quarta-feira, 17 de junho de 2026

Antônio Callado (Bar Don Juan)


Quando estacionou diante do edifício, na Lagoa, Karin já estava na calçada à sua espera, sapatos de corda, um impermeável por cima da roupa de banho, e, no bolso, um frasco de prata com vodca.

Escandalizou-se ao ver que Mansinho não vinha de calção de banho por baixo da capa.

— Você não vai cair n’água?

— E você? Está querendo me ver, depois desse tempo todo, ou só quer tomar banho de mar?

No apartamento de Karin tinha uísque, vodca, sardinha e pão. Que besteira tomar banho de mar. Foram subindo a Rua Montenegro e, ao chegarem à praia, dobraram à direita. Resignado que estava de andar até o Arpoador, Mansinho se animou, achando que iam parar talvez diante do Country, mas Karin prosseguiu pela calçada. Pelas alturas do Cinema Miramar, Mansinho teve uma dúvida atroz. Será que a Karin queria andar pela Avenida Niemeyer até o Vidigal, a Gávea, a própria Barra? Karin parou no fim do Leblon e obrigou Mansinho a tirar os sapatos para andarem na beira do mar. Entre as pedras achou flores da véspera, três copos-de-leite de talos amarrados com fita branca. Karin declamou para o mar, restituindo as flores às ondas;

Todo coberto de lírios 
de velas, fogos e círios
o ano estava estendido
das areias de Ipanema
aos rochedos do Leblon.
Diante do ano morto
lemanjá dá reveillon.

— O que é isso? — disse Mansinho.

— Ora! O poema do Murta. 

— Você sabe tudo de cor, hem!

— Claro! Pois o poema foi feito para mim.

Mansinho ficou meio amuado. Karin tomou um trago de vodca. Apesar da ressaca, Mansinho, resignado, bebeu também. Estava se sentindo mofado, úmido.

— Por que é que Murta depois começou a fugir de mim? Eu sempre tive tanta vontade de ser amada por uma poeta.

— Murta é cineasta. Pelo menos é o que ele diz.

— Quem faz versos é poeta. Onde é que ele anda?

— Em caso de dúvida, procure no Don Juan’s. Se formos até lá é quase certo encontrar o Murta.

— Ele me adorou aquela noite na areia, se lembra, de joelhos, e depois deixou a festa e veio me procurar, andou comigo pela praia inteira, recitando os versos que tinha feito. Mas não me propôs nada.

Mansinho deu de ombros. Puseram-se a andar pela beira da praia, Karin apanhando conchas, cantarolando, inventando uma música para cantar com o poema:

Dançando no gume fino
da meia-noite lunar!

Mansinho foi ficando mais emburrado e Karin cada vez mais alegre e cantadeira. Ao passarem pela frente da Rua General Urquiza ele propôs que fossem para o Bar Don Juan mas Karin, sem responder, enfiou o braço no braço dele andando e cantando. Quando chegaram à desembocadura do canal do Jardim de Alá, sentou-se no paredão que avançava pelas ondas cinzentas. Mansinho já tinha molhado as calças até os joelhos e a garoa lhe pingava dos cabelos. Dois desocupados, no paredão oposto, olhavam em frente, ou vagamente estudavam a grande escavadeira empregada no alargamento do canal. Enquanto os trabalhadores, na areia, enchiam a boca com a comida tirada da marmita, a bocarra de ferro da escavadeira descansava, os dentes imensos imobilizados em torno de uma rocha. Karin passou a mão nos cabelos encharcados de Mansinho e tomou mais vodca.

— Fala alguma coisa

— Você gosta de versos e eu só tenho prosa. De mais a mais você é que deve ter alguma coisa a contar. O que é que fez durante uma semana inteira?

Karin o olhou séria.

— Aproveitei o pretexto de estudar a festa do Círio de Nazaré e fui conhecer a tua terra.

Mansinho arregalou os olhos.

— Você foi a Belém do Pará?

