quinta-feira, 24 de setembro de 2026

João do Rio (A Parada da Ilusão)

Como tinha sido aquilo! Diante do espelho, a dar um laço frouxo no lenço de seda, Geraldo sorria o sorriso satisfeito e vagamente mau que têm todos os homens quando recordam uma aventura em que foram os mais espertos. Como tinha sido!... O acaso, apenas o acaso. Pobre, sem pretensões, alugara por uma ninharia aquela casinha do morro, bem na rua de Santa Luzia, defronte do mar. O mar é um fornecedor de energia. Contemplar as ondas, aspirar o ar infiltrado de salsugem fazia-lhe bem. Depois, acordava cedo, quase de madrugada, e como a vizinhança era quase toda de pescadores, de banhistas, de jovens dos centros de regatas, ia mesmo de camisa-de-meia, com os pés nus metidos nuns enormes tamancos, ao estabelecimento balneários. Quem o visse grosso, forte, o bigode espesso, a negra cabeleira ondeante, o braço cabeludo, não o diria jamais um estudante de medicina. Havia no seu olhar qualquer coisa dos barqueiros de Nápoles, do langor das serenatas, e na alegria do semblante, na gesticulação, o ar da raça, o ar que não falha. Basta olhar um homem para se sentir de onde ele veio. Geraldo começara humilde, de origem italiana. De trabalho em trabalho fizera-se afinal acadêmico, graças à pertinácia da sua inteligência. Mas, por mais querido que fosse entre os colegas, era uma delícia para sua alma ir arrastar as pernas pela madrugada nos corredores da casa de banhos, quase nu, a conversar em napolitano com os banhistas, os tradicionais banhistas há vinte anos os mesmos.

Era tão bom, tão bizarro! A princípio, postava-se no pátio, junto da barraca do gerente, escura de roupas em trouxas com um quadro das chaves e o bico de gás aceso. Era a chegada dos frequentadores. Havia mulheres pálidas, mães de família acompanhadas de crianças e de criadas, verdadeiros regimentos de cloróticos; havia sujeitos de passo trôpego, reumáticos, beribéricos, talvez tísicos; havia os habituais, senhores respeitáveis, de ar solene, que tomavam banho de mar desde crianças, aconselhando para todas as moléstias um mergulho no salso elemento; e sujeitos que vinham especialmente para a pândega, as lições de natação, os namoros com apertões debaixo da água, as meninas assanhadas, as cocotes, as cocotes de uma palidez mortal àquela hora... e havia também muita mulher chique, muita mulher de estalo, que os mirones da praia até olhavam de binóculo.

Mas Geraldo não tinha pretensões a conquistas, e aquele espreguiçamento na casa de banhos era apenas uma tonificação para o estudo, que recomeçava horas mais tarde, com o curso dos hospitais, as aulas, os livros. Depois descansar na gerência ia trocar palavras com os banhistas, rindo, brincando. Afinal atirava-se à água, no meio da algazarra dos conquistadores e das pequenas, e sempre tímido, só metido a gente do serviço. Ninguém o tomaria por um estudante e o próprio pessoal da casa tratava-o familiarmente por tu.

Uma vez, estava no corredor estreito e escuro a conversar com Nicolau, quando mesmo ao pé abriu-se a porta a um dos quartinhos e uma linda criatura loira chamou:

- O senhor banhista, venha cá.

Nicolau adiantou-se.

- Não, o outro. Sim, você mesmo.

Geraldo sorriu enleado. Tomavam-no por banhista! Ele, um estudante, um acadêmico! Mas, ao mesmo tempo que o fato o humilhava um pouco, sentia um desejo imprevisto e romântico de se deixar passar por banhista e ter assim a sua primeira façanha de estudante. Os estudantes são todos levados da breca! Apertou o braço de Nicolau, disse-lhe em calão de Nápoles que o deixasse, e aproximou-se. A dama loira estava já vestida para o banho.

- Não quero mais aquele banhista velho. Há cinco dias que tomo banho e logo no primeiro pedi-lhe conservar-se o quarto seco. Não há meio. Veja só. Fica você. Quer?

Geraldo curvava-se, sem uma palavra. A dama loira abriu a bolsa de prata, tirou uma nota.

- Tome. Não quer receber? Ora esta! Receba. Para esquentar. Ande lá.

- Grazzie, signorina...

- Diga: é italiano?

- Io sono venuto da Napoli fa tre anni...

- Ah! bem. E quantos anos tem de idade?

- Vinte e due.

A dama loira olhou-o profundamente, teve um leve suspiro, e ainda indagou:

- Como se chama?

- Túlio.

- Venha dar-me banho.

Infinitamente alegre com a aventura, Geraldo seguiu para o oceano a dar banho na dama loira, e quando voltou estava a arrebentar de riso. Não é que a mulherzinha o tomava mesmo por um banhista? Entretanto, o imprevisto do caso acendia-lhe o desejo de continuar. Sim, continuaria. E falou ao dono da casa de banhos. O homem, um italiano velho, não gostava de patifarias no estabelecimento. Mas, como era ele, Geraldo, consentia. Os outros riam a perder, um pouco envaidecidos porque, afinal, um estudante era tal qual eles. E Geraldo, que não dissera a coisa na escola por um certo pudor, não faltou mais. Logo cedo lá estava no estabelecimento, de pés nus, calção de meia, camisa aberta. A dama loira chegava sempre às seis e meia.

- Então, Túlio, o meu quarto?

- Pronto patroa, prontinho.

No fim do quinto dia ele fazia o papel de banhista de opereta, que ela lhe disse o nome. Era Alda Pereira, brasileira, do sul, tinha vinte e sete anos, e um protetor sério, o senador Eleutério, que a tomara depois da separação do marido. Dizia essas coisas naturalmente, aprendendo a nadar.

- Ai! não me afogues, rapaz. Morrer aos vinte e sete anos...

Ou então:

- Palavra de rio-grandense e de Alda Pereira que aprender a nadar custa!

Ele sorria queria levá-la para longe.

- Não, que o senador Eleutério pode saber; e eu, meu filho, depois que me separei do meu marido, tenho muito medo do ciúme...

Uma suave intimidade brotava aos poucos daquela hora de banho,.

Ele procurava termos vulgares, copiava o rir dos outros, dizia coisas grossas com um ar ingênuo, o seu tom de analfabeto, e ela parecia ter cada dia mais confiança. Já se encostava ao seu ombro, já lhe agarrava o pulso potente de certo modo. Uma vez perguntou-lhe:

- Você, um rapaz inteligente, por que não muda de vida?

- Para que, signorina? Aqui vivo, aqui hei de morrer...

- Criança! E não tens aspirações?

- Não, signorina!

- Aposto que nem sabe ler? Ele parou um instante atônito. Estaria ela a brincar, já sabedora de tudo? Seria o caso de avançar e não gozar mais o prazer de ser conquistado. Mas Alda tinha uma expressão de tão velutínea piedade, que não hesitou na farsa.

- É verdade. Nem sei ler.

- Meu Deus! Um rapaz de vinte e dois anos que não sabe ler!

Os seus olhos nesse dia tornaram-se mais úmidos, e ao rebentar de uma onda na ponte ela se deixou positivamente cair no seu largo peito. Não tinha dúvida! A mulher amava-o como certas damas amam os impetuosos adolescentes das classes baixas; a criatura era uma nervosa romântica. Decididamente estava de sorte.

No dia seguinte, à saída, Alda Pereira indagou:

- Ó Túlio, quereria você aprender a ler?

- A signorina paga o professor?

- Ensino eu mesma.

- Então quero. Onde?

- Vá à minha casa. Logo, à noite, às sete; é a melhor hora.

Ele arranjara um dólmã de brim, um capote comprido; comprara o lenço de seda e um chapéu desabado para aparecer com a cor local. E fora. A dama loira habitava, numa rua transversal à Lapa, uma casa elegante e discreta, com duas criadas apenas. Fizeram-no entrar para uma saleta de estilo moderno, em que os móveis eram incômodos e as paredes tinham mulheres de túnica soprando trombetas. Alda lá estava.

- Entre, Túlio. Nada de acanhamentos. Francine, deixa a porta aberta... Sabe que já lhe comprei o seu livro? Sente-se, menino, sente-se...

Evidentemente, ela estava comovida, com um riso nervoso, as faces coradas. Ele achava aquilo deliciosamente ridículo. Outro qualquer teria avançado; a sua natural timidez, a pretensão de levar a cabo uma fantasia inibiam-no de um movimento de ataque. E parecia-lhe o cúmulo aprender o alfabeto ensinado por aquela interessante mulher, tal qual nos vaudevilles franceses, numa cena de burla. Sentou-se. Ela mostrou-lhe o livro na mesa, aproximando a cadeira do outro lado. E começou a ensinar, com a voz molhada de mistério.

- Que letra é esta?

Geraldo fazia-se inteiramente bronco, curvava-se muito para sentir os loiros cabelos dela roçando-lhe ao de leve a fronte. Às vezes as mãos se encontravam. As dela estavam geladas. As dele eram de brasa. Ao fim de uma hora, ela disse num suspiro:

- Bom, vai embora.

Ele quase não podia falar. Curvou-se mais, respirando forte, e ia tocá-la, quando ela chamou:

- Francine, acompanha o Túlio até a porta...

Como saiu ele furioso! A sua vontade foi declarar a verdadeira posição, tomar uma atitude. Mas para quê? Não teria realizado nada! Não a gozaria! Era uma aventura falha. Nunca! Tivesse que estudar o alfabeto a vida inteira - aquela, ao menos, não lhe escaparia. E, desde a madrugada, foi esperá-la na casa de banhos, apaixonado. Sim, de fato, apaixonado. Ele não estava senão apaixonado. A paixão é quase sempre o desejo de um triunfo, que se imagina de um certo e determinado modo. Há sempre um vencedor na alma de um amante. Ele queria pregar uma peça. Que peça? Enfim, queria confundir a linda mulher de estranha vontade. E Alda Pereira parecia também amá-lo, porque apareceu de olheiras, com ar fatigado.

- Sabe que estudei? fez ele, olhando-a fixo.

- Palavra?

- Quer tomar a lição hoje?

- Não, amanhã...

Ele se preparou, e foi. Já sabia o alfabeto. Alda Pereira sorria, enlevada.

- Mas como é inteligente! Vamos a soletrar. Olhe que você pode dar orgulho a um professor.

A aula ia continuar. Ela tinha a cabeça curvada, mostrando a nunca nua. Ele estava encostado à mesa, com aquele tom vulgar e potente, que o seu físico ajudava. A luz tênue. Geraldo moveu apenas a cabeça e roçou o bigode no pescoço venusto. Ela estremeceu, estendeu as mãos e suspirou como uma rola.

- Ah! Túlio...

Ele firmou os lábios polpudos e apertou-lhe as mãos. Ela se debateu, voltou a cabeça e a sua boca purpurina, ansiosa e ávida, sugou o lábio de Geraldo. Nem uma palavra. Estavam em outro mundo. Ele caiu de joelhos, ela pendeu, rolaram os dois. Era frenética e deliciosa. Deliciosamente deliciosa. A própria paixão a vibrar. E Geraldo voltou à casinha, outro homem, aturdido, sem compreender o que via, a lembrar-se dos seus abraços e das palavras suas:

- Túlio! Túlio! não digas a ninguém! É a minha vida! Lembra-te do que fiz por ti. Só o amor, muito amor...

A vida de delírio começou então. Ela entregava-se e sentia-o como um imenso acorde do seu próprio ser. Cada beijo era uma revelação, cada abraço a dissolução do mundo. E a necessidade de ocultar de olhares profanos aquele sentimento ainda mais o incendiava. No banho, ela esperava o momento de apertá-lo, de mordê-lo, esperava com a porta do quarto entreaberta para um beijo; em casa, as lições de leitura eram a leitura de Paulo e Francesca, no verso de Dante. Jamais, porém, ela mostrava desconfiar da sua verdadeira situação, e Geraldo, sentindo-se indigno de si mesmo, continuava a ser o banhista Túlio, sem forças para dizer a verdade.

Afinal, o senador Eleutério soubera do caso, e, mais pai do que amante, resolvera mandar Alda à Europa, a ver se o escândalo terminava. Alda chorava, queria viver sem roupas, em Santa Luzia, com o seu Túlio, e fora um verdadeiro trabalho o convencê-la de uma breve separação.

- Tu queres, Túlio?

- É para o teu bem.

- Queres mesmo? É o nosso amor que matas...

Eleutério comprara as passagens combinara tudo. Era no dia seguinte que Alda partiria. Geraldo, preparando-se para a última visita, relembrava aqueles dois meses loucos de romantismo. Como aquilo fora! Era lá possível prever? Antes, porém, da partida era preciso dizer-lhe a verdade. Ele ia para o último ato.

Então penteou o cabelo como os banhistas, com muita brilhantina, pôs o chapéu e o capote, consertou ainda uma vez o lenço de seda e partiu. Alda estava na mesma sala da primeira vez, muito abatida. Estendeu-lhe as mãos e a boca.

- Meu amor... A última vez!

E deixou-se cair.

- Alda, que é isso? ânimo...

- Lembras-te? Há dois meses!... Quanto amor! Quando te vi, desde que te vi, meu amor, amei-te. Que me importava que tu fosses banhista? Se era a tua carne, o teu corpo, os teus olhos que eu desejava, meu adivinhado querido... Nunca, nunca mais sentirei o que senti por ti, no mar, quando te tinha ao meu lado, forte, meu fiel... Dize!... Nenhuma outra será como eu. Pois não?

- Mas, Alda...

- Àquela casa vão tantas mulheres! E tu tens que servir a todas, tens que as segurar, tens que as salvar...

Geraldo viu que era o momento.

- Alda, tenho que te dizer...

- Não digas! não digas nada!

- Não, há um engano; um engano que não pode continuar.

- Não há, Túlio, não há!...

- Há.

- Pois deixa-o!

- Não. Tu pensas que eu sou o banhista Túlio, nascido em Nápoles.

- E não és? És sim, és o meu Túlio.

- Criança! Eu sou estudante de medicina, chamo-me Geraldo Pietri.

Mas, como Alda recuava, com a fisionomia transmudada, Geraldo teve um resto de piedade.

- Sim, Geraldo, estudante, que se fez passar por banhista para te amar...

Um silêncio tombou. Alda sentara-se. Depois, como Geraldo se aproximasse, sorriu, afastando-o.

- Não, senta-te. Ou vai-te. É melhor ires. Vai-te.

- Mas a nossa última noite?

- Vai-te.

- Zangaste-te?

- Não, pensei que tinhas mais espírito. Não tens. Eu sabia, ouviste? eu sabia desde o primeiro dia, quem eras tu. Se não soubesse, teria perguntado por ti e dar-me-iam informações. Eu sabia. O meu amor nasceu de uma brincadeira. Tudo na vida é ilusão e só a ilusão é verdadeira. A verdade é a mentira porque é o comum e o vulgar. Amei-te, querendo fazer desse sentimento uma parada de gozo superfino em que ambos nos esforçássemos por dar a cada um a ilusão. Nunca se desengana uma mulher porque não se mata a ilusão. Eu amava um ser idealizado, que seria chocante se fosse verdadeiro, um banhista imprevisto, um selvagem, filho do mar e das canções, em ti que o fingias bem. Tu mataste Túlio. Que me importa a mim o estudante Geraldo? Já nem parto. Não é preciso. Adeus! E nunca, ingênuo rapaz, queiras ser verdadeiro nas coisas do sentimento que ama a ilusão.

Geraldo, nervoso, sem saber o que fazer do seu chapéu calabrês, sentia a lamentável, uma curiosa e lamentável sensação de que retornava o seu eu; um eu vulgar e comum. Alda fez-lhe ainda um vago gesto. Na rua, outra vez, envergonhado, furioso, triste, o pobre rapaz deitou quase a correr, com o receio de que o reconhecessem ainda mal vindo da parada romântica. E só no quarto humilde é que pôde chorar, chorar longamente não ter sabido guardar integralmente o princípio da vida - a ilusão…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
João do Rio (1881 – 1921)
JOÃO DO RIO foi o pseudônimo mais famoso de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Richard Neto Barreto, um dos intelectuais mais brilhantes, ousados e inovadores da Belle Époque carioca. Ele revolucionou a imprensa brasileira ao criar a reportagem moderna e registrar a transição do Rio de Janeiro para a modernidade. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881 e faleceu nesta mesma cidade, precocemente em 1921, aos 39 anos, vítima de um infarto fulminante dentro de um táxi. Seu cortejo fúnebre parou a cidade e reuniu mais de 100 mil pessoas. Viveu intensamente na cidade do Rio de Janeiro, que era a capital federal na época. Também passou temporadas na Europa, especialmente em Paris, cidade que influenciou profundamente seu estilo e visão de mundo. Foi, antes de tudo, um jornalista revolucionário. Começou na imprensa aos 15 anos e trabalhou nos maiores jornais da época, como A Tribuna, O Paiz, Gazeta de Notícias e O Tagarela. Em 1920, fundou o seu próprio jornal, A Pátria. Ele tirou o jornalismo das redações e o levou para as ruas, sendo o pioneiro da reportagem investigativa e literária no Brasil. Além disso, atuou como tradutor, trazendo obras de autores como Oscar Wilde para a língua portuguesa.
Sua produção literária foi vasta e misturava a crônica, o conto, o romance, o teatro e o ensaio. Ele transitava entre a alta sociedade carioca (os salões aristocráticos e a elite dândi) e os submundos da cidade, registrando a vida dos marginalizados, trabalhadores e imigrantes. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1910. Sua eleição foi um marco: aos 29 anos, tornou-se o primeiro homem negro e assumidamente homossexual a ingressar na instituição, vencendo o forte preconceito da época graças ao seu talento avassalador. Na virada do século XX, não existiam prêmios literários nos moldes estruturados de hoje (como o Jabuti). No entanto, João do Rio recebeu a maior honraria que um escritor de seu tempo poderia almejar: a consagração popular absoluta, a liderança de vendas de seus livros e a eleição para a ABL como o