quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Miriane Willers (Quem sabe isso quer dizer amor)

(Inspirado na música “Quem sabe isso quer dizer amor”, do Milton Nascimento).

Ele dorme ao meu lado. Mesmo assim, sei que estou só. Eu e algo incômodo, que há tempo me perturba, me preocupa, me desconcerta. Mas, não quero pensar nisso agora... Aqui estamos depois de uma transa. Nem dá para acreditar! Foi bom! Quase perfeito! E isso me assusta. Delícia e culpa. Ele dorme tranquilamente. O quarto - esconderijo improvisado - está em silêncio.

Lá fora, o barulho do mar.

Acaricio de leve seus cabelos. Não quero que acorde. Embora eu tenha tanto para falar. Mas, não teria coragem. Não depois desta noite. Quem diria, nós dois? Lembro quando nos conhecemos. Chegou num fim de tarde no bar onde trabalho e pediu uma bebida. O dia tinha sido difícil. Trocamos algumas palavras, alguns sorrisos e olhares. Que jeito de falar! Logo pensei cá comigo: - uma voz dessas no meu ouvido faria um estrago. E não me enganei.

Dias depois ele voltou. E na outra noite, mais outra. Falamos da rotina, dos filhos, do trabalho - era um advogado importante. Viajava muito. Nos tornamos quase amigos. E trocávamos e-mails. Telefonava. Depois sumia por vários dias... E eu continuava lá, no bar, esperando.

Agora, aqui estamos neste quarto. Preciso de um cigarro. Ou preciso falar. Que mania que tenho de falar, falar, falar quando algo não vai bem.

Deve ser para chamar a atenção. Sou dessas pessoas fáceis de serem esquecidas... E ele tão importante! Tem tanta coisa que eu queria falar para ele. Da minha vida. Dos livros que estou lendo. Daquela poesia que queria ter escrito. Da minha infância. Do meu cachorro, desses salsichinhas elétricos, que latem o dia todo. Dos meus enganos. Das minhas inquietudes. E agora tem essa coisa que começou a doer dentro de mim. E eu não sei o que é.

Estranha essa mistura de prazer e dor.

Melhor não. Foi uma aventura. Somos só amigos. E desses nem tão chegados. Nunca saímos para jantar. Ou para dançar. Ou para uma caminhada. Nem fomos vistos juntos na rua. Somos amigos, mas nada muito profundo, nem muito próximo. Bem que eu gostaria de ser menos complicada.

Ser feliz, sem pensar, somente sentir. Mas não dá. Não é bem assim. Não com nós dois. Cada um tem sua vida lá fora. Somos diferentes.

Ele vira de lado e segue dormindo. Ele não me conhece por inteira, mesmo que tenha transado comigo. Nem percebeu meu coração. Já não consigo ficar deitada. Que dor estranha é essa, aqui dentro? Quem sabe o que isso quer dizer. Melhor ir.

Silenciosamente, visto minhas roupas. Com o sapato e o coração nas mãos, olho para ele mais uma vez. Apago a luz. Devagar fecho a porta e saio para a rua. Logo vai amanhecer. As ondas vão e vêm. E essa dor que não se acalma!
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Miriane Willers é advogada, professora universitária, escritora. Mestre em Direito pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) – Campus de Santo Ângelo-RS. Integrou a Associação São-Luizense de Autores (ASAS). Premiada em concursos literários. Publicou poesias e prosas em jornais, revistas e coletâneas. Participa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose Cursos e da Oficina Santa Sede.
Fontes:
Biografia : https://www.mirianewillers.com.br/
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Marcelo Spalding (Os direitos do leitor)

Muito se fala sobre o dever de ler, a importância da leitura. Mas ler não é um dever, ler é um direito de todo cidadão, pois a leitura nos constitui como seres pensantes e nos permite participar da arena das ideias, representada em palavras escritas ou faladas.

O texto que melhor trata do direito da leitura é chamado "Os direitos imprescindíveis do leitor", publicado no livro "Como um romance", de Daniel Penac. Abaixo reproduzo seus 10 tópicos e algumas de suas justificativas.

I | O direito de não ler 

"(...) O dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a "necessidade de livros". Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela. É uma tristeza imensa, uma solidão dentro da solidão, ser excluído dos livros – inclusive daqueles que não nos interessam." 

II | O direito de pular páginas 

"(...) se não decidem por si mesmos por aquilo que está à disposição, pulando as páginas de sua escolha: outros o farão no lugar deles. Outros se armarão das grandes tesouras da imbecilidade e cortarão tudo que julgarem "difícil" demais para eles. Isso dá resultados assustadores. Moby Dick ou Os miseráveis reduzidos a resumos de 150 páginas, mutilados, estragados, raquíticos, mumificados, reescritos para eles numa linguagem famélica que se supõe ser a deles. Um pouco como se eu me metesse a redesenhar Guernica sob o pretexto de que Picasso tivesse jogado ali traços demais para um olho de doze ou treze anos."

III | O direito de não terminar um livro

"(...) Ao contrário das boas garrafas, os bons livros não envelhecem, somos nós que envelhecemos. E quando nos acreditamos suficientemente "maduros" para lê-los, nós os atacamos mais uma vez. Então, das duas uma: ou o reencontro acontece ou é um novo fiasco. Talvez tentemos de novo, talvez não. Mas o certo é que não é por culpa de Thomas Mann se não pude, até hoje, chegar ao cume de sua Montanha mágica."

IV | O direito de reler

"Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sobre um outro ângulo, reler para verificar, sim... nós nos concedemos todos esses direitos. Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr à prova a intimidade. (...)"

V | O direito de ler qualquer coisa

"(...) Chegou o momento em que pedimos ao romance uma outra coisa que não seja a satisfação imediata e exclusiva de nossas sensações. Uma das grandes alegrias do "pedagogo" é – toda leitura sendo autorizada – a de ver um aluno bater sozinho à porta da fábrica Best-seller para subir e respirar na casa do amigo Balzac."

VI | O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)

"(...) Em outros termos, não é porque essa mocinha coleciona Sabrina que ela vai acabar engolindo arsênico numa concha. Forçar a mão nesse estágio de suas leituras é nos separar dela, negando nossa própria adolescência."

VII | O direito de ler em qualquer lugar

VIII | O direito de ler uma frase aqui e outra ali

"Eu colho, nós colhemos, deixemos que eles colham, ao acaso. É a autorização que nos concedemos de pegar qualquer volume de nossa biblioteca, de o abrir em qualquer lugar e de mergulharmos nele por um momento, porque só dispomos, justamente, desse momento. (...) Quando não se tem nem o tempo nem os meios de se oferecer uma semana em Veneza, por que se recusar o direito de passar lá cinco minutos?"

IX | O direito de ler em voz alta

X | O direito de calar

"O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. (...) Os raros adultos que me deram a ler se retraíram diante da grandeza dos livros e me pouparam de perguntas sobre o que é que eu tinha entendido deles. A esses, claro, eu costumava falar de minhas leituras. Vivos ou mortos, ofereço a eles essas páginas."
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Marcelo Spalding é jornalista, professor, escritor e editor, com 10 livros individuais publicados e mais de 150 livros editados. Professor de oficinas de Escrita Criativa presenciais e online desde 2007, fundou e dirige a Metamorfose Cursos. É pós-doutor em Escrita Criativa pela PUCRS, doutor e mestre em Letras pela UFRGS e formado em Jornalismo e Letras. Ex-professor universitário, atuou como professor de Escrita Criativa e Jornalismo na graduação e no PPG Letras da UniRitter, além de coordenar o Pós-graduação em Produção e Revisão Textual e a Editora UniRitter. É idealizador do Movimento Literatura Digital, editor dos sites minicontos.com.br e escritacriativa.com.br e autor do livro Escrita Criativa para Iniciantes, além de ter criado o primeiro jogo de tabuleiro de Escrita Criativa do Brasil.

Fontes:
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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 75 *


Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/ RN

No teu olhar eu contemplo
seja no instante que for,
mãe - o viés de um exemplo,
dando-me, exemplos de amor!
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

O telefone
"Vou levantar-me e percorrer
a cidade "(Ct. 3.2)

Naquela noite estava angustiado,
Queria ouvi-la no telefone;
Meu coração, tão inconformado,
Olhava atento o calado fone.

"Corre, ponteiro! Silêncio, passa!"
Silêncio aquele me perturbava;
Eu pressentia perder a graça,
Ao ver minh'alma que soluçava.

Era soluço com dor silente,
Queria tanto meu bem distante;
Aquela dor torturava a mente,
Enlouquecendo-me num só instante.

Estava assim a entregar-me à dor,
Pra mim dizia: "Que infeliz eu sou!
Está bem longe o meu doce amor!"
Foi quando, enfim, o fone tocou...

- "Alô, amor! Meu amor, sou eu!"
Minh'alma foi delirar em riso;
Com a esperança que se acendeu,
Você tornou-se meu paraíso.

Falou-me tanto - doce paixão!
Que foi difícil dizer o adeus:
- "Tchau, meu amor", foi dizendo, então,
"Um beijo, um beijo!… Fique com Deus!”
= = = = = = = = =  

Trova Premiada de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Pureza de coração  
é como a luz do luar,  
ilumina a escuridão  
e faz a alma respirar.
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Poema de
MACHADO DE ASSIS 
Rio de Janeiro/RJ, 1839 – 1908

Maria

Maria, há no seu gesto airoso e nobre,
Nos olhos meigos e no andar tão brando,
Um não sei quê suave que descobre,
Que lembra um grande pássaro marchando.

Quero, às vezes, pedir-lhe que desdobre
As asas, mas não peço, reparando
Que, desdobradas, podem ir voando
Levá-la ao teto azul que a terra cobre.

E penso então, e digo então comigo:
"Ao céu, que vê passar todas as gentes
Bastem outros primores de valia.

Pássaro ou moça, fique o olhar amigo,
O nobre gesto e as graças excelentes
Da nossa cara e lépida Maria".
= = = = = = = = =  

Trova de
DINAIR LEITE
Paranavaí/PR

A voragem da paixão
é como um barco sem rumo,
deriva sem direção,
sem timoneiro e sem prumo…
= = = = = = 

Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Tudo dá saudade...

De madrugada,
Deixei as dobras
Da camisa de seda,
Feito
Pequenas ondas acariciarem
Meus seios, colo e braços...
Hoje de madrugada,
Entreguei-me às lembranças
Da maciez dos teus lábios
Doce invasão - permitida -
Do gosto delicioso e único
Dos teus beijos –
Deixei que as notas mescladas
Dos nossos perfumes me envolvessem,
Intensamente...
Hoje de manhãzinha,
Deixei as gotas de orvalho
Umedecerem meu corpo,
Banharem minh'alma
E senti  a presença do teu vento,
Do toque Sutil – incandescente
Das tuas mãos, desvendando
Com as pontas dos dedos
Caminhos em mim -
Tudo dá saudade...
= = = = = = 

Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

Tu deixaste a leitura interrompida
(Mário Quintana, in “Rua dos Cataventos”)

Tu deixaste a leitura interrompida
Nas linhas de um parágrafo qualquer
Quando foste atender uma mulher
Que à porta perguntava por guarida.

O livro que tu lias era a vida
Prosseguir a leitura era mister
Mas tu, que sempre acolhes quem vier
Disseste que a visita era querida.

Não lhe viste esse olhar desfigurado
Nem a foice cravada no cajado
Quando ela em tua casa se instalou.

Para te dar trouxe as trevas e um açoite
E ao partir, logo nessa mesma noite
Com ela, de mãos dadas, te levou…
= = = = = = = = = 

Trova de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Em cada tarde a cair,
vejo a vida em agonia,
aos poucos se despedir
na morte de mais um dia.
= = = = = = 

Soneto de
OLAVO BILAC
Rio de Janeiro/RJ, 1865 – 1918

Surdina

No ar sossegado um sino canta,
Um sino canta no ar sombrio...
Pálida, Vênus se levanta...
Que frio!

Um sino canta. O campanário
Longe, entre névoas, aparece...
Sino, que cantas solitário,
Que quer dizer a tua prece?

Que frio! Embuçam-se as colinas;
Chora, correndo, a água do rio;
E o céu se cobre de neblinas...
Que frio!

Ninguém... A estrada, ampla e silente,
Sem caminhantes, adormece...
Sino, que cantas docemente
Que quer dizer a tua prece?

Que medo pânico me aperta
O coração triste e vazio!
Que esperas mais, alma deserta?
Que frio!

Já tanto amei! Já sofri tanto!
Olhos, por que inda estais molhados?
Por que é que choro, a ouvir-te o canto,
Sino que dobras a finados?

Trevas, caí! que o dia é morto!
Morre também, sonho erradio!
- A morte é o último conforto...
Que frio!

Pobres amores, sem destino,
Soltos ao vento, e dizimados!
Inda vos choro... E, como um sino,
Meu coração dobra a finados.

E com que mágoa o sino canta,
No ar sossegado, no ar sombrio!
Pálida, Vênus se levanta...
Que frio!
= = = = = = 

Trova de 
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

A casa toda quebrada,
e o casal diz numa "boa":
- Mas que furacão, que nada,
foi só uma briguinha à-toa!...
= = = = = = 

Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN

Flores

Quando começa a raiar
O dia cheio de amor,
Eu gosto de contemplar
O coração de uma flor,

Desmaiada e tremulante,
Pendendo triste no galho,
Tendo o pistilo brilhante
Embalsamado de orvalho:

A rosa só me parece,
Assim tão casta e sem véu,
Um anjo rezando a prece
Um’ alma voando ao Céu.

Do jasmim puro e mimoso,
A corola embranquecida,
É como um seio formoso
De criança adormecida.

Esqueço-me, então, das horas
A contemplar estas flores,
As violetas, auroras,
Saudades, lindos amores.
= = = = = = = = =  

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP 1890 – 1969 São Paulo/SP

Outubro

Cessou o aguaceiro.
Há bolhas novas nas folhas
do velho salgueiro.
= = = = = = 

Poema de
CLÁUDIA CAROLA
Sesimbra/ Setúbal/ Portugal

Procura

Tenho saudades tuas, do teu abraço 
Tenho saudades de te ter no meu regaço 
Tenho saudades dos beijos tão intensos
Dos nossos diálogos pela noite, extensos

Tenho saudades da tua pele doce e quente
Tenho saudades do teu olhar que não mente
Tenho saudades de ao ouvido te sussurrar 
Tenho muitas saudades de te namorar

Porque és de outros tempos, outras eras
Porque continuamos em diferentes esferas
Porque nesta vida ainda não nos cruzamos
Porque nestes corpos ainda não nos amamos

Continuamos na demanda do nosso amor
Continuamos a caminhar curando a dor
Continuamos com fé que nos vamos encontrar 
Continuamos a acreditar que nos vamos amar
= = = = = = 

Trova de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

A canção que agora faço
vem da alma e do coração,
vem do céu e vem do espaço
esta minha inspiração!
= = = = = = 

Hino de 
JARDIM DO SERIDÓ/ RN

Quando o século dezoito findava
Dentre a lusa colonização
Ó, Jardim, tu nasceste tão alva,
Na fazenda de gado e algodão!
Embalaram teus sonhos os coqueiros
Que, no Cobra, se encontram altaneiros,
Enfeitando os céus do sertão!
Conceição do Azevedo,
Terra do amor!
Teu passado fulgente
Assegura o teu valor!
O teu solo e tua gente
Bem refletem sob o sol;
Vida e grandeza!
Salve Jardim do Seridó.
Tu surgiste entre rios e lajedo
E com fé, muito amor e emoção,
O segundo Antônio de Azevedo
Te sonhou: Vila da Conceição!
Hoje, alegres, teus filhos decantam
O progresso, a vida em flor!
Berço amigo de paz e de amor!
= = = = = = = = =  

Trova de
ALBANO BRACHT 
Toledo/PR

Tinge a noite a luz da aurora.
Sonha a lua em despedida.
Doce orvalho a flor namora.
E o amor o sol da vida.
= = = = = = = = =  

Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

Viver o agora

Chegou o tempo de viver o agora
Essa proposta que a vida nos trás
E o nosso coração sempre elabora
Uma resposta que a nós satisfaz.

Navegando por águas mais tranquilas
Com  esta  vontade e a mente bem  leve
Poderá, com certeza,  então segui-las:
 Paz, Alegria e a estima que eleve.

E nesta liberdade  que terá
Sem ter de pra ninguém justificar
Qualquer coisa que faça lá ou cá.

Portanto amiga seja bem feliz
Com  tanto amor só pode conquistar
A vida sem censura como diz.
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Trova de
ANTONIO JURACI SIQUEIRA
Belém/PA

Na tua imagem gravada
sobre as dunas da ilusão,
deixei, em cada pegada,
pedaços do coração!...
= = = = = = = = = 

Uma Lengalenga de Portugal
ERA UMA VEZ…
 
Estas lengalengas eram usadas como efeito cômico, quando as crianças pediam a alguém que lhes contasse uma história e o narrador não tinham nem tempo, nem paciência para as contar, calando-as com estas rimas curtas.

Era uma vez
 Uma galinha perchês
E um galo francês
Eram dois
Ficaram três…
Queres que te conte outra vez?
 
*** 
Era uma vez uma vaca
Chamada Vitória
Morreu a vaquinha
Acabou-se a história
E depois?
Depois…
Morreram as vacas
Ficaram os bois
= = = = = = = = =  

Quadra Popular de
AUTOR ANÔNIMO

Eu quero bem à desgraça
que sempre me acompanhou;
mas tenho ódio à ventura,
que bem cedo me deixou.
= = = = = = = = =  

Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba / PR

De repente

De repente
Um quê de fada,
De anjo, de estrela,
Brilhou diferente entre os cachos de flores.
Borboletas...
Pequenas e ligeiras
Almas com asas,
Tingidas com pó de arco-íris
Rasgam o vento tão leve
Tal como o sono inocente.
Sonha em mim,
Coração em pétalas 
No suave pousar das borboletas.
Em silêncio falam aos meus olhos
De um mundo de paz, 
Amor e poesia. 
= = = = = = = = =

Trova de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Destituído de riqueza,
não leve a vida a desdouro
e assimile esta certeza:
- ter vida é ter um tesouro!
= = = = = = = = = 

José Feldman (Zumbis Digitais)

Nos dias de hoje, caminhamos pelas ruas e nos deparamos com uma cena cada vez mais comum: pessoas imersas em seus smartphones, com os olhos fixos nas telas e os dedos deslizando freneticamente. É como se estivéssemos cercados por zumbis, vagando sem rumo, alheios ao que acontece ao nosso redor.

A cada esquina, vejo grupos de amigos que, em vez de se entreterem uns com os outros, estão absortos em suas redes sociais. Os risos e as conversas são substituídos por notificações e curtidas. Quando um deles finalmente levanta a cabeça, é como se despertasse de um transe, surpreso com a realidade ao seu redor. "Oi, você chegou?", pergunta um, sem saber que o outro estava ali o tempo todo, apenas em uma realidade paralela.

O mais curioso é que, enquanto as pessoas estão tão conectadas aos seus dispositivos, a desconexão com o mundo real se torna evidente. Cumprimentos são ignorados, sorrisos trocados são despercebidos. Às vezes, um simples "bom dia" se transforma em um eco perdido no vazio da atenção fragmentada. O que era uma interação natural e espontânea se torna uma raridade em meio ao zumbido constante de mensagens e atualizações.

Dentro de casa, a situação não melhora. Famílias reunidas à mesa, mas cada um preso em seu próprio universo digital. As conversas se resumem a comentários sobre o que foi postado na internet, enquanto o cheiro da comida esfriando e o calor do afeto se perdem na distração. O diálogo se torna superficial, quase uma obrigação, enquanto as telas dominam a cena.

Essa era digital trouxe inegáveis avanços, mas também um preço alto: a perda da conexão humana. Os pequenos momentos, aqueles que costumavam nos unir, estão se dissipando. As risadas compartilhadas, os abraços sinceros, os olhares cúmplices foram substituídos por emojis e gifs. E assim, enquanto as notificações pipocam, o verdadeiro mundo ao nosso redor se torna um cenário desbotado, quase esquecidos.

E quando, finalmente, decidimos olhar ao nosso redor, percebemos que estamos cercados por seres humanos incríveis, com histórias para contar e experiências para compartilhar. 

Que tal baixar a tela por um instante e voltar a sentir o calor da presença de alguém? As conexões genuínas são o que realmente nos fazem humanos. Afinal, viver não é apenas existir entre pixels, mas sentir, rir e amar de verdade.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Conto do Vigário”

A expressão "Conto do Vigário", da qual deriva uma outra igualmente desabonadora - vigarista - diz respeito a golpe, trambique, artimanha, trapaça ou fraude, onde a vítima é miseravelmente enganada por meio de uma história bem elaborada, fantasiosa, rocambolesca, mas bem bolada e convincente. 

Sua origem remonta às antigas, em que os vigaristas, que não utilizavam violência física, porém a lábia como arma de ataque, se passavam por representantes do vigário ou usavam sem pudor a figura do próprio vigário, para lhes emprestar credibilidade, alicerçando melhor seus golpes. 

Assim, "Conto do Vigário" tem raízes históricas lastreadas em práticas enganosas que se popularizaram em Portugal e no Brasil, aperfeiçoando-se através dos tempos, principalmente na era da internet para aplicação de golpes contra os incautos, agora com a decisiva contribuição da inteligência artificial, que adultera com fidelidade a imagem e a voz das pessoas, para divulgação escancarada de mentiras, engodos, burlas e falsificações. 

Em tempos de crise econômica, com elevado desemprego e redução salarial, fazendo aumentar a angústia coletiva, é até compreensível, embora não aceitável, a proliferação de golpes por pessoas despidas de escrúpulos, que se aproveitem da aflição alheia para faturar alto, seja oferecendo produtos ou serviços prometendo excelentes resultados, com quase nenhum esforço e sem sair de casa, desde que mediante determinado investimento, que sem dúvida vai fazer falta ao infeliz, que piamente acredita no suposto milagre. 

Medicamentos anunciados com alarde, que prometem resolver as dores físicas ou psicológicas dos que padecem, são ofertados todo dia pelo rádio ou TV, com a ressalva de que não podem ser encontradas em farmácias convencionais, para serem adquiridos mediante compra virtual, com pagamento adiantado, de insuscetível devolução ou estorno se o “tratamento” resultar frustrado. Puro golpe, com milhares de vítimas engordando a conta bancária dos espertalhões, refinados profissionais do “Conto do Vigário”. 

Também é comum nas redes sociais conselhos sobre como aplicar melhor o suado dinheiro de cada qual, com golpistas acenando com enriquecimento fácil ou investimentos de alto rendimento, o que acaba em decepção, pois nada de milagroso ou imprevisível acontece no mercado financeiro ou no mercado de ações, atrativos irresistíveis para quem deseja acumular fortuna, levando vida mansa. São “pegadinhas” de vigaristas e o final é bastante conhecido: os “investidores” depenados e o pilantra levando vida de barão. Os idosos, por índole crédulos ou necessitados, são as vítimas prediletas dos escroques.

Uma das versões mais anedóticas da origem dessa expressão, envolve uma acirrada disputa entre duas igrejas - do Pilar e de N. S. da Conceição - por uma bela imagem de Nossa Senhora, onde um dos vigários, como forma de encerrar a contenda, propôs que se amarrasse a dita imagem a um burro para deixá-lo escolher a igreja sem interferência de ninguém. Pactuaram que para onde o animal fosse, a venerada Santa ficaria lá. O tal burro, que desde novo pertencia ao vigário da igreja do Pilar e por isso era apegado ao dono, acabou rumando para aquele templo, garantindo àquela igreja a posse definitiva do ícone religioso, revelando-se a esperteza do sacerdote só muito tempo depois. 

Existe uma outra versão sobre a origem da expressão. No século XIX, várias pessoas se apresentavam como se fossem emissários do vigário, solicitando ajuda financeira para que pudesse ser guardada em segurança, suposta mala recheada de dinheiro. Após acumular os mil-réis alheios com essa conversa mole, o espertalhão sumia com a grana recebida, para repetir o mesmo golpe em outras cidades, onde o povo é receptivo e solidário aos pedidos de ajuda. 

Na música brasileira, o festejado Trio Parada Dura interpreta a música “Conto do Vigário”, composição de José Homero, destacando-se a última estrofe do texto poético, que aborda o tema: 

“Casamento não prende ninguém
não obriga ninguém ser otário
se pra um ele é loteria
para mim foi conto do vigário”

Na literatura, o livro do escritor José Augusto Dias intitulado “Os contos e os Vigários”, trata de episódios sobre o “Conto do Vigário”, abordando uma gama de fatos reais que podem ser analisados. Referido livro contém inúmeras referências de fontes importantes, tentando entender esses laços de sociabilidade - se é que se pode chamar assim - entre o vigarista e sua vítima. 

No trecho a seguir pode-se identificar a reação e o sentimento do otário em relação ao ocorrido, que no papel de vítima, talvez desejasse ser ele mesmo o vigarista, daí sua frustração: 

“Aqueles que são enganados acabam finalmente por adquirir a pungente consciência de que se tornaram vítimas de tramoias bem armadas, mas tão poucos procuram a polícia ou a imprensa para reclamar do fato – com isso interrompendo, como já vimos, os circuitos pelos quais tais acontecimentos poderiam chegar a ser posteriormente conhecidos. há dois motivos básico para isso e um deles é absolutamente banal: a vergonha!”

Isto acontece porque ninguém quer passar por otário. Tal premissa, adaptada, burilada e deturpada pelos vigaristas, tornou-se nacionalmente conhecida como é ainda hoje - "Conto do Vigário" - usado para descrever fraude ou enganação, envolvendo história fantasiosa e persuasiva. Nesse contexto, “vigarista” ou “golpista” dá no mesmo: indica quem se aproveita da confiança e da ingenuidade de outrem para tirar proveito, principalmente financeiro. 

O vigarista é e sempre será um trapaceiro, indivíduo cheio de manhas e astúcias; espertalhão, finório e ladino, trampolineiro contumaz em busca de vantagens. Popularmente virou “trambiqueiro”, porém sua saga estará sempre ligada a golpes e fraudes, praticadas com a torpeza dos que nasceram com esse duvidoso talento. Tenha portanto, muito cuidado com eles ou com elas!...
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.
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Fabiana Correa (Joaquina)

Encontrei Joaquina já acordada, encolhida sob o manto ressecado. De seu corpo desgastado, restava-lhe a pele sulcada e ossos em pronunciados nós. Quando cheguei com seu café da manhã, me disse o bom dia costumeiro, sem fixar o olhar. Sorveu lentamente o café com leite e pedaços mergulhados de biscoito. Permaneci calada ao seu lado. Era esse o nosso ritual:o café silencioso. Somente quando me entregava a xícara vazia, nosso diálogo começava.

- Tive uma noite de sonhos cheios de memórias dos anos que não conto mais.

- Mas isso é bom, Joaquina. Você não teve uma vida feliz? Não viveu por suas escolhas, como costuma nos contar?

- Mas vivi por muitas vidas. Não precisava tanto.

Deixei Joaquina com suas memórias e fui lhe preparar o banho. Quando voltei, chamei por ela mas não me respondeu. Quase sempre era assim. Continuei nossa rotina, conversando sobre o tempo, o sabonete novo e a toalha macia. Debaixo da água morna, seu olhar passeava por algum lugar não visto, mas que a fazia sorrir. Terminado o banho, fomos para o jardim. Joaquina adorava o tempo de sol porque, segundo ela, ele lhe aquecia os ossos e consumia o azedume alma. Caminhamos lentamente, braços dados, até o seu banco preferido. Depois de se acomodar, Joaquina pôs-se a falar, guardado os olhos bem fechados.

- Meus sonhos hoje não foram desbotados e trouxeram um tempo feito de cores muito vivas. Eu usava vestido de renda e flores, com laço de fita nas tranças e sapato de verniz. Minha casa tinha perfume de canela e a janela ficava sempre aberta ao sol. Por ela, vi o desfile do circo, a retreta da banda, procissão do Santíssimo e até o retorno dos três pracinhas manchados de guerra. Vi cortejos de casamento e também de encerramento. Acenei para muitos, recebi sorrisos e desejei boas novas. Aos que partiam da cidade, entregava sempre um pacotinho com biscoitos de nata bem fresquinhos para distrair na viagem. Aos que chegavam, esperava com o chá ou café, o que a saudade pedisse. Eu dei adeus à Maria Fumaça e ganhei uma lanterna de lembrança do maquinista que um dia quisera ser meu noivo. Tive muitos pretendentes. Para todos tive um sorriso, uma palavra amiga, às vezes até um docinho de frutas, mas nunca dei meu coração. Eu sonhava com as estrelas, ajudava os bebês a nascerem, preparava as grinaldas para os casamentos, arrumava o andor da santa e o presépio no Natal. Minha vida era cheia de afazeres, e a minha janela era do tamanho do mundo. Mas um dia eu não abri a janela. Não fiz o café. Acordei com desmemória, cansada dos fazeres e lembranças. Uma vida de muitos anos traz muitos cansaços, menina.

Joaquina se calou depois de vazar suas memórias e entregou o corpo à sua respiração cansada. Acompanhei seu silêncio, e aproveitei o sol imaginando a vida que Joaquina tivera. Não percebi o tempo passar até que o sinal do almoço me despertou.

- Hora do almoço. Vamos, Joaquina?

Joaquina me olhou com olhos vagos. Procurou algo ao redor e fez uma careta.

- Quem é Joaquina?

- Joaquina é minha amiga - disse eu, sorrindo - e vamos logo, antes que a comida esfrie.

Fizemos, em silêncio, o caminho de volta em passos lentos e lembranças desbotadas.
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Fabiana Corrêa é escritora e artesã e foi professora de Biologia e Ciências  e coordenadora de projetos na área ambiental e cultural. Nascida em Bom Jardim, reside em Cordeiro/RJ, o que torna os vales e montanhas do interior fluminense seu principal campo de colheita para a escrita e artesania. Escrevendo para crianças, jovens e adultos, seus textos tratam de sentimentos que habitam os campos da imaginação, do sonho e da poesia. Como a arte também é uma das casas que habita, mescla a artesania de fios e tintas com a das palavras. Entre seus livros infantojuvenis publicados estão: História de um Cambucazinho; Sonho de Canoa; Quero minha água de volta; Era uma vez Euclydes e As Palmas de Marina (no qual também é ilustradora). Os seus livros de poesia são: Asas de Poesia, desfolhada, Pérgola do Tempo e Espirais, enquanto os de contos são: Contos Desatados; Contos de Enganar o Tempo, Contos Germinados e Tecido do infinito. A escritora tem participação, também, em diversas antologias.

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