domingo, 21 de setembro de 2025

Monteiro Lobato (A onça e o coelho)

A onça havia plantado uma roça, onde nasceu muita urtiga. A onça ficou atrapalhada. Nem entrar na roça podia, porque a urtiga arde muito. Foi então que chamou os animais da floresta. 

— Quem me capinar esta roça sem se coçar ganha um boi. — disse ela. 

O macaco se prontificou a fazer o serviço. Mas assim que deu começo à capinação, coçou-se tanto que a onça o tocou de lá. 

Veio o bode, que também se coçou com o chifre. A onça tocou o bode. 

Por fim apresentou-se um coelhinho. "Esta é boa!" — disse a onça. — "Se nem o macaco e o bode puderam capinar a roça, que espera fazer este bichinho?" 

Mas como o coelho insistisse, consentiu. 

A onça ficou fiscalizando o serviço para ver se ele se coçava; depois cansou-se daquilo e deixou uma sua filha no lugar. 

O coelho, que não podia mais de tanta comichão, teve uma ideia. Voltou-se para a filha da onça e perguntou: "Escute: aqui, oncinha, o tal boi que sua mãe prometeu não é um boi malhado, com uma mancha amarela aqui (e dizendo isso coçava a perna), e outra aqui (e coçava o lombo) e outra aqui (e coçava o focinho)? 

A oncinha, muito boba, respondeu que era. O coelho prosseguiu no trabalho, e quando a comichão apertou demais veio novamente perguntar se o boi não tinha também uma mancha amarela em tal e tal parte — e coçava ali. E desse modo conseguiu capinar a roça inteira, ganhando o boi. 

Mas a onça impôs uma condição. 

— Compadre coelho, dou o boi, mas você só poderá matá-lo num lugar onde não houver moscas, nem galo que cante, nem galinha que cacareje. 

O coelho, concordando, lá se foi com o boi em procura de um lugar onde pudesse matá-lo. Andava um pedaço, parava, escutava e sem tardança ouvia um cocoricocó! 

— Aqui não serve. Tem galo. — e seguia para adiante. 

E foi andando até que chegou a um lugar onde não havia mosca nenhuma, nem se ouvia nenhum coricocó. Então matou o boi. Nisto surge a onça. 

— Compadre coelho, — disse ela — um boi é muita coisa para você. Passe para cá um pedaço. 

O coelho deu-lhe um pedaço, que a onça devorou num segundo. 

— Não chegou para matar a minha fome, compadre. Passe para cá outro pedaço. — e o coelho deu outro pedaço. Por fim a onça devorou o boi inteirinho. 

O coelhinho voltou para casa muito triste, com o facão na cintura. Ia pensando num meio de vingar-se da onça. 

Teve uma ideia. Entrou no mato e pôs-se a cortar cipó. Apareceu a onça. 

— Que está fazendo aí, compadre coelho? 

— Estou tirando cipós. Como Deus vai castigar o mundo com uma tremenda ventania, preciso de cipó para me amarrar a um tronco de árvore. 

A onça, amedrontadíssima, pediu: 

— Nesse caso, amarre-me também, compadre. 

— Não posso. — disse o coelho fingida-mente. — Tenho de ir para casa amarrar meus filhinhos. 

— Amarre-me primeiro, - pediu a onça - e depois vá amarrar seus filhinhos. 

O coelho coçou a cabeça e por fim disse: 

— Está bem, comadre onça e como prova de amizade vou fazer esse grande favor — e amarrou-a com todos os cipós, deixando-a impossibilitada do menor movimento. 

— Bom, — disse ele ao concluir o serviço — a comadre está tão bem amarradinha que nem o maior dos furacões é capaz de arrancá-la daí — e foi-se embora, a rir. 

Passado algum tempo a onça, vendo que não vinha vento nenhum, desconfiou. "Querem ver que fui tapeada pelo tal coelho? Como agora livrar-me deste amarramento?" 

Vinha vindo um macaco. 

— Amigo macaco, faça o favor de tirar de mim estes cipós. 

Mas o macaco, sabidão que era, apenas disse: "Deus ajude a quem te amarrou", e foi-se embora. 

Apareceu um veado. 

— Amigo veado, faça o favor de desamarrar-me, pediu a onça. 

O veado, apesar de burrinho, deu a mesma resposta do macaco, e lá se foi. 

Veio o bode, e aconteceu a mesma coisa. 

Passadas algumas horas, o coelho foi espiar como ia indo a onça. 

— Compadre coelho, viva! O vento não apareceu e eu estou que não posso mais. Venha desamarrar-me. 

O coelho, com dó dela, pôs-se a desenrolar os cipós. Assim que a malvada se viu livre, nhoc! deu-lhe um pega. Mas o coelho alcançou dum pulo um buraco, mesmo assim a onça agarrou-lhe um pé. 

O coelho caiu na risada. 

— Ah, como é tola a minha comadre onça! Agarrou uma raiz de pau e está pensando que é meu pé. Ah, ah, ah!... 

A onça, desapontada, soltou as unhas, pensando mesmo que houvesse ferrado uma raiz de pau. O coelho afundou no buraco. 

Uma garça veio pousar ali perto. A onça chamou-a. 

— Comadre garça, — disse ela — fique de olho nesta cova, enquanto eu vou buscar uma enxada. Não deixe o coelho sair. 

A garça ficou na árvore, com os olhos no buraco. 

O coelho disse: — Que grande tola! Então é assim que uma garça toma conta de buraco onde está um coelho? 

— Como devo fazer então? — perguntou a bobinha. 

— Ora, ora! Tem de vir aqui e ficar com o bico dentro do buraco. 

A garça desceu da árvore e enfiou o bico no buraco. O coelho atirou-lhe aos olhos um punhado de areia e escapou. 

Nisto veio a onça com a enxada. Cavou, cavou até lá no fundo e nada de coelho. 

— Comadre garça, que fim levou o coelho que estava aqui? 

— Não sei! — respondeu a tola. — Ele me mandou que enfiasse o bico no buraco. Assim que enfiei o bico, me botou nos olhos areia. Fiquei cega e nada mais vi. 

A onça, furiosa, deu um bote na garça, que lá se foi voando, muito fresca da vida.
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Monteiro Lobato (José Bento Renato Monteiro Lobato) nasceu em 1882, em Taubaté/SP, e faleceu em 1948, em São Paulo. Foi promotor, fazendeiro, editor e empresário. Apesar de também escrever para adultos, ficou mais conhecido por causa dos seus livros infantis. Faz parte do pré-modernismo e escreveu obras marcadas pelo realismo social, nacionalismo e crítica sociopolítica. Já seus livros infantis da série Sítio do Picapau Amarelo possuem traços da literatura fantástica, além de apresentarem elementos folclóricos, históricos e científicos.Em 1900, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo. Em 1903, se tornou um dos redatores do jornal acadêmico O Onze de Agosto. Escreveu também para periódicos como Minarete, O Povo e O Combatente. Se formou em Direito no final do ano de 1904. Em 1908, se casou com Maria da Pureza. Com a morte do avô, em 1911, o escritor recebeu como herança algumas terras. Assim, decidiu morar na fazenda do Buquira. Ele passou a ser conhecido quando, em 1914, sua carta “Uma velha praga” foi publicada n’O Estado de S. Paulo. Em seguida, o autor criou o personagem Jeca Tatu. Três anos depois, desistiu da vida de fazendeiro e se mudou para São Paulo. Nesse ano, publicou o polêmico artigo Paranoia ou mistificação?, que critica as tendências modernistas. No ano seguinte, comprou a Revista do Brasil. Em 1920, fundou a editora Monteiro Lobato & Cia. Cinco anos depois, vendeu a Revista do Brasil para Assis Chateaubriand (1892–1968) e decretou a falência da editora Lobato & Companhia, que, a essa altura, já se chamava Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato. Ele se tornou sócio da Companhia Editora Nacional. Se mudou para o Rio de Janeiro, em 1925. Dois anos depois, foi para Nova York, onde assumiu o cargo de adido comercial. Em 1929, devido à crise econômica, vendeu suas ações da Companhia Editora Nacional. No final de 1930, quando Getúlio Vargas (1882–1954) subiu ao poder, o escritor perdeu seu cargo de adido comercial. Retornou ao Brasil no ano seguinte. Em 1932, foi um dos fundadores da Companhia Petróleo Nacional. Anos depois, em 1941, o autor ficou preso, durante três meses, por fazer críticas ao regime ditatorial de Getúlio Vargas. Se tornou sócio da Editora Brasiliense, em 1946, ano em que decidiu morar na Argentina, onde foi um dos fundadores da Editorial Acteón. Voltou ao Brasil em 1947 e fez críticas ao governo de Eurico Gaspar Dutra (1883–1974). Em 1922, decidiu concorrer à cadeira número 11 da Academia Brasileira de Letras. Porém, desistiu da candidatura por não querer “implorar votos”. Já em 1926, voltou atrás e, novamente, concorreu a uma vaga na ABL, mas não foi eleito. Por fim, em 1944, recusou indicação para a Academia, em protesto por Getúlio Vargas ter sido eleito à Academia Brasileira de Letras em 1941

Fontes:
Monteiro Lobato. Histórias de Tia Nastácia. Publicado originalmente em 1937. Disponível em Domínio Público.  
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Tia Célia (A lagarta infeliz)

Num jardim muito agradável e florido vivia uma lagarta que se sentia sempre muito infeliz. Na verdade, ali ela tinha tudo o que precisava.

Passeava pelas plantas e se alimentava de folhas bem verdinhas e macias, e se abrigava entre os ramos das árvores.

A lagarta era muito boa, prestativa e gostava muito de ajudar os outros, mas quem?

Todos a temiam e fugiam dela exclamando:

- Que bicho feio!

Os garotos caçoavam dela e maltratavam a pobrezinha, que corria a esconder-se entre as folhas. Por isso, ela vivia muito triste. Possuía um coração terno e amoroso e queria muito ter amigos, mas não conseguia aproximar-se de ninguém.

Os próprios bichos a olhavam com desdém, dizendo:

- Vejam que roupa mais feia!

E a pobre lagarta ficava cada vez mais triste e sozinha, até que, cansada de tanto ser maltratada ela não saiu mais de casa.

Não podendo aproximar-se de ninguém, ainda assim querendo doar algo de si mesma, ela fez a única coisa que sabia fazer: teceu lindos fios para que alguém pudesse aproveitar confeccionando belas roupas. Como tinha muito tempo à sua disposição, ela trabalhou bastante.

Enrolou-se toda no casulo e ficou quietinha... quietinha...

Estava com tanto sono! Sentia-se tão cansada...

E a lagarta dormiu... dormiu...dormiu...

Quando acordou, sentiu-se diferente, mais leve, mais bem disposta.

Teve vontade de passear e saiu de casa.

Notou que todos os que estavam por perto a fitavam com surpresa e admiração.

- O que está acontecendo? – pensou. Olhou-se e ficou deslumbrada.

Oh! Maravilha! Era um lindo dia e, sob os raios do sol morno da manhã, ela percebeu que se transformara em uma linda borboleta de asas coloridas e cintilantes.

Sem poder conter a emoção do momento, satisfeita da vida e muito, muito feliz, ela bateu as asas brilhantes e, depois de beijar as perfumadas flores do jardim, voou para o infinito.
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Célia Xavier de Camargo (Tia Célia) é natural de Gália/SP, espírita, escritora com 23 livros publicados. É formada em Direito, sendo atualmente professora aposentada. Casada com 4 filhos. Reside em Rolândia – PR. Residiu por muitos anos na cidade de Marília (SP), onde participou ativamente do movimento espírita. Em 1980 iniciou-se na psicografia, publicando 15 livros de diversos autores espirituais, disponíveis nas livrarias espíritas. Tendo atuado por muitos anos na área infanto-juvenil de educação espírita, desde o ano de 1985, é responsável por uma página inteiramente dedicada à criança no mensário O Imortal, de Cambé/PR. Palestrante por todo o Brasil divulgando o Espiritismo. O livro “Um anjo em nossas vidas”, faz parte do Clube do Livro do Instituto Chico Xavier.

Fontes:
Jornal O Imortal. Cambé/PR: 2001.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Asas da Poesia * 96 *


Soneto de
LUIZ POETA
Rio de Janeiro/RJ

Quando chega o tempo

Chega um tempo em que a tristeza só se cura
Com a ternura que ainda habita um coração,
Porque a alma não suporta a amargura
Que perfura a pele dura da razão.

Chega um tempo em que só há uma solução:
Esquecer ou conviver com a dor sentida,
Porque a vida não carece da emoção
De sentir a solidão da própria vida.

Chega o tempo em que qualquer gota de pranto,
Já cansada de traçar o mesmo rumo,
se acomoda em qualquer riso e perde o prumo,

Todavia, basta apenas um encanto,
Que o sonho se esgueira devagar
E alegra a solidão do nosso olhar.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Indesejada

Tarde da noite, 
alguém bateu 
à minha porta
com vontade, 
quase a ponto de derrubá-la 

Ao abri-la,
Era a Saudade
do seu adeus... 
E agora – me pergunto:
“como fico eu?!”
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Poema de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

Batom de cereja

Aconchegam-se
À xícara branca
Os contornos
Dos nossos lábios -
Sobrepostos,
No gosto do meu batom
Cor e aroma de cereja,
Tonalizando, a saudade
Em mais um inesquecível
Fim de tarde impresso
Na suavidade da porcelana
Mesclada ao toque
Inesquecível do teu beijo...

Quando os relógios derretem
O Amor tem todo o tempo do mundo...
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Fábula em Versos
adaptada dos Contos e Lendas da África
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

O Pássaro e a Rainha

Em um reino distante, a rainha tão bela,
tinha um pássaro mágico, de voz singela.
Mas um dia, o pássaro, triste, cantou,
“Estou preso em um feitiço, que me aprisionou.”
A rainha, decidida, partiu na procura,
De um sábio ancião, que a resposta se configura.

Após muitos desafios, encontrou o velho:
“Para libertá-lo, deve quebrar o espelho.”
A rainha, corajosa, enfrentou o temor,
e ao quebrar o espelho, trouxe a liberdade e amor.
O pássaro voou, com alegria e gratidão,
e a rainha sorriu, sentindo a emoção.

A coragem e o amor podem libertar,
os laços do medo, podemos quebrar.
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Quadra Popular

Tu te queixas, eu me queixo...
Qual de nós tem razão?
Tu te queixas do meu zelo;
eu, da tua ingratidão.
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Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Náufrago

Singrei diversas rotas solitário, errante,
Ao longe, eu percebi um elixir olente.
Imerso na magia desse fausto instante,
No mar dos teus encantos naufraguei, contente.

Tu foste desenhada com sem par requinte,
Sereia dos meus sonhos, da beleza és fonte.
Eu peço que concedas, se não for acinte,
Um beijo carinhoso aqui na minha fronte.

Não quero mais remar... Minh'alma vejo plena,
Carente de motivos... Tenho a ti, menina,
Domaste os furacões, vieste a mim serena,

Dos teus lábios formosos a doçura emana.
Tomara Deus que sejam minha eterna sina,
De todo o meu pensar, amor, és soberana.
= = = = = = 

Poema de
ARY DOS SANTOS 
Lisboa/Portugal, 1937 – 1984

Na Mesa do Santo Ofício 

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.
= = = = = = 

Soneto de 
AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos/SP

Irmã do coração

Humilde, sorridente, prestimosa,
alegre, bem disposta, divertida;
no mais, profundamente religiosa,
foi sempre assim a nossa Aparecida.

Gostava de uma estória bem jocosa
e, muito, de anedota comedida;
mas, nunca (criatura respeitosa),
faltou pureza em toda a sua vida!

Deu sempre a todos nós sua existência,
sem interesse algum, por puro amor,
afeto que doava sem medir.

E quando Deus chamou-a, por clemência
deixou-nos por herança e ao meu dispor,
o exemplo da alegria de servir!
= = = = = = 

Soneto de
FLORBELA ESPANCA 
Vila Viçosa, 1894 – 1930, Matosinhos

Mentiras

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade…
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito…

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
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Trova Funerária Cigana

Ó minha irmã Felisberta,
se com a nossa mãe falares,
não contes meu sofrimentos,
pra não lhe dar mais pesares.
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Spina de 
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo / SP

Reencontro (2)

Inalas cada manhã 
tuas cores, pairas 
em vias, laboratório 

da ilusória poesia. O falatório 
das maritacas colorem o dia.
O sino dobra quase vexatório,
sem euforia. Nas frias tardes,
teu riso doura vento aleatório.
= = = = = = 

Soneto de 
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

Catador de papéis

Bandeirante de um tempo diferente,
Sem legenda, sem lei, sem evangelho,
Pelas selvas da vida vai, descrente,
O velho catador de papel velho.

Nele morreram todas as esperanças
E, tendo o jeito de papai-noel,
Desperta o riso alegre das crianças,
Levando às costas sonhos de papel.

Zombam de sua exótica figura,
Mas ele, indiferente à zombaria,
Faz do papel surrado que procura
O tesouro do pão de cada dia.

Nada o magoa, nada o desalenta
Nem vê que sua sombra na calçada
Vai-se tornando cada vez mais lenta…
= = = = = = 

Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

O amor II

Como a planta que nasce no quintal,
se bem  cuidada cresce e fica linda.
Também o amor que nasce natural
pode crescer, viver, florir, ainda.

É preciso, porém, que o amor normal
seja cuidado com ternura infinda.
O verdadeiro amor não tem rival,
a beleza do corpo é que se finda.

Quando o amor se revela por inteiro,
o carinho renasce e vem primeiro
ornando a vida e sobrepondo a dor.

E juntos seguem pela vida afora
vivendo intensamente a nova aurora,
iluminados  pela luz do amor.
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Poetrix de
RENEU BERNI
Goiânia/GO

Ângulos

guri solta pipa
quero-quero cuida o ninho
a rua ruge
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Soneto de
JOSÉ XAVIER BORGES JUNIOR
São Paulo/SP

Viver por amor

Esquece tua lúgubre procela
E faz tu próprio sempre o teu destino
Pintando na tua vida uma aquarela,
Retrato do teu sonho cristalino...

Restringe o dissabor, mantém o tino
E faz da vida doce passarela;
Afasta, se puderes o agrestino,
Corrige sempre o rumo da tua vela,

E deixa no abandono ou esquecida
A névoa que te fez tão infeliz.
Esforça-te a mostrar o teu valor,

E lembra-te que a vida só é vida
Se tu fores o teu próprio juiz
Vivendo o teu viver por puro amor…
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Poema de 
CHARLES BAUDELAIRE
Paris/França, 1821 – 1867

A alma do vinho

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febrís?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"
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Hino de 
Aperibé/RJ

Entre matas, entre serras, entre rios,
Despertando o progresso, a ferrovia,
Num esplêndido esmero desafio,
Denominava-se Chave do Faria.

À esquerda, ás margens do rio Paraíba,
E lindas serras Bolívia e Facões,
Mais próximo, á direita o rio Pomba,
Tranquilo mas rebelde nos verões.

A natureza com tuas riquezas,
O homem com bravura, força e fé,
Construíram com orgulho e pureza
A nossa amada terra Aperibé.

Onde índios viveram no passado,
Aperibé outrora Pito Aceso,
Território rico, fértil, disputado,
Libertado pelo teu povo coeso.

Povo de brio, forte, guerreiro,
Emancipando conquistou a liberdade,
Aperibé te amamos tu és
Sempre nossa adorada cidade.
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Soneto de 
FRANCISCA JÚLIA
(Francisca Júlia da Silva Munster)
Eldorado/SP (antiga Xiririca) 1874 –  1920, São Paulo/SP

Os argonautas

Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;
Os astros e o luar — amigas sentinelas —
Lançam bênçãos de cima às largas caravelas
Que rasgam fortemente a vastidão do oceano.

Ei-los que vão buscar noutras paragens belas
Infindos cabedais de algum tesouro arcano...
E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,
Faz palpitar o bojo às retesadas velas.

Novos céus querem ver, miríficas belezas,
Querem também possuir tesouros e riquezas
Como essas naus, que têm galhardetes e mastros...

Ateiam-lhes a febre essas minas supostas...
E, olhos fitos no vácuo, imploram, de mãos postas,
A áurea bênção dos céus e a proteção dos astros...
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Recordando Velhas Canções
CASTIGO 
(samba-canção, 1958) 

A gente briga, 
diz tanta coisa que não quer dizer
Briga pensando que não vai sofrer
Que não faz mal se tudo terminar

Um belo dia 
a gente entende que ficou sozinha
Vem a vontade de chorar baixinho
Vem o desejo triste de voltar

Você se lembra, 
foi isso mesmo que se deu comigo
Eu tive orgulho e tenho por castigo
A vida inteira pra me arrepender

Se eu soubesse
Naquele dia o que sei agora
Eu não seria esse ser que chora
Eu não teria perdido você

Se eu soubesse
Naquele dia o que sei agora
Eu não seria essa mulher que chora
Eu não teria perdido você
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J. E. Hanauer (Sátira) 1


Havia certa vez em Jerusalém um jovem padre que, além de saber de cor a liturgia do dia-a-dia, aprendera a ler um capítulo da Bíblia em árabe que adorava recitar diante da sua congregação. Ele sempre começava:”Então Deus disse a Moisés...”.

A primeira vez que leu isto, os fiéis se deleitaram e se surpreenderam com a sua erudição; mas logo cansaram deste sermão, que era repetido domingo após domingo. 

Então uma manhã, antes do serviço, um dos fiéis entrou na igreja e retirou a marcação da bíblia do padre. Quando, durante o serviço religioso, chegou o momento daquela leitura, o padre abriu a bíblia e começou, confiante: “Então Deus disse a Moisés...”. Mas ao olhar para a página diante dele, não a reconheceu; só aí percebeu que a sua marcação fora removida. 

Perturbado, começou a virar as páginas freneticamente, esperando encontrar o seu capítulo. Mais de uma vez imaginara tê-lo encontrado, e então recomeçava: “Então Deus disse a Moisés...”, mas não sabia como continuar. 

Finalmente um ancião da congregação, intrigado com a repetição daquela frase, perguntou: “Padre, o que Deus disse a Moisés?”

E o padre respondeu furiosamente: 

“Ele disse: Que Deus destrua a casa do desgraçado que retirou a marcação do meu livro!”.
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James (John) Edward Hanauer (Damasco/Síria, 1850–1938, Jerusalém) foi autor, fotógrafo e cônego de São. Catedral de Jorge em Jerusalém. Hanauer nasceu de pais judeus e suíços bávaros em Damasco e batizado em Jaffa (então Síria otomana); ele se mudou para Jerusalém ainda jovem. Seu pai, Christian Wilhelm Hanauer, nasceu na Baviera, em 1810, mas foi para Jerusalém e converteu-se do judaísmo ao cristianismo em 1843. J.E. Hanauer foi contratado para Expedição Arqueológica de Carlos Warren na Transjordânia, como tradutor e fotógrafo assistente, o início de seu interesse em pesquisas sobre as antiguidades e folclore da região o levaram ao seu envolvimento com o Fundo de Exploração da Palestina. Seus artigos e correspondência foram publicados no Declaração Trimestral da sociedade britânica depois de 1881, que também publicou seu livreto Tabela das Eras Cristã e Maometana em 1904; ele recebeu equipamentos fotográficos de alta qualidade para complementar suas produções. Algumas de suas coleções de fotografias foram reproduzidas em sua obra de 1910, Caminhadas sobre Jerusalém; seu irmão e o filho também atuavam neste campo. Em 1907 lança o Folclore da Terra Santa: muçulmano, cristão e judeu, publicado em Londres. Hanauer morreu em sua casa em Jerusalém em 1938. Foi posteriormente enterrado no Cemitério Protestante de Jerusalém, Cemitério Monte Sião.

Fontes:
J.E. Hanauer. Mitos, lendas e fábulas da Terra Santa. SP: Landy, 2005. Disponível em Domínio Público.  
Biografia = https://en.wikipedia.org/wiki/J._E._Hanauer
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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Duas caras”


O notável escritor, filósofo, professor, romancista, artista plástico, ensaísta, poeta, político, advogado e imortal da ABL Ariano Suassuna, um dos maiores nomes da literatura brasileira, em uma de suas apresentações, narrou que certa vez uma senhora indiscreta, ao saber que ele era do signo de Gêmeos, teria afirmado que todo “geminiano” possui “DUAS CARAS”. 

Apanhado de surpresa viu-se Suassuna confrontado com a crença que associa as pessoas de Gêmeos com o estereótipo de "duas caras", sinônimo de falsidade. de quem age sem firmeza de propósitos, sempre “acendendo uma vela a Deus e outra ao diabo”. De pronto, respondeu Ariano em tom jocoso:

- E você acha que se eu tivesse duas caras, eu usaria esta?...

A invertida demonstra a agilidade mental, a sagacidade e o bom humor do festejado dramaturgo paraibano, que de forma leve e inteligente, usou a vil acusação para engordar seu vasto repertório de situações cômicas.

Embora “DUAS CARAS” seja geralmente utilizada em sentido pejorativo, não se pode circunscrevê-la aos nascidos sob Gêmeos, signo que felizmente não tem o monopólio de albergar em seus limites cronológicos o tanto de gente falsa que existe em nossa volta, pois eles frequentam com desenvoltura e posando de sinceros, todas as demais faixas imaginárias do Zodíaco.

Atualmente não mais se discute a origem da expressão "DUAS CARAS". Remonta ela à dualidade inerente à natureza humana e ao vezo da manipulação, alcançando quem age com hipocrisia, falsidade e dissimulação, dependendo da situação. A expressão não tem uma origem única e pontual. Sofreu desenvolvimento gradual, encontrando paralelos em metáforas muito antigas, que evidenciam e desnudam a dualidade das pessoas. 

Exemplo mais remoto de “dupla face” foi o de Judas, ao entregar Jesus aos sacerdotes, não em troca de sinecuras, porém movido pela cupidez argentária de receber trinta moedas de prata. Ele era o tesoureiro do grupo e como tal, o responsável por administrar o dinheiro da comunidade de apóstolos, vendo na ignóbil oferta oportunidade imperdível de acumular riqueza pessoal, da qual, por sinal, sequer pode desfrutar, pois esmagado pelo peso do arrependimento resultante de sua vil traição, enforcou-se. 

Séculos depois, Joaquim Silvério dos Reis repetiu nas Alterosas o gesto infame de Iscariotes, ao trair os inconfidentes em troca do perdão de suas elevadas dívidas com a Coroa portuguesa, aliado ao medo de perder sua patente militar de coronel e seu prestigiado status social. Como o apóstolo maldito, agiu por ganância, oportunismo e interesses pessoais, não propriamente por lealdade à Coroa Portuguesa ou convicção política. Estudiosos da ciência jurídica e da História admitem que a atitude do coronel Silvério dos Reis pode ser considerada a primeira "delação premiada" do Brasil, instituto jurídico através do qual o delator é recompensado por revelar o envolvimento de seus pares. 

A colaboração ou delação premiada, pelo qual o investigado em um processo penal recebe benefícios em troca da deduragem. está prevista em diversas leis brasileiras e em qualquer delas, as informações do “colaborador” causam superlativo estrago, tanto que a protagonizada por Silvério dos Reis fulminou a Inconfidência Mineira e motivou o martírio de Tiradentes.

Há hipóteses, entretanto, que dão ensejo a acusações infundadas sobre alguém ter agido com “duas caras”. Como exemplo, vale lembrar o caso do ex-jogador da Ponte Preta de Campinas (SP). Na partida final do Campeonato Paulista do de 1977 disputada com o Corinthians, uma das mais memoráveis da história pois o Coringão buscava encerrar um longo jejum de títulos do campeonato paulista, no terceiro e decisivo jogo, ele foi expulso no início da partida após uma discussão com o árbitro. 

E sem o seu principal artilheiro, a Ponte Preta foi derrotada por 1-0 e o Corinthians finalmente sagrou-se campeão. Por coincidência, no ano seguinte, o jogador foi contratado justamente pelo Corinthians, o que aumentou a desconfiança de que ele teria facilitado a vitória do seu novo clube, o que nunca foi provado, pois o jogador com veemência sempre negou esse fato, no que foi corroborado pelos demais jogadores da Ponte, assim finalmente se livrando de ser rotulado de “duas caras”. 

É inevitável que essa repudiada expressão surja da observação do comportamento de indivíduos insinceros, que agem ao sabor da conveniência ou da situação que lhes parece mais favorável, fazendo jus ao rótulo de "falso" ou "hipócrita". A propósito, o vilão Duas-Caras do Batman, é um indicativo clássico dessa dualidade, com um lado bom e outro mau. Virou ele um dos mais famosos "Duas Caras" da nossa cultura, ajudando a popularizar o termo e consolidar a assertiva de que ter “duas caras" é próprio de alguém desonesto, sem decência e sem integridade moral.

O típico “duas caras”, exibe facetas contraditórias, marcadas pela hipocrisia (ostenta uma imagem, diversa do que é na verdade é), pela duplicidade (tem atitudes diferentes em contextos distintos), são vistos como os “morde-e-assopra” pelo povo, pois dizem uma coisa e fazerem outra, que estão “deste lado” mas também “do outro”, que são moralistas inflexíveis mas topam transigir, tudo, claro, em troca de vantagens, ainda que insignificantes.  

O tema é tão palpitante, que assegurou o êxito da novela “Duas Caras”, da rede Globo, exibida entre 2007 e 2008. Aguinaldo Silva caprichou na trama e alcançou grande invulgar sucesso de audiência abordando a história de um homem que, após roubar a fortuna da esposa, assume nova identidade. O enredo pode ser interpretado de várias maneiras, mas torna-se impossível não associá-lo à falsidade, mudança de comportamento, da ocultação de intenções, para concluir sobre existência de diferentes facetas da personalidade de cada um, dependendo da situação que enfrenta ou pretende enfrentar.

Para a Psicologia, a dupla personalidade pode ser resultado de experiências traumáticas ou mecanismos de defesa. Acredita-se que a pressão social pode levar pessoas a mostrar diferentes "caras", para de algum modo tirar proveito. A Filosofia exorta que a falta de autenticidade pode ser justificada pela dualidade do espírito humano. Entretanto, dúvida não resta que o selo de “duas caras” encerra impressão muito negativa sobre terceiro, associado que está à hipocrisia, à falsidade, à enganação, à dissimulação, ao disfarce e à capacidade de alguém se fazer passar por quem não é. 

Na música, tal a expressão descreve um tipo de personalidade falsa, que assim age para enganar os outros, especialmente em contextos amorosos. Tais composições (existem várias na MPB) são frequentemente cantadas para expor a decepção em um relacionamento, quando uma pessoa descobre, sob o peso da decepção, que a outra não é quem parecia ser, sentindo-se traída em sua confiança. A música "DUAS CARAS" de Paula Mattos, usa essa metáfora para expressar a dor de descobrir a infidelidade do parceiro.

“A minha raiva é não ter
aquela raiva de você
deve ser porque não deu, pra te esquecer.
Sofro sabendo que era só um truque
quando beijava tirando o look.
Dói saber que existem duas de você
uma é o meu amor a outra é meu desprazer.
Quem é você?
Quem tá aqui na minha frente
a verdadeira ou a que mente?
Quem é você?
Que dá o céu e tira o chão
a verdadeira ou a que mente
a top 1 na ilusão
e o pior de tudo ainda amo essa decepção
você é duas caras zero coração”

A paulistana Edna Frigato, famosa por seus poemas que exploram a profundidade das emoções humanas e a importância da autenticidade, sintetizou de forma magistral o que se deve pensar sobre esse tipo de gente: “O problema de conviver com pessoas de duas caras é que a gente nunca sabe a qual delas nos dirigir, já que as duas são falsas”. 

Excelente reflexão, diga-se de passagem, para encerrar esta crônica, pois dificilmente poderíamos conceituar de modo mais exato esse abominável desvio de personalidade, como fez numa única e antológica frase, essa carismática pensadora e poetisa brasileira.
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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