WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/Guanajuato/México
Descida
De que adianta a rebeldia se, imediatamente, encontramos o universo intocado?
Emil Cioran (filósofo romeno, 1911 – 1995)
Descemos,
disso não há dúvida.
A frágil paz em que vivíamos
foi destruída para sempre.
O que nos resta?
Escolher entre a conformidade
e a sedição.
Permanecer em silêncio ou escrever,
é tudo o que resta.
Sim, de fato,
abominar a neutralidade,
existir apesar de tudo,
apesar dos presságios,
apesar da perdição.
Descemos,
como o sol ao fim do dia,
e como a lua,
nos rebelamos.
(tradução do espanhol por José Feldman)
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Trova Humorística de
NEWTON MEYER
Pouso Alegre/MG, 1936 – 2006
Careca? Não creio sê-lo,
e o fato impede que eu minta:
Tenho um fio de cabelo,
mas, quase com metro e trinta!
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Poema de
LURDIANA ARAÚJO
Brasília/DF
Fogueira
Coração, deixa de besteira,
O amor é apenas uma fogueira
Queima a alma inteira.
Como fogo na lareira
Vai nos queimando como madeira
Nos consumindo a vida inteira.
É uma chama traiçoeira
Quer nos sufocar, apedrejar,
Aniquilar.
Nunca tente pular esta fogueira
Uma ferida corta a carne quer não queira,
E nos aprisiona nesta chama traiçoeira.
É inútil relutar, nem mesmo nossas cinzas,
Conseguem se libertar de alguma maneira.
O amor é apenas uma fogueira, chama traiçoeira.
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Aldravia de
GLÓRIA FONTES PUPPIN
Rio de Janeiro/RJ
transformar
é
difícil
mexe
com
inconsciente
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Soneto de
CHICO MIGUEL
(Francisco Miguel de Moura)
Teresina/PI
Nós e o planeta
Nascemos num oceano de incertezas,
São vidas sobre vidas, muitas vidas.
Que no combate até desconhecemos
Se são amigos nossos ou inimigos.
A ciência desvenda-nos perigos
De vírus a bactérias, faz vacinas
Contra os males fatais que nos imolam,
Pois somos nós os monstros. E sorrimos.
Também, com relação ao universo,
Somos futuros vírus já dispersos,
Na Terra, onde seremos os seus réus.
Fazemos, desta casa azul, um lixo…
Pensando (ou sem pensar) que com tudo isto
Estamos, corpo e alma, indo pro céu.
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Trova de
CEZÁRIO BRANDI FILHO
Juiz de Fora/MG
Quanta gente gostaria
de ter a vida da gente,
sem saber que isso seria
trocar tristezas, somente.
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Poema de
ANA HATHERLY
(Anna Maria de Lourdes Rocha Alves Hatherly)
Porto/Portugal, 1929 – 2015, Lisboa/Portugal
Pensar é encher-se de tristeza
To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale
Pensar é encher-se de tristeza
e quando penso
não em ti
mas em tudo
sofro
Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas
Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue
Em toda a parte
ouço seu imenso clamor
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Quadra Popular de
MINAS GERAIS
Morena, se tu soubesses
o quanto eu te quero bem,
tu não rias, não brincavas,
perto de mim, com ninguém.
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Soneto de
ALFREDO SANTOS MENDES
Lisboa/Portugal
Adeus juventude
Depois da juventude ultrapassada,
a vida passa a ter outro sentido.
E todo o aprendizado adquirido,
Será o nosso guia de jornada!
Teremos pela frente, tudo ou nada.
Qual deles será de nós, o nosso adido?
Será que ficaremos no olvido?
Nossa porta estará sempre fechada?
Há que sorrir em cada despertar.
E nunca esquecer de comentar:
que há mais um dia todas as manhãs!
E quando já passados muitos anos,
não devemos chorar os desenganos,
mas olhar com orgulho nossas cãs!
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Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
Bichinho cheio de manha,
terno e manso quando quer;
mas, zangado, morde e arranha:
- É gato? - Não... é mulher!
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Poema de
WALLACE STEVENS
Reading/ Pensilvânia/EUA, 1879 – 1955, Hartford/Connecticut/EUA
O Homem da Neve
É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada
E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante
Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas
Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio
Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.
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Haicai de
IRENE M. FUKE
São Paulo/SP
Mãos arroxeadas
Se aquecem ao sol de inverno.
