quarta-feira, 17 de junho de 2026

Renato Benvindo Frata (A cobrinha sobre o A)


Um dos maiores pecados que minha família cometeu (eu, como caçula, me incluo) foi o de não ter dado à minha mãe, quando jovem, o direito de aprender a ler e a escrever. Ela só teve a oportunidade pelo Mobral, já com um dos pés na velhice.

Na sua época, o direito à aprendizagem escolar era do homem. A elas, os deveres domésticos e maternais, as “prendas domésticas” convertidas no lavar, arrumar, cozinhar, bordar, parir, cuidar. As tarefas de lidar com o dinheiro: comprar, vender, receber, pagar, fazer contas ou se comunicar por escrito, cabiam somente a eles.

Quando minhas irmãs penavam ao me ensinarem as tarefas escolares, ela se sentava ao lado, e calada, admirava a magia da junção das letras para formar palavras. Mas nunca, nem eu, nem elas, fomos capazes de lhe colocar um lápis entre os dedos e ensiná-la.

Pudesse voltar no tempo... Mas não. Não fomos capazes de conceder esse direito. Nem quando ela, ao ouvir pelo rádio, a oferta do curso de aprendizagem pelo Mobral. Decidida, ela se dispôs a andar quarteirões pelas ruas escuras e buscar, nas carteiras escolares daquele projeto, a bênção do aprendizado. Meus cadernos deixados incompletos por relaxo foram, um a um, aproveitados nos seus escritos tremidos, de a a z a formar palavras, que até ali ela somente sabia dizer, não ler, nem escrever.

Levando meus olhos para o ontem, vejo, na escuridão do tempo, ela debruçada à mesa ao lado do fogão que, ressentido com as últimas brasas, a acompanhava nos estudos. E ela escreveu: “a menina abriu o portao”. Sem o til. Ainda não havia aprendido o uso dele nos sons anasalados das letras. E a ensinei, diante de seu olhar crescido, quase fosforescente, de agradecimento, a colocar a ‘cobrinha’ sobre o a.

Por que me lembro agora? Não sei. Talvez a saudade, essa marota que sai a cutucar lembranças belas e más, satisfatórias e doloridas, me sirva para avaliar o tempo que não aproveitei como devia.

Diante da edição do Diário da última terça, dia 9, lembro que o DN acabou de lançar mais uma etapa do seu belíssimo projeto: “Semeando Leitores”. Ele visa incentivar os jovens à leitura e à escrita na formação da cidadania.

Motiva o hábito da leitura para que nossas crianças desenvolvam imaginação, vocabulário, criatividade, empatia, concentração e senso crítico, habilidades que as acompanharão por toda a vida.

Se você, amigo leitor, tiver uma criança à sua volta, não perca a oportunidade que minha família perdeu. Ensine-a na boa prática da leitura, e deixará de cometer os pecados pelos quais pagamos o preço.
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    RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU