sábado, 30 de agosto de 2025

Carina Bratt (Viagem sem volta)

DUAS LAGARTIXAS disputam a mesma parede dentro da casa do Nicanor Pontiagudo e da mulher dele, a Serena. O casal tem uma filha de oito anos, a Bárbara. Bárbara tem medo de baratas e lagartixas. Ajudando a aumentar seu azar, no pequeno dormitório, perto da janela onde uma cômoda acomoda as suas roupas, bonecas e brinquedos, todas as noites baratas aparecem do nada. Para completar a sua infelicidade, igualmente duas lagartixas sempre se fazem presentes, principalmente quando a sua atenção está voltada para a novela depois do Jornal Nacional. As taruiras* saem de um desvão do teto, como se quisessem dividir com ela as emoções dos folhetins depois que o Wiliam Bonner encerra o noticiário com seu lacônico “Boa noite”. Uma lagartixa é a representante mais velha e, portanto, a mais sábia. A outra é um jovem “lagartixo” impulsivo. Os dois amam debater sobre quem tem direito à sombra do dia e da tarde e ao melhor ângulo para observar os donos da casa, principalmente os movimentos da menina Bárbara.  

A mais velha das lagartixas é a Ximbica Sonhadora, ‘uma réptil’ veterana e profunda conhecedora de alvenarias. O ‘lagartixo’ atende pelo nome de Zeca Estufadinho. Carrega um porte jovem e se acomodou recém-chegado de outra moradia contígua. Trouxe na bagagem muita energia e ambição. 

A cena que passo a descrever cria vida e forma ao entardecer, quando o sol projeta uma faixa dourada sobre o reboco quente — território disputado passo a passo por ambos os répteis, contudo, sem maiores interesses do ‘lagartixo’ em ser o dono do pedaço.

Ximbica Sonhadora se esticando preguiçosamente na sombra do fio da antena da televisão:
— Ah, essa luz da tarde... tem o calor exato para aquecer os ossos sem fritar os pensamentos. Já é minha há três verões, sabia?

Zeca Estufadinho escalando com agilidade, se aproximando perto da amiga, os olhos brilhando:
— Três verões? Isso é quase uma eternidade! Mas o mundo gira, Ximbica. E quem chega com fome de parede também tem direito a um cantinho iluminado.

Ximbica arqueando a cauda com elegância:
— Fome de parede? Menino, você ainda não aprendeu que o melhor ângulo não é o mais quente, contudo, o mais estratégico. Daqui, observo os humanos aí embaixo sem ser vista. Já ouvi confissões, vi romances começarem e até uma briga pela posse do controle remoto.

Zeca rindo com um estalo de língua:
— Eu prefiro ação! Quero ver os humanos de frente, sentir o risco, viver o agora. Ontem quase me vi esmagado por um chinelo, foi emocionante!

Ximbica suspirando: 
— Emoção é bom, mas sabedoria é melhor. A parede ensina, se você souber escutar. Cada rachadura tem uma história, cada sombra um segredo. Vou logo te avisando. Cuidado com a Bárbara. Ela não suporta a nossa presença.

Zeca parando por um instante, pensativo:
— Ficarei de olhos abertos. Voltando ao que acabou de falar. E se a gente dividir? Metade da sombra pra você, metade do sol pra mim. Assim, cada um observa o ambiente do seu jeito.

Ximbica sorrindo com os olhos:
— Agora falou como quem começa a entender a parede. Que seja assim, Zeca. Mas se lembre: o território é só cenário. O verdadeiro palco é o olhar que lançamos sobre ele.

 Fim de tarde, começo de noite. Lá fora, o sol embora mais fraco, ainda projeta uma faixa dourada sobre o reboco. As lagartixas se encaram, cada uma tentando ocupar o melhor ponto.

Zeca com a cauda ainda tremendo pela adrenalina:
— Ufa, amiga! Escalei três tijolos e desviei de um gato só pra chegar aqui. Essa ‘nossa’ parede tem cheiro de oportunidade!

Ximbica, calma, imóvel, como quem já viu muitos pores do sol:
— Oportunidade? Menino, essa parede é mais velha que a sua ambição. Já vi três reformas e um casamento dos ocupantes anteriores acabar bem ali, na porta que acessa a sala.

Zeca olhando em volta, curioso:
— E você ficou parada esse tempo todo? Não quis explorar outras paredes, outros horizontes?

Ximbica arqueando a sobrancelha — ou o que seria uma, se as lagartixas tivessem:
— A sabedoria não está em mudar de parede, mas em entender o que ela revela. Cada rachadura aqui tem uma história. E essa faixa de sol... é minha desde que o cachorro Totó dessa família ainda era um filhote.

Zeca tentando se acomodar na borda da sombra:
— Mas o mundo muda, Ximbica. E quem chega com fome também precisa de espaço. Não dá pra viver só de lembrança.

Ximbica com um sorriso quase imperceptível:
— E quem vive só de pressa acaba virando sombra antes de entender a luz. Você já observou os humanos daqui?

