sábado, 13 de junho de 2026

Hans Christian Andersen (Um profundo desgosto)


Compõe-se esta história de duas partes. A primeira poderia, sem nenhum inconveniente, ficar em silêncio. Entretanto vou contá-la; servirá para o leitor conhecer um pouco os personagens.

   Estávamos no campo, em um castelo. Os donos se haviam ausentado por alguns dias. Nessa ocasião, apresentou-se lá uma senhora, viúva de um curtidor, que morava na cidadezinha próxima, e se fazia acompanhar de um cãozinho. Vinha pedir um empréstimo sob hipoteca, trazendo já a papelada, formas públicas, etc. Aconselhamos a dama a meter tudo aquilo em um envelope com o endereço do proprietário do castelo: Sr. Comissário-Geral das guerras, cavalheiro X...

   Ela ouviu com toda atenção, tomou a pena, deteve-se um momento e pediu-nos que repetíssemos o endereço, mas lentamente. E assim fizemos, ela escreveu: Sr. Comis...

   Nesse ponto parou de novo, porque não sabia se era com um ou com dois ss. Suspirou:

   - Aí de mim! Não passo de um pobre mulher!...Como poderei escrever todas essas palavras?

   Quanto ao doguezinho, tinha-se deitado no assoalho; rosnava, e não parecia muito satisfeito. De fato, não tinha feito aquela viagem senão para seu deleite, e em benefício da própria saúde, e ninguém lhe oferecia sequer um tapetezinho para descansar!

   Com aquele focinho chato e aquela bossa de gordura, não era nada bonito; e continuava a rosnar surdamente. Mas a dama disse:

   - Não façam caso; ele não morde - primeiro, porque já não tem dentes; e depois porque é um bom animal. Nós o temos há tanto tempo, que já faz parte da família. Meus netos é que lhe estragam o caráter. Representam, com suas bonecas, uma peça em que há um casamento, e querem que este pobre animalzinho figure de juiz. O coitado do velho fica cansado e de mau humor.

  Enfim ela acabou por escrever o endereço e foi embora, levando o cachorrinho debaixo do braço.

  E aqui está a primeira parte da história, a que poderia bem ficar de lado.

   O cãozinho morreu. E aqui começa a segunda parte da história.

  Tínhamos ido à cidade e hospedamo-nos em um hotel, em frente à casa daquela senhora. Nossas janelas davam para o pátio dessa casa. Era dividido em duas partes por uma cerca de tábuas. De um lado estavam peles e outros materiais próprios de um curtume. Do outro lado havia um jardinzinho, onde brincava um bando de crianças - os netos da senhora.

  Tinham acabado naquele momento de enterrar o pobre cãozinho; ergueram-lhe um soberbo mausoléu, digno da sua bela raça: formaram ao redor um cercado de cacos de louça; no centro uma garrafa rachada erguia o gargalo para o céu.

  Depois de celebrar uma cerimônia fúnebre, com toda a gravidade, dançaram ao redor do túmulo. Um deles, um meninozinho de sete anos, espírito prático, propôs que se fizesse uma exposição daquele magnífico monumento, mostrando-os às outras crianças da vizinhança. O preço de entrada seria um botão de calça. Cada menino havia de ter um, com certeza, e muitos dariam de boa vontade, mais outro por uma das meninas; e assim poderiam fazer copiosa colheita de botões.

  Aprovado o projeto, unanimemente, correram todos a anunciá-los à criançada dos arredores.

  E da rua inteira, e das travessas vizinhas, acorreram os visitantes. Cada um deu o botão requerido. Naquela tarde houve certamente muitos guris que entraram em casa com as calças seguras apenas por um único suspensório; mas também, tinham podido admirar o túmulo do cãozinho!

   À entrada do pátio, encostada ao portal, estava uma menininha coberta de andrajos. Era bem graciosa; tinha o cabelo crespo e lindo, e os olhos azuis, de um azul muito suave. Não dizia uma só palavra, e também não chorava. Mas cada vez que a porta se abria, deitava lá para dentro do pátio um olhar muito comprido. Ela não possuía o botão para a entrada e bem sabia que ninguém lhe daria um. E permaneceu no mesmo lugar, de expressão triste, até ver que todos já tinham apreciado o túmulo e se retiravam dali.

   Então, sentou-se no chão, pôs as mãozinhas diante dos olhos e desatou em pranto. Só ela não tinha podido ver o túmulo do cachorrinho! E aquilo lhe causava tão grande mágoa como qualquer desgosto que alguém possa sofrer em outra idade.

  Nós tínhamos visto tudo, lá das nossa janelas; e na verdade, quando olhamos assim de cima os grandes pesares dos outros - e até os nossos mesmos - não podemos deixar de sorrir.
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fontes:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicado originalmente em 1853. 
Disponível em Domínio Público