sábado, 7 de fevereiro de 2026

Mensagem na Garrafa 150 = As Duas Vizinhas


Autor Anônimo
As Duas Vizinhas

Havia duas vizinhas que viviam em pé de guerra. Não podiam se encontrar na rua que era briga na certa. 

Depois de um tempo, Dona Maria descobriu o verdadeiro valor da amizade e resolveu que iria fazer as pazes com Dona Clotilde.

Ao se encontrarem na rua, muito humildemente, disse dona Maria:

- Minha querida Clotilde, já estávamos nessa desavença há anos e sem nenhum motivo aparente. Estou propondo para você que façamos as pazes e vivamos como duas boas e velhas amigas.

Dona Clotilde, na hora, estranhou a atitude da velha rival e disse que viria pensar no caso.

Pelo caminho foi matutando...

- Essa dona Maria não me engana, está querendo me aprontar alguma coisa e eu não vou deixar barato. Vou mandar-lhe um presente para ver sua reação. 

Chegando em casa preparou uma bela cesta de presentes, cobrindo-a com um lindo papel, mas encheu-a de esterco de vaca.

- Eu adoraria ver a cara da dona Maria ao receber esse "maravilhoso" presente. Vamos ver se ela vai gostar dessa.

Mandou a empregada levar o presente à casa da rival, com um bilhete:

- Aceito sua proposta de paz e para selarmos nosso compromisso, envio-te este lindo presente.

Dona Maria estranhou o presente, mas não se exaltou e pensou:

- Que ela está propondo com isso? Não estávamos fazendo as pazes? Bem deixa pra lá!

Alguns dias depois dona Clotilde atende a porta e recebe uma linda cesta de presentes, coberta com um belo papel.

- É a vingança daquela asquerosa da Maria. Que será que ela me aprontou?

Qual não foi sua surpresa ao abrir a cesta e ver um lindo arranjo das mais belas flores que podiam existir num jardim, e um cartão com a seguinte mensagem:

- Estas flores é o que te ofereço em prova da minha amizade. Foram cultivadas com o esterco que você me enviou e que proporcionou excelente adubo para meu jardim. 

Afinal, cada um dá o que tem em abundância em sua vida.

Fontes: 
Lendas para Reflexão
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Irmãos Grimm (Os meninos de ouro)


Havia, certa vez, um homem e uma mulher muito pobres, que nada possuíam além de uma choupana e apenas se alimentavam com o que ele pescava. 

Um dia, ao tirar a rede da água, o pescador encontrou um peixe todo de ouro. Enquanto o olhava, o peixe, para maior surpresa sua, começou a falar:

- Escuta, pescador! Se me devolveres à água, transformarei tua choupana num palácio maravilhoso.

- Que  me adianta um palácio - respondeu-lhe o homem - se nada tenho para comer?

E o peixe tornou a falar:

- Tratarei disso, também. No palácio haverá um armário e, sempre que o abrires, estará cheio de pratos com manjares deliciosos, tantos quantos desejares.

- Se assim for - disse o  homem - poderei atender teu pedido.

- Bem - continuou o peixe - mas há uma condição. A ninguém neste mundo, seja quem for, poderás  contar de onde veio a fortuna. Se disseres uma só palavra, tudo  desaparecerá.

O homem atirou o peixe maravilhoso na água e voltou para casa. E eis que, onde antes se erguia sua choupana, havia agora, um grande  palácio. 

O pescador arregalou os olhos de espanto, e, ao entrar, viu sua mulher toda enfeitada, com vestido novo, sentada num salão magnífico! Ela indagou, radiante:

- Como aconteceu isso, marido? Confesso que tudo me agrada muitíssimo.

- Sim - respondeu-lhe o homem - e a mim também; mas estou com fome. Dá-me algo para comer.

- Nada tenho - afirmou ela - e nada consigo encontrar na nova casa.

- Que isso não seja empecilho! - exclamou o homem. - Vejo ali um armário grande . Abre-o.

Ela abriu o móvel e apareceram bolo, carne, frutas e vinho; tudo tão apetitoso que era um gosto ver.

- Coração, que mais podes desejar? - exclamou, alegremente, a mulher.

Sentaram-se e comeram e beberam à vontade. depois de satisfeitos, ela indagou:

- Mas de onde vem toda essa fartura, marido?

- Não me perguntes - respondeu ele. – Não posso dizer-te. Se eu te disser, nós perderemos tudo.

- Bem - concordou a mulher. - Se não devo saber, não insisto.

Mas só dizia isso da boca para fora; daí por diante tanto insistiu e incomodou o marido que este, perdendo a paciência, acabou revelando que tudo aquilo lhes vinha de um peixe de ouro, prodigioso, que ele tinha pescado e ao qual devolvera a liberdade.

Mal terminou de pronunciar as últimas palavras, o belo palácio, com seu armário e tudo o mais, desapareceu e os dois se viram, novamente, na velha choupana de pescadores.

O homem não teve outro remédio senão prosseguir na sua profissão, a pesca. mas a sorte não o abandonava e ele tornou a apanhar o peixe de ouro.

- Escuta! - disse este. - Se me jogares outra vez à água, eu te devolvo o palácio com o armário cheio de assados e cozidos; mas deves ficar firme e não revelar de que modo isso aconteceu; caso contrário, perderás tudo.

- Terei toda a cautela! - prometeu o pescador e jogou o peixe à água.

Quando chegou em casa, encontrou tudo, de novo, em grande esplendor, e sua  mulher encantada com a sorte. Mas a curiosidade não a deixava sossegada e, passados alguns dias, já estava ela indagando, outra vez, como acontecera aquilo e a quem deviam aquela felicidade. 

Por algum tempo o homem manteve firme, mas, por fim, exasperado com a insistência da mulher, não se conteve e revelou o segredo.

No mesmo instante o palácio, desapareceu e ambos se viram, novamente, dentro da velha choupana.

- Estás vendo?! - gritou o homem.- Agora tornaremos a passar fome!

- Ora exclamou a mulher. - Prefiro não ter riquezas se não posso saber de onde vem elas!

O homem voltou à pesca e, passado algum tempo, o destino assim havia disposto, apanhou o peixe de ouro pela terceira vez.

- Escuta aqui! - falou o peixe.- Vejo que hei de cair sempre em tuas mãos. Leva-me para tua casa e corta-me em seis pedaços. Dois deles darás à tua esposa para comer; outros dois a teu cavalo e os restantes dois, enterrarás no quintal. de todos eles hás de conseguir coisas que nem imaginas!

O homem levou o peixe para casa e fez como lhe havia ordenado. pouco depois aconteceu que, dos dois pedaços plantados no quintal, brotaram dois lírios de ouro; a égua teve dois potrinhos de ouro e a mulher deu à luz dois meninos, também de ouro.

As crianças cresceram, tornando-se uns belos rapazes e, como eles os lírios e potros também se desenvolveram. Certo dia os dois jovens disseram:

- Pai, vamos montar nossos cavalos de ouro e sair a correr mundo.

O pescador ficou muito triste e lhes respondeu:

- Que será de mim se forem embora e eu ficar sem notícias de vocês?

- Os dois lírios de ouro ficarão aqui- disseram os rapazes. - Por meio deles saberás como passamos; enquanto estiverem viçosos, estaremos gozando de boa saúde; se murcharem, é que estamos doentes e, se caírem do galho , é sinal de que morremos.

Puseram-se a caminho e chegaram a uma hospedaria cheia de gente. Quando viram os jovens de ouro, começaram a rir e divertir-se à custa deles. Um dos irmãos, ao ouvir  as pilhérias, envergonhou-se e, desistindo de correr mundo, voltou à casa paterna. O outro, porém, seguiu adiante e chegou a uma floresta imensa. 

Dispunha-se a passar por ela, quando as pessoas do lugar lhe avisaram:

- Não te aventures a atravessar essa floresta. Está cheia de bandidos que te atacarão e, se virem que és de ouro e teu cavalo também, na certa liquidarão contigo.

O rapaz, no entanto, não se deixou amedrontar e disse:

- Preciso passar pela floresta e passarei.

Adquiriu umas peles de urso, com as quais se cobriu e à sua montaria, de modo que nada se enxergasse. Assim disfarçado, entrou, confiante, na floresta. Tendo cavalgado por algum tempo, ouviu um rumor nos arbustos e murmúrio de vozes. Alguém disse:

- Aí vem um homem!

Outro respondeu:

- Deixa que passe. É um caçador de ursos, pobre e tão pelado como rato de igreja. Que poderíamos tirar dele,

E assim o moço de ouro atravessou o bosque são e salvo.

Certo dia chegou a uma aldeia, onde avistou uma jovem, tão bela que achou não ser possível haver outra mais linda no mundo inteiro. E como se sentisse grandemente atraído por ela, dirigiu-se a seu encontro e lhe falou:

- Amo-te de todo coração. Queres ser minha esposa?

A moça, que também gostou dele, respondeu aceitando seu pedido.

- Sim, quero  ser tua esposa e te serei fiel a vida toda.

Ao se casarem, quando estavam em plena festa, chegou o pai da noiva que, ao ver sua filha casando, indagou:

- Onde está o noivo?

Mostraram-lhe o jovem de ouro que continuava coberto de peles de urso. O homem ficou furioso e exclamou:

- Não permitireis que minha filha case com um caçador de ursos!

E, investindo contra o rapaz, quis matá-lo. Sua filha, porém, se desfez em súplicas:

- Ele é meu marido e eu o quero de todo coração.

Finalmente conseguiu apaziguar o pai. Mas este não pode esquecer sua preocupação e, na manhã seguinte, levantou-se de madrugada, disposto a saber se o genro era, de fato, um mendigo. 

Entrou no quarto e viu, então, um jovem belíssimo, todo de ouro, deitado na cama e as peles de urso espalhadas pelo chão. Enquanto se retirava pensou: " Que sorte ter reprimido minha cólera; teria cometido uma grande injustiça."

Enquanto isso, o jovem sonhou que andava caçando um cervo magnífico e, ao acordar, disse à sua esposa:

- Vou caçar na floresta.

Apreensiva, ela lhe implorou que ficasse a seu lado.

- Facilmente poderá acontecer-te uma desgraça! - disse.

Ele, porém, insistiu:

- Devo ir e irei.

Encaminhou-se para floresta e, pouco depois, descobriu, a certa distância, um cervo belíssimo, igual ao que vira em sonho. Fez pontaria para disparar a arma, mas o animal escapou. Lançou-se em sua perseguição, saltando valos e atravessando moitas, sem jamais cansar. Ao anoitecer, porém, o cervo desapareceu. Olhando em redor, o jovem avistou à sua frente uma casa pequenina onde vivia uma feiticeira. Bateu à porta e a velha apareceu, perguntando:

- Que procuras a esta hora da noite, em meio desta floresta imensa?

- Não viste um cervo? - indagou ele.

- Sim, - retrucou a velha - conheço bem o cervo.

Enquanto ela falava, um cãozinho, que também saíra da casa se pôs a ladrar, furiosamente, para o forasteiro.

- Cala-te, maldito cachorro - gritou o rapaz - se não queres que eu te dê um tiro.

Aí a velha gritou:

- Como? Pretendes matar meu cãozinho? - e, no mesmo instante, o transformou em pedra.

Em casa, sua esposa ficou esperando por ele em vão.

"Na certa - pensou ela - aconteceu o que eu receava e o que tanto vinha me pesando no coração!"

Quanto ao outro irmão, que ficara na casa do pai, e sempre observava os lírios de ouro, viu quando, de repente, um deles murchou.

- Meu Deus! - exclamou. - Aconteceu uma desgraça a meu irmão. Devo sair para ver se posso salvá-lo.

- Não vás- pediu-lhe o pai.- Que serás de mim se perco a ti também?

Mas o jovem lhe retrucou:

- É preciso que eu vá, e irei.

Montou seu cavalo de ouro, pôs-se a caminho e chegou ao bosque onde estava seu irmão, transformado em pedra. 

A feiticeira saiu da casa e o chamou, com a intenção de encantá-lo também. Mas  o rapaz gritou de longe:

- Se não devolves a vida a meu irmão, eu te mato a tiros, velha bruxa.

Embora a contragosto, a  velha tocou a pedra com os dedos e logo o rapaz recuperou a forma humana. Os dois jovens sentiram uma grande alegria ao se reverem e depois de se terem abraçado, saíram juntos do bosque. 

Um deles dirigiu-se à casa de sua esposa e o outro à de seu pai. Ao vê-lo chegar, o velho exclamou:

- Já sabia que havias salvo teu irmão, pois o lírio de ouro tornou a erguer-se e continuou com vida.

E, desse momento em diante, todos viveram contentes e felizes até ao fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 4 *

  

JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

LENDA DO PINHEIRO E A PALMEIRA

Nas terras do sul, o destino,
traçou um encontro de luz,
um amor puro e divino,
que ao horizonte conduz.

Havia um jovem guerreiro,
valente e de forte presença,
andava no mato certeiro,
com alma de fé e de crença.

A moça de graça infinita,
era a índia mais faceira,
a joia da mata, a mais dita,
bela na vida inteira.

Amavam-se contra o vento,
em tribos de guerra e rancor,
guardavam o seu sentimento,
num mundo sem paz e sem cor.

O ódio de velhos caciques,
barrava o sagrado querer,
erguendo cruéis tabiques,
proibindo o amor de crescer.

Fugiram na noite calada,
buscando o refúgio do chão,
a alma por Tupã abraçada,
num só e fiel coração.

Mas antes que o dia surgisse,
o destino os veio buscar,
para que o tempo os unisse,
tiveram que se transformar.

Ele virou um gigante,
o Pinheiro de copa pro céu,
com espinhos no corpo, constante,
combatendo o vento e o véu.

A moça virou a Palmeira fagueira,
crescendo ao lado de seu grande amor.
Vivem abraçados na mata inteira,
vencendo o tempo, o medo e a dor.

O. Henry (Efêmeros Visitantes da Arcádia)


Há um hotel na Broadway que ainda não foi descoberto pelos promotores de excursões de veraneio. É fundo, e amplo, e fresco. Seus quartos têm painéis de carvalho escuro e temperatura agradável. Brisas domésticas e folhagens verde-escuras dão-lhes as delícias, sem os inconvenientes dos Adirondacks. Subindo suas largas escadas ou ascendendo sonhadoramente em seus elevadores etéreos, guiados por cabineiros com botões de bronze nos dólmãs, sente-se uma alegria serena que os alpinistas jamais experimentaram. Na cozinha, há um mestre-cuca que sabe preparar uma truta de riacho melhor do que as servidas nas Montanhas Brancas, peixes e mariscos capazes de causar inveja aos melhores hotéis praianos, ou caça do Maine diante da qual até mesmo o coração oficial de um guarda-caça se renderia.

Alguns afortunados descobriram esse oásis no deserto julino de Manhattan. Durante esse mês, os poucos hóspedes do hotel podem ser vistos confortavelmente dispersos aqui e ali na meia-luz do fresco e alto salão de jantar, a se examinarem uns aos outros, congratulando-se consigo mesmos silenciosamente, através da branca vastidão das mesas desocupadas.

Garçons de sobra, movendo-se solícitos como que pneumaticamente, circulam sem bulha, atentos a qualquer necessidade dos hóspedes mesmo antes de ela se fazer sentir. A temperatura é a de um perpétuo abril. Os afrescos do teto, a imitarem um céu estival, exibem nuvens delicadas que não desaparecem como, infelizmente, as da Natureza.

O tumulto distante e agradável da Broadway transforma-se, na imaginação dos felizes hóspedes, no murmúrio de uma queda d’água enchendo os bosques com seu som repousante. Os hóspedes ouvem com ansiedade qualquer passo estranho, receosos de que seu retiro seja descoberto e invadido pelos incansáveis veranistas que, em busca de prazeres, estão sempre violando a natureza, mesmo em seus mais recônditos refúgios.

Assim, o pequeno grupo de conoisseurs esconde-se ciumentamente durante a estação quente, no caravançarai (estalagem gratuita para pousada das caravanas nos desertos) despovoado, aproveitando integralmente as delícias de montanhas e praia que engenho e arte lograram reunir e servir-lhes.

Nesse julho, chegou ao hotel uma .senhora que entregou na portaria, para registro, um cartão com os dizeres: ”Mme Héloise D'ArQ' Beaumont".  

Madame Beaumont era uma hóspede muito do agrado do Hotel Lótus. Tinha o ar refinado da elite, temperado e suavizado por uma graça natural que escravizava os empregados do hotel. Os meninos de recado disputavam a honra de atender-lhe ao chamado; os empregados, não fosse por uma questão de propriedade, ter-lhe-iam transferido a posse do hotel e de seu conteúdo; os demais hóspedes a consideravam como o toque final de exclusivismo e beleza femininos indispensável a tornar o ambiente perfeito.

Essa hóspede excepcional raramente deixava o hotel. Seus hábitos casavam-se perfeitamente com os costumes dos exigentes proprietários do Hotel Lótus. Para bem aproveitar aquela hospedagem deleitosa, era necessário considerar a cidade como se estivesse situada a léguas de distância. À noite, uma ligeira visita aos clubes da vizinhança era tolerável; mas durante o dia tórrido, era de rigor que os hóspedes se deixassem ficar nas vastidões umbrosas do Lótus, como uma truta permanece imóvel no límpido santuário de seu lago favorito.

Embora sozinha no Hotel Lótus, Madame Beaumont mantinha a classe de uma rainha cuja solidão é apenas de posição. Tomava o desjejum às dez — ser delicado, fresco e despreocupado a reluzir suavemente na penumbra, qual um jasmim ao crepúsculo. No jantar, porém, a glória de Madame atingia o pináculo. Trajava ela um vestido tão lindo e imaterial como a névoa de uma catarata oculta num desvão de montanha. A descrição desse vestido fica além da imaginação do escriba. Nas rendas que lhe guarneciam a frente, viam-se invariavelmente pálidas rosas vermelhas. O maitre encarava esse vestido com respeito e ia receber sua dona à porta do salão. Quem o visse lembraria Paris, e talvez condessas misteriosas, e sem dúvida Versalhes, e aventureiros, e Mrs. Fiske, e rouge-et-noir (vermelho e preto).

Corriam no hotel boatos de origem desconhecida, de que Madame era uma cosmopolita que puxava com suas delicadas e alvas mãozinhas certos cordéis entre as nações em favor da Rússia. Sendo uma cidadã do mundo, cujos melhores caminhos conhecia, não era de admirar que houvesse logo descoberto, nas refinadas salas do Hotel Lótus, o melhor local da América para uma estada repousante durante o calor do verão.

Madame Beaumont já estava há três dias no hotel, quando ali apareceu um rapaz que se registrou como hóspede. Falando por ordem das suas qualidades; vestia-se discretamente na moda; seus traços eram regulares e simpáticos; sua expressão, a de um homem do mundo sereno e refinado. Informou ao empregado da portaria que iria ali demorar-se dois ou três dias, indagou de datas de saída de vapores para a Europa, e mergulhou na inatividade abençoada do inigualável hotel, com o ar satisfeito de um viajante em sua estalagem predileta.

O rapaz — sem pôr em dúvida a autenticidade do registro — era Harold Farrington. Integrou-se no teor de vida exclusivista e calmo do Lótus, com tanto tato e quietude, que não perturbou em nada os que, como ele, ali procuravam descanso. Farrington tomava refeições no Lótus e, alimentando-se da flor homônima, deixava-se embalar pela paz abençoada, a exemplo dos outros afortunados hóspedes. Num só dia, conquistou sua mesa, seu garçom, e o temor de que caçadores esbaforidos, que, em busca de repouso, esquentavam a Broadway, invadissem e destruíssem aquele céu tão próximo, mas tão oculto.

Depois do jantar, no dia seguinte ao da chegada de Harold Farrington, Madame Beaumont, ao levantar-se, deixou cair seu lenço. Mr. Farrington o apanhou e devolveu à dona, sem a efusão de quem procura fazer relações. 

Talvez existisse uma maçonaria mística entre os exigentes hóspedes do Lótus. Quem sabe a felicidade comum de terem descoberto, na própria Broadway, o protótipo dos hotéis de veraneio os aproximasse uns dos outros. Madame e Farrington trocaram palavras delicadas e corteses, numa tentativa de quebrar a formalidade do encontro. E, como se estivessem na atmosfera adequada de um verdadeiro hotel de veraneio, travaram relações que floresceram e frutificaram imediatamente, qual a planta mística do mago. Por alguns momentos permaneceram no balcão em que terminava o corredor, entretidos com as amenidades de uma conversação. 

— A gente se cansa dos velhos hotéis – disse Mme Beaumont com um leve e doce sorriso. — De que adianta correr para a montanha ou para a praia com o fito de fugir ao barulho e à poeira, quando as próprias pessoas que os produzem nos acompanham até lá?

— Mesmo no oceano os filisteus nos perseguem - observou Farrington, tristemente. — Os navios mais exclusivos já não passam de simples barcas. Que os céus nos ajudem quando os veranistas descobrirem que o Lótus está mais distante da Broadway do que as Mil Ilhas ou o Mackinac.

— Espero que pelo menos ainda por uma semana esteja o nosso segredo bem guardado – retorquiu Madame com um suspiro e um sorriso. 

— Não sei para onde iria se eles invadissem o querido Lótus. Só conheço um lugar igualmente delicioso no verão: o castelo do Conde Polinski, nas Montanhas Urais. 

— Ouvi dizer que Baden-Baden e Cannes estão quase desertos nesta estação — continuou Farrington. — Ano a ano, os velhos lugares vão decaindo. Talvez muita gente, como nós, procure os recantos tranquilos que a maioria despreza.

— Concedi a mim mesma mais três dias deste delicioso repouso — disse Madame Beaumont. — O Cedric zarpa segunda-feira.

Os olhos de Harold Farrington se entristeceram. 

— Também preciso partir segunda — informou —, mas não vou para o exterior.

Madame Beaumont deu de ombros, num gesto indiferente.

— Não se pode ficar aqui escondida para sempre, embora o lugar seja encantador. Há mais de um mês que o castelo está em preparativos para receber-me. Que aborrecimento essas recepções a que somos obrigados! Contudo, jamais esquecerei esta semana no Hotel Lótus.

— Nem eu — declarou Farrington em voz baixa e jamais perdoarei ao Cedric.

Na noite de domingo, três dias depois, os dois sentavam-se a uma pequena mesa no mesmo balcão. Um garçom discreto trouxe sorvetes e copinhos de bebida aromatizada.

Madame Beaumont trazia o mesmo vestido maravilhoso que usava todas as noites ao jantar. Parecia pensativa. Perto de sua mão, na mesa, estava um estojo de toalete. Depois de tomar o sorvete, abriu o estojo e dele retirou uma nota de um dólar.

— Mr. Farrington — disse, com o sorriso que conquistara o Hotel todo quero lhe confessar algo. Tenho de partir antes do café da manhã porque devo voltar ao meu emprego. Trabalho no balcão de artigos de malharia, na Super Loja Casey. Minhas férias terminam amanhã às oito horas. Esta nota é o último dinheiro que terei em mãos até receber meu salário semanal de oito dólares no próximo sábado. O senhor é mesmo um cavalheiro e mostrou-se bondoso comigo; por isso, quis-lhe contar esta história antes de me despedir.

"Há um ano estou economizando parte do que ganho especialmente para estas férias. Sempre desejei passar uma semana como uma grande dama, ainda que fosse a única em toda a minha vida. Queria levantar-me quando me apetecesse, em vez de ter de pular da cama às sete horas todos os dias. Queria viver em grande estilo e ser atendida ao tocar a campainha, assim como os ricos. Agora já fiz o que queria: foi a temporada mais feliz que jamais esperei ter na vida. Volto ao trabalho e ao meu pequeno apartamento, satisfeita por outro ano. Queria contar-lhe tudo, Mr. Farrington, porque... pensei que gostasse um pouquinho de mim... eu... eu gostei do senhor. Lastimo tê-lo enganado até agora, mas tudo para mim era como num conto de fadas. Eis por que lhe falei da Europa e de coisas que li sobre outros países, e fi-lo crer que eu fosse uma grande dama.

"Este vestido... é o único que tenho em condições. Comprei-o a prestações. Custou-me setenta e cinco dólares em 0'Dowd & Levinsky e foi feito sob medida. Paguei 10 dólares de entrada e continuarei a pagar um dólar por semana até liquidar o débito. É tudo quanto tenho a dizer, Mr. Farrington. Meu nome é Mamie Siviter e. não Madame Beaumont. Agradeço-lhe todas as atenções. Com este dólar, pagarei amanhã a prestação do vestido. Vou agora para o meu quarto.”

Harold Farrington escutou com expressão impassível o relato da mais linda hóspede do Lótus. Quando ela terminou, o rapaz retirou do bolso do colete um caderninho semelhante a um livro de cheques. Com um toco de lápis escreveu qualquer coisa numa das folhas em branco, que arrancou e entregou à companheira, tomando-lhe a nota de um dólar.

— Também preciso ir trabalhar amanhã de manhã — confessou — e é melhor começar agora. Eis o recibo da prestação. Sou cobrador de 0'Dowd & Levinsky há três anos. Curioso, não, os dois termos tido a mesma ideia sobre as férias? Sempre desejei hospedar-me num hotel de categoria e para isso fui guardando parte dos meus vinte dólares semanais. Diga-me uma coisa, Mamie, que tal uma volta de bote em Coney Island, sábado à noite?

O rosto da pseudo Madame Héloise D'Arcy Beaumont abriu-se num sorriso.

— Irei sem falta, Mr. Farrington, Aos sábados, a loja fecha ao meio-dia. Aposto que gostaremos de Coney, mesmo depois de termos passado uma semana entre os granfas.

Abaixo do balcão, a cidade apinhada rumorejava na noite de julho. Dentro do Hotel Lótus imperavam sombras frescas e temperadas; um garçom solícito estava junto às janelas baixas, pronto a acorrer ao chamada de Madame ou de seu acompanhante.

À porta do elevador, Farrington despediu-se e Madame Beaumont fez a sua última subida. Antes, porém, de chegarem ao silencioso ascensor, disse o rapaz;

— Esqueça-se de Harold Farrington, sim? Meu nome é Mc Manus, James Mc Manus. Algumas pessoas me chamam Jimmy.

— Boa noite, Jimmy — disse Madame.
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O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, nasceu em 11 de setembro de 1862, em Greensboro, Carolina do Norte/EUA. Ele teve uma infância marcada por várias mudanças, já que seu pai era um médico e sua mãe morreu quando ele era jovem. Em sua juventude, trabalhou em diversas funções, incluindo como balconista e farmacêutico. Em 1896, após ser acusado de desvio de fundos em seu trabalho como caixa em um banco, ele se mudou para a América do Sul, onde começou a escrever. Ao retornar aos Estados Unidos, ele adotou o pseudônimo O. Henry e começou a publicar contos em revistas, ganhando fama por suas narrativas envolventes e reviravoltas surpreendentes. O. Henry teve uma vida pessoal tumultuada, marcada por problemas financeiros e saúde. Ele faleceu em 5 de junho de 1910, em Nova York, mas deixou um legado duradouro na literatura com suas histórias que capturam a essência da vida urbana e a natureza humana. O. Henry é lembrado por seu estilo ágil e por suas histórias que frequentemente apresentam finais inesperados, tornando-o um dos mestres do conto curto na literatura americana.

Fonte: O. Henry. Caminhos do Destino. Contos. Publicado originalmente em 1909. 
Disponível em Domínio Público. 

Leonardo da Vinci (As chamas)


As chamas brilhavam há mais de um mês na fornalha do soprador de vidro, onde eram feitos vidros e garrafas.

Um dia viram aproximar-se uma vela colocada num castiçal fino e brilhante. Imediatamente, com um desejo ardente, as chamas tentaram aproximar-se da linda vela.

Uma delas, saltando da brasa que a alimentava, virou-se de costas para a fornalha e, passando através de uma pequenina fresta, atirou-se para cima da vela, devorando-a sofregamente.

Porém a ávida chama logo consumiu a pobre vela e, não desejando morrer com ela, tentou voltar para a fornalha de onde havia fugido.

Porém não conseguiu desgrudar-se da cera amolecida e, em vão, gritou para as outras chamas, pedindo socorro.

A chama rebelde transformou-se numa sufocante fumaça, e deixou todas suas irmãs resplandecentes, com a perspectiva de uma vida longa e brilhante.
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Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual..

Fontes:
Blog Era uma vez…  – 03.02.2015
Biografia = Coisinha Literária. 14.08.2020

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 150 *


 Poema de
RICARDO REIS
(Fernando Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

34

Segue o teu destino, 
Rega as tuas plantas, 
Ama as tuas rosas. 
O resto é a sombra 
De árvores alheias.

A realidade 
Sempre é mais ou menos 
Do que nós queremos. 
Só nós somos sempre 
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só. 
Grande e nobre é sempre 
Viver simplesmente. 
Deixa a dor nas aras 
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida. 
Nunca a interrogues. 
Ela nada pode 
Dizer-te. A resposta 
Está além dos Deuses.

Mas serenamente 
Imita o Olimpo 
No teu coração. 
Os deuses são deuses 
Porque não se pensam.
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Poema de
ANTERO JERÓNIMO
Lisboa/Portugal

Eros

À luz da vela titubeante
pasmado pela ciência dos antigos
convoco-te, deus do amor
ao palácio da minha ousadia
em concílio de desesperança

Não mendigo ambrósia e néctar
nem as graças do teu acolhimento
pois sou insignificante mundano
perdido no seio da adversidade

Desfecha tuas setas certeiras
no coração do homem descrente
de deuses de honra e de amor

Penetra no coração empedernido
ferindo de morte a cobiça vil
entorpecida em iludido sono estígio

Que a beleza da lenda
torne da razão a fantasia

Que o puro sentimento peregrino
seja conduzido nos braços
servis do gentil zéfiro
levando o mesquinho rastejar
à imortalidade alada da alma.
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Poema de 
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

Chuva 

A cortina úmida 
Molha a terra que 
Entusiasmada exala 

O cheiro suave, de seu ventre 
A água em livre demanda 
Carrega pelas sarJetas 

As mágoas da natureza,
Do nosso tempo, a alegria 
E a tristeza do viver.
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

Vendaval

O vento frio açoitando meu rosto
Penetra na pele, mas também na alma
Fico parada só  a contra gosto
Querendo muito que a mim tragas calma.

A doença não há de me vencer
Tenho amigos com quem posso contar
Para tanto busco o que  merecer
Busco alívio e meto-me a trabalhar.

Os trovões retumbando ao longe trazem
Insegurança, inquietação e fazem
A angústia, a saudade da pátria aflorar.

Lá fora ruge o vento inquietante
Assustando o coração desta imigrante
Despertando o ensejo de à pátria voltar.
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Poema de
DANIEL RODAS
Campina Grande/PB

Descriação 

às vezes passo dias
procurando a palavra certa
o rumo certo

vasculho dicionários estéreis 
mergulho 
em versos frios e obscuros

mas nada encontro: nenhuma
semente do que queria
dizer

e o que me resta é olhar pela
janela

os bem-te-vis plantando flores
nos seus ninhos.
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Soneto de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Vila dos Andradas

Nasci naquela vilazinha feia, 
sem árvores nem flores nas calçadas.
Rua? Perdão! Errei se assim chamei-a, 
era apenas a Vila dos Andradas.

Saí criança e não voltei. Lembrei-a,
saudosa das cirandas nas calçadas.
Foi lá, que eu aprendi que a lua cheia
era a Mansão dos Sonhos e das Fadas!

Não mais existe a minha velha Vila,
mas, pobre e triste, seu passado atesta
que nela havia luz que ainda cintila

a ultrapassar os sóbrios horizontes:
- Naquela Vila, plácida e modesta,
viveu, rimou o nosso Martins Fontes!
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Spina de
SOLANGE COLOMBARA
São Paulo/SP

Noite de inverno 

Decanto teus versos
em suaves nuances,
aquecendo a poesia 

que existe na noite fria.
Sinto os ecos do vento
açoitando no ar, tua ira.
Ouço o silêncio do luar,
sorrio... Ele é meu guia.
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Flagelo

Do passado não deixes que a lembrança
te ponha o peito em pranto a flagelar
para a noite da dor não apagar
o antigo sol dos tempos de bonança.

Procura um outro amor pela esperança
de novas alegrias desfrutar,
pois diz velho provérbio popular
que aquele que algo espera sempre alcança.

Limpa da mente aquele antigo rosto
que agora só te traz mágoa e desgosto
e afasta da tua vida esse flagelo!

Varre, pois, da tua alma o sofrimento,
apaga da lembrança esse tormento
e exuma dela esse já morto anelo!
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Poema de
RITA DELAMARI
Curitiba/PR

Luminescência

Noite longa e misteriosa,
e o silêncio me consome...
Apareces por trás das nuvens,
fica a observar-me de longe.

Com teu brilho prateado,
banhas o céu totalmente.
Brincas de esconde-esconde,
que até parece se divertir.

Teimosa, se fazes presente,
e sorri bem sorrateira!
Conversas comigo, não queres partir
Solidão, não é mais companheira.

Consegues enxugar-me o pranto,
preenches todo meu pensamento.
Percebes que a ti tenho encanto!
Sabes como ninguém, seduzir.

Então, sem pedir licença
acalma a minha noite,
domina os meus sonhos...
Derrama sobre mim, sua luz!
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

O Andarilho

“Não me fale de amor”, alguém me disse,
“o amor morreu, já não existe mais”.
E eu retruquei que aquilo era tolice,
– será pecado alguém amar demais?

Ficou parado ali, talvez me ouvisse
que o amor perdoa e espera, sem jamais
querer em troca o favo da meiguice
que perpetua a vida entre os casais.

O tempo foi passando e pela rua
eu vi aquele vulto olhando a lua
perambulando como um peregrino.

E percebi, então, que aquele rosto
marcado pela dor, pelo desgosto,
nunca teve um Amor em seu destino!
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Desavisado
Trazia um beijo antigo 
Guardado no peito 
Mas ao te ver com outro
Fiquei tão sem jeito 
Que deixei que o beijo 
Caísse no chão.
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Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Ilha de Sant’Ana

Tua origem, de fato, ninguém sabe,
mas nasceste das cinzas deste pó;
Ilha amada, em teu ventre, tudo cabe,
aos sussurros do velho Seridó!

Que teu nome, no tempo, não desabe,
nem te deixem viver assim tão só;
que o teu canto de amor, nunca se acabe,
ante o olhar de Sant'Ana, nossa avó!

Sob as bênçãos de nossa padroeira,
e os arpejos de cada cachoeira,
que deságua nas terras deste chão...

Quando o rio, de verde se reveste,
tens a imagem mais pura do Nordeste,
e és a Ilha mais linda do sertão!
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Quadra de
IDEL BECKER
Porto Casares/ Argentina (1910 – 1994) São Paulo/SP

Você diz que sabe muito,
há outros que sabem mais;
há outros que tiram pomba
do laço que você faz.
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Hino de 
Matinhos/PR

Ó berço romântico, de ingênuo fulgor.
Ó filha do Atlântico, ó paraíso em flor.
Na calma que anseias, escrínio do mar.
As tuas sereias são joias sem par.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Na azul madrugada, tu a cintilar.
És sonho de fada que o sol faz dourar
Nas noites serenas, secreto rumor.
Escuta-se apenas, o mar teu cantor.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Doçura sem conta, propício rincão.
Oásis que aponta a vasta amplidão
Teu mar sem fronteiras, excelso e viril.
Em ondas brejeiras, te beija sutil.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.

Seus torvos cuidados, ó praia feliz.
Em ti namorados passeiam tão gentis.
Com rútila vida, mais bela não há.
Matinhos querida, gentil Caiobá.

Princesa do mar, de amenos caminhos.
Eu quero cantar tuas glórias Matinhos.
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Triverso de
VANICE ZIMERMAN
Curitiba/PR

fim de tarde -
sutil gota d’água
na folha seca.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O carvalho e a cana

«Teu ser bem pouco à natureza deve!
— Disse o carvalho à cana.—
O pássaro mais leve,
Se pousa sobre ti, logo te abana;
Um ligeiro soprar
Que a face encrespa do regato, apenas,
Faz-te logo vergar
E obriga-te a sofrer bem duras penas;
Enquanto eu ergo a fronte com vaidade,
Do Sol detenho o raio
E afronto a tempestade!
Todo o vento é me um zéfiro de maio,
Para ti todo o vento é vendaval!
Se da minha ramada
Nascesses abrigada,
Não sofrerias um tamanho mal.
O fado foi contigo muito injusto!...
— A tua compaixão,
Lhe respondeu o arbusto,
Abona o teu sensível coração;
Mas tanto não te mates
Chorando as minhas penas:
Melhor que tu, do vento sofro embates;
Não quebro, dobro apenas.
Tens resistido a rígidas nortadas...
Porém atrás do tempo, tempo vem!»
Tais vozes acabadas,
Bóreas em seus furores se despica;
A pobre cana dobra,
Firme o carvalho fica.
Ativa Bóreas a feroz manobra,
Faz tão cruenta guerra,
Que deita enfim por terra
Quem com a fronte nos astros topetava
E no abismo as raízes ocultava!

Não consegue o seu fim na estância térrea
Quem tudo quer levar à virga-férrea;
E é de crer que bem pouco se moleste
O que se abaixa quando a onda investe.