Era uma noite de terça-feira, chuvosa e escura — o cenário perfeito para quem quer agir sem ser visto. Pedro, um ladrão de meia-tigela que já tinha errado mais alvos do que acertado, escalou o muro da casa dos Silva com uma mochila velha e um plano que cabia na palma da mão: entrar, pegar o que fosse fácil e sair antes que alguém percebesse.
Ele arrombou uma janela dos fundos com uma chave de fenda que tinha achado na rua, entrou devagar e ficou parado no escuro, ouvindo. Nenhum barulho. Sorriu, achando que dessa vez ia dar certo. Mas mal tinha dado dois passos, acendeu-se a luz da cozinha, e Dona Marisa apareceu de pijama, com um pente na mão e um olhar de quem esperava por alguém.
— Finalmente! — exclamou ela, sem dar tempo de ele falar nada. — Já estava pensando que você não vinha mais. O cano da cozinha está vazando desde ontem à tarde, e a água já molhou metade do armário.
Pedro ficou parado, com a boca aberta, sem saber o que dizer. Ele vestia uma calça jeans surrada, uma camisa velha e tinha a mochila nas costas — nada que lembrasse um encanador. Mas Dona Marisa não deu espaço para dúvidas.
— O que é esse silêncio? Vamos, vamos, o problema é aqui mesmo — puxou ele pelo braço até a pia, apontando para um cano que realmente pingava devagar. — E por que você está com essa mochila? Não trouxe as ferramentas?
O ladrão, completamente perdido, resolveu seguir o jogo. Quem sabe assim não conseguia sair de lá sem problemas?
— Ah… é que… as ferramentas estão… aqui dentro — respondeu, com a voz enrolada, batendo na mochila. — Eu só… cheguei um pouco atrasado porque tinha outro serviço antes.
— Pois devia ter avisado — resmungou ela, mas já saiu andando. — Vou chamar o Carlos, ele quer ver como você faz o serviço.
Pedro suou frio. Meu Deus, o que eu fiz?, pensou. Mas antes que pudesse fugir, apareceu Carlos, de chinelos e um copo de café na mão, olhando para ele com curiosidade.
— Então é você o encanador? — perguntou ele, analisando o ladrão da cabeça aos pés. — Parece mais um… bem, não importa. Você sabe arrumar esse cano, não sabe?
— Claro que sei! — mentiu o Pedro, tentando parecer confiante. — É só… apertar umas coisas, trocar umas peças… coisa simples.
Abriu a mochila, desesperado para achar alguma coisa que parecesse útil. Tirou uma lanterna, um alicate velho, um pedaço de corda e até um parafuso que tinha achado na rua. Os dois olharam para aquilo tudo com cara de estranhamento.
— Que tipo de ferramentas são essas? — perguntou Dona Marisa, franzindo a testa.
— É… ferramentas especiais! — inventou ele na hora. — Só uso para serviços mais difíceis. Esse cano aí é um modelo antigo, precisa de técnica especial.
Carlos assentiu, como se entendesse tudo.
— Ah, sim, modelos antigos são complicados mesmo. Uma vez tentei arrumar um e quase quebrei a pia toda.
Pedro respirou aliviado e começou a mexer no cano, sem ideia do que estava fazendo. Torceu uma peça aqui, empurrou outra ali… até que, de repente, o cano se soltou de vez, e um jato de água saiu com força, acertando ele bem no rosto.
— AI, MEU DEUS! — gritou ele, pulando para trás, todo molhado.
Dona Marisa deu um grito também.
— O que foi que você fez? Agora está pior do que antes! Meu Deus! É o apocalipse hidráulico! — ela berrou.
— Foi… foi um acidente! — tentou explicar, limpando o rosto com a manga. — É que… a peça estava mais solta do que parecia. Deixa eu consertar rápido.
Ele tentou segurar o cano de novo, mas na pressa, bateu o cotovelo no tubo ao lado, que também começou a vazar. Agora eram dois jatos de água, molhando tudo: o chão, os armários, as paredes e o próprio ladrão.
Carlos já estava com a mão na cabeça.
— Rapaz, você sabe o que está fazendo ou não? Parece que está destruindo a casa, não arrumando!
— Claro que sei! É só… ajustar a pressão! — falou o Pedro, já todo molhado e com o coração disparado. — É um método novo, vocês não conhecem.
Nesse momento, apareceu a filha do casal, Luísa, de oito anos, que tinha acordado com o barulho. Ela olhou para o homem todo molhado, com ferramentas estranhas na mão e cara de quem não entendia nada, e perguntou bem alto:
— Mamãe, esse homem não é um ladrão? Ele parece muito com o ladrão que vi na televisão semana passada!
O coração do Pedro quase parou. Agora acabou, pensou, pronto para correr. Mas Dona Marisa apenas riu.
— Que ideia é essa, Luísa? Esse é o encanador, veio arrumar os canos. Ladrão não vem com ferramentas, nem fica consertando coisa na casa dos outros.
Carlos concordou.
— É mesmo, filha. E esse daqui é só… um pouco desastrado, só isso.
Pedro sentiu um alívio tão grande que quase caiu sentado. Mas o problema não tinha acabado. Ao tentar tampar um dos canos com o alicate, ele escorregou no chão molhado, bateu com a cabeça na pia e, ao se levantar sem querer, puxou um fio que estava solto — e de repente, toda a luz da cozinha apagou.
— Agora acabou a luz também! — gritou Carlos, batendo o pé no chão. — Que serviço é esse, meu filho? Primeiro os canos, agora a energia!
No escuro total, Pedro já não sabia onde era a porta, onde era a janela, nem o que fazer. Ouvia os dois reclamando, a menina perguntando o que tinha acontecido, a água pingando e escorrendo pelo chão. Ele estava todo molhado, com dor na cabeça, confuso, com medo de ser descoberto e achando que tudo aquilo era uma punição por ter tentado roubar.
— Eu… eu acho que preciso de mais peças! — gritou ele, já andando às cegas em direção à porta da cozinha. — Vou buscar na loja e já volto!
— Espera, não vai não terminar o serviço? — gritou Dona Marisa, mas ele já tinha saído correndo, tropeçando em tudo o que via pela frente.
Ele largou tudo, correu pelo corredor pisando em falso, desceu as escadas rolando os últimos quatro degraus, passou pela sala, bateu num sofá, esbarrou numa mesa, abriu a porta da frente e saiu disparado pela rua, na chuva, no escuro, sem olhar para trás.
Dentro da casa, Carlos acendeu uma lanterna e olhou para a bagunça toda: água por todo lado, canos soltos, fios pendurados.
— Que encanador mais atrapalhado, meu Deus! — disse ele, balançando a cabeça. — Nunca vi um que fizesse tanta confusão.
Dona Marisa limpou a água do balcão.
— Pois é. Mas pelo menos ele foi embora rápido. Amanhã chamamos outro, um que saiba o que está fazendo.
E o Pedro? Dali em diante, sempre que passava na frente daquela casa, ele cruzava a rua, com medo até de ser confundido de novo — e jurava para si mesmo que nunca mais iria mexer em canos, afinal quase entrou pelo cano.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca.
Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Ele residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Ele é o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, na Romênia.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
