A segunda-feira já começou com aquele mau humor clássico de quem esqueceu de desativar o alarme do celular no domingo. O café queimou, o trânsito lá fora parecia um estacionamento a céu aberto e a perspectiva de encarar a semana era deprimente. Mas tudo mudou quando ouvi o barulho seco, quase metálico, na caixa de correio. Não tinha o formato de um boleto. Não era um panfleto de supermercado. Era um pedaço de papel rígido, brilhante e colorido. Um legítimo cartão-postal.
Em pleno ano de graças virtuais, receber um postal é quase um milagre arqueológico. Olhei a imagem na frente: uma praia paradisíaca, coqueiros perfeitamente alinhados, areia branca e um mar tão absurdamente azul que chegava a arder nos olhos. No verso, a caligrafia tremida, mas inconfundível, da minha tia-avó Clotilde. Aquela letra desenhada à caneta esferográfica azul, que imediatamente me fez cheirar bolo de fubá quentinho e naftalina de armário antigo.
Sorri sozinho no portão, tomado por uma onda instantânea de saudade. Que sensibilidade a dela! No meio de suas merecidas férias em Maceió, aquela senhora de setenta e oito anos se deu ao trabalho de caminhar até uma banca de revistas, escolher uma imagem bonita, procurar uma agência dos Correios, comprar um selo e me enviar uma lembrança física. Fiquei genuinamente emocionado. A saudade é mesmo um bicho bonito que encurta distâncias através do papel, pensei, quase lacrimejando de puro lirismo matinal.
Aproximei o cartão dos olhos para ler a mensagem manuscrita. Dizia exatamente assim:
"Querido sobrinho, as coisas por aqui estão divinas. O sol está radiante e o mar é uma pintura. Uma pena que o seu primo Carlinhos não veio. Pensamos muito em você ontem à noite, quando o pneu do carro furou na estrada deserta e fomos assaltados por dois rapazes numa moto. Levaram as malas, o estepe e o relógio de ouro do seu tio. Reze por nós. Beijos afetuosos, Tia Clotilde."
Pisquei duas vezes. Afastei o cartão. Aproximei de novo. Olhei para a praia paradisíaca na frente. Olhei para o texto no verso. O contraste entre a calmaria daquela areia dourada da foto e o drama do assalto à mão armada relatado no texto era uma verdadeira obra de arte do surrealismo brasileiro.
A sensibilidade da tia Clotilde opera em frequências magnéticas que a lógica humana desconhece. Ela conseguiu resumir uma tragédia familiar de proporções épicas com a mesma leveza de quem comenta sobre o preço do quilo do tomate no mercado. "Levaram as nossas roupas, estamos sem dignidade, mas olha que lindo este coqueiro da foto!".
O pânico começou a se instalar. O grande problema das cartas e postais é que eles viajam no tempo em uma velocidade muito própria. Qual era a data daquilo? Não dava para entender o carimbo dos Correios, que parecia um borrão de graxa. Minha cabeça virou um turbilhão de mal-entendidos e teorias conspiratórias. Eles foram assaltados ontem? Estavam perdidos na estrada? Sem dinheiro para o hotel? Passando fome em Maceió?
Larguei a mochila no chão e liguei desesperado para a minha mãe, a central oficial de fofocas e boletins médicos da família.
— Mãe! Pelo amor de Deus! A tia Clotilde foi assaltada em Maceió! Mandou um postal dizendo que levaram tudo! Eles estão bem? Estão em algum cativeiro? Precisamos mandar dinheiro?
Do outro lado da linha, ouvi um silêncio de três segundos, seguido por uma gargalhada estrondosa que quase estourou o alto-falante do meu celular. Minha mãe chorava de rir.
— Ah, meu filho, você recebeu o postal hoje? Menino, esse assalto aconteceu na primeira semana da viagem! Eles já voltaram para casa faz mais de um mês! O seguro do carro já pagou o prejuízo e o seu tio até comprou um relógio novo no shopping ontem.
— Mas mãe... por que ela mandou isso então? — perguntei, ainda processando o Alerta Vermelho desnecessário.
— Ora, porque ela é a sua tia! Ela escreveu o postal na noite do assalto para desabafar, mas esqueceu de postar. Aí, no dia de ir embora, ela achou o cartão na bolsa e pensou: "Não vou desperdiçar o selo que já paguei". Ela só esqueceu de avisar no texto que tudo já tinha se resolvido!
Desliguei o telefone, olhando para o postal na minha mesa de trabalho. A saudade romântica e a preocupação apocalíptica que me dominaram minutos antes se transformaram em uma crise sincera de riso terapêutico.
Colei o cartão com um ímã na porta da geladeira, bem ao lado do panfleto da pizzaria do bairro. Toda vez que esta ou as próximas segundas-feiras começarem pesadas, cansativas ou cheias de problemas, vou fixar meus olhos bem no meio daquela praia linda de Maceió. Vou respirar fundo e lembrar que, não importa o quão ruim esteja o meu dia no escritório, pelo menos eu não estou parado em uma estrada deserta, esperando o guincho, sem cuecas na mala e sem o relógio de ouro, enquanto minha tia-avó procura um selo postal para registrar o momento.
Obrigado pela perspectiva de vida e pelo teste cardíaco, tia Clotilde.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título máximo das Letras, em Portugal; No Brasil, Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
Fontes:
FELDMAN, José. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2016.
biografia: Antonio Miranda; Ed. Pragmatha; Bonde; Francsico Pessoa, UFRJ, etc.
