sexta-feira, 5 de junho de 2026

Arthur Thomas (O dia da criação)

No dia da cerimônia de criação do Universo, o local e as adjacências apresentavam uma frenética agitação.

Alguém perguntou.

– Ei, você aí de bermuda colorida, o que faz aqui?

– Amigo, eu estava na praia. Ainda não sei bem, mas alguma força estranha trouxe-me aqui. E você?

– Sou jornalista de um tabloide sensacionalista, e enviaram-me para cobrir o evento da criação do Universo.

– Ah! então é isso?

– Venha, vamos tomar uma cerveja ali no Bar “Gole Inicial” e aguardar os acontecimentos e as comitivas de políticos que, com certeza virão, e irão querer sair nas fotos do evento.

Após o pedido para trazer uma “gelada”, disse o garçom, solícito:

– Aqui, logicamente só servimos a cerveja número 1, e gargalhou estrondosamente.

Todos acompanharam a risada e continuaram a conversa.

– Amigo, por acaso saberia dizer-me como está o movimento da bolsa de apostas? Quem está liderando o ranking de favoritos para ser o criador do Universo?

– Amigo, não sei precisar, mas existem muitos nomes concorrendo. Eu mesmo já fiz minha “fezinha” antes de vir para cá.

– Você fez bem, porque eu estou tentando fazer daqui, mas o wi-fi é péssimo nessas paragens.

Nessa hora, aproximou-se Protógenes, o dono do estabelecimento, e disse:

– Amigos, tem um tal de Big Bang querendo tomar uma com vocês.

– Opa! Pode entrar, seja muito bem-vindo. Você é um dos fortes concorrentes, segundo a comunidade científica. 

– Mas sem fazer estrondo, disse o de bermuda colorida.

Gargalharam, todos, incluindo o recém-chegado.

Quase simultaneamente perguntaram ao proprietário:

‐ Protógenes, aquele casal histérico lá nos fundos do salão, você sabe quem eles são?

– É o casal de apresentadores de um telejornal de uma mal falada emissora. Estão reclamando que o sinal de satélite aqui é fraco e que esqueceram de enviar a equipe de maquiadores.

Ao gigantesco estádio erguido somente para essa cerimônia, por empreiteiras de uma republiqueta sul-americana, com valores superfaturados e com verbas desviadas de várias estatais, começaram, então, a chegar as delegações para assistir ao evento, todos carregando variados cartazes e faixas.

Os católicos estavam com a imagem de Jesus Cristo e gritavam pelo seu nome.

Os umbandistas carregavam uma enorme estátua de Iemanjá.

Alguns asiáticos exibiam a imagem de um rotundo Buda em porcelana.

Alguns torcedores uniformizados da Gaviões da Fiel, acompanhados de uma barulhenta “charanga”, cantavam e gritavam o nome de Vicente Matheus.

Um outro grupinho de homens barbudos e mulheres mal vestidas, com um megafone, exigiram que a cerimônia da Criação do Universo fosse interrompida, porque isso afetaria o ecossistema da Amazônia.

Em um camarote, com direito a churrasco temperado com pitadas de ouro em pó, mais de 50 reis, sheiks e príncipes árabes tinham uma enorme faixa enfeitada com diamantes. Nela estava escrito Allahu Akbar (Deus é Supremo).

O estádio inteiro aguardava, com expectativa, quem iria cortar a fita inaugural. A tesoura feita de ouro cravejada de diamantes já estava na mesa colocada atrás da fita multicolorida e que emitia feixes de luz neon.

As “autoridades” foram aproximando-se, cercadas por dezenas de repórteres e cinegrafistas, quando uma enorme quantidade de poeira cósmica, que vagava pelas galáxias, encobriu toda a região.

Os olhos do público encheram-se da poeira, sendo atendidos imediatamente pelas unidades do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel do Universo).

Promotores do evento adiaram a data da criação do Universo para uma ocasião mais propícia.

O casal de âncoras, ao ver sua apresentação frustrada, tiveram uma crise histérica, tendo que ser removidos para uma casa de acolhimento especializada em transtornos mentais. 

E assim permaneceu o mistério em relação ao nome do criador do Universo…
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, publicou os livros: Coleção Leves Contos ao Léu: I- Mirabolantes; II– Imponderáveis, III– Inimagináveis, IV– Insondáveis; Trovas: “Rimando Sonhos”, “Rimando Ilusões”, “Rimando Devaneios”. Romances: “Pedro Centauro”; “O Mistério da Princesa dos Rios”, “Vila Esperança” e outros.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.