Mendigo na praça.
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Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE, 1889 – 1958, Rio de Janeiro/RJ
A velha mangueira
No pátio da senzala que a corrida
Do tempo mau de assombrações povoa,
Uma velha mangueira, comovida,
Deita no chão maldito a sombra boa.
Tinir de ferros, música dorida,
Vago maracatu no espaço ecoa…
Ela, presa às raízes, toda a vida,
Seu cativeiro, em flores, abençoa…
Rondam na noite espectros infelizes
Que lhe atiram, dos galhos às raízes,
Em blasfêmias de dor, golpes violentos.
E, quando os ventos rugem nos espaços,
Os seus galhos se torcem como braços
De escravos vergastados pelos ventos.
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Trova de
OLÍVIA ALVAREZ M. BARROSO
Parede/Portugal
A vida, com temperança,
vinda desde pequenino,
é rumo de confiança,
ensinamento divino.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE
MOTE
Feito um filme de cinema,
ao beijar a tua face,
te dediquei um poema
do amor... que agora renasce!
JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)
GLOSA
Feito um filme de cinema,
daqueles, do tempo antigo,
onde a atriz era de extrema
beleza, sonhei contigo!
Na penumbra do cinema,
ao beijar a tua face
veio-me, logo, o dilema:
qual será o desenlace?
Hoje, lembrando da cena
passada na mocidade,
te dediquei um poema
para matar a saudade.
Desperto da sonolência
veio-me, como num passe
de mágica, a efervescência
do amor... que agora renasce!
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Aldravia de
MARÍLIA SIQUEIRA LACERDA
Ipatinga/MG
a
vida
corre
depressa
qual
aldravias
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Soneto de
ERNÂNI ROSAS
(Ernani Salomão Rosas Ribeiro de Almeida)
Florianópolis/SC, 1886 – 1955, Rio de Janeiro/RJ
Convalescente
Convalesço dos males da Quimera
partindo sempre de um desejo rude,
a malograda sorte da galera
que aportar com delírio nunca pude…
Do amor, nada pretendo com veemência
pela vida misérrima que arrasto!
Eu sinto o frágil coração tão gasto
às futuras e rudes penitências…
Desconheço o rigor dessa ironia
Quando o sol tomba na água e eril centelha
sem n´a apagar em fulva alegoria…
Amo a noite, amo o espelho do Universo
nunca a chaga de um Deus que se avermelha
no sangue que palpita no meu verso!…
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Trova de
ALMIR PINTO DE AZEVEDO
Cambuci/RJ
Trovadores versejando
com dom divino e fecundo,
com suas mãos derramando
beleza e paz pelo mundo...
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Poema de
AIRES ALMEIDA SANTOS
Chinguar/Angola, 1922 - 1991, Benguela/Angola
Poema para minha filha
Para ti, querida
Rosas e mel
E estrelas rutilantes,
Risos gritantes,
Muita ternura e carinho
E o Sol
Brilhando muito
Em frente ao teu caminho.
Deixa comigo o fel,
A dor, o desespero
Deixa que eu fira a pele
Nos ásperos abrolhos
Da vida.
Deixa chorar meus olhos
Deixa comigo
O peso do sonho tão antigo.
Para ti, querida
Paz, amor, ternura
Estrelas rutilantes,
Rosas e Mel…
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Haicai de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG
Cansaço
Dormir sem sonhar
com os fatos de uma vida
pra não mais chorar.
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Setilha de
DELCY CANALLES
Porto Alegre/RS
O bálsamo da esperança
nos vem com a Primavera,
que chega alegre em setembro,
depois de uma fria espera,
pois ela é a estação das flores,
dos perfumes, dos amores,
dos sonhos e da quimera!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES
Laços quebrados
Fios partidos, nós soltos.
amarras que um dia foram fortes,
agora jazem no chão.
Fragmentos de um amor que não existe mais
e de tudo, restou apenas a solidão...
A dor da perda, e a saudade,
ecoam em meu peito vazio;
o que restou de nós?
Apenas sombras de um passado
e eu me vejo aqui, ao nada prostrado
Mas talvez, em meio às cinzas,
um novo começo possa surgir
e embora os laços estejam quebrados
a tal da esperança ainda possa florescer...
e eu, de novo, volte a sorrir...
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR
O mar, a jangada, o vento;
a bordo, ao luar, nós dois.
Construa no pensamento
a cena que vem depois...
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Hino de
UBERABA/ MG
Da jornada de fé, corajosa
De bandeiras por todo o Brasil,
Tu surgiste, Uberaba formosa,
Na campina, sob um céu de anil.
És Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão
Valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central
Do Brasil
Não transiges com teu inimigo,
Mas acolhes, gentil, em teu colo,
Os que vêm ao trabalho, contigo,
Procurando elevar o teu solo.
És Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central
Do Brasil
Tuas matas, teus campos, teu montes,
De riquezas sem par, peregrinas,
Construíram, entre teus horizontes,
A mais bela das joias mais finas!
És, Uberaba, o formoso
E mais rico florão,
Desde nosso sertão valoroso.
Oh! Grande terra gentil,
Um torrão sem igual,
No Planalto Central do Brasil.
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O Louvor à Terra do Zebu
O Hino de Uberaba, como muitos hinos municipais, é uma composição que exalta as qualidades e a história da cidade, localizada no estado de Minas Gerais, Brasil. A letra do hino destaca a bravura e a fé dos fundadores da cidade, que é descrita como tendo surgido corajosamente durante a expansão territorial do país, marcada pelas bandeiras, expedições que adentravam o interior do Brasil em busca de riquezas e terras para colonizar.
A canção prossegue enaltecendo Uberaba como um 'florão', uma joia preciosa e rica do sertão brasileiro, destacando sua beleza e valor. A menção ao 'Planalto Central' situa geograficamente a cidade, que embora não esteja no Planalto Central do Brasil, está em uma região elevada do território mineiro. A letra também faz referência à hospitalidade do povo uberabense, que acolhe a todos que chegam para trabalhar e contribuir com o desenvolvimento local.
Por fim, o hino celebra as riquezas naturais de Uberaba, como suas matas, campos e montes, que são comparados a 'riquezas sem par'. A cidade é conhecida por sua importância na agropecuária, especialmente na criação de gado zebu, e o hino faz jus a essa característica ao construir uma imagem de Uberaba como uma 'joia mais fina' entre as cidades brasileiras, ressaltando seu valor único e sua contribuição para a riqueza nacional.
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Poetrix de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ
doa-se
coração adestrado
com pedigree, vacinado,
só não obedece ao dono
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Soneto de
ELISA BARRETO
Santos/SP
Velhas fotografias
Velhas fotografias, amarelas,
lembram vidas da vida que passou.
São guardiãs fiéis, são sentinelas,
que a arte no papel eternizou.
Guardam características singelas
de épocas que a evolução tragou.
Na estrutura da vida são janelas
que o palácio do tempo conservou.
Olham-me da parede, penduradas,
como a indagar-me, muito admiradas,
por que eu as fito tão frequentemente . . .
È que as fotografias tomam vida
e a alma de alguém, quando nos foi querida,
nelas palpita misteriosamente.
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Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN
Nas areias calcinadas
desse deserto sem fim...
A vida deixou pegadas
perdidas dentro de mim!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França
O doido que vende siso
Um doido, pelas ruas, pelas praças,
Dizia, em seu pregão: «Quem compra siso?»
E os sempre crentes homens acudiam
À compra diligentes.
Primeiro, de barato, dava o doido
Muita careta, muita monaria;
Mas, logo que ensacava na algibeira
Dinheiro dalgum zote,
Com um bofetão, que vinha rebolindo,
Lhe dava duas braças de barbante
Aos tais fregueses, em lugar de siso.
Uns se agastavam; mas que vale irar-se?
Ser, por iras, de todos mais zombado?
Rir como os outros fora mais acerto;
Ou safar-se, sem chus, nem bus, levando
O bofetão, e o fio.
Quer bem levar de todo a surriada
Quem esquadrinha sentido figurado
No proceder dum louco.
Que razão há que dar de doidarias?
Quanto chocalha em testos desvairados
A mão do Acaso o volve.
Mas fio e bofetão davam tortura
A certas cachimônias.
Um dos logrados vai-se ter com um sábio,
Que logo lhe emborcou, sem muito empacho,
O oráculo seguinte:
«Hieroglíficos meros vende o doido.
Deve o prudente duas braças pôr-se
Longe, de quem tem eiva no miolo,
Se afagos tais não quer recolher dele.
Bom siso vos vendeu. Não sois logrado.»
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