Karin fez que sim com a cabeça e tomou as mãos de Mansinho nas suas. Mansinho teve grande desejo dela e vontade de deitá-la ali mesmo, na areia ou até no dorso do paredão, mas ao mesmo tempo sentiu com certa melancolia aquele principio de enjoo que sempre lhe davam as mulheres quando passavam do porre da posse e da boa cegueira física inicial para uma fixação de sentimentos.

Domesticadas e ciscando o chão até as garças viram galinhas.

Da janela do escritório do Bar Don Juan, Aniceto viu Mansinho e Karin que chegavam da praia e ficou pensando na Da Glória. Que estaria fazendo em Pão de Açúcar da beira do São Francisco, ela da voz rouca e que sabia falar longa e misteriosamente — como se tivesse aprendido a falar com o rio — mas que era tão breve de carta e de escrita tão vazia? Tinha medo dos escritos.

“Palavra escrita é feito passarinho na gaiola”, dizia. “Se um dia eu receber um telegrama me mato mas não abro.”
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    ANTÔNIO CARLOS CALLADO (Niterói/RJ, 1917 – 1997, Rio de Janeiro/RJ) foi um dos maiores intelectuais, jornalistas e ficcionistas brasileiros do século XX. Conhecido por seu profundo engajamento político, ele usou a literatura e o jornalismo para decifrar a identidade do Brasil e denunciar as injustiças sociais. Em 1994, sua trajetória foi consagrada com sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Embora tenha se formado em Direito em 1939, Callado nunca exerceu a advocacia. Sua verdadeira subsistência e grande escola do mundo foi o jornalismo, profissão que exerceu por quase 40 anos: Começou em 1937 no jornal O Globo e no Correio da Manhã (onde chegou a ser redator-chefe). Também teve passagem marcante pelo Jornal do Brasil. Correspondente Internacional durante a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Londres e trabalhou na BBC (de 1941 a 1947), cobrindo o conflito histórico. Logo após, atuou no Serviço Brasileiro de Radiodifusão em Paris. De volta ao Brasil, realizou coberturas históricas sobre as Ligas Camponesas e a causa indígena. Além disso, coordenou a edição da famosa Enciclopédia Barsa na década de 1960. Callado via o jornalismo como ganha-pão e a literatura como sua primeira e maior vocação. Ele estreou na ficção nos anos 1950, mas atingiu o ápice literário ao se tornar o principal cronista ficcional da resistência à ditadura militar. Escreveu peças de grande relevância nacional, como Pedro Mico (1957) e A Revolta da Cachaça. Seus livros formam um painel vivo sobre o autoritarismo e a luta armada: Quarup (1967): Seu livro mais célebre, narra a transformação do Padre Nando, que deixa o misticismo religioso para se conscientizar politicamente no interior do país; Bar Don Juan (1971): Focado nas desilusões e impasses da esquerda intelectual. Seu engajamento não ficou só no papel. 
    Callado foi preso duas vezes pelo regime militar por causa de suas opiniões e de sua ligação com redes de apoio à militância. A relevância de Antônio Callado para as letras nacionais baseia-se em: 1. Criação do "Romance-Reportagem" moderno: Callado uniu a precisão da apuração jornalística à sensibilidade da prosa literária. Ele não esperou a história esfriar para escrever; transformou o calor dos acontecimentos políticos urgentes do Brasil em alta literatura contemporânea.  2. Discussão da Identidade Nacional: Suas obras colocaram em pauta temas negligenciados pelas elites urbanas, como as fronteiras geopolíticas brasileiras, a exploração dos povos indígenas e a miséria do homem do campo. O Xingu e o Nordeste aparecem em seus livros como o coração geográfico e social do país. 3. Memória Viva da Resistência: Enquanto a censura tentava apagar os crimes do Estado, os romances de Callado funcionaram como um arquivo vivo de denúncia. Ele deu voz às contradições, fraquezas e coragens da geração que combateu o totalitarismo.

Fontes:
Antonio Callado. Bar Don Juan. Publicado originalmente em 1971.
Biografia:: Revista Cult, Revista da USP, Itau Cultural, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, etc.