A tarde era quente e havia poucas pessoas na plataforma da estação. Eu terminara de engraxar o último par de sapatos do dia e já me preparava para voltar quando um homem de certa idade, corpulento e com a voz enrolada, perguntou-me num mal português sobre uma pensão. Vestia-se de branco, inclusive os sapatos, e trazia sobre os ombros, escorridos pelo peitoral, um cordão de borracha que mais tarde descobri ser um estetoscópio. Indiquei com o dedo e lhe disse que iria naquela direção, ao que ele me passou a mala menor, pesada e ergueu a maior, supostamente de roupas, colocando-a no ombro.
Com a caixa de engraxar e a mala dele, seguimos. No caminho, disse-me se chamar Themistoklis, era médico e procurava lugar que o abrigasse porque, segundo a história, fora roubado em São Paulo e o que lhe restam de dinheiro, mal pagaria uma semana de estadia, dai a
pressa em logo se instalar e clinicar.
Na portaria, uma surpresa; o atendente tinha sobre a cabeça uma toalha que lhe escorria pelos ombros. Tossia muito, ao que o chegado, agindo prontamente, pedindo licença, segurou suas mãos e as levantou até acima da cabeça, fato que logo fez cessar a crise. Aquele o olhou sem saber o que falar, tentou sorrir, mas baixou a cabeça.
- Esse diabo de tosse... desculpe... o senhor quer um quarto?
- Sim, - respondeu - o que o faz tossir dessa maneira, senhor, pela minha experiência tem nome, e não é uma tosse qualquer. O senhor está se tratando?
- Uso um xarope aí, mas acho que não tem resolvido, respondeu.
- O senhor fez exame microscópico de bacilos?
- Não. O que é isso? - Indagou.
- Um exame no seu catarro, pode ser tuberculose. Mas, não por acaso, trago o equipamento e, se quiser, poderemos fazer o exame daqui a pouco. Basta só me instalar. Procuro um. quarto que seja bom, bonito e barato. Estou momentaneamente com pouco recurso financeiro.
- Vai custar caro? Sou um simples dono de pensão e dinheiro aqui é manga de colete.
- Vai lhe custar... uma semana de hospedagem, mas após o exame receitarei o remédio. Quer experimentar?
- Topo! Do jeito que estou a tossir não irei longe... Trato feito. Darei ao senhor o melhor quarto que, por sorte, está vago.
Sorriram. Momento em que ele tirou do bolso uma nota de dois cruzeiros, passou-a às minhas mãos seguida de uma piscadela. Respirou aliviado, arriou as bagagens, endireitou-se espreguiçando-se, expeliu todo ar que armazenara, parecendo tirar da cacunda um peso extremo; uma semana abrigado em troca de uma consulta e um exame.
Além de arranjar onde ficar, também conseguiu primeiro cliente e, com isso, a porta da clientela se abria para outros, com certeza. Ato contínuo, destrancou a mala abrindo-a sobre a mesa de onde tirou um quadro envidraçado, que pendurou no primeiro prego disponível.
Estava escrito; "Dr. Themistoklis Lykaios, médico cirurgião e ginecologista."
Ao ver a placa, o dono da pensão voltou a sorrir, dizendo;
- Acho que terei o senhor aqui por muito tempo. Se quiser barganhar seu trabalho médico com a acomodação, tenho uma oferta a fazer; minha mulher está para ganhar bebê e não sabíamos a quem recorrer... tudo está pela hora da morte...
- Pois deixe que me instale e me banhe e logo a veremos. Vim para trabalhar, meu amigo, e não tenho medo em fazê-lo... conte comigo.
A você, menino - disse segurando em meu pescoço: – espalhe por ai o que aconteceu, diga que temos um novo médico na cidade, e que ele está pronto a novas amizades e trabalho, muito trabalho, e quero que me procure quando e se precisar de um amigo... que por sinal é médico, mas será seu camarada para quando e o que você precisar.
Trouxe a sorte que havia perdido...
São lembranças que retornam, quando puxamos o cordonê no qual enrolamos na lata do tempo para armazenar nosso passado.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.
Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais. Paranavaí/PR: EGPACK Embalagens, 2024. enviado pelo autor.
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU
