foi minuciosamente calculado para demonstrar uma opulência discreta, que é o ápice da sofisticação de Botafogo. Nada de feijoada ou churrasco, que são coisas muito telúricas e perigosas para o fígado da nossa fidalguia. O prato principal seria um coq au vin, que nada mais é do que um frango metido a besta que morreu afogado no vinho barato, acompanhado por arroz com amêndoas liofilizadas — seja lá o que isso signifique.

Às oito da noite, papai já estava devidamente engomado, usando um terno de linho que o impedia de dobrar os cotovelos, exalando um perfume importado tão forte que os mosquitos do bairro caíam mortos na calçada. Minha irmã, coitada, fora fantasiada de debutante tardia, com um vestido de pregas que pinicava até a alma. Eu, por ordens expressas da gerência doméstica, fui proibido de falar gírias e obrigado a manter as mãos fora dos bolsos. A ordem era fingir que éramos uma pintura a óleo do século dezenove.

O interfone tocou com a precisão de um gongo de execução. Minha mãe deu o último retoque no laquê do cabelo, respirou fundo o aroma do desinfetante de lavanda fina que impregnava a sala e abriu a porta com o sorriso congelado de quem tirou o primeiro lugar no concurso de miss simpatia.

Entrou o Tio Teodorico.

A primeira quebra de protocolo foi visual. Enquanto a sala inteira parecia um comercial de banco privado, ele vestia uma camisa de botão estampada com tucanos tropicais, calça jeans visivelmente confortável e uma sandália de couro de bode que emitia um odor persistente de curral. Na mão esquerda, trazia uma mala de lona remendada com fita isolante; na direita, uma gaiola com um papagaio mudo.

— Boa noite, patota! — berrou, com a voz de quem anuncia quilo de tomate na feira livre.

Minha mãe cambaleou dois passos para trás, tateando o ar à procura do colar de pérolas para se segurar. O "boa noite, patota" ecoou pelas paredes estucadas como um palavrão na missa de sétimo dia.

— Teodorico, meu querido... que surpresa agradável — gaguejou papai, tentando manter a pose enquanto estendia uma mão rígida para um aperto de mão protocolar.

Teodorico ignorou a mão engomada e desferiu um abraço de urso no meu pai, daqueles que deslocam a vértebra e deixam o sujeito sem ar por três minutos. Em seguida, cravou dois beijos estalados na bochecha da minha mãe, deixando uma leve marca de gordura de pastel que ele provavelmente havia comido na rodoviária.

A noite avançou num crescente de absurdos e constrangimentos calculados. Sentados à mesa de jantar, sob a luz de um candelabro que minha mãe comprou num antiquário fingindo que era herança de família, a etiqueta começou a sangrar.

Enquanto minha mãe tentava puxar assuntos elevados, como a última exposição de arte abstrata ou a alta do dólar que encarecia a temporada em Miami, Tio Teodorico queria debater a mecânica de caminhões a diesel e o preço da arroba do boi gordo. Quando o coq au vin foi servido pela empregada — que também fora fantasiada com um avental branco que parecia saído de uma peça de teatro de época —, ele olhou para o prato com sincera compaixão.

— Mas que diabo é isso, cunhada? O frango pegou uma pneumonia antes de ir para a panela? Tá roxo!

Minha mãe quase engoliu o garfo de peixe por engano.

— É uma receita tradicional francesa, Teodorico. Frango ao vinho — explicou ela, com uma voz tão fria que daria para conservar carne nela.

— Pois lá na minha terra a gente bota cachaça e joga um colorau que fica uma beleza. Mas vamos encarar o bicho — disse o tio, agarrando a coxa do frango com as próprias mãos, ignorando o faqueiro de prata alemã que repousava ao lado do prato.

Minha irmã fechou os olhos, rezando por um arrebatamento bíblico imediato. Papai começou a suar frio através do linho. E eu, confesso, comecei a achar que o Tio Teodorico era o único sujeito são num raio de cinco quilômetros.

O golpe de misericórdia na empáfia burguesa da noite aconteceu na hora da sobremesa. Minha mãe trouxe um petit gâteau feito com chocolate belga e uma pitada de flor de sal, a última palavra em frescura gastronômica. Teodorico provou uma colherada, mastigou com a buraqueira de quem procura um dente perdido e decretou:

— Olha, o bolinho tá meio cru por dentro, cunhada. Acho que o forno de vocês tá com problema no termostato. E o doce passou da conta, tá meio salgado. Mas não esquenta não, que eu trouxe o remédio para rebater esse negócio!

Sem esperar resposta, o homem levantou-se da mesa, foi até a sua mala de lona e retirou de lá um pote de vidro de maionese reaproveitado, cheio até a boca com um doce de leite pastoso e escuro, de fabricação caseira ilegal.

— Isso aqui sim é sobremesa de macho! — exclamou, cravando a colher de servir diretamente no pote de maionese e distribuindo pelotas de doce de leite em cima dos pratos de porcelana de Macau.

A essa altura, o verniz da civilidade já tinha derretido por completo. Minha mãe aceitou a sua colherada de doce de leite com a resignação dos mártires cristãos que enfrentavam os leões no Coliseu. Comeu. E para o desespero do seu próprio ego aristocrático, o doce de leite do curral era a coisa mais gostosa que já havia entrado naquela casa desde a fundação do edifício.

Quando a visita finalmente recolheu-se ao quarto de hóspedes, arrastando seus chinelos de bode e cantarolando uma modinha sertaneja de duplo sentido, a sala de jantar parecia o cenário de um bombardeio. O candelabro de prata parecia meio torto, o terno do papai estava amarrotado e o orgulho da mamãe jazia no chão, ao lado de um pedaço de osso de frango que o tio havia limpado com os dentes.

Olhei para a minha mãe, que mantinha os olhos fixos no pote de maionese vazio sobre a mesa. A fragilidade das nossas aparências havia sido exposta por um pote de doce de leite e uma camisa de tucanos. A burguesia dita as regras, cria os talheres certos, inventa os vinhos franceses, mas basta um tio esquisito vindo do interior com a verdade nos dentes para provar que, no fundo, todo mundo só quer comer com a mão e palitar os dentes depois do almoço.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título de Marechal das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fontes da biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.