Zeca empolgado: 
— Ontem vi o tal do Nicanor dançando sozinho na cozinha. Achei que fosse um ritual de acasalamento. Sem falar que a música era mais chata que as palhaçadas sem graça do Didi Mocó.

Ximbica rindo baixinho:
— Era só sexta-feira. Eles fazem isso quando acham que ninguém está olhando. E nós... somos as butucas arregaladas e invisíveis da casa.

Zeca pensativo:
— Então... talvez possamos dividir. Você fica com a sombra da sabedoria, eu com o sol da juventude. E juntos, observamos o mundo.

Ximbica se esticando um pouco para o lado, cedendo espaço:
— Está aprendendo, Zeca. A parede é grande. Mas o olhar... ah, o olhar precisa ser compartilhado.

 Noite tranquila. A parede está silenciosa, exceto pelo zumbido distante de um ventilador no quarto ao lado do casal. Ximbica está imóvel, contemplando o céu. Zeca se aproxima devagar.

Zeca com a voz mais calma que o habitual:
— Ximbica... estive pensando. Talvez eu tenha chegado com pressa demais. A parede não precisa ser um campo de batalha.

Ximbica sem tirar os olhos da lua:
— A juventude costuma confundir território com identidade. Mas fico feliz que esteja começando a ouvir o silêncio.

Zeca se sentando ao lado dela, respeitando a distância:
— É que... eu queria provar que também tenho valor. Que posso ser mais do que só rápido ou ousado.

Ximbica se virando lentamente para ele:
— Valor não se mede em centímetros de parede, Zeca. Se mede em como você observa o mundo — e o que aprende com ele.

Zeca olhando para a janela da cozinha:
— Hoje vi a bela e encantadora esposa do Nicanor chorando. Ela estava sozinha, com uma xícara de café na mão. Não entendi muito bem, mas... senti alguma coisa.

Ximbica com um leve sorriso:
— Você está se referindo à Serena. Sentir é o primeiro passo para entender. A parede nos dá abrigo, mas são os humanos que nos ensinam sobre o que é viver.

Zeca pensativo:
— Então... se eu ficar com o lado da parede que pega o sol da manhã, e você com o do cair da noite, como agora, podemos dividir sem atropelos?

Ximbica acenando com a cauda:
— Podemos, sim. E mais: igualmente trocar olhares, histórias e silêncios. Essa parede onde estamos é grande, mas o mundo é maior. E há espaço para dois pares de olhares distintos.

Zeca sorrindo:
— Dois olhares, uma parede. Gosto disso. Quem sabe um dia a gente até senta e de parceria escrevemos um livro.

Ximbica rindo baixinho:
— Já estamos escrevendo, Zeca. Cada dia, uma página. Cada silêncio, uma vírgula, cada acontecimento, um fato...

Ximbica Sonhadora e Zeca Estufadinho aprenderam a dividir a parede e a observar o mundo em redor, juntos. Mas como toda boa crônica, o final precisa virar tudo de cabeça para baixo, sem perder a beleza. Novela terminada. Noite silenciosa. A parede está fria, envolta pela penumbra. Zeca e Ximbica estão lado a lado, em silêncio, observando a casa adormecida. O casal, no cômodo ao lado dorme. A televisão segue ligada. Nicanor ronca.

Zeca sussurrando:
—  Ximbica... já pensou que talvez a gente não esteja só observando os nossos amigos humanos? Talvez eles também nos vejam.

Ximbica sem se mover:
— Alguns veem. Poucos. Os que ainda têm olhos para o invisível.

Zeca olhando para a janela:
— Hoje, a menina me olhou. Direto nos olhos. Não piscou. Foi como se... como se ela soubesse...

Ximbica com a voz mais baixa:
— Ela sabe. Há humanos que percebem. Que sentem. Que escutam o silêncio das paredes. E cuidado. A televisão da mocinha está ligada. Ela finge estar dormindo. Mas está quieta, só esperando...

Zeca com um arrepio na cauda:
— E se... e se a gente não for só lagartixa? E se formos algo mais?

Ximbica virando lentamente para encarar o amigo:
— Você está pronto para saber? Pois bem. Não se descuide. Toda atenção para com a menina. Ela é arisca, esperta e pode nos pegar de calças curtas...

Zeca hesitante:
— Acho que estou pronto para saber sim.

Um clarão repentino atravessa a parede. Não é a luz elétrica, nem o luar. É algo antigo, profundo, como se a própria casa respirasse. As duas lagartixas se iluminam por dentro — não com luz, mas com a memória.

Ximbica com um brilho nos olhos:
— Somos os guardiões. Ecos de quem já viveu aqui. Fragmentos de histórias que não podem desaparecer.

Zeca atônito:
— Então... não somos só bichos. Somos lembranças?

Ximbica sorrindo:
— Somos o que resta quando ninguém mais se lembra. E hoje... alguém lembrou.

A parede pulsa. A casa respira. E, num instante, as duas lagartixas como por encanto, descem quase até o chão.  Duas baratas estão distraídas. Não percebem as lagartixas.  Elas descem. As baratas estão mais próximas. Precisamos cumprir nosso papel. Devorar as baratas. Nosso jantar está quentinho e a nossa espera. Na parede, resta apenas uma rachadura em forma de espiral — como uma assinatura antiga. Aliás, um final que transforma o cotidiano em mistério, e as lagartixas das paredes em símbolos de memória e presença. Nesse momento, a menina dá um salto como se fosse um felino e ataca com uma lata de inseticida. As duas lagartixas são pegas numa armadilha inesperada. Inopinadamente as baratas somem do pedaço. Ximbica e Zeca, ainda tentam subir para o cimo de onde vieram, mas seus esforços se fazem lentos demais. 

Ambos são interrompidos pela ágil ação da pequena Bárbara, que ferozmente, salta do seu sono e atinge o alvo pondo os dois representantes da família dos Squamata (répteis) a nocaute de modo fulminante. Ximbica cai para um lado, se contorce, se estrebucha e morre. Zico ainda vai um palmo à frente e, como a sua amiga, antes de fechar os olhos para sempre, vê seus sonhos se perderem em meio a uma nuvem branca do remédio fatal saído com fúria descontrolada da poderosa embalagem do aerossol assassino. Incrivelmente as baratas se salvam a trancos e barrancos se escafedendo para as bandas do quarto onde dormiam Nicanor Pontiagudo e sua companheira Serena.
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* Tatuíras. Nome como as lagartixas são conhecidas em Vitória, no Espírito Santo.
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CARINA BRATT nasceu em Curitiba/PR. Trabalha como secretária particular e assessora de imprensa em Vila Velha/ES. Escreve crônicas em uma coluna denominada "Danações de Carina" para um site de Portugal.

Fonte:
Texto enviado pela autora, 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Asas da Poesia * 82 *


Trova de
CÔNEGO BENEDITO VIEIRA TELLES
Bueno Brandão/MG, 1928 – 2022, Maringá/PR

A trova é flor tão pequena 
neste jardim de emoção.
Chamo-te rosa, açucena,
amo-te com afeição.
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Soneto de
JOÃO BATISTA XAVIER OLIVEIRA
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP

...E a vida continua

Aos poucos meus amigos vão embora...
Saudade hospitaleira abre janelas
e os ares das paisagens amarelas
aumentam o vazio que devora.

As mãos saudosas ficam sem aquelas
que tanto me afagaram mundo afora
nas horas tristes bem fora de hora
e nos momentos das tertúlias belas.

E assim eu sinto que também vou indo
na esteira da fatal apoteose.
Sublime é caminhar sempre sorrindo

sabendo que ao beber da mesma dose
os planos das paisagens verdejantes
ressurgirão sorrindo como antes
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Trova de
DÉCIO VALENTE
São Paulo/SP

Mãe! Criatura querida,
santa heroína sois vós;
quando nos destes a vida,
destes o sangue por nós.
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Soneto de 
MARTINS FONTES
Santos/SP, 1884 – 1937

Ser Paulista

Ser paulista! é ser grande no passado
E inda maior nas glórias do presente!
É ser a imagem do Brasil sonhado,
E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.

Ser paulista! é morrer sacrificado
Por nossa terra e pela nossa gente!
É ter dó das fraquezas do soldado
Tendo horror à filáucia do tenente.

Ser paulista! é rezar pelo Evangelho
De Rui Barbosa - o sacrossanto velho
Civilista imortal de nossa fé.

Ser paulista em brasão e em pergaminho
É ser traído e pelejar sozinho,
É ser vencido, mas cair de pé!
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Trova de
LUIZ OTÁVIO
Rio de Janeiro/RJ, 1916 – 1977, Santos/SP

Com tanta pureza, tanta
bondade em teu coração,
não és rainha, mas santa,
no altar da minha Paixão…
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Spina de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Miragem

Relances do tempo
traduzem em ecos
sua suave história,

apenas resquícios de uma trajetória. 
A memória não distingue momentos
futuros, talvez breve lacuna aleatória.
Um oásis reflete diversas passagens, 
estremeço em cena, intuo dedicatória. 
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Trova de
MÁRIO LUIZ RIBEIRO
Santos Dumont/MG

Vendo o moço correr tanto,
julguei ser um campeão,
mas, foi grande o meu espanto
quando ouvi: - Pega o ladrão!
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Poema de
MARCOS ASSUMPÇÃO
(Marcos André Caridade de Assumpção)
Niterói/RJ

Casa Vazia

Falar de amor não é mistério
Nem tão difícil de explicar
A gente nunca faz por mal

Meu coração praia deserta
Morre de medo do inverno
E da solidão que me devora

Agora, a casa vazia,
Eu grito seu nome,
Só o silêncio me responde

Pensar que o amor é sempre eterno
Que é impossível ele se acabar,
Você bem que podia tentar, mas não, não, não.....

Então quero falar por um momento 
(só por um momento)
Da tua ausência no meu corpo
E dessa lágrima no meu rosto

Agora, a casa vazia,
Eu grito seu nome,
Só o silêncio me responde

o fogo arde sob o nosso chão
nada é tão fácil assim
eu ando sozinho, no olho do furacão
você nem lembra mais de mim

Agora, a casa vazia,
Eu grito seu nome,
Só o silêncio me responde
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Trova de
SÉRGIO BERNARDO 
Nova Friburgo/RJ

Descrente dos bens terrenos,
chego à tardia certeza
de quanto foram pequenos
meus delírios de grandeza…
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Soneto de
JOSÉ XAVIER BORGES JUNIOR
São Paulo/SP

Saudade

...e mesmo sem te ver quero-te tanto
que sinto-te em mim, e tua voz no pranto
que escapa-me em torrentes de tristeza.
Antes que dúvida, és minha certeza...

Quero-te na amenidade do poente,
No sol do fim de tarde, reluzente,
Quando nasces em mim, como uma flor.
...e mesmo sem te ver, és meu amor...

Quero-te tanto, que em minh’alma trago
O gosto do vinho em que me embriago
Nesses lábios sedentos que ofereces.

Algum anjo há de ouvir as minhas preces,
E há de entender a solidão que canto
Por não te ver e por amar-te tanto…
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TROVA POPULAR

Bateram, abri por dó;
era a desgraça que entrou.
Fez-lhe pena ver-me só
e nunca mais me deixou.
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Poema de 
CECÍLIA MEIRELES
Rio de Janeiro/RJ, 1901 – 1964

Monólogo

Para onde vão minhas palavras,
se já não me escutas?
Para onde iriam, quando me escutavas?
E quando me escutaste? - Nunca.

Perdido, perdido. Ai, tudo foi perdido!
Eu e tu perdemos tudo.
Suplicávamos o infinito.
Só nos deram o mundo.

De um lado das águas, de um lado da morte,
tua sede brilhou nas águas escuras.
E hoje, que barca te socorre?
Que deus te abraça? Com que deus lutas?

Eu, nas sombras. Eu, pelas sombras,
com as minhas perguntas.
Para quê? Para quê? Rodas tontas,
em campos de areias longas
e de nuvens muitas.
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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Cada rastro no caminho
nos mostra novo trajeto,
mas Deus nos dá, com carinho
o caminho predileto.
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Hino de 
SÃO JERÔNIMO DA SERRA / PR

Foi a fibra do valente pioneiro
Desbravando o sertão do Jatai
Que fez nascer neste solo alvissareiro
Junto às margens do rio Tibagi.

Tão formosa e fagueira cidade
Para orgulho de imparra gentil
Berço augusto de prosperidade
Que ornamenta o querido Brasil.

És a joia mais linda que há
neste recanto feliz do Paraná
São Jerônimo da Serra, meu torrão
viverás para sempre em meu coração.

Rio Tigre de alvura singular
Serra da Esperança, a mais linda que há
São tesouros a ornamentar 
as riquezas que temos aqui.

São Jerônimo, adorado padroeiro
Abençoa com seu manto esta terra
Protegendo este povo hospitaleiro
Que impulsiona São Jerônimo da Serra.

Isto será passageiro
E verás, quando passar
que em lindo sol
Pioneiro em teu céu há de brilhar.

Por que em tua juventude
Em tuas sábias crenças
reside a maior virtude
Depósito de esperança.

São Jerônimo da Serra,
Simples e muito mais
Eu pisei em tua terra,
Não te esquecerei jamais.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Pedir votos, não foi "canja"!
Um político safado
criou confusão na granja
e saiu "ovocionado!?
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Soneto de 
MARTINS FONTES
Santos/SP, 1884 – 1937

São Francisco e o Rouxinol

Um rouxinol cantava. Alegremente,
quis São Francisco, no frutal sombrio,
acompanhar o pássaro contente,
e começa a cantar, ao desafio.

E cantavam os dois, junto à corrente
do Arno sonoro, do lendário rio.
Mas São Francisco, exausto, finalmente,
parou, tendo cantado horas a fio.

E o rouxinol lá prosseguiu cantando,
redobrando as constantes cantilenas,
os trilados festivos redobrando.

E o santo assim reflete, satisfeito,
que feito foi para escutar, apenas,
e o rouxinol para cantar foi feito.
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Trova de
JORGE PICANÇO SIQUEIRA
Macaé/RJ, 1930 – 2006, Niterói/RJ

Todos dizem que saudade
é lembrança que se sente,
mas saudade, na verdade,
é saudade simplesmente.
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Recordando Velhas Canções
FOI ASSIM 
(samba-canção, 1963) 

Foi assim,   
eu tinha alguém que comigo morava 
Mas tinha um defeito que brigava  
Embora com razão,
ou sem razão 
Encontrei um dia uma pessoa diferente 
Que me tratava carinhosamente  
Dizendo resolver minha questão 

Mas não foi assim,  
Troquei essa pessoa que eu morava 
Por essa criatura que eu julgava 
Pudesse compreender todo meu eu 
Mas no fim fiquei na mesma coisa em que estava 
Porque a criatura que eu sonhava  
Não fez aquilo que me prometeu 
Não sei se é meu destino, não sei se meu azar 
Mas tenho que viver brigando 

Todos no mundo encontram seu par 
Porque só eu vivo trocando  
Se deixo alguém por falta e carinho 
Por brigas e outras coisas mais 
Quem aparece no meu caminho 
tem os defeitos iguais
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Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

No momento da partida,
o beijo cala um adeus
e uma lágrima incontida
vem molhar os lábios teus.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

O rato e o elefante

Um mínimo ratinho, ao ver um elefante
Dos de vulto maior — quadrúpede gigante —
A motejar se pôs do caminhar pausado
Do famoso animal, que no dorso elevado,
Como em terceiro andar, tranquilo conduzia
Com sultana gentil de ilustre hierarquia,
O seu gato, o seu cão, sua velha companheira,
Um papagaio e um mono, a sua casa inteira,
Que iam de romaria. O mísero ratinho
Pasmava ao ver o povo atento no caminho
A contemplar absorto aquela enorme massa:
«Como se o ocupar maior ou menor praça
Tirasse — ele dizia — ou importância desse!
Homens, que admirais vós num animal como esse?
O volume será do corpo seu robusto,
Que infantes apavora e os faz tremer de susto?
Nem um só grão, sequer, nós nos prezamos menos
Que um elefante, nós, que somos tão pequenos!»

E mais ainda o rato iria granizando,
Se o gato, da gaiola um lesto salto dando,
Não lhe houvesse mostrado, em menos dum instante,
Que diferença vai dum rato a um elefante.
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Trova de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ 
Curitiba/PR

Atrás dos sonhos correndo,
no meu delírio sem fim,
eu acabei me esquecendo
de passar perto de mim…
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 140

A noite chegou silenciosa, pássaros aninhando, quando não mais do que de repente os ventos sopraram nos beirais, balançaram as lamparinas e assustaram o povinho do bosco. Ouviram-se pios de desassossegos na galharia, os já dormentes (ou dormintes ?) em alvoroço.   

Mesminho que a vida ! 

Passamos dias serenos com águas em calmaria, mas de vez em quando somos assolados por ventos ditos malevas, tempestades, temporais da vida cotidiana, nos tirando o sossego, a paz, quase a vida. 

Surge então alguma figura de linguagem a reboque ali fora, numa quase paródia para dizer que cá nosotros somos todos da mesma estirpe das criaturas que vivem junto a nós na natureza e não têm o "racional" que nos faz superiores, segundo muita gente.  

Elas usam o instinto natural de sobrevivência, e na manhã seguinte estão cedinho na faina diária, sem lamúrias a invocar a noite de medos e assombros, como se pensassem que a vida é mesmo uma história, ou fábula, ou saga da permanência enquanto habitantes deste cantinho do universo.

E nós?  Tantos pensamentos - quantas vezes não nos conformamos com a realidade das coisas, os desencantos da vida, os desígnios do mundo. 

Sortilégios?  Somos sempre açoitados por toda sorte de sobressaltos.

E sobrevivemos.
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Raúl Brandão (A casa de hóspedes)

Singular ligação a destes tipos que o acaso reunira naquela casa de hóspedes da D. Felicidade: um doido, um anarquista, o Pita, a patroa, o Gregório, antigo chefe de repartição, que havia anos estava encarangado (entrevado) num quarto, uma velha que só saía de noite e essa figura amarga, o Palhaço, que passava horas e horas, como se só a si próprio se escutasse. Todos tinham chegado ao fim da vida, de unhas esticadas para o gozo, com o aspecto das coisas servidas que se deitam fora. Usados pela existência, pela ambição e pela febre, arregalavam os olhos para a vida. Neles havia o quer que era que inquietava e fazia pensar. Em vez de ficarem d’uma secura atroz, tendo analisado de perto todos os sentimentos, o amor e a amizade, a experiência dera-lhes tintas de sonho ao desespero: e era como se um bicho de esgoto criasse asas e se pusesse a voar. 

O Doido sonhava – e todas as suas visões vagas caminhavam, numa atmosfera de beleza, para de súbito, num pormenor, ficarem grotescas, aos pulos como um sapo. 

O Anarquista tinha gestos de profeta, e na sua eloquência havia rasgos de visionário: como um vendaval que arromba portas, assim ela entrava pelo sonho dentro, engrandecida. Evocava as multidões, a miséria humana, a dor humana. 

O Pita era um misto de filósofo e de ladrão. Sabia tudo, vendia tudo. Amara princesas e trazia um velho xale-manta, que de tanto ter visto a miséria parecia arrepiado. 

A Velha passava o dia a contar as rugas diante do espelho, na raiva de se sentir escarnecida. Meditava quanto tempo podia amar ainda, enganava-se e convencia-se de que não estava velha nem feia. Punha flores no seio estancado e raso como uma tábua e arrepiava os cabelos. À noite saía, rodava nos sítios escusos à espera duma aventura de amor, ou, desvairada, ia pelas ruas da cidade, a arrastar um xale púrpura.

O Pita às vezes seguia-a e espiava-a, com o olho cheio de curiosidade, ruminando lá por dentro:

– Encontro-as às vezes nas ruas, caiadas aos sessenta anos e sonhando ainda com a juventude. E são as que se atrevem, as que se expõem aos riscos, porque muitas como esta arrastam pelas casas de hóspedes o seu sonho inpaziguado de amor... Faz-a tímida e má o ter de viver duas vidas, uma de imaginação, outra de realidade. 

Por isso tem o olhar desvairado para dentro, de quem segue um sonho e anda neste mundo por acaso. Esta cidade trágica fez-lhe um cenário perfeito, com a noite em que a escumalha (ralé) vem à tona, as ruas esganadas e o vício... Atrever-se-á ela?... Duvido... Viver é tudo!... viver!... Se todos estes seres se juntavam e conversavam, as suas palavras ardiam ou gelavam; causavam arrepios, como lâminas que de repente se desembainham e ficam no ar suspensas: eram feitas de cadáveres ou de claridades... 

Umas vezes pendiam para o sonho; outras para a terra. Vocês todos têm pensado na vida destas criaturas?... Desde a mocidade que não tiveram risos. Depois o pequeno emprego, nunca o gozo satisfeito, a imaginação e o apetite sempre alerta. As mulheres! ainda um dia hei de ter aquela mulher, quando tiver dinheiro!... Nunca satisfizeram o seu amor e o seu desejo. Aturaram as insolências dos patrões e o desprezo do Metal. Nunca tiveram na vida ocasião para praticar um crime que lhes desse o ouro ou o poder. Correram casas de hóspedes, a ruminar ideias de ambição ou de ódio, e essas mesmas diluídas e derrancadas (arrancadas)... São sórdidos, têm pequenas manias e inéditos recantos de alma, e nunca, como os pobres cavadores, viveram ao contato da natureza, das grandes árvores, da água e da luz. Acontecia que à mesa, depois do jantar, na obscuridade que o Pita amava, ficavam de conversa. A princípio o Palhaço não falava... Quase sempre fugia para o quarto. Mas de uma vez, que se falara de amor, escutara e discutira: – daí ficaram no hábito de se exasperarem com conversas, que o Pita tingia de sonho. O Pita era um homem de barba hirsuta e olhar vivo nas órbitas fundas e sem pálpebras. Unhas, roera-as todas. Tinha a ciência da vida, visto que andara sempre aos pontapés de toda a gente e se dava com a ralé. Vivia à custa de mulheres, e como d’uma vez lhe perguntassem como arranjava ele, dono de semelhante caveira, que as mulheres o amassem, disse com desprezo:

– A mulher é uma esfinge.

Nessa noite o Anarquista lia uma proclamação para abrir o seu jornal A Miséria. Com o manuscrito na mão, o olhar incendiado, perguntou:

– Pita, que lhe parece?...

E ele, seco, respondeu:

– Muita filosofia...

– Mas que diabo, Pita! Você sabe que estimo a sua sabedoria... Diga a sua opinião sincera... Todos se absorveram no Pita, que passou a mão pela bola de bilhar que  usava em vez de cabeça e a seguir falou:

– Não está mau de todo... Muito palavreado... Fale na terra e fale na miséria... Sabe que em Setúbal, nos arrozais, para ganhar apenas o pão negro, mulheres trabalham na água como bestas, até se cortarem pelas virilhas? Sabe que há pequenas de oito anos, que se chegam à sua beira com um ar de vício e têm esta frase trágica: – Eu faço tudo!... ? Muito decorativo, citou o vício, que apenas noite corre como um esguicho de lama pelos recantos negros da cidade. É a fome?… É, disse ele. E além disso os burgueses estão dando à ralé, cheia de apetites e quimeras, um espetáculo desaforado...

– Ó Pita!...

– Desaforado... Cite fatos, encha-me esse papel de fatos e bote então se quiser a filosofia de fora. O palavreado não é mau, mas é porque os pobres conhecem melhor a miséria e o crime, que um desgraçado me falava uma noite em fazer saltar tudo...

– A miséria e o crime – disse o Doido – são velhos como a terra... Você tem visto tudo e tem sido tudo: já foi rico e já viveu de arranjar mulheres para os outros... Mas escute: a questão é mais funda... Suponha que sobre esta mesa está a palpitar o Coração Humano... Há coisas eternas. O que fez crescer o anarquismo, como uma raivosa maré de lama – é esta coisa simples: o ódio aos ricos e a inveja... Você, eu, todos os que aqui estamos juntos, o que daríamos para ter o ouro, o ouro com que se pagam as mulheres mais lindas, as quiméricas mulheres todas feitas para o gozo, e sobre cujo olhar negro a gente se debruça como sobre um pássaro lendário; o Ouro com que se tem o amor e se deitam a perder os nossos inimigos?... Eu, vocês todos, temos feito de há muito este raciocínio: a vida dura dez, vinte anos, depois segue-se...

– A cova...

– O nada. Portanto vale a pena gozar de todo o nosso cérebro e de todos os nossos nervos. Deixar o coração bater o mais que puder, satisfazer a valer todas as paixões... Só o ouro é que dá isso e ninguém recuará diante de um crime, certo da impunidade, para o obter.

– Às vezes corre-se-lhe o risco...

– Outrora esta vida era transitória... Quanto mais se sofria, mais duro era o pão e a dor mais negra, maior também na vida eterna era a felicidade. O ódio contra os ricos, os que gozam enquanto as mais criaturas sofrem, existia, mas havia a certeza que iam para o inferno. Pagavam caro os beijos, a felicidade, o sonho... Agora a ilusão caiu por terra, a vida é sôfrega e a maré dos que estão ávidos de gozo sobe... 

E o Pita resmungou, com o olho a luzir:

– Vai ser um rico saquezinho...

– Com mulheres violadas, sangue, apetites desenfreados, vaias contra a arte e o belo... É o ouro, é o ouro que tudo pode e tudo faz!... O ouro que era ainda capaz de fazer levantar da cama o próprio Gregório!

E a dona Felicidade, que levantava os pratos, deu um suspiro tão fundo como se nela suspirassem todas as Donas Felicidades, desde a Dona Felicidade das cavernas até à Dona Felicidade contemporânea.

Pita, a essa hora da noite, tinha espirros de gênio pela caveira, numa excitação contra a vida e contra a dor. Pelo começo da noite é que Pita principiava a ser amargo, com um grande desprezo pela sociedade. Pita também a essa hora estava algo na mentira: embebedava-se com as decorações sobre a miséria e sobre o coração humano, e a fantasia fazia-o perder-se, fazer grande, como um pintor que na febre atirasse pinceladas de gênio para a tela. Pita parecia uma evocação de Poe. Pita sentia, depois da bebida, o frio dos desgraçados, a febre dos noctâmbulos: sabia a enxurro: e tinha na fantasia toda a púrpura e toda a lama que as borboletas têm nas asas, e que ele apanhara ao roçar-se pelos bueiros imundos da cidade:

– Eis aqui tem o amigo... O raciocínio é um vício com o qual se chega a tudo – até a ministro... Teoria vai, teoria vem – palavras leva-as o vento... A verdade amarga e única é esta: é que na vida é preciso sonhar, para não se morrer transido (apavorado), tantos são os pontapés que a gente leva na alma e noutra parte. Ou então tem a gente a necessidade de se endurecer e de pôr o coração como uma pedra.

– Pita!...

– Como um calhau... Vá a um sítio aonde se sofra – ao hospital. Tenho-o defronte da minha mansarda, o luzeiro sempre a arder nas janelas. O que está aquela pobre gente toda a noite a tecer?... Aquele estupor de alambique de sofrimento toda a noite resfolga...

– De quê!...

– De alambique – disse, seco. – É uma imagem... E há coisas que se não curam, que é o que me revolta... Deixo-os sonhar... O sonho é tão necessário pra a vida como o pão.

– Eu, para meu uso, até os tenho inventado para certas horas de sofrimento – e quantas noites passo a imaginar ser rei ou ser carrasco!...

– Atire-se-lhes com um pedaço de sonho, como se fosse um pedaço de pão!...

– O pior, Pita amigo, é que o sonho desvaira-os...

– Pois a questão essencialmente se reduz a isto: pertence aos homens de estado saber canalizar o sonho da ralé, e desde que hoje ele se não pode aproveitar nem para fazer conquistas, nem para fazer heróis – todo o esforço deve tender a conservá-lo como lume sob cinzas inofensivo e latente. Destruí-lo, arrancá-lo, é uma tolice, pois que outro virá – creia na minha experiência da vida – substituí-lo, e quem sabe se mais perigoso!...  

Caiu em meditação o Pita. Oito horas da noite e a calva incendiada por entre o pelo sem cor. Nunca mais o puderam levar a falar sobre o  mesmo assunto. Tinha um grande desprezo por esta porcaria da vida e fugia agora para as raparigas, a tromba a bamboar-se-lhe sobre a boca, numa festa. Tirou da algibeira uma boquilha de âmbar com uma mulher em pelota e um prospecto da casa John & Fixley, London – Segurança e Método, preços módicos. Assassínio de todas as sogras com  o maior respeito e sem intervenção da polícia.

– Pita, estás aqui, estás na Penitenciária. Vê no que te metes, Pita!... 

E ele, descendo as escadas, com júbilos na voz rouca:

– Vou-me até às raparigas. A vida é uma quimera!…

O Pita sabia tudo: conhecia os segredos de todas as famílias e os vícios de todas as mulheres: em cada noite seria capaz de dizer quem estava para meter uma bala nos miolos, falido e desonrado, e quem adormecia no colo de nuvem da mais linda mulher da cidade. As suas conversas faziam frio: tinham dentro pesadelos e lama. 

Fora amigo íntimo de um banqueiro, jornalista assalariado para cobrir de infâmias os inimigos do outro. Tinha tido dias em que fora rico e pagara todas as suas fantasias – e noites em que tremera de frio à porta dos cafés, com a lista e preços das criaturas que se vendem.

Das suas conversas com ele, o Palhaço saía sempre com a cabeça cheia de fantasia e com um sabor amargo à vida – lama negra, onde vestígios, espirros de ouro, tivessem sido esquecidos. A sua experiência do mal de viver dava-lhe, à fantasia rútila, recantos cheios de inédito e de amargura, e era como se a sua alma fosse sacudida diante dele de toda a poeira negra ou escarlate, que a existência lhe deixara... Depois do circo passeavam juntos até às primeiras tintas de alvorada.

Àquela hora só noctâmbulos esguios quedavam pelas esquinas, figuras que, ao pé dos restos de cartazes púrpura, de grandes letras, faziam destaque e evocavam, perto da pompa e da grandeza, a miséria da cidade...

Depois da conversa com o Pita, o cérebro em lume, ia pelo bairro pobre e desdentado, procurando ver materializado o rasto de que ele lhe falara, como um manto que cada um arrastasse, invisível e tecido a ideias e a sofrimentos...

– Pois quê!... – lhe dissera o Pita – donde provém que as feiticeiras leiam no passado do homem?... Nada se perde, cada um traz consigo, cometa que arrasta a cauda de lama ou de ouro, todo o seu passado, vestígios de ideias, crimes, horas de amargura e horas em que se beijaram lábios de mulher, por quem a gente se perde... Creia na minha experiência da vida!...

– E para ver?... para ver esse rasto, que cada um traz consigo a nimba-lo, luaroso e ferido de lágrimas?... Serás tu, Pita amigo, o Diabo, e queres em troca a minha alma?...

– Não, não sou, com pena o digo, o Diabo... Quem me dera ser o Diabo, para ser moço, ter todo o ouro e todas as lindas mulheres da terra! Ai as raparigas de seios duros e lácteos de estátua! O ouro que dá o poder, a consideração pública, os sorrisos de lábios de papoula das moças e a riqueza dos bancos!... Não sou o Diabo! 

E, apontando com o seu dedo nodoso e descarnado para a cidade, disse:

– Vai sofrer, espremer da Vida a experiência. Deixa que te calquem o coração, assiste ao despedaçar do teu sonho, à tua humilhação, e depois saberás...

Tomando de respeito por tanto saber, com humildade se despediu:

– Muito boas noites, senhor Pita!... Então não toma mais nada?...

– Não tomo. Podes-te ir embora. Boa noite...

Com a cabeça a escaldar, parecia-lhe agora ver realmente o que Pita lhe afiançara existir... Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda – poeira luminosa, d’ouro ou cinza, feita de luar ou de escarlate. Lentamente pôde distingui-los, classificá-los, conforme o manto régio ou pobre que traziam. E na noite havia-os que deixavam um grande rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados com um som de viola que se parte. Míseros, ressequidos e sacudidos pela dor, traziam uma cauda cor de cinza, com chuveiros de miríades de centelhas de lágrimas, e a poetas nimbava-os uma poeira de luar e de ouro. Velhas ardidas eram – envolvidas por uma atmosfera baça, onde o imortal amor ainda luzia. E alguns deixavam atrás de si restos de mantos todos púrpuros, que se iam perder na lama e no esquecimento; outros, criminosos decerto, caminhavam numa nuvem negra, onde pedaços sangrentos escorriam como punhaladas, e havia-os todos verdes, de cambiantes infinitas. Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.

– O homem material – pensava o Palhaço – não existe. A vida é uma convenção. O que existe é sonho, o sonho é a única realidade. Sonhar! sonhar!…

(A morte do palhaço. 1926)
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Raul Germano Brandão (Porto, 1867 – 1930, Lisboa), militar, jornalista e escritor português, famoso pelo realismo das suas descrições e pelo lirismo da linguagem. Manteve uma carreira de jornalista. Encontra-se colaboração da sua autoria no semanário O Micróbio (1894–1895) e nas revistas Brasil-Portugal (1899–1914), Revista nova (1901–1902), Serões (1901–1911) e Homens Livres (1923). Deixou uma extensa obra literária e jornalística que muito influenciou a literatura em língua portuguesa com o seu lirismo e profundidade filosófica, marcando o seu comprometimento ético e social, numa linguagem forte de contrastes, contradições e rupturas que prefiguram a modernidade do século XX. "Húmus" é sua obra maior, inovando na narrativa sem enredo nem personagens, a que chamaram anti-romance. Algumas obras: Impressões e Paisagens; História de um Palhaço; O Padre; A Farsa; Húmus, etc.
Fontes:
Antologia Do Conto Português Contemporâneo (seleção Antonio Salema). Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa e Ministério de Educação de Portugal, fev. 1984.
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