sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Adnelson Campos (O mago do futuro)

Thomaz seguia pela Main St, deixando Downtown. Houston parecia mais silenciosa hoje, os veículos dominavam a paisagem. O mundo mudou muito nesses primeiros cinquenta anos do século XXI. A população mundial está em declínio, impactada pelas doenças mentais. A síndrome do pânico alastrou-se, se tornou mortal e é conhecida apenas como A Síndrome. Homens e mulheres estão mais distantes, a reprodução humana passou a ser predominantemente assistida e alguns cientistas aproveitam isto para realizar seus experimentos, modificando geneticamente os seres humanos. A antiga ideia de purificação de uma raça foi resgatada com a possibilidade de manipulação do DNA e os “puros” e seus criadores detém o poder.

O mundo de cristais e componentes eletrônicos comanda a vida das pessoas que são identificadas através de leitores de perfil de DNA e tem cada passo monitorado em qualquer parte do globo terrestre. Assim os indivíduos procuram isolar-se ao máximo. Os feiticeiros modernos são aqueles que conseguem proezas tecnológicas como o teletransporte de alguns materiais, a leitura e o controle de mentes, o uso compacto da energia atômica, o controle do hidrogênio como fonte de energia ou a sintetização de alimentos. Há quem diga que alguns conseguem recriar a vida de animais e até de seres humanos.

O caminho até o número 5085 da Whestheimer Rd parecia interminável. Anna já deveria estar quase chegando para o encontro. Lembrou-se de quando a conheceu. Apaixonado por física e química ele escolheu o curso de engenharia biomolecular de uma universidade americana. Precisou conhecer um pouco de biologia e medicina e quando estava no primeiro ano de sua especialização foi apresentado à caloura do curso de medicina. Antes mesmo que ele tivesse dito qualquer coisa ela já havia adivinhado seus pensamentos. Num primeiro momento afastou-se, depois, quando aprendeu a proteger-se, manteve-se próximo dela pelos cinco anos seguintes, até que ela voltou para a Sevilha na Espanha.

Thomaz tornou-se um supercientista, “O Mago”,e desenvolveu tecnologia para produzir suas máquinas fantásticas. Anna especializou-se em neurologia e psiquiatria, estudou a parapsicologia e tornou-se uma manipuladora de mentes, sendo conhecida no mundo especializado como “O Cérebro”. Thomaz e Anna admiravam-se mutuamente, porém nunca arriscaram uma relação mais próxima, preservando a amizade e as trocas de experiências científicas.

Anna o esperava na praça principal do edifício e observava as pessoas, lia suas mentes, fazendo experiências. Ela criou seus próprios limites éticos e brigava para manter-se dentro deles. Logo que Thomaz entrou, ela o percebeu e correu ao seu encontro.

- Thomaz, como você conseguiu chegar aqui sem ser identificado?

- Como vai, tudo bem? Esqueceu que eu sou o especialista em alterações genéticas? Pois bem, uma modificação no perfil de DNA para enganar um monitor é algo muito simples de se fazer.

- Faz tanto tempo que não nos encontramos pessoalmente e nem perguntei se estava bem. Perdoe-me. Fico imaginando os riscos que você tem corrido ultimamente.

- Está preparada? Um amigo emprestou-me sua clínica para o experimento, não fica muito longe daqui.

- Estou sempre pronta! Tem certeza de que é isso que quer?

- Tenho.

Durante a conversa, Thomaz se pegou com vontade de tocar as mãos de Anna, mas conteve-se. Já na clínica Anna pediu a Thomaz que explicasse novamente a sua proposta em relação de viagem no tempo. Ele começou recordando algumas ideias:

- Lembra-se da Teoria da Relatividade formulada por Einstein em 1905?

- Sim. Há 145 anos ele propunha que se pudéssemos viajar numa velocidade próxima da velocidade da luz, acelerando no espaço também aceleraríamos no tempo.

- Isto mesmo. Mas sempre esbarramos nas limitações físicas e tecnológicas para construir máquinas capazes de tal proeza.

- Você inventou uma máquina capaz disso?

- Não, ela existe desde que o homem é homem!

- Como assim?

– Já chegaremos lá, Senhora “Cérebro”. Conhece a teoria criada trinta anos mais tarde: a do Buraco de Minhoca? ? – questionou mais uma vez Thomaz.

- Ei! O mestre em física aqui é você. Eu sou aquela que desafia os seus cálculos e projeções e em contrapartida vocês chamam o meu trabalho de pseudociência, meu caro supercientista!

