domingo, 2 de agosto de 2026

Adélia Prado (Cacos para um vitral)


No caderno de Glória: um romance é feito das sobras. A poesia é núcleo. Mas é preciso paciência com os retalhos, com os cacos. Pessoas hábeis fazem com eles cestas, enfeites, vitrais, que por sua vez configuram novos núcleos. Será este pensamento vaidoso? Por certo. Quero ser um poeta extraordinário e desejo poder escrever um teatro muito engraçado pra todo mundo rir até ficar irmão. 
  
Glória decifrou o garrancho na nota de um cruzeiro: "Ontem fiz quinze anos e fui a primeira vez na Figueirinha. Dei Cr$ 50,00 pra mulher, ela ainda me deu troco. Não tava ruim, nem bom." 
  
Juca entrou esfregando as mãos: 

- Tá um frio de matar velho! 

- Se quer capote, na segunda prateleira da cozinha tem. 

Juca bebeu e saiu. Tivesse ou não, brigado com a Naná, a cada dia ele bebia mais. Estará certo, pensou Glória, facilitar desse modo a cachaça do Juca? Estarei sendo leviana? Estava. 
  
Ritinha: - Mãe, se eu morrer cê chora? 

Glória: - Ih! Choro até secar. 
  
Glória ouviu de relance os peões almoçando na obra: 

- Rico tinha que nascer tudo morfético. 

- Tem rico legal, sô! 

- Tem não. 
  
Ritinha chegando da escola: 

- Mãe, eu laía e a Fostina envinha. Ela envinha aqui? 

- Que é isso? Existe o verbo lair e envir? 

- A senhora também fala assim. 

- Falo mesmo. 

- Então... 

- Então nada. É porque eu gosto muito da minha filhinha e quando a gente gosta, chateia um pouquinho. 
  
Anselmo Vargas beijava Sônia Margot na novela das sete. O menininho de Matilde pediu: mãe, muda o programa. Meu pintinho fica ruim. 
    
- Dona Glória, eu fiquei incurvida. 

- O quê? 

- É, sobrou pra mim a obrigação de catar neste quarteirão as esmolas pro Natal dos pobres. 

- Ah! 

- O apostolado, cuja eu sou membra é que me incurviu. Entra, Fostina. 

- Não, se eu delatar, atrasa pra mim. 
  
A placa indicava na estradinha de chão: Sítio do AU PURO. Alguém tinha consertado: Sítio do AR PURO. Gabriel parou o carro e escreveu em baixo, sítio do AL PURO. No lugar voava sem pressa uma linda borboleta amarela e preta. 
  
Copiado por Gabriel, do sanitário da rodoviária: PEDE NÃO HORINAR NO VÁS. 
  
Remexendo papéis, Glória achou uma notação com sua letra: "retalho de poesia dá excelente prosa." Não se lembrava mais por que escrevera aquilo. "Retalho de poesia dá excelente prosa, como retalho de hóstia dá excelente sopa", descobriu escrito mais embaixo. Ainda: "Privada pública" é uma impropriedade. Empregada chama as amigas invariavelmente de colegas. Deus é fiel, no entanto vacilo, amo com reservas, deixo que pequenas nódoas confundam minha alegria. Quando serei evangelicamente generosa, confiante como um menino para quem o Reino está preparado?" 
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
    ADÉLIA PRADO (nome artístico de Adélia Luzia de Prado Freitas), escritora amplamente reconhecida como uma das maiores vozes da literatura em língua portuguesa, completou 90 anos de idade. Nasceu em Divinópolis (MG) em 1935. Passou toda a sua vida e mora até hoje em Divinópolis. A pacata rotina do interior mineiro sempre funcionou como a principal matéria-prima para a sua literatura. Formou-se professora e lecionou durante 24 anos em escolas de Divinópolis. Ministrou disciplinas como Filosofia da Educação, Relações Humanas e Educação Religiosa. Abandonou as salas de aula em 1979 para se dedicar exclusivamente à literatura. Graduou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1973. Atuou como Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. Também dirigiu o grupo de teatro amador Cara e Coragem, encenando peças de Ariano Suassuna e Dias Gomes.
Começou a escrever versos aos 15 anos, motivada pelo luto após a morte de sua mãe. Contudo, sua estreia editorial ocorreu tardiamente, aos 40 anos. Em 1973, ela enviou seus manuscritos ao crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna. Impressionado, ele repassou os textos para Carlos Drummond de Andrade, que ficou fascinado com a originalidade de Adélia e usou sua coluna no Jornal do Brasil para anunciar o surgimento de uma grande poeta, apadrinhando o lançamento de seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Adélia Prado não faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva (imortal), tendo optado por manter sua rotina reclusa no interior de Minas Gerais. Apesar disso, mantém uma relação de enorme prestígio e reconhecimento mútuo com as instituições literárias do país. Ao longo de sua consagrada trajetória, Adélia recebeu as distinções mais importantes da língua portuguesa: Prêmio Jabuti (1978): Vencido na categoria poesia com o livro O Coração Disparado. Foi também homenageada como Personalidade Literária do Ano no Jabuti de 2020 ; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil (2007): Pela obra Quando eu era pequena ; Prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional e Prêmio APCA (2010) ; Prêmio Machado de Assis (2024): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra ; Prêmio Camões (2024): O prêmio máximo da literatura de língua portuguesa. Adélia fez história ao se tornar a primeira mulher mineira a receber esta honraria.
Sua produção literária transita com maestria entre a poesia e a prosa lírica:
Poesia: Bagagem (1976); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010); Miserere (2013).
Prosa (Contos e Romances): Solte os Cachorros (1979) ; Cacos para um Vitral (1980) ; Os Componentes da Banda (1984) ; O Homem da Mão Seca (1994) ; Filandras (2001).
A relevância de Adélia Prado reside na capacidade única de universalizar o cotidiano banal e a vida doméstica sob uma ótica profundamente lírica, metafísica e feminina. Antes dela, a literatura frequentemente separava a experiência intelectual e artística dos afazeres de mãe, esposa e dona de casa. Adélia rompeu essa barreira ao colocar a cozinha, a fé cristã, o erotismo sutil, o corpo feminino, o tanque de lavar roupas e a província no centro da grande poesia. Sua linguagem é despojada, direta e musical, fundindo uma espiritualidade quase mística (isenta de moralismos) com o humor e as dores da carne, o que a consolida como uma das maiores referências do Modernismo tardio no Brasil.

Fonte: 
Adélia Prado. "Cacos Para Um Vitral",  publicado em 1989. 

Pescaria de Palavras


Beth Ramos
Campinas/SP

Se...
eu pudesse escolher alguém pra amar, com certeza seria você.
Pessoa maravilhosa, com esse seu jeito vai me encantar.
Despertando em mim um sentimento estranho e confuso.
Estranho pois não o conheço ainda, confuso porque tô aqui perdida, sem conseguir me encontrar.
Será que isso é amor?
Se é não sei, só sei que te amaria sem medo ou pudor.
Me perderia em seus braços, te entregando todo o meu amor.

Luís Fernando Veríssimo (Atitude suspeita)


Sempre me intriga a notícia de que alguém foi preso "em atitude suspeita". É uma frase cheia de significados. Existiriam atitudes inocentes e atitudes duvidosas diante da vida  e das coisas e qualquer um de nós estaria sujeito a, distraidamente, assumir uma atitude que dá cadeia!

- Delegado, prendemos este cidadão em atitude suspeita.  

- Ah, um daqueles, é? Como era a sua atitude?  

- Suspeita.  

- Compreendo. Bom trabalho, rapazes. E o que é que  ele alega?

- Diz que não estava fazendo nada e protestou contra  a prisão.

- Hmm. Suspeitíssimo. Se fosse inocente não teria  medo de vir dar explicações.

- Mas eu não tenho o que explicar! Sou inocente!  

- É o que todos dizem, meu caro. A sua situação é preta. Temos ordem de limpar a cidade de pessoas em atitudes suspeitas.

- Mas eu só estava esperando o ônibus!  

- Ele fingia que estava esperando um ônibus, delegado. Foi o que despertou a nossa suspeita.

- Ah! Aposto que não havia nem uma parada de ônibus por perto. Como é que ele explicou isso?

- Havia uma parada sim, delegado. O que confirmou a  nossa suspeita. Ele obviamente escolheu uma parada de ônibus para fingir que esperava o ônibus sem despertar suspeita.

- E o cara-de-pau ainda se declara inocente! Quer dizer que passava ônibus, passava ônibus e ele ali fingindo que o  próximo é que era o dele? A gente vê cada uma...

- Não senhor, delegado. No primeiro ônibus que apareceu ele ia subir, mas nós agarramos ele primeiro.

- Era o meu ônibus, o ônibus que eu pego todos os dias  para ir pra casa! Sou inocente!

- É a segunda vez que o senhor se declara inocente, o que é muito suspeito. Se é mesmo inocente, por que insistir tanto que é?

- E se eu me declarar culpado, o senhor vai me considerar inocente?

- Claro que não. Nenhum inocente se declara culpado, mas todo culpado se declara inocente. Se o senhor é tão inocente assim, por que estava tentando fugir?

- Fugir, como?  

- Fugir no ônibus. Quando foi preso.  

- Mas eu não tentava fugir. Era o meu ônibus, o que eu  tomo sempre!

- Ora, meu amigo. O senhor pensa que alguém aqui é  criança? O senhor estava fingindo que esperava um ônibus,  em atitude suspeita, quando suspeitou destes dois agentes  da lei ao seu lado. Tentou fugir e...

- Foi isso mesmo. Isso mesmo! Tentei fugir deles.  

- Ah, uma confissão!  

- Porque eles estavam em atitude suspeita, como o delegado acaba de dizer.

- O quê? Pense bem no que o senhor está dizendo. O  senhor acusa estes dois agentes da lei de estarem em atitude  suspeita?

- Acuso. Estavam fingindo que esperavam um ônibus e na verdade estavam me vigiando. Suspeitei da atitude deles e tentei fugir!

- Delegado...  

- Calem-se! A conversa agora é outra. Como é que vocês  querem que o público nos respeite se nós também andamos por aí em atitude suspeita? Temos que dar o exemplo. O cidadão pode ir embora. Está solto. Quanto a vocês...

- Delegado, com todo o respeito, achamos que esta  atitude, mandando soltar um suspeito que confessou estar  em atitude suspeita, é um pouco...

- Um pouco? Um pouco?  

- Suspeita.
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LUÍS FERNANDO VERISSIMO (Porto Alegre/RS, 1936–2025) foi um dos mais populares, brilhantes e queridos escritores contemporâneos do Brasil. Conhecido internacionalmente como o mestre absoluto da crônica de humor, ele herdou o gênio literário de seu pai, o romancista Érico Verissimo, mas construiu uma identidade artística única, vendendo mais de 5 milhões de livros ao longo de cinco décadas de produção ininterrupta. Teve uma formação cosmopolita, tendo vivido parte da infância e juventude nos Estados Unidos devido às aulas que seu pai lecionava em universidades americanas. Antes de viver exclusivamente da literatura, sua carreira transitou por múltiplos ofícios. Iniciou a carreira na imprensa escrita no fim dos anos 1960 no jornal Zero Hora, em Porto Alegre, como copidesque e repórter. Mais tarde, suas colunas semanais tornaram-se leitura obrigatória em gigantes da mídia como O Estado de S. Paulo, O Globo e a revista Veja. Atuou como redator publicitário e revisor de textos em agências de propaganda e editoras no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. O jazz era uma de suas maiores paixões. Verissimo era um exímio saxofonista e tocou por anos no conjunto Jazz 6, apresentando-se com frequência em festivais e casas de show. Trabalhou intensamente traduzindo clássicos literários e escrevendo roteiros humorísticos de sucesso para programas da Rede Globo.
Estreou tardiamente no mercado de livros, publicando sua primeira coletânea de crônicas, O Popular, em 1973, quando já tinha 37 anos. A partir dali, sua produção foi avassaladora, somando mais de 80 títulos publicados entre crônicas, contos, romances e histórias em quadrinhos. Sua vida literária ficou marcada pela criação de tipos satíricos inesquecíveis que se integraram à cultura popular: O Analista de Bagé (1981): Um psicólogo gaúcho ortodoxo e machista que tratava seus pacientes com a icônica "terapia do joelhaço", vendendo mais de 1 milhão de exemplares; A Velhinha de Taubaté (1983): Personagem icônica criada durante a ditadura militar que ficou famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo"; Ed Mort: Um hilário detetive particular carioca, atrapalhado e pessimista, cujos casos sempre terminavam em confusão completa, gerando adaptações para o cinema e quadrinhos; Obras-primas do humor cotidiano como Comédias da Vida Privada (1994) e As Mentiras que os Homens Contam (2000), além de romances policiais refinados como O Clube dos Anjos (1998).
A relevância de Luis Fernando Verissimo para a literatura brasileira repousa em sua capacidade de fazer rir sem jamais abrir mão do pensamento crítico:
1. Democratização do Hábito de Leitura: Verissimo quebrou barreiras acadêmicas e levou literatura de altíssima qualidade técnica para milhões de brasileiros. Seus textos limpos, diretos e extremamente rítmicos tornaram-se as maiores referências pedagógicas para o ensino da crônica e interpretação de texto em escolas de todo o país.
2. A Crônica como Espelho Social: Seguindo a tradição microscópica de Machado de Assis, Verissimo transformou o miúdo — filas de banco, discussões de casal, o fanatismo por futebol e jantares de família — em um espelho das grandes contradições éticas e políticas da classe média brasileira.
3. Consolidação do Humor Inteligente: Ele provou que o humor não precisava ser apelativo ou agressivo. Sua escrita misturava uma ironia fina, sátira política ácida e um profundo viés humanista, mostrando que o absurdo da vida cotidiana merece ser enfrentado com inteligência e leveza.

Fonte:
Luís Fernando Veríssimo. O gigolô das palavras. Publicado originalmente em 1987.

Contos e Lendas do Mundo (Inglaterra) Capa de Juncos


Era uma vez um homem abastado que tinha três filhas. Um belo dia, lembrou-se de comprovar até que ponto o estimavam e perguntou à primeira:

- Gostas muito de mim, querida?

- Tanto como da minha própria vida.

- Assim é que me agrada ouvir. 

E perguntou à segunda: 

– Gostas muito de mim, querida?

- Mais do que tudo neste mundo.

- Assim é que me agrada ouvir. 

- E dirigiu-se à terceira: 

- Gostas muito de mim, querida?

- Tanto como a carne tenra gosta do sal.

Sim, foram estas as palavras da jovem. E nem fazem uma ideia de como ele ficou fulo!

- Não gostas absolutamente nada de mim! - bradou. - Por conseguinte, não há lugar para ti nesta casa!

Ato contínuo, pôs-a na rua e fechou-lhe a porta na cara. Ela cansou-se de andar até que chegou a um bosque, onde reuniu um monte de juncos, com os quais confeccionou uma espécie de vestido e uma capa para se cobrir da cabeça aos pés e ocultar as roupas elegantes que usava. Depois, continuou a caminhar, até que bateu à porta de uma casa suntuosa.

- Precisam de uma criada? - perguntou.

- Não, estamos servidos - foi a resposta seca.

- Não tenho para onde ir. Não peço qualquer salário, e executo toda a espécie de trabalhos.

- Bem, se queres lavar louça e panelas, podes ficar.

A jovem foi, pois, admitida para as tarefas menos agradáveis da faina doméstica. E, como não disse como se chamava, tratavam-na por Capa de Juncos.

Um dia, realizou-se perto dali uma grande festa, com baile, à qual os serviçais podiam assistir. No entanto, Capa de Juncos disse que estava demasiado cansada para acompanhar os outros e ficou em casa. Mas, quando se encontrou só, despiu a capa de juncos, arranjou-se e foi ao baile, onde se tornou notada por ser quem melhor trajava.

E quem estava lá senão o filho do seu amo? E que fez ele senão enamorar-se dela no instante em que a viu pela primeira vez? Na verdade, não quis dançar com mais ninguém.

Mas, antes de o baile terminar, ela retirou-se sem dar nas vistas e regressou apressadamente à casa. Quando as outras criadas chegaram, já voltara a vestir a capa de juncos e fingia que dormia.

Na manhã seguinte, disseram-lhe:

- Nem imaginas o que perdeste, Capa de Juncos!

- O quê? - perguntou ela, fazendo-se de novas.

- A senhora mais formosa que jamais se viu, com um vestido verdadeiramente deslumbrante e elegante. O nosso amo não lhe tirava os olhos de cima.

- Sim, teria gostado de a ver.

- Esta noite, há outro baile, e ela talvez apareça.

Mas, quando anoiteceu, Capa de Juncos alegou cansaço excessivo para poder acompanhar as colegas. No entanto, assim que partiram, despiu a capa de juncos, arranjou-se e foi ao baile.

O filho do amo estava a contar tomar a vê-la e não dançou com mais ninguém, nem conseguia tirar-lhe os olhos de cima. Mas, antes de o baile terminar, ela retirou-se sem dar nas vistas e regressou apressadamente a casa.

Quando as outras criadas chegaram, já voltara a vestir a capa e fingia que dormia.

Na manhã seguinte, voltaram a dizer-lhe:

- Devias ter estado lá para veres a bela dama! De novo elegante como na véspera, e o nosso amo não lhe tirava os olhos de cima.

- Que pena! Teria gostado de a ver!

- Logo à noite, volta a haver baile. Tens de ir, pois é quase certo que ela há de comparecer.

Mas, quando anoiteceu, Capa de Juncos alegou cansaço excessivo para poder acompanhar as colegas. No entanto, assim que partiram, despiu a capa de juncos, arranjou-se e foi ao baile.

O filho do amo regozijou-se quando a viu. Não dançou com outra mulher, nem lhe tirava os olhos de cima. Como ela se recusou a divulgar o nome e origem, ele ofereceu-lhe um anel e declarou que, se não a tomasse a ver, morreria. Todavia, antes de o baile terminar, Capa de Juncos escapou e regressou a casa.

Quando as criadas chegaram, já voltara a vestir a capa de juncos e fingia que dormia.

Na manhã seguinte, perguntaram-lhe:

- Porque não vieste conosco, ontem? Agora, já não poderás ver a bela dama, pois os bailes terminaram.

- Sim, teria gostado muitíssimo de a ver!

O filho do amo fez o impossível para averiguar o paradeiro da deslumbrante mulher, mas, por mais que perguntasse, não conseguia apurar o menor indício. Entretanto, emagrecia e definhava a olhos vistos, consumido pelo amor por ela, até que teve de recolher à cama.

- Prepara um purê de aveia para o nosso amo mais jovem – indicaram à cozinheira. - De contrário, morre de nostalgia pela mulher amada.

A cozinheira concentrava-se na confecção do purê, quando Capa de Juncos entrou.

- Que estás a fazer? - perguntou.

- Um purê de aveia para o nosso jovem amo e evitar que morra de nostalgia pela mulher amada.

- Eu trato disso.

A princípio, a cozinheira recusou, mas acabou por transigir, pelo que Capa de Juncos preparou o purê de aveia. No final, antes que a outra o levasse ao enfermo e sem que se percebesse, depositou nele o anel.

O jovem removeu o purê com a colher, viu o anel no fundo do prato e ordenou:

- Chamem a cozinheira.

Quando esta se achou na sua presença, perguntou-lhe:

- Quem preparou este purê de aveia?

- Fui eu - disse ela, com receio de revelar a verdade.

Ele olhou-a com intensidade e replicou:

- Não, não foste tu. Diz-me quem foi, e garanto-te que não te acontecerá nada.

- Muito bem. Foi Capa de Juncos.

- Diz-lhe que venha.

Quando a jovem entrou no quarto, ele inquiriu:

- Foste tu que preparaste o purê de aveia?

- Sim, fui eu.

- Onde foste buscar o anel?

- Deram-me.

- Quem és, na realidade?

- Vou elucidar-te.

Com estas palavras, ela despiu a capa de juncos e apresentou-se com as suas elegantes roupas.

Talvez não acreditem, mas o seu jovem amo curou-se imediatamente e quis casar com ela sem a mínima demora. Seriam uns esponsais invulgares, pelo que convidaram toda a gente, tanto quem vivia perto como longe. Por conseguinte, o pai de Capa de Juncos foi incluído, sem que, todavia, ninguém lhe dissesse quem era a noiva.

Antes da boda, a jovem procurou a cozinheira e ordenou-lhe:

- Quero que prepares toda a comida sem uma pedra de sal.

- Mas vai ficar horrivelmente insípida - disse a mulher.

- Não importa.

- Muito bem.

Uma vez consumada a cerimênia, todos foram ocupar os seus lugares para o banquete.

Quando provaram a carne, estava tão insípida que não a puderam comer.

No entanto, o pai de Capa de Juncos provou uma das iguarias e depois outra e começou a chorar.

- Que se passa? - quis saber o noivo.

- Eu tinha uma filha à qual perguntei se me estimava muito e respondeu que me apreciava tanto como a carne tenra precisa do sal. Expulsei-a de casa, porque pensei que isso era uma prova de que não me dispensava o menor afeto. Compreendo agora que era a que mais me estimava. E talvez morresse sem o meu conhecimento.

- Não, pai, aqui me tens - disse Capa de Juncos, que correu para ele e o abraçou.

A partir de então, foram todos muito felizes.

Fonte:
Ulf Diederichs. Palácio dos Contos. Lisboa: Círculo de Leitores, Maio de 1999.

sábado, 1 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 208 *

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Trova de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Num devaneio, a velhinha
volta aos tempos de criança
e brinca, sorri, caminha ...
pelas ruas da esperança.
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Soneto de
ERIGUTEMBERG MENESES
Blumenau/SC

Máquina de costura

Máquina de costura relegada,
Sem uso por não ter manutenção,
Ganhou de um mecânico a atenção
E teve a engrenagem reparada.

Passando novamente a ser cuidada,
Recuperou depressa a tração
E de quem dela entende a função
Ganhou uma agulha calibrada.

A agulha nova entrando na fissura
Dos dentes, ao dar pontos à costura,
Deixava a costureira satisfeita.

Moral da história: sendo bem mexida,
Até máquina velha esquecida,
No ponto atrás e à frente, é perfeita.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Sonhos

Tenho os
sonhos
pichados no muro,
que sorri ensolarado
sua própria miséria
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
LUCIANO DÍDIMO
Fortaleza/CE

Coração branco

Receberia de Deus, com prazer,
Um coração com a paz de criança
Que confiante, no colo, descansa,
Tendo por certo que o sol vai se erguer. 

Um coração a pulsar no meu ser,
Dilacerando aflições feito lança,
Embora frágil, intrépido em dança,
Inquebrantável, com luz de poder. 

Um coração infantil, com efeito,
Que seja puro, inocente, sem tranca,
Nos alforria do mal que atravanca. 

Eu gostaria de ter em meu peito,
Para que um dia, no céu, seja aceito,
Um coração que tivesse a cor branca.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
FABIANO FECHINE TORRES CLEMENTE 
Natal / RN

Ao olhar pela janela,
raiando a primeira hora,
sinto a esperança que nela
o bem renasça na aurora.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
JERSON BRITO
Porto Velho/RO

Penitência

Os lívidos despojos desgarrados
do sopro infecto, negro, pestilento,
sinistro mausoléu, são monumento
aos sonhos pelo tempo aniquilados.

Entregam-se ao prazer do acerbo vento,
num coração sem luz ergastulados,
escombros de desejos malogrados,
retrato do final definhamento.

Trilhado seu percurso derradeiro,
guardando passos jaz o caminheiro.
Emudecidos, dormem seus clamores...

Um rosto descorado, sem fulgência,
exprime a vergastante penitência
que cumprem neste plano os sonhadores.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
MARIA HELENA URURAHY CAMPOS
Angra dos Reis/RJ

E procurando ensinar,
a minha vida passei,
pra no final constatar:
– Aprendi mais que ensinei.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
ELVIRA GLÓRIA DRUMMOND
Fortaleza/CE

… E a vida? 

A vida? Simplesmente uma passagem… 
em âmbito terreno, o nosso espaço 
de experiências — rol de aprendizagem — 
que ajunto dando o norte do que faço. 

A vida? Pura e bela jardinagem…
em que a mãe-terra serve de regaço 
para acolher sementes de coragem
florindo a comunhão que anseio e abraço.

A vida? Segue a bússola da ação, 
em que o retorno vem, na contramão, 
com flores que colheu no entardecer…

E o tempo — nosso grande grão-vizir — 
diz: —  quem não vive para, aqui, servir, 
enfim, não serve para, aqui, viver…
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Mesmo ao teu lado eu estando,
é sensação dolorida
ver a saudade chegando,
antes da tua partida.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
FERNANDO ANTONIO BELINO
Sete Lagoas/MG

A vida

Tal punhado de areia, a vida humana 
Esvai-se, fatalmente, grão em grão.
Deter o tempo é sempre esforço vão;
Contra a morte voraz, a luta é insana!

A vida é sopro apenas, e se engana
Quem crê na vida além, pura ilusão,
Pois, ao negar a própria condição,
Caminha para o abismo em caravana.

A eternidade é a grande fantasia
Que a humanidade em desespero cria,
Tentando resistir à triste sorte.

E, assim, desperdiçando o dom da vida,
Na busca de uma terra prometida, 
Encontra, simplesmente, a fria morte.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LUCÍLIA A.T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Para mais elo entre os seres,
e estenderem horizontes,
atentos aos seus deveres
os homens construíram pontes,
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Funesto

Amar, amar, 
amar, amar, eternamente;
amar até os nossos corações, 
descompassados,
fora de si e extasiados,
a se sentirem  cansados; 
“por tudo que nos deixou  cegos de amor 
num amar tresloucadamente envolvente...”
E, logo depois, logo depois, de novo, 
de novo, amar, amar, amar,
e deixar que eles parem de bater 
do nada, num “de repente”,
levados pelas loucuras insanas 
desse nosso gostar, 
desse nosso gostar inconsequente...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
LILIAN MAIAL
Rio de Janeiro/RJ

A palavra é como a flecha,
atravessa o coração;
a ferida nunca fecha,
sangra lágrima-canção!
= = = = = = = = = = = = = =  

Mensagem na Garrafa 203 = A casa

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AUTOR ANÔNIMO

Um velho pedreiro que construía casas estava pronto para se aposentar. Ele informou ao chefe o seu desejo de sair da indústria de construção e passar mais tempo com sua família. Ele ainda disse que sentiria falta do salário, mas realmente queria se aposentar.

A empresa não seria muito afetada pela saída do pedreiro, mas o chefe ficou triste ao ver um bom funcionário partindo. Assim, pediu ao pedreiro para trabalhar em mais um projeto, como um favor. 

O pedreiro não gostou, mas acabou concordando. Foi fácil ver que ele não estava entusiasmado com a ideia. Assim, prosseguiu fazendo um trabalho de segunda qualidade e usando materiais inadequados. Foi uma maneira negativa de ele terminar sua carreira.

Quando o pedreiro acabou, seu chefe veio fazer a inspeção da construção. Depois, deu-lhe a chave da casa e disse: "Essa casa é sua. Ela é o meu presente para você."

O pedreiro ficou muito surpreso. Que pena! Se soubesse que estava construindo sua própria casa, teria feito tudo diferente.

* * * * * * * * * * *
O mesmo acontece conosco. Nós construímos nossa vida, um dia de cada vez e, muitas vezes, fazemos menos que o possível na construção. Depois, com surpresa, descobrimos que precisamos viver na casa que nós mesmos construímos. Se pudéssemos fazer tudo de novo, faríamos diferente, não é? Só que... não podemos voltar atrás.

Você é o pedreiro. Todo dia você martela pregos, ajusta tábuas e constrói paredes. E como a vida é um projeto que você mesmo edifica, as suas atitudes e escolhas de hoje estarão determinando o tipo de "casa" em que você vai morar amanhã.

Revista Crestomatia de Trovas nº 5 – agosto de 2026 (faça o download gratuito)


Confira os destaques que preparei para o seu deleite em suas 45 páginas:

* Panteão da Trova: Inicia nossa jornada com uma seleção primorosa de trovas de grandes mestres de diversas épocas, celebrando a riqueza lírica de Brasil e Portugal.

*Uma seção dedicada exclusivamente ao tema Criança.

* Trovadores de Hoje: O destaque central desta edição traz 120 trovas do trovador paulistano, radicado no Paraná, José Feldman.

* Aperfeiçoamento: Para quem busca o aperfeiçoamento, apresento um capítulo sobre “Trovas Circunstanciais”, de Aparício Fernandes.

* Trovadores de Ontem: Uma homenagem ao talento do inesquecível trovador Aparício Fernandes.

PARTICIPE da revista. Envie suas trovas neste email.

Link para ler ou baixar no computador 

José Feldman
(Floresta/PR)

Lya Luft (O menino e sua mãe)


Faz uns trinta anos, um menino e sua mãe voltavam das compras no ônibus quase vazio. Ele segurava no colo o presente cobiçado: um microscópio “de verdade”, dado pelo pai, mas a mãe fora com ele comprar. De vez em quando ele passava a mão no pacote: “Parece mentira né, mãe?” Olhar sonhador.

No meio do trajeto houve então um desses diálogos inesquecíveis:

– Mãe, que igreja é essa?

– Nossa Senhora Auxiliadora.

– Por que tem tanta Nossa Senhora? Não era só uma?

– É uma sim, filho, mas ela tem muitos nomes.

– E o Nosso Senhor é São Pedro, né?

– Não, é Jesus, ora. Quem casou com ela foi São José. São Pedro era amigo de Jesus.

A mãe suspirou: não praticar religião em casa dava nisso.

– Ah… e por que o José não é o Nosso Senhor, se era casado com Nossa Senhora?

Os olhos azuis, calmos mas interrogativos, começavam a deixar a mãe inquieta.

– Acho que é porque Jesus e Nossa Senhora são mais importantes, filho.

– Mas o José não era o pai dele?

– Não era de verdade, o pai dele era Deus, José era pai adotivo.

– Ah… Então Jesus não nasceu da sementinha do José?

O silêncio no ônibus começava a se tornar imenso. O menino falava em voz alta e clara, pra ele era tudo natural, assim ensinavam em casa.

A mãe pensou por um momento, por que a gente inventou isso de falar das coisas como se fossem naturais? E, embora se considerasse uma mulher razoavelmente moderna, com uma visão saudável da vida – que estava transmitindo aos filhos num tempo em que o tema não era tão francamente abordado –, naquela hora quase duvidou de que fossem assim tão naturais. Afinal, estavam em público.

O menino a seu lado porém aguardava resposta, respostas.

– Não, filho, Deus fez brotar a sementinha direto em Nossa Senhora, foi um milagre.

– Ué, então não foi como nas pessoas?

Agora o silêncio podia ser cortado com faca.

– Não, filho, não foi.

– Ah…

A mãe se fez de distraída, olhava pela janela, sentindo os outros passageiros aguçando o ouvido, como será que ela vai se sair dessa? O menino pensava concentrado.

– Mãe, como é que antigamente, assim beeeem antigamente, no tempo dos dinossauros por exemplo, as primeiras pessoas sabiam como se fazia pra ter bebê, se não tinham ninguém pra ensinar pra elas?

– Essas coisas a natureza ensina.

– Mas a natureza não é pessoa pra ensinar a gente…

– Quer dizer, quando a gente cresce aprende por si.

No olhar azul transparecia uma certa pena, quem sabe a mãe não era tão inteligente assim. O menino, generoso, resolveu mudar de assunto.

– Mãe, olha, aí estava escrito rua Mozart. Será que ele mora aqui?

– Ele quem, filho?

– O MOZART, mãe, ora. Quem ia ser?

– Não, filho, ele viveu na Europa.

– Ah é? Até achei que era nos Estados Unidos.

– Por que Estados Unidos?

A mãe começava a se divertir, aliviada com aquele diálogo menos perigoso.

– Ué, porque é lá que moram pessoas importantes, o presidente Kennedy e o Cyborg.

– Ah…

Finalmente desembarcaram; ainda segurando o pacote, o menino retomou seu ar sonhador.

– Mãe, como eu tenho um pai bom, né?

Mas aí pensou melhor, espiou de relance com arzinho maroto a mãe que levantava, sorrindo, um dedo em riste, e emendou bem depressa:

– E mãe também, claro…
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LYA FETT LUFT foi uma das mais importantes escritoras, tradutoras e intelectuais da literatura brasileira contemporânea. Nasceu em 1938, em Santa Cruz do Sul/RS e faleceu aos 83 anos em 2021, em Porto Alegre/RS. Passou a infância em sua cidade natal,  (cidade de forte colonização alemã). Na juventude, mudou-se para Porto Alegre. Teve também uma breve passagem pelo Rio de Janeiro na década de 1980, mas viveu a maior parte de sua vida falecendo na capital gaúcha. Atuou como professora universitária de Linguística na [Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e foi uma das maiores tradutoras do país. Verteu para o português mais de cem livros de grandes autores alemães e ingleses, incluindo Virginia Woolf, Thomas Mann, Hermann Hesse e Günter Grass. Também foi colunista da Revista Veja por muitos anos. Graduou-se em Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas pela PUC-RS, com mestrados em Literatura Brasileira e Linguística Aplicada.
Iniciou na literatura escrevendo poemas na década de 1960. Publicou 31 livros ao longo da vida, destacando-se na poesia, no romance e no ensaio filosófico/memorialista. Alguns Livros Publicados: Poesia: Canções do Limiar (1964) e Flauta Doce (1972); Romances de Destaque: As Parceiras (1980 — sua consagração na prosa), A Asa Esquerda do Anjo (1981), Reunião de Família (1982), O Quarto Fechado (1984) e O Tigre na Sombra (2012) 
Embora não tenha ingressado na Academia Brasileira de Letras (ABL) nacional, recebeu grandes honrarias de instituições oficiais e foi condecorada como a "Escritora do Ano" pela Academia Rio-Grandense de Letras. Prêmio APCA (1996) da Associação Paulista de Críticos de Arte por “O Rio do Meio”; Prêmio União Latina (2001) de Melhor Tradução Técnica e Científica; Prêmio de Ficção (2014) da Academia Brasileira de Letras pelo romance “O Tigre na Sombra”. Diploma Bertha Lutz (2016) outorgado pelo Senado Federal.
A importância de Lya Luft reside na sua coragem de romper os estereótipos sociais e expor a condição feminina sem idealizações. Sua escrita mergulha profundamente nas inquietudes da alma humana, nas crises familiares e nas relações sufocantes do ambiente patriarcal. Em vez de focar em narrativas externas, ela revolucionou ao retratar o isolamento, a busca pela liberdade de pensamento e as transformações da maturidade. Sua obra uniu o rigor técnico de uma refinada tradutora a uma linguagem universal e acessível, que conectou milhões de leitores a reflexões existenciais profundas.

Fontes:
Lya Luft. Pensar é transgredir. Publicado originalmente em 2004
Biografia = PUCRS Online Academia Rio-Grandense de Letras, Revista Veja (04.06.2024), Portal G1 Globo (30.12.2021) Wikipédia, InfoEscola, etc.