Cremos que sorte seja uma força imprevisível, ou um acaso favorável que consegue ditar o rumo dos acontecimentos. Para muitos, ter sorte é ter coisas. Mais coisas. E poder mostrá-las, ser motivo de comparação. De orgulho, ou inveja!
Viu o vestido da fulana? Benza Deus! Essa nasceu com o nariz pra lua! Quanto a mim, ah! A sorte me olha de olho torto... É vesga, essa miserável!
Os olhos de quem assim falou – (como ficam?) – brilham expandidos a quase pularem das órbitas. No fundo deles, em formato cascavel a balançar o guizo, vê-se um sentimento de escassez a virar com intensidade a manivela do complexo de sua inferioridade. Maldiz pela boca da inveja.
Mas sorte e feitiço não são parentes tão próximos quanto parecem; e não se confunda sorte com sortilégio. A primeira se liga a um acontecimento espontâneo, inesperado. O segundo se ata à magia, feitiçaria ou encantamento. Um acontece. O outro é produzido. Enquanto a sorte chega sem convite, o sortilégio tenta arrombar a porta do destino. Exemplo disso?
Lembra-se da fortuna do Tio Patinhas? Era fruto de trabalho e persistência. Era tão rico que nadava em dinheiro. Mas a Maga Patalójika, a bruxa azarada símbolo da cobiça, da inveja e do misticismo, formulava poções, fazia cálculos e o impossível, para lhe roubar a moedinha número um, a que lhe “dava” sorte. Mas, nada. Sempre se saiu mal. Os Irmãos Metralha são outro exemplo. E o feitiço virava-se contra o feiticeiro.
Ter um gibi daqueles era rir à toa. Eles nos ensinavam que a maldade sempre volta em desfavor daquele que a pratica.
Na minha cidade havia apenas o jogo do bicho e a loteria federal. Um tinha os resultados grudados a um poste. O outro, numa folha de papel na Casa dos Bilhetes. Ali, homens de chapéu e bigode falavam em sorte e azar. Quando acertavam a dezena, o terno, a quadra, urravam de alegria. E gastavam com bebidas o que ganhavam. Também havia conversas sobre mandingas, e até de quem vendera a alma pelo prêmio de São João. Vendeu, mas não recebeu. E endoidou.
Pouco importavam contas, estatísticas ou probabilidades. Quando a esperança se senta à mesa, a matemática costuma ser posta para fora da conversa. E o jogo, quando deixa de ser passatempo e passa a ser esperança, prejudica o bolso e a cabeça. A sorte? Essa continuará estrábica, no seu entender.
Talvez nem seja vesga a sorte como a entendemos. Somos nós que, de tanto olhar para o que nos falta, deixamos de enxergar o que já temos. Mas, que fazer uma fezinha de vez em quando é bom, nem se diga. Vai que... dá!
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RENATO BENVINDO FRATA nasceu em Bauru/SP, radicou-se em PARANAVAÍ/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs: Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.
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Texto enviado pelo autor.