- Mas para desenvolver as suas teorias eu sei que estudou muito a Física.

- Da mesma forma que você tenta entender a mente humana e procurou conhecer a psicologia e a parapsicologia. Mas sei o que é um Buraco de Minhoca. Simplificando, seria uma espécie de abertura espacial, mais ou menos como um buraco negro, ligando dois pontos distantes e descontínuos no espaço-tempo quase que instantaneamente. O atalho no espaço também é um atalho no tempo. - explicou Anna.

- Por isso você é a minha parapsicóloga preferida!

- Deixe de ironias, seja mais objetivo, senão...

- Senão você assume o controle da minha mente e descobre tudo o que quer saber. Pois é justamente isto que preciso.

- Qual é a tal máquina capaz de viajar numa velocidade próxima ou superior a da luz, capaz de detectar ou criar um buraco de minhoca? E se for capaz de criar um buraco de minhoca, onde encontraria a energia ou a matéria para torna-lo estável?

- Estas são as mesmas perguntas dos cientistas nos últimos trinta e cinco anos. - disse Thomaz.

- E o meu supercientista já tem resposta para todas elas, suponho.

- Para todas não, mas as que eu tenho já me dão alguma vantagem na busca do conhecimento.

- Qual é a tal máquina? - insistiu ela.

- O cérebro humano. - respondeu Thomaz com um ar de seriedade.

- Certo, o pensamento, as projeções do pensamento podem viajar numa velocidade maior que a velocidade da luz. - pensou ela em voz alta.

- O nosso cérebro só utiliza uma pequena parte de sua capacidade sensível e que pode ser mais bem explorada com uma boa preparação e...

- E assim captar um Buraco de Minhoca microscópico e passar por ele. - completou Anna.

- Isto! Acredito que esta projeção mental possa juntar matéria do outro lado e até criar um corpo físico inteligente.

- E como isso seria possível?

- Manipulando o DNA! - responderam os dois ao mesmo tempo.

- E se neste ponto do universo não existir a matéria da forma que conhecemos? - questionou Anna.

- É um risco, que estou disposto a correr. Também acredito que encontrarei vida inteligente, civilizações avançadas e com os novos conhecimentos levarei adiante meu projeto.

- Sim, até agora discutimos como viajar no tempo e eu havia me esquecido de perguntar: qual o seu real objetivo com essa viagem no tempo?

- Acabar com a Síndrome.

- E como uma viagem para o futuro curaria as pessoas no presente?

- No presente não, no passado. Parece-me mais fácil viajar no tempo para frente. Acredito que no futuro encontrarei as respostas para voltar no tempo-espaço.

- Você sabe que se viajar para o futuro o tempo aqui na Terra passará muito mais rápido e se conseguir retornar poderá ser tarde demais!

- Por isso preciso descobrir como calibrar o tempo na minha jornada.

- Thomaz, satisfaça minha curiosidade, o que é este símbolo no fundo do mostrador de seu relógio?

- Este é o código do meu DNA original e estas duas outras marcas menores, logo abaixo, são as modificações que fiz nele, com a introdução de alguns genes como aqueles que facilitam a concentração e maximizam o desempenho da atividade cerebral.

- Achei que o DNA humano fosse representado por uma figura helicoidal, algo como uma escada em caracol!

- Defini o meu padrão com um código próprio, assim posso protegê-lo e configurá-lo novamente.

Eles passaram alguns dias planejando e preparando a viagem. Nas primeiras sessões Thomaz experimentou com sucesso projeções para locais pouco distantes. Evoluíram no processo até que numa das sessões ele foi mais longe e depois de uma viagem que não durou mais de quinze minutos encontrou Anna exausta. Ela havia passado a noite toda acordada ao lado do corpo de Thomaz, não queria perde-lo.

Numa nova sessão, a projeção mental de Thomaz começou a vasculhar o espaço na busca do túnel do tempo. Enquanto o processo se desenvolvia, ele descrevia para Anna o que via em sua frente e em pouquíssimo tempo ele ultrapassou as fronteiras do Sistema Solar.

Anna, maravilhada, imaginava cada coisa descrita por Thomaz. Aquilo precisava ser divido com outros cientistas e especialistas - pensava ela. Então seria essa a sensação de Johannes Kepler há mais de 500 anos atrás quando afirmou ter observado a Terra e a Lua de um ponto do espaço? Será que estas também eram as visões de Einstein? - continuou em seus pensamentos.

Com a velocidade desenvolvida ele conseguiria aproveitar a estabilidade momentânea de um Buraco de Minhoca e penetrar em frações de segundo no microscópico atalho do tempo-espaço. Thomaz ficou agitado e gritou:

- Anna, acho que consegui! No espaço há um ponto que ainda não visualizo, mas que me atrai. Deve ser o túnel.

Anna assustou-se, chamava por Thomaz que não respondia. Seu corpo estava inerte. A última expressão dele foi de um sorriso. Algo estranho começou a acontecer. Uma forte luz azul irradiava do corpo dele. Um odor adocicado e uma leve fumaça começaram a tomar conta do local. As luzes azuis davam lugar a uma chama que se alternava entre o verde, o laranja e o vermelho, transformando o corpo em cinzas. Havia apenas silêncio, nem ondas de calor se podia ver, ouvir ou sentir. Ao final, um clarão e um flash de luz azul que se deslocou rumo ao infinito. Ela não entendia o que estava acontecendo. Ficou paralisada por alguns instantes.

Nos dias seguintes Anna tentou comunicação mental com Thomaz, sem sucesso. Sem saber como agir, voltou para Sevilha. Sentia-se culpada por ter aceitado o desafio proposto por Thomaz. Estava arrependida de nunca ter falado para ele de seus sentimentos do quanto importante foi tê-lo tido em seu caminho. Isolou-se em casa.

Num domingo pela manhã decidiu visitar o local de Sevilha que mais gostava: La Giralda, a torre da Catedral Gótica. Pegou o Eléctrico e desceu na Porta de Jerez. Caminhou pelas ruas até chegar a Plaza Del Triunfo, na época inundada pelo perfume das laranjeiras. Disputou o espaço com os turistas nos lances de escada e venceu os 104 metros de altura do antigo minarete da mesquita, construído em 1172.

Lá de cima olhando pelo lado oeste da torre ela pode observar a Plaza de Toros de La Maestranza e mais adiante a Puente de La Barqueta sobre o rio Guadalquivir, o rio grande, de onde partiram as embarcações do descobrimento dos novos continentes. Pensando nos viajantes que se aventuravam no mar sem saber ao certo o que encontrariam, ela lembrou-se de Thomaz.

Ela ainda apoiava suas mãos sobre as pedras do campanário quando percebeu um símbolo gravado na pedra.

Imediatamente olhou para o relógio em seu pulso, o mesmo que Thomaz havia entregado a ela antes das sessões de projeção mental e que ela conserva no seu braço desde então. Era inacreditável, embora mais rústico o desenho na pedra era a mesma representação do perfil de DNA de Thomaz. Anna tinha certeza de que ele não estava lá antes, ela conhecia cada detalhe daquela torre que visitava desde muito pequena, porém a gravura só podia ter sido feita durante a construção do minarete. Seu amigo estava viajando no tempo!

Anna apanhou o telefone celular inseriu uma imagem de Thomaz e buscou imagens similares do passado, desde a antiguidade, que rapidamente surgiram na tela. Em todas elas a mesma expressão, como se Thomaz estivesse olhando diretamente nos olhos dela.

Ela esperou por Thomaz pelos dois anos que se seguiram. Neste período, sem que os cientistas conseguissem explicar, a Síndrome foi perdendo força e as pessoas voltaram a sorrir. Numa tarde, quando pegava um trem para Cádiz, um sujeito sentou-se ao seu lado. Usava um casaco de lã, um gorro e óculos escuros. Acostumada a indiferença das pessoas ela não deu importância a presença dele, que por telepatia perguntou-lhe:

- Por favor, doutora, que horas são?

- Não é possível! - exclamou ela olhando para o símbolo na placa metálica que o passageiro segurava.

- Senti sua falta.

- Eu também, Thomaz.
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Adnelson Campos é Administrador, especialista em gestão empresarial pela ESAG/UDESC e especialista em Gestão e Auditoria Ambiental pela FUNIBER. Trabalha na indústria de Oleo & Gás, desde abril de 1986. Atualmente trabalha na Paraná Xisto S.A. Reside em São Mateus do Sul – PR. Começou a escrever histórias de ficção em 2012, com vários textos selecionados e publicados em mais de cento e trinta antologias impres­sas e digitais. É autor do livro “Histórias que as estrelas contam – um pouco de astronomia para adolescentes” e “2044 – Transcendente: uma viagem note tempo”. Durante cinco anos manteve a Coluna “Prismas” no Jornal Gazeta Informativa, de São Mateus do Sul – PR.

Fonte:
https://www.adnelsoncampos.com.br/
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 76 *


Soneto de
ANÍBAL BEÇA
Manaus/ AM, 1946 – 2009

Ars poética

Nesse afago do meu fado afogado
as águas já me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto cáustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.
= = = = = = = = =  

Trova de 
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos/ RN, 1951 – 2013, Natal/ RN

Desde o tempo de menino 
vi o quanto eu sou machão; 
pois meu lado feminino 
é um tremendo sapatão!
= = = = = = 

Poema de
SILVIAH CARVALHO
Manaus/AM

Eterno argumento

Já foi o refugo em minha mente
Algo ultrapassado em demasia
Que em mim aflorava livremente
Sempre que de mim, eu me perdia

Elevava-o nos pensamentos meus
Que eram Conflitantes e envolventes
Eram tudo que tinha, quando nada era teu!
Nem meu corpo, minha vida ou minha mente.

Cá estou a falar do Amor que eu maldizia
Do fiel argumento do poeta infiel
Que tira um pedaço do inferno e faz um “céu”

Cá estou a falar do que nunca entendia
Não mais o refugo, agora o bom sabor dor
Infiel e eterno argumento do poeta fiel... O amor!
= = = = = = = = =  

Trova de
IZO GOLDMAN
Porto Alegre/RS, 1932 – 2013, São Paulo/SP

"Esta peixada está quente!" 
reclamava o Zé Maria;
e o dono do bar: - "Ó xente, 
'se qué', tem pexera fria!”
= = = = = =

Poema de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/ Portugal

O livro onde sepulte o meu sofrer
(Fernandes Valente Sobrinho in "Poemas Escolhidos" p. 93)

O livro onde sepulte a minha dor
Não o lavro com lágrimas de tinta
Pois com medo que invente ou que eu lhe minta
Não achará jamais qualquer leitor.

Seria, com certeza, um fraco autor
E a minha mão de inspiração faminta
Daria, em pouco tempo, por extinta
Essa obra sem ter um editor.

Guardo em pasta de capa dura e preta
Essas folhas que fecho na gaveta
Como os mais crus e tristes documentos.

Um dia, quando o livro estiver feito
Com a pena que usei rasgo o meu peito
E essas páginas rudes solto aos ventos.
= = = = = = = = = 

Trova de
RITA MOURÃO
Ribeirão Preto/ SP

Levada por fantasia
de um desejo inconsciente, 
eu beijo na cama fria 
as formas de um corpo ausente.
= = = = = = = = =

Soneto de
AFONSO FREDERICO SCHMIDT
Cubatão/ SP, 1890-1964, São Paulo/SP

Caras sujas

Ao longo destas avenidas,
Recordação de velhas lendas,
Cantam as chácaras floridas
Com suas líricas vivendas.

Lá dentro, há risos, jogos, danças,
Crástinas, módulas fanfarras,
Um pandemônio de crianças,
Um zagarreio de cigarras.

Fora, penduram-se na grade
Os pobre, como gafanhotos;
Têm dos outros a mesma idade,

Mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
Na cara suja dos garotos.
= = = = = = 

Trova de
HELOISA ZANCONATO
Juiz de Fora/MG

- Meu guri só diz tolice!...
E o garoto retrucou:
- Mas, papai, tudo o que eu disse
foi você quem me falou!…
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Poema de
FILEMON MARTINS
São Paulo/ SP

Amor

Amor de minha vida, amor ventura,
vem comigo seguir a nossa estrada,
vamos viver a vida simples, pura,
antes que o sol desfaça a madrugada.

E vou te amar assim com tal doçura,
com tanto amor serás a minha amada,
que meus versos repletos de ternura
vão se espalhar em tua caminhada.

Terei em minha vida o teu carinho
e nunca mais me sentirei sozinho
e tu terás o amor mais verdadeiro.

Quando o tempo passar, calmo e sereno,
verás que fui e sou, mesmo pequeno,
teu homem, teu poeta e seresteiro.
= = = = = = = = =  

Poetrix de
THOMAZ RAMALHO
Luanda/Angola

Melancolia

Os cotovelos no parapeito da sacada
e o pensamento apoiado
na linha do horizonte.
= = = = = = 

Poema de
MÁRIO ZAMATARO
Nova Esperança/PR

Imposto

Amigo imposto?
Isso é conversa!
- de pronto, digo.
Dá até desgosto,
qual vice-versa:
imposto amigo...
= = = = = = 

Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/ RJ

A verdade

Ó querida, quem sabe neste dia
Encontrarei u’ amor que me fascine!
E talvez uma estrela que ilumine
Esta vida cruel que me iludia.

Só tu podes me dar tanta euforia,
Sem impedir, também, que raciocine,
E com meu sentimento me destine
A dor de ser um velho, mas queria...

Coragem pra buscar esta verdade
E talvez, a esperança sem vaidade
De poder te encontrar sem levar foras.

Esperando que agora possas rir
Sem  ilusão, embora possas vir
Com essa liberdade, por quem choras.
= = = = = = = = =  = = = = 

Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas, 1890-1969, São Paulo/SP

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
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Cantiga Infantil de Roda
SERENO DA MEIA-NOITE 

É uma uma roda de crianças, com uma no centro. Cantam as da roda:

Sereno da meia-noite }
Sereno da madrugada } bis

Eu caio, eu caio }
Eu caio. sereno, eu caio } bis

Responde a menina do centro:

Das filhas de minha mãe }
Sou eu a mais estimada } bis

Eu não m'importo, }
Que da amiguinha, }
Eu seja a mais desprezada } bis
= = = = = = = = =  

Quadra Popular 

Coração de sapo morto,
banana não tem caroço.
Garrafão tem fundo largo,
botija não tem pescoço.
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Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Pandora

Do escuro da caixa
Voam lágrimas...
Diáfana solidão,
Silencia-se
A Esperança.
= = = = = =

Glosa de
NEMÉSIO PRATA 
Fortaleza/CE

MOTE:
Um sonho lindo que eu tive
onde tudo era harmonia
acordei... não me contive...
Era um sonho!... Que agonia!
JOSÉ FELDMAN 
Floresta/PR

GLOSA:
Um sonho lindo que eu tive
trouxe-me doces lembranças
quando jovem, em aclive,
via na vida esperanças!

Fora uma bela visão
onde tudo era harmonia
dando-me viva impressão
do quão feliz eu seria!

Hoje em infausto declive
na vida, sem me por freio,
acordei... não me contive...
foi só mais um devaneio!

Que o sonho fosse verdade
era tudo o que eu queria,
mas quedei-me à realidade:
Era um sonho!... Que agonia!
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Epigrama de
LAFAIETE SPINOLA
Salvador/BA 1909 – 1975

Uma coisa aconteceu
Que a todo o mundo intrigou:
O Tesouro emagreceu
E o tesoureiro engordou!

(sobre um tesoureiro que guardava o dinheiro público em seu próprio bolso)
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Soneto de
JOÃO BARAFUNDA
(João Francisco Coelho Cavalcanti)
São Luiz do Quitunde/AL, 1874 – 1938, Rio de Janeiro/RJ

Rosa

Como um botão de rosa despontando
era assim Rosa — meu primeiro amor;
passava às rosas seu perfume dando
e dando às rosas sua rósea cor.

Quando Rosa morreu, todos, chorando,
rosas puseram no caixão (que dor!)
E as rosas forma pálidas ficando,
ficando triste como a extinta flor.

E foi-se a rosa de meu coração...
Porque fugiste, amor puro e perfeito?
Porque morreste, flor inda em botão?

Tu, que foste rainha das formosas
flores, hás de viver sempre em meu peito.
Tens em meu peito um túmulo de rosas.
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
(Arthur Thomaz da Silva Neto)
Campinas/SP

Em um lugar no passado...
Hoje, ao ver nosso retrato
esquecido e amarelado,
eu culpo o destino ingrato.
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Poema de
LENA JESUS PONTE
(Lena Rúbia Ferreira de Jesus Ponte)
Rio de Janeiro/RJ

De passagem

Na rua dorme um menino
sem lençol de afeto.
Na rua sonha um menino
sonhos sem imagens.
Na rua seca um menino
sem sequer as miragens de um deserto.

O menino dorme,
abraçado à calçada,
aconchegado ao cimento.
Que faz todo mundo neste momento exato?
Dormimos todos um sono profundo.
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Haicai de
WAGNER MARQUES LOPES
Pedro Leopoldo/MG

O mês é de agosto.
Ao sol, pipa sem cerol:
brinquedo bem posto.
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

O fascínio do teu sorriso

Não sei como tu consegues ser assim!...
Nenhum contratempo tira teu sorriso.
Eu queria tal postura também pra mim.
É de um humor igual ao teu que preciso...

De tua euforia, tenho feito meu remédio,
Minha terapia é teu rosto risonho.
É sempre tua alegria que me espanta o tédio,
Preso a teu estado d'alma me recomponho.

Ah!... Se Deus me desse teu temperamento...
De quem sorri mesmo nas horas mais duras,
A esperança anularia meu desalento,
Fazendo meu astral chegar às alturas.

Este teu sorriso de puro fascínio,
Com todo o charme de matiz cativante,
Deixou meu coração sob teu domínio,
Prisioneiro de outro, num peito triunfante.

Quando noto, de orelha a orelha, teus lábios,
Um traçado horizontal num rosto lindo,
Percebo-te a usar a estratégia dos sábios,
Convicto de que me ganhaste sorrindo.
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Quadra Popular de
FERNANDO MÁXIMO
Alandroal/Portugal

Melhorar nossa atitude,
de forma quotidiana,
é cumprir na plenitude
a razão da vida humana.
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Soneto de
FERNANDO PESSOA
(Fernando Antonio Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal 1888 – 1935

Ah um soneto!!!

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas - esta é boa! - era do coração
que eu falava... e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?… 
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Aldravia de
ANDREIA DONADON-LEAL
Mariana/MG

bebo
nas
noites
tonéis
de
poesia
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Soneto de
ALMA WELT
Novo Hamburgo/RS, 1972 – 2007, Rosário do Sul/RS

A risada da caveira

O estranho fato de existir a Morte
Só pode ser de Deus a brincadeira
De mau gosto, feia, um tanto forte.
Senão, vejam a risada da caveira:

Seu riso alvar, sarcástico, grotesco,
E o corpo estilizado de fantoche
Do mais puro estilo picaresco
De escultor chegado no deboche.

Também não dá pra gostar da fedentina
Do banquete dos vermes que outrora
Os poetas chamavam de vermina.

Perdoe-me o fiel que tanto reza,
Que acha tudo belo e tudo preza,
E não vê o absurdo sob a aurora…
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Trova de
ADALBERTO DUTRA RESENDE
Cataguazes/MG, 1913 – 1999, Bandeirantes/PR

Quem seu ciúme proclama,
fazendo questão de expô-lo,
insulta aquela a quem ama,
e ainda faz papel de tolo…
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Soneto de
REGINALDO COSTA DE ALBUQUERQUE
Campo Grande/MS

Página virada
 
Tarde da noite, em meio à quietude das ruas,
encontro nesta banca há muito abandonada,
no entulho de jornais e traças junto à entrada,
revista masculina, expondo moças nuas.
 
E tremo ao desfazer a página virada…
No encarte especial, fotografias tuas
em poses sensuais dizem verdades cruas
que sangram cicatriz que imaginei curada.
 
A propaganda exalta algum lugar distante…
A lua espreguiçada em seu quarto minguante
lança cintilações sobre esta saudade oca…
 
Por um momento a banca agita a velha porta…
Se o teu vulto é ilusão ou real, o que importa?
Aplaco a minha dor beijando a tua boca…
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Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

A laranja era tão doce, 
que o limão ficou com medo: 
– por inveja, ou lá o que fosse, 
acabou ficando azedo...
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 139

Faíscas, fagulhas, fumacinha. Foguinho frágil no fogão da casa humilde na beira do mato.  Manhã peculiar de inverno. Galos cantam. Um cãozinho surge espreguiçando no gramado branquinho de geada. Campitos e copadas de árvores mudam o visual da paisagem nestes julhos de puro frio.  

Nas calendas do sul do hemisfério sul a frialdade é pegajosa, insana, penetrante. Sobretudos, casacos, japonas. Pelegos, acolchoados, madrugadas congelantes. 

Logo surge o dono do rancho ali na porta, encapotado, tremelico, olhando com o olhar acostumado destes dias de frio. E pensando:
      "O frio é de amargar, tiritante, mas a gente suporta - ainda mais vendo este retrato lindo que a manhã oferece".  

De repente o sol embarafustando na galharia.  

Tem razão o vivente. Com a pintura da natureza que entusiasma e até põe em frenesi, as imagens valem mais do que dezenas de palavras de encantamento. 

E a fumacinha sobe fininha, quase desmilinguida.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing