segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Zitkala-Ša (Manstin, o coelho)

(tradução do inglês por José Feldman)
MANSTIN era um aventureiro valente, mas muito bondoso. Batendo o pé com um mocassim enquanto calçava suas perneiras de pele de veado, disse:

“Vovó, cuidado com Iktomi! Não deixe que ele a atraia para alguma armadilha astuta. Estou indo para o norte em uma longa caçada.”

Com essas palavras de cautela para a avó coelha curvada com quem vivia desde pequeno, Manstin partiu em direção ao norte. Mal havia atravessado as grandes colinas altas quando ouviu o grito de uma criança humana.

"Wan!", exclamou, apontando suas longas orelhas na direção do som; "Wan! Isso é obra do cruel Duas-Caras. Covarde sem-vergonha! Ele se deleita em torturar criaturas indefesas!"

Murmurando palavras indistintas, Manstin subiu correndo a última colina e eis que na ravina além estava o terrível monstro com um rosto na frente e outro atrás da cabeça!

Este gigante marrom estava sem roupas, exceto por uma pele de gato selvagem em volta dos lombos. Com um olhar perverso e brilhante, ele observava o pequeno bebê de cabelos negros que segurava em seu braço forte. Com uma voz risonha, cantarolou uma canção de ninar de uma mãe indígena: "A-bu! Abu!" e, ao mesmo tempo, trocou o bebê nu com uma roseira brava espinhosa.

Rapidamente, Manstin pulou para trás de um grande arbusto de sálvia no topo da colina. Dobrou o arco e a corda vigorosa vibrou. Uma flecha se cravou acima da orelha de Duas-Caras. Era uma flecha envenenada, e o gigante caiu morto. 

Então, Manstin pegou o pequeno bebê marrom e correu para longe da ravina. Logo chegou a uma tenda de onde vinham altas vozes de lamento. Era a tenda do bebê roubado e os enlutados eram seus pais de coração partido.

Quando o galante Manstin devolveu a criança aos braços ávidos da mãe, um terror repentino surgiu nos olhos de ambos os Dakotas. Eles temiam que fosse Cara-Dupla vindo com uma nova roupagem para torturá-los.

O coelho compreendeu o medo deles e disse: "Eu sou Manstin, o bondoso, — Manstin, o famoso caçador. Eu sou seu amigo. Não tenha medo.”

Naquela noite, algo estranho aconteceu. Enquanto o pai e a mãe dormiam, Manstin pegou o bebezinho. Com os pés colocados gentilmente, porém com firmeza, sobre os dedinhos da criança, ele puxou para cima, com cada mãozinha, a criança adormecida até que se tornasse um homem adulto. Com o indicador, traçou uma fenda no lábio superior; e quando, no dia seguinte, o homem e a mulher acordaram não conseguiam distinguir o filho de Manstin, tão parecidos eram os bravos.

“De agora em diante, somos amigos, para nos ajudarmos”, disse Manstin, apertando a mão direita em despedida. “A terra é o nosso ouvido comum, para carregar de seus extremos o menor desejo de um pelo outro!”

“Oh! Que assim seja!” respondeu o homem recém-criado.

Ao deixar o amigo, Manstin correu em direção à região do Norte para onde se dirigia para uma longa caçada. 

De repente, chegou à beira de um largo riacho. Seu olhar atento avistou uma corda de couro cru presa à beira da água, que levava a uma pequena cabana redonda ao longe. O chão estava pisado em um sulco profundo sob a corda de couro cru, que estava frouxa.

"Hun-he!" exclamou Manstin, curvando-se sobre as pegadas recém-feitas na margem úmida do riacho. "Pegadas de um homem!", disse para si mesmo.

"Um cego mora naquela cabana! Esta corda é o guia que ele usa para buscar água todos os dias!", supôs Manstin, que conhecia todos os costumes peculiares das pessoas. Imediatamente, seus olhos se fixaram na morada solitária e para lá seguiu sua curiosidade — uma verdadeira corda de um cego.

Silenciosamente, levantou a portinhola e entrou. Um velho avô desdentado, cego e trêmulo pela idade, estava sentado no chão. Ele não era surdo, porém. Ouviu a entrada e sentiu a presença de um estranho.

"Hau, neto", murmurou, pois tinha idade suficiente para ser avô de todos os seres vivos, "Hau! Não consigo te ver. Por favor, diga seu nome!"

"Vovô, eu sou Manstin", respondeu o coelho, olhando o tempo todo com olhos curiosos ao redor da tenda. "Vovô, o que é isso tão apertado em todos esses sacos de pele de veado colocados contra os postes da tenda?".

“Meu neto, essas são carne de búfalo e veado secas. São sacos mágicos que nunca se esvaziam. Sou cego e não posso caçar. Por isso, um Criador bondoso me deu estes sacos mágicos com os melhores alimentos.”

Então, o velho curvado puxou uma corda que estava em sua mão direita.

“Isso me leva ao riacho onde bebo! E isso”, disse ele, virando-se para o que estava à sua esquerda, “me leva para a floresta, onde procuro gravetos secos para o meu fogo.”

“Avô, eu queria viver com tanto luxo! Eu me encostaria em um mastro de tenda e, com os pés cruzados, fumaria casca de salgueiro-doce pelo resto dos meus dias”, suspirou Manstin.

“Meu neto, seus olhos são o seu luxo! Você seria infeliz sem eles!”, respondeu o velho.

“Avô, eu lhe daria meus dois olhos pelo seu lugar!”, exclamou Manstin.

“Hau! Você disse isso. Levante-se. Arranque seus olhos e me dê. De agora em diante, você estará em casa aqui, em meu lugar.”

Imediatamente, Manstin arrancou os dois olhos e o velho os colocou! Alegrando-se, o velho avô se afastou com seus olhos jovens enquanto o coelho cego enchia seu cachimbo dos sonhos, encostado preguiçosamente no mastro da tenda. Por um breve período, foi um passatempo muito agradável fumar casca de salgueiro e comer dos sacos mágicos.

Manstin sentiu sede, mas não havia água na pequena casa. Pegando uma das cordas de couro cru, ele se dirigiu ao riacho para matar a sede. Ele era jovem e não estava disposto a caminhar lentamente pela trilha do velho. Estava cheio de alegria, pois fazia muitas luas desde que comera uma comida tão boa. Assim, ele saltou confiantemente, sacudindo o couro cru velho e desgastado pelo tempo espasmodicamente até que, de repente, ele cedeu e Manstin caiu de cabeça na água.

"En! En!", grunhiu ele, chutando freneticamente em meio à correnteza. Ao longo da ribanceira escorregadia, ele tentou em vão escalar, até que finalmente encontrou a velha estaca e a trilha profundamente desgastada. Exausto e interiormente enojado com seus percalços, rastejou com mais cautela, de quatro, até a porta de sua tenda. Pingando água do mergulho recente, sentou-se com os dentes batendo dentro de sua tenda sem fogo.

O sol havia se posto e o ar da noite estava frio, mas não havia lenha na casa. "Hin!" murmurou Manstin e corajosamente tentou a outra corda. "Vou buscar lenha!" disse ele, seguindo a corda de couro cru que levava para a floresta. Logo tropeçou em gravetos secos de salgueiro densamente espalhados. Ansiosamente, com as duas mãos, juntou a lenha em seu cobertor estendido. Manstin era um sujeito naturalmente enérgico.

Quando tinha uma grande pilha, amarrou duas pontas opostas do cobertor e levantou o feixe de lenha sobre as costas, mas, ai de mim! Inconscientemente, havia deixado cair a ponta da corda e agora estava perdido na floresta!

"Hin! hin!" gemeu ele. 

Então, parando por um momento, aguçou as orelhas em forma de leque para captar qualquer som de passos se aproximando. Não havia nenhum. Nem mesmo um pássaro noturno piou para ajudá-lo a sair daquele apuro.

Com uma expressão ousada, ele se assustou ao acaso.

Ele caiu em um emaranhado de madeira, onde estava preso. Manstin largou seu fardo e começou a lamentar ter doado seus dois olhos.

“Amigo, meu amigo, preciso de você! O velho avô carvalho foi com meus olhos e estou perdido na floresta!”, gritou ele com os lábios próximos à terra.

Mal havia falado, o som de vozes se tornou audível na orla da floresta. As vozes se aproximavam e se tornavam mais altas — uma era o som claro da flauta de um jovem guerreiro e a outra os guinchos trêmulos de um velho avô.

Era o amigo de Manstin com a Orelha da Terra e o velho avô.

"Aqui, Manstin, tome os olhos", disse o velho, "Eu sabia que você não ficaria contente em meu lugar, mas queria que aprendesse a lição. Eu tive prazer em ver com seus olhos e experimentar seu arco e flechas, mas como estou velho e fraco, prefiro muito mais minha própria tenda e minhas bolsas mágicas!"

Assim falando, os três retornaram à cabana. O velho avô se esgueirou para dentro de sua tenda, que muitas vezes é confundida com um mero carvalho por meninas e meninos indígenas.

Manstin, com seus próprios olhos brilhantes novamente encaixados na cabeça, partiu alegremente para caçar nas terras do Norte.
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ZITKALA-ŠA (1876-1938), que em Lakota significa 'Pássaro Vermelho', nasceu na Reserva Indígena Yankton em Dakota do Sul, filha de mãe Dakota e pai francês, que a abandonou quando criança. Aos oito anos, foi obrigada a deixar a liberdade e a felicidade da vida entre seu povo – como ela mesma dizia - para ser educada nos costumes e crenças europeus em um internato missionário Quaker. Lá ela recebeu o nome de Gertrude Simmons, seus longos cabelos foram cortados, ela foi forçada a suprimir todos os sinais e costumes de sua cultura e a rezar como uma quaker. As únicas coisas boas que resultaram disso para ela foram aprender a ler, escrever e tocar violino. Três anos depois, ela voltou para a reserva de Yankton apenas para descobrir, para sua consternação, que as pessoas na reserva estavam começando a adotar os costumes e modos de pensar dos europeus e que mesmo ela tinha um pé em cada mundo. Depois de mais três anos na reserva, ela voltou ao mundo dos brancos com a intenção de continuar sua formação musical. Ela aprendeu piano e violino e acabou ensinando música e estudando no Earlham College em Richmond, onde exibia publicamente sua bela oratória. Ao longo dos anos, cruzando repetidamente a ponte entre sua cultura e a cultura europeia, entre a reserva e o mundo branco, Zitkala-Ša acabaria se tornando escritora, editora, tradutora e ativista política, além de musicista e educadora. Ela chegaria a compor uma ópera com o compositor William F. Hanson, intitulada The Sun Dance Opera, baseada na Lakota Sun Dance, que o governo federal havia proibido o povo Ute de realizar em sua reserva. 

Em 1916, aos 30 anos, ela começou seu ativismo nativo americano ao ser nomeada secretária da Society of American Indians, uma associação dedicada à preservação do modo de vida nativo americano. Ela também fez lobby em círculos políticos pelo direito de seu povo à plena cidadania americana. De Washington DC, Zitkala-Ša fez duras críticas ao Bureau of Indian Affairs, chegando a pedir sua dissolução por causa de suas políticas de internato, pelo levantamento da proibição de crianças indígenas usarem sua própria língua e preservar seus costumes culturais. Ela denunciou os abusos que aconteciam nesses internatos sempre que um menino ou uma menina nativa se recusava a rezar de acordo com a maneira cristã.

Também de Washington ela começou a dar palestras em todo os Estados Unidos e, durante a década de 1920, começou a promover a ideia de criar um movimento pan-indígena que unisse todas as tribos da América do Norte para fazer lobby em nome dos povos nativos. Em 1924, graças em parte aos seus esforços, foi aprovada a Lei da Cidadania Indígena, concedendo direitos de cidadania americana à maioria dos povos indígenas que ainda não os possuíam. Em 1926, ela e o marido fundaram o Conselho Nacional dos Índios Americanos (NCAI), com o objetivo de unir as tribos dos Estados Unidos em sua luta pelos direitos dos índios. No entanto, Zitkala-Ša não era apenas um ativista pelos direitos das Primeiras Nações da América do Norte. Ela também esteve envolvida no ativismo pelos direitos das mulheres na década de 1920, quando ingressou na Federação Geral de Clubes Femininos. Zitkala-Ša morreu em 1938, aos 61 anos, e foi enterrada no Cemitério Nacional de Arlington, em Washington. Para homenageá-la, a União Astronômica Internacional nomeou uma cratera em Vênus "Bonnin", seu sobrenome de casada, Gertrude Simmons Bonnin.

Fontes:
Zitkala-Ša. Old Indian Legends. Publicada originalmente em 1901. 
Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

José Feldman (Reescrevendo o Mundo: Vozes Femininas e a Construção de Novas Narrativas) – Parte 2


2. Histórico das Mulheres na Literatura Mundial

2.1 Antiguidade e Idade Média

2.1.1. Suméria e Egito Antigo  
As primeiras mulheres a se destacarem na literatura foram oftentimes figuras ligadas à religião e à mitologia. Na antiga Suméria, a poetisa Enheduanna (c. 2285–2250 a.C.) é considerada uma das primeiras autoras conhecidas. Ela escreveu hinos em honra à deusa Inanna, estabelecendo um precedente para a expressão feminina na literatura.

No Egito Antigo, mulheres como a poetisa e escritora Seshat também contribuíram com a literatura, embora suas obras não tenham sobrevivido em grande parte.

2.1.2. Grécia e Roma  
Na Grécia Antiga, Saffo (c. 630–570 a.C.) se destacou como uma das primeiras vozes femininas na poesia lírica. Suas obras abordavam amor, desejo e a vida feminina, expressando emoções de forma íntima e poderosa.

Na Roma Antiga, figuras como Cornélia e as poetisas da época, como Mírcia e Lesbia, também começaram a se fazer ouvir, embora suas vozes fossem frequentemente ofuscadas por seus homólogos masculinos.

2.1.3. Renascimento  
Durante o Renascimento, o ressurgimento do interesse pelas artes e pela literatura trouxe novas oportunidades para as mulheres. Escritoras como Christine de Pizan (1364–1430) na França, em sua obra "A Cidade das Damas", desafiou a visão negativa da mulher que predominava na literatura da época, defendendo a educação e a capacidade intelectual das mulheres.

2.1.4. Iluminismo  
No século XVIII, o movimento iluminista trouxe um novo foco na razão e na educação. Mary Wollstonecraft (1759–1797) publicou "A Vindication of the Rights of Woman" (1792), uma obra seminal que argumentava pela igualdade educacional e social das mulheres. Sua influência se estendeu ao desenvolvimento da literatura feminista.

2.2 Século XIX

2.2.1. Romantismo  
O século XIX viu um florescimento da literatura feminina, com autoras como Jane Austen, cujos romances abordavam a vida social e as limitações das mulheres, e as irmãs Brontë, que exploraram a complexidade emocional e as lutas de suas protagonistas.

2.2.2. Realismo e Naturalismo  
Na segunda metade do século XIX, escritoras como George Eliot (pseudônimo de Mary Ann Evans) e as autoras do movimento naturalista, como Émile Zola, começaram a ganhar reconhecimento. Elas abordavam temas sociais e questões de classe, proporcionando uma nova perspectiva sobre a vida das mulheres.

2.3. Século XX

2.3.1. Modernismo  
No início do século XX, o modernismo trouxe uma nova voz para as mulheres, com autoras como Virginia Woolf, cuja obra "Um Teto Todo Seu" (1929) argumentou sobre a necessidade de espaço e liberdade para que as mulheres escrevessem. Sua narrativa fluida e introspectiva influenciou gerações.

2.3.2. Pós-Guerra  
Após a Segunda Guerra Mundial, o feminismo começou a ganhar força. Autoras como Simone de Beauvoir, em "O Segundo Sexo" (1949), exploraram a condição feminina e desafiavam normas sociais. Outras, como Sylvia Plath e Anne Sexton, trouxeram temas de identidade e saúde mental para a literatura, abordando questões muitas vezes ignoradas.

2.4. Século XXI

2.4.1. Diversidade e Inclusividade  
No século XXI, a literatura feminina se diversificou ainda mais. Autoras de diferentes origens e culturas, como Chimamanda Ngozi Adichie, Zadie Smith e Margaret Atwood, têm explorado questões de raça, classe e gênero, enriquecendo o panorama literário.

2.4.2. Movimentos Recentes  
Movimentos como #MeToo também influenciaram a literatura contemporânea, com escritoras que abordam experiências de assédio e empoderamento. Livros como "O Conto da Aia" de Margaret Atwood e "O Testamento" abordam questões de controle e liberdade feminina.


A jornada das mulheres na literatura é marcada por desafios e conquistas. Desde as primeiras vozes na antiguidade até as autoras contemporâneas que moldam a narrativa atual, as mulheres têm contribuído significativamente para a literatura, desafiando normas e ampliando as vozes femininas. Essa evolução continua a inspirar novas gerações, promovendo um espaço onde todas as histórias podem ser contadas.

3. Histórico das Mulheres na Literatura Brasileira

3.1 Século XIX

3.1.1. 1ª Metade do Século XIX  
As primeiras mulheres a se destacarem na literatura brasileira surgiram em um contexto em que a sociedade era marcada por rígidas normas patriarcais. Uma das pioneiras foi Maria Firmina dos Reis (1822-1917), considerada a primeira romancista brasileira. Em 1859, publicou "Úrsula", uma obra que abordava temas como a escravidão e a luta pela liberdade, destacando-se como uma voz feminina em um campo dominado por homens.

3.1.2. 2ª Metade do Século XIX  
Outra figura importante foi Julieta de Andrade (1832-1886), que publicou poesias e contos, embora sua obra tenha sido pouco reconhecida à época. Adelaide Carrara e Cecília Meireles também começaram a ganhar destaque, embora Cecília seja mais associada ao modernismo do século XX.

3.2 Século XX

3.2.1. Modernismo e a Geração de 30  
O modernismo brasileiro trouxe um novo vigor à literatura, e autoras como Cecília Meireles (1901-1964) se destacaram com sua poesia lírica e introspectiva. Em sua obra, ela abordou a identidade feminina e a busca por significado em um mundo em transformação.

3.2.2. Geração de 30  
O movimento modernista também viu o surgimento de autoras como Raquel de Queiroz (1910-2003), que foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Seu romance "O Quinze" (1930) retrata a seca no Nordeste e as lutas do povo sertanejo, trazendo uma perspectiva feminina poderosa e socialmente consciente.

3.2.3. Outras Vozes Femininas  
Além delas, autoras como Lygia Fagundes Telles (1923-) e Hilda Hilst (1930-2004) começaram a se destacar, explorando temas de solidão, amor e a condição feminina em suas obras. Lygia, em particular, é conhecida por seus contos e romances que misturam realidade e fantasia, enquanto Hilda desafia convenções sociais e literárias.

3.3. Anos 60 e 70

3.3.1. O Impacto do Feminismo  
Com o advento dos movimentos feministas nas décadas de 1960 e 1970, a literatura começou a refletir as lutas por direitos das mulheres. Marina Colasanti (1939-) e Nydia de Oliveira (1936-) trouxeram novas vozes e perspectivas, abordando as questões de gênero, identidade e opressão em suas obras.

3.3.2. Autoras de Prosa e Poesia  
Nesse período, surgiram também autoras como Adélia Prado (1935-), que combina elementos da vida cotidiana com reflexões profundas sobre a existência e a espiritualidade. Sua poesia é marcada por uma voz única que ressoa com a experiência feminina brasileira.

3.4. Anos 80 e 90

3.4.1. Novas Perspectivas  
Nos anos 1980 e 1990, a literatura feminina brasileira começou a se diversificar ainda mais, com autoras como Ana Cristina Cesar (1952-1983) e Marcia Leite, que exploraram a subjetividade e a cidade em suas obras, abordando questões de identidade e pertencimento.

3.4.2. A Literatura de Mulheres Negras  
Autoras como Conceição Evaristo (1946-) e Carmen Oliveira começaram a ganhar visibilidade, trazendo a literatura negra e questões raciais para o centro do debate literário. Conceição, em particular, destaca-se por suas narrativas que abordam a vida e a resistência das mulheres negras.

3.5. Século XXI

3.5.1. Novas Gerações  
No século XXI, a literatura feminina brasileira continua a se expandir. Autoras como Chimamanda Ngozi Adichie e Eliane Brum têm influenciado novas vozes. Djamila Ribeiro (1980-) e Ruth de Souza (1974-) também se destacam, trazendo discussões sobre raça, gênero e feminismo.

3.5.2. Temas Contemporâneos  
A literatura contemporânea reflete a diversidade das experiências femininas, abordando temas como violência de gênero, sexualidade e a luta por direitos. Livros como "O que é feminismo?" de Djamila Ribeiro e "O Diário de uma Escrava" de Liana Buarque são exemplos de como as autoras têm usado a literatura para provocar reflexão e mudança social.


A trajetória das mulheres na literatura brasileira é marcada por lutas, superações e conquistas. Desde as pioneiras do século XIX até as vozes contemporâneas que desafiam normas sociais, as mulheres têm desempenhado um papel vital na formação da identidade literária do Brasil. Sua diversidade de experiências e perspectivas enriquece a literatura, oferecendo um espaço para que suas histórias sejam contadas e ouvidas.
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continua… Desafios e Estratégias femininas de resistência
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".
Fontes:
José Feldman. Reescrevendo o Mundo: Vozes Femininas e a Construção de Novas Narrativas. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2025.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

domingo, 14 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 93 *


Poema de 
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Vou-me embora
"Gosto de sentar-me à sua sombra."
(Ct. 2.3)

Foi assim tão de repente
Que falaste, sem demora,
Entre lágrima dolente*:
'"Tchau, amor, eu vou-me embora!"

Oh, não! Fica mais um pouco!
Jamais sejas meu açoite!
Apenas, por ti, sou louco!
Fica!.. Fica até à noite!

Não me dês a solidão!
Fica mais, não vás embora!
Este amor não é em vão!
Fica, pois, até a aurora!

Quem te fala é um grande amor,
Não o deixes na saudade!
És o meu maior valor!
Fica... até à eternidade!

E não fales mais assim!
Vê que muito te suplico:
Vive um pouquinho pra mim!
Dize-me somente; "Eu fico!"

Com tais rogos de aflição,
Que de sobra aqui se vê,
Disseste, dando-me a mão;
"Vou-me embora... com você!"
* * * * * * * * * * * * * * * * * *
*Dolente: Magoada, cheia de dor, lastimosa.
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Soneto de
ANTERO DE QUENTAL
Ponta Delgada/Portugal. 1842 – 1891

Transcedentalismo

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto Mundo - por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade -
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!
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Soneto de
JOÃO BATISTA XAVIER OLIVEIRA
Presidente Alves/SP, 1947 – 2025, Bauru/SP

Joio

Por que nós complicamos singelezas
pelo simples sabor de afirmação;
por que não escutar o coração
que pulsa as vibrações das incertezas...

se temos ao alcance o corrimão;
degraus que facilitam mãos coesas;
o dom de emocionarmos às belezas...
Por que só ver a luz na escuridão?

Estamos de passagem simplesmente.
Abrindo com desvelo nossa mente
o mundo é bem maior em nosso espaço.

Por que nós complicamos as passagens
seguindo a realidade das miragens?
A vida é bela e o tempo é bem escasso!
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Triverso de
TAMAIALE AKSENEN 
Irati/PR

Férias de verão
Dormir até mais tarde
Ui! Galo chato.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Dom

Que vontade te impele
a ausentares-te dos demais
no ermo desse horizonte infinito.
A escutares o silêncio onde esculpes
apurada arte de aprofundares o mundo
dom de sussurrares palavras sentidas ao vento
impregnadas de acentuadas essências multicores.
Sementes engravidando a imponência da montanha
numa tocante melodia, elevada ao céu da eternidade.
= = = = = = 

Fábula em Versos
adaptada dos Contos e Lendas do Brasil
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

O Saci e a Natureza

No verde profundo, o saci se esconde 
entre as folhas… ele observa e guia 
com seu olhar sagaz… a vida responde, 
e a natureza pulsa em harmonia. 

As pessoas sentem a força do vento 
com o saci, a terra ganha voz 
e em cada lenda, um novo intento 
de respeitar o mundo… somos todos nós. 

Ele traz a sabedoria do chão, 
e ensina a ouvir o canto das flores, 
a arte da vida em plena união, 
Celebra as cores e os nossos amores. 

Assim, no ciclo eterno de toda ação, 
o saci é a ponte entre o céu e a criação.
= = = = = =

Poema de 
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Porto/Portugal, 1919 – 2004, Lisboa/Portugal

Navio naufragado

Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.
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Quadra Popular

Chamaste-me tua vida,
eu tua alma quero ser:
a vida acaba com a morte,
a alma não pode morrer.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Meiga flor

Esse encanto sem par me extasia
E conduz aos portais do pecado
Plenamente envolvido, abismado
Sou refém duma rara euforia

Provocante, tu és a culpada
Das torrentes de amor, desvario
Tua ausência produz um vazio
Meiga flor, em meu ser tatuada

Aspirando o frescor desse aroma
Enclausuro-me em doce redoma
Onde encontro um prazer colossal

Quando imerso nas cores da bruma
Que meus passos domina e perfuma
Provo, enfim, d'alegria integral
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Spina de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Um Certo Tom Lilás 

Gratidão ao abençoado 
dia reina mansamente, 
confabulando a poesia 

em entrelinhas do meu verso
com o universo. Em sorrisos
amanheço no ar da calmaria
das rimas. No horizonte azul
o crepúsculo voa na sintonia.
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Hino de 
ROSÁRIO DO SUL/RS

Terra fértil de ricas colheitas
de rebanhos e verdes cereais
tua praia de areias eleitas
lembra imenso lençol de cristais

Estribilho: 
Rosário do Sul, Rosário do Sul
Do povo gaúcho contente e feliz
orgulho da gente, cidade bendita
que sonha e palpita no sul do país

O brasão da cidade retrata
as origens que a história traduz
em seus rios, a pureza da prata
sobre o verde à que o ouro dá luz

O rosário, a cabeça de touro
e as armas que em paz hoje estão
simbolizam no verde e no ouro
que Rosário engrandece a nação

Quem o rio contemplar das barrancas
vendo as águas e a vida passar
essas praias de areias tão brancas
dentro d'alma vai sempre levar
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Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Por quê?

Não sei por que é que Deus me fez assim
completamente tolo e apaixonado,
que só para ficar sempre ao seu lado,
acabo me esquecendo até de mim!

Pois desde que você me deu seu sim
e eu confiei que foi um sim pensado,
não permiti jamais que houvesse um fim
em nosso amor tão meigo e desejado!

Você é meu sonho todo santo dia!
E o dia todo desde o amanhecer...
E logo após também, quando adormeço!

E nestes sonhos cheios de alegria
e de utopias, só tenho prazer...
Tanto prazer que eu sei que não mereço!
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Soneto de 
ALFREDO SANTOS MENDES
Lisboa/Portugal

Heresia

Talvez minha garganta revoltada.
Espinhosa ficasse, e enrouquecesse.
Ou para meu castigo enlouquecesse,
Por a manter tão muda, tão calada!

Quero falar, a voz sai embargada,
Como se algum mal eu lhe fizesse.
Eu juro que não fiz, e isso acontece.
Minhas cordas vocais fiquem paradas!

Eu preciso gritar minha revolta,
Engolir todo o mal que não tem volta,
E na glote se encontra aprisionado!

Eu quero ler a minha poesia.
Limpar do meu passado, a heresia,
Engolir as tristezas do meu fado!
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Recordando Velhas Canções
EU SEI QUE VOU TE AMAR 
(samba-canção, 1959) 

 Eu    sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar

E cada verso meu será      
pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda minha vida

Eu sei que vou chorar
A  cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida.

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida.
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José Feldman (Reescrevendo o Mundo: Vozes Femininas e a Construção de Novas Narrativas) – Introdução


Prefácio
por Cailin Dragomir (Timisoara/Romênia, 1949)

A literatura tem sido, ao longo dos séculos, um espelho da sociedade, refletindo suas nuances, tensões e transformações. No entanto, por muito tempo, as vozes femininas foram silenciadas ou relegadas a papéis secundários. "Reescrevendo o Mundo: Vozes Femininas e a Construção de Novas Narrativas" propõe uma jornada pelas páginas da literatura, explorando como as mulheres têm desafiado e reconfigurado narrativas, trazendo à tona suas experiências, lutas e conquistas.

Desde os primórdios da literatura, figuras como Christine de Pizan, no século XIV, já se destacavam ao questionar o lugar da mulher na sociedade e na escrita. Sua obra "A Cidade das Damas" não apenas defendeu a capacidade intelectual das mulheres, mas também lançou as bases para um movimento que reverberaria por séculos. Avançando no tempo, o século XIX trouxe autoras como Jane Austen e Emily Brontë, que exploraram a condição feminina com uma profundidade que ainda ressoa hoje. Elas desafiaram as normas sociais, utilizando a ficção como uma ferramenta de crítica e empoderamento.

O século XX foi marcado por uma explosão de vozes femininas que, através de suas histórias, começaram a desconstruir o patriarcado e a reivindicar espaço no cânone literário. Autoras como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir não apenas escreveram sobre a experiência feminina, mas também questionaram as estruturas que limitavam essa experiência. Woolf, em "Um Teto Todo Seu", argumentou sobre a necessidade de espaço e liberdade para que as mulheres escrevessem, enquanto Beauvoir, em "O Segundo Sexo", desafiou as normas que definem o que significa ser mulher.

Hoje, vivemos um momento em que a escrita feminina se tornou uma força poderosa e transformadora. Autoras contemporâneas como Chimamanda Ngozi Adichie, Elena Ferrante e Margaret Atwood não apenas expandem as narrativas femininas, mas também abordam questões de identidade, raça, classe e sexualidade, revelando a complexidade das experiências femininas. Elas estão reescrevendo o mundo, criando novas narrativas que refletem a diversidade e a riqueza da vida das mulheres.

Este livro é uma celebração dessa evolução. Cada capítulo explorará não apenas a obra de escritoras icônicas, mas também as vozes emergentes que estão redefinindo a literatura. Discutiremos como essas narrativas não apenas empoderam as mulheres, mas também provocam mudanças sociais, oferecendo novas perspectivas sobre o que significa ser mulher em um mundo em constante transformação.

Ao longo das páginas que se seguem, convidamos você a refletir sobre a importância da escrita feminina como um ato de resistência e criação. As histórias contadas por mulheres são essenciais para a construção de uma nova visão de mundo, uma onde suas vozes não apenas são ouvidas, mas celebradas. Juntas, essas narrativas formam um mosaico poderoso que nos permite imaginar e construir um futuro mais inclusivo e igualitário.

Em seu conteúdo, as escritoras não são apenas personagens em suas próprias histórias; elas são arquitetas de novas realidades, reescrevendo o mundo à sua maneira. Que suas palavras inspirem, provoquem e, acima de tudo, empoderem.


1. INTRODUÇÃO

A escrita feminina desempenha um papel crucial na desconstrução social, atuando como uma força transformadora em várias dimensões:

1.1. Visibilidade e Representação
A escrita feminina traz à tona histórias e experiências que, muitas vezes, foram marginalizadas ou ignoradas. Ao dar voz a mulheres de diferentes origens, etnias e classes sociais, a literatura feminina desafia a narrativa hegemônica e busca uma representação mais justa e diversificada da sociedade. Essa visibilidade é fundamental para que as experiências femininas sejam reconhecidas e validadas.

1.2. Desafio às Normas de Gênero
Autoras como Virginia Woolf e Simone de Beauvoir questionaram normas de gênero e papéis tradicionais atribuídos às mulheres. Suas obras não só expuseram a opressão que as mulheres enfrentavam, mas também propuseram novas formas de pensar sobre identidade e feminilidade. Essa desconstrução ajuda a criar um espaço onde as mulheres podem se libertar das expectativas sociais restritivas.

1.3. Crítica Social
A literatura feminina frequentemente serve como uma ferramenta de crítica social. Autoras como Chimamanda Ngozi Adichie e Angela Davis abordam temas como racismo, sexismo e desigualdade econômica, desafiando as estruturas de poder estabelecidas. Ao expor injustiças sociais, a escrita feminina estimula a reflexão e o debate sobre questões fundamentais da sociedade.

1.4. Empoderamento e Autonomia
A escrita é um meio de empoderamento. Ao escrever, as mulheres não apenas reivindicam seu espaço, mas também afirmam sua autonomia. Através da literatura, elas podem explorar suas próprias histórias, desejos e lutas, ajudando a construir uma identidade mais forte e autêntica. Esse empoderamento é vital para a construção de uma sociedade mais igualitária.

1.5. Solidariedade e Comunidade
A escrita feminina também promove a solidariedade entre mulheres. Autoras frequentemente compartilham experiências comuns, criando um senso de comunidade e apoio. Essa conexão ajuda a fortalecer movimentos sociais e a lutar por mudanças coletivas, mostrando que a luta pela igualdade é um esforço compartilhado.

1.6. Reimaginando o Futuro
As narrativas femininas não se limitam a descrever o presente ou o passado; elas também imaginam futuros alternativos. Autoras de ficção especulativa, como Margaret Atwood, exploram cenários que questionam as normas sociais e políticas, oferecendo visões de um mundo mais justo. Essas histórias inspiram a reflexão sobre o que é possível e encorajam a ação em direção a mudanças sociais.

1.7. Educação e Conscientização
A literatura feminina é uma ferramenta poderosa para a educação. Ao abordar questões como violência de gênero, sexualidade e direitos humanos, as obras escritas por mulheres ajudam a conscientizar leitores sobre problemas sociais. Essa conscientização é o primeiro passo para a mudança, pois promove o entendimento e a empatia.


A importância da escrita feminina na desconstrução social reside em sua capacidade de desafiar normas, promover a diversidade e fomentar a transformação. Ao dar voz às experiências das mulheres, a literatura não apenas enriquece o panorama cultural, mas também contribui para a construção de uma sociedade mais equitativa e inclusiva. Através da escrita, as mulheres continuam a moldar narrativas que ressoam profundamente, provocando reflexão e ação em prol de um futuro melhor.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em técnico de patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para Curitiba/PR, radicando-se em Maringá/PR, cidade onde sua esposa é professora da UEM. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Brasileira de Letras, Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, etc. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas do mundo). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Reescrevendo o Mundo: Vozes Femininas e a Construção de Novas Narrativas. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Aparecido Raimundo de Souza (Foi assim, inexplicavelmente incrível)


O MEU DIA nasceu cedo e com promessas. As seis e meia da manhã, ao abrir a janela do meu quarto, me deparei com um céu, tremendamente azul como esperança recém-pintada. Tudo parecia conspirar a favor. Mas foi então que ela se ergueu. Uma nuvem escura, densa, sem pedir licença. Não veio aos poucos, não se esgueirou pelas bordas do horizonte. Ela simplesmente se levantou inteira, se alçou como quem já sabia que seria protagonista. 

E eu, que só queria pular da cama, preparar um desjejum tranquilo e em seguida desfrutar de um pouco de paz antes de começar a escrever meu texto, vi meu dia que prometia ser maravilhoso se curvar diante dela. A luz que eu havia acendido, mudou de tom, a música vinda do radinho de cabeceira se calou em chiados esquisitos e espaçosos.

A alegria que antes dançava leve, se recolheu num canto, tímida. Não era tempestade, mas silêncio. Desses que no meu entender pesam mais que o ribombar de um trovão enfurecido A nuvem não anunciou chuva. Apenas ficou. E às vezes, é isso que mais machuca o que permanece assim do nada, sem explicação. Meu Deus, o que está acontecendo? Era um dia bonito, desses que parecem prometer redenção. Sem falar na magia do céu. 

Entretanto, por algum motivo, a beleza que dele emanava, não impediu que a nuvem se distendesse — e se fizesse pesada, escura, cheia de lembranças que não cabiam mais no meu presente. Com ela, de braços dados, a solidão. Também essa criatura não alardeou estrondo. Veio vindo e se instalou como quem já conhecia a casa: e, de fato, conhecia. Se recostou numa mesinha de canto ao lado da minha cama e no minuto seguinte se levantou indo até meu guarda-roupas.  

Mexeu nas gavetas da memória, acendeu a luz de outros cômodos, inclusive aqueles dos meus escondidos que eu tentava manter apagados. Para destruir, de vez, meu dia, a tristeza veio logo no encalço. Sem pedir licença, se abancou ao meu lado trazendo o fracasso como companhia. E eu, que só queria me levantar, tomar meu dejejum e ir para o escritório no começo do corredor e escrever meu texto, me vi parado, olhando para o nada com olhos cheios de tudo. 

A melancolia, como ensinava Santo Agostinho “credo quia absurdum(Creio porque é absurdo) tem um jeito estranho de se fazer presente. E a gente só acredita numa coisa, quando não consegue explicar, até porque essa coisa não aperta, mas também não solta. Porém, me fez lembrar dos rostos que não vejo mais, das vozes que o tempo calou, dos abraços que ficaram no passado. A saudade é cruel: ela não mata, mas também não deixa a gente viver direito.

As minhas “pessoas queridas” e apartadas do meu convívio, não são apenas ausência. São presenças em forma de falta. São os lugares onde o quieto fala mais alto. São os aniversários que não têm mais sentido, os finais de semana que perderam o cheiro e o gosto do desjejum, do almoço e do café e claro, das conversas nascidas para serem jogadas fora. E assim eu sigo, com a nuvem ainda pairando, esperando que no minuto seguinte ela se dissolva. Ou que eu aprenda a caminhar sob ela, sem perder a beleza de olhar para o céu. 

Ela se engrandeceu sem aviso, sem dizer a que veio, como quem já sabia que o meu dia bonito não duraria. A nuvem escura não pintou no meu pedaço com trovões e relâmpagos, mas com lembranças. E essas, sim, fazem um estardalhaço que chega a ser ensurdecedor.

Nesses lances rápidos, lembro de mamãe. Recordo do cheiro do bolo no forno, do jeito como ela sabia quando eu estava triste, mesmo sem dizer uma palavra. Mamãe partiu cedo demais, como quem sai de cena antes dos aplausos derradeiros. E desde então, o mundo parece menos acolhedor. A minha casa, quase de esquina, continua de pé, mas não tem mais aquele gosto, ou melhor dito, não tem mais aquele cheiro forte e peculiar de lar. 

Meus filhos cresceram, casaram, descasaram e seguiram. E eu fiquei aqui, tentando entender em que ponto da estrada nos desencontramos. Meus rebentos vivem as suas vidas, e eu, apesar dessas lacunas, os adoro e os amo em silêncio, mesmo não ligando (aliás, nunca ligaram), e esquecem que também sinto falta. Isso, bem sei, não é abandono, é distância. Não importa. Dói aqui dentro, esse incômodo, como se fosse algo mais tenebroso. A saudade dos que partiram cedo demais (mamãe Ana e meu pai Roberto), são feridas abertas que não se enrugam, nem se encarquilham.

As atimias* consternadas dos filhos e filhas que não trazem os netos, também contribuem para a solidão se tornar maior. A gente, entretanto, aprende a conviver com “esses vácuos, com essas ausências”, como quem se limita e se acostuma a andar com pedras nos sapatos. Às vezes, elas apertam mais. Em outras, parecem ter sumido. Mas basta uma voz no quintal do vizinho, uma música alta vinda do bar do seu Arthur, ou uma foto achada ao acaso — e lá estão elas, inteiras de novo massacrando o sossego dos calinhos e os joanetes de estimação. 

A nuvem escura continua ali, firme e forte. Não sei se vai embora. Talvez essa agourenta tenha vindo para ficar. E oxalá, com o tempo, (ainda que a poder de pauladas nos costados), eu aprenda a olhar para ela com menos medo. No fundo, no fundo, ela só existe porque houve amor. E isso, nem o tempo apaga. Coisa de uma semana, lembrei do cheiro das roupas lavadas que minhas filhas Amanda e Luana espalhavam pela casa.

O varal era quase um altar — ali pendurava não só fraldas, vestidinhos e calças plásticas, mas também o cuidado, o zelo, o amor incondicional da Marlucia que não precisava de palavras. Quando elas sorriam, por algum motivo bobo e corriqueiro, até os dias nublados pareciam menos pesados. A casa de repente ficou grande demais. O relógio do corredor que acessa a cozinha, continua marcando as horas, mas parece que o tempo estancou junto com os ponteiros enferrujados. 

O som da chaleira fervendo ainda ecoa, mas não há mais as mãos carinhosas e meigas para servir o café. E o sofá da sala, diante da tevê preto e branco, antes tão disputado, agora é só um lugar onde o vazio se senta. Ainda aqui pela casa, alguns brinquedos estão guardados, a bem da verdade, como relíquias de um tempo em que a casa se fazia cheia de risos e correrias. Hoje, Narjara, Eduardo, Amanda e Luana vivem as suas vidas, e eu os vejo de longe, como quem observa um trem que já partiu.

Às vezes, me pergunto se lembram do cheiro do bolo, das histórias antes de dormir, dos banhos, dos abraços apertados. O celular toca menos. E quando se faz presente, é rápido, urgente, quase protocolar. E não são meus filhos. A saudade não tem espaço nas agendas deles. Mas eu, firme, forte e incansável, continuo esperando, aguardando como quem espera por um “oi, pai,” ou um “oi, vô,” que talvez nunca cheguem. Olho-me no espelho do banheiro, quando vou fazer a barba e vejo alguém que carrega muitas histórias, mas poucas testemunhas. 

A minha juventude foi embora, se mandou de mala e cuia com os verões, e o rosto agora guarda marcas que ninguém mais pergunta como surgiram. O dia do enterro de mamãe Ana foi ensolarado, como se o céu quisesse contrariar a dor. As flores se faziam bonitas demais para aquele momento. E mesmo cercado de gente, foi ali, foi exatamente ali, que a solidão se instalou de vez dentro de meu ser.

No dilatado do dia, o céu se moldou, se enfeitou como se zombasse da minha agonia. As flores que chegaram se fizeram bonitas demais para aquele momento. E mesmo cercado de gente, foi ali, bem ali que a solidão supliciante efetivamente se instalou de vez, como uma pena severa a ser levada à cabo. O telefone, repito, toca menos. E quando dá sinais de vida, é rápido, urgente, quase sem alma. A prostração dos que partiram cedo demais é uma ferida constante que não sangra, mas que também não cicatriza. 

A gente aprende a conviver com ela, e a aceitar, como escreveu Nélida Piñon em seu livro “O Calor das coisas”, “nós aprendemos a respirar com metade dos pulmões.” E então, hoje, logo pela manhã, a nuvem se ergueu de novo. Contudo, algo nela estava meio que diferente. Intrigado, abri a porta da sala e saí para a varanda. A rua estava vazia. O céu, seguia escuro. No chão, meu Pai Santíssimo, no chão quase embaixo do portão, um envelope. Dentro, uma tirinha de papel. Na verdade, um bilhete. Letras amareladas, tremidas. Peguei-o pressuroso e li. Dizia apenas:

"Mamãe está aqui. Mas não como você se lembra de mim."    
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* Atimia – Ausência de manifestações afetivas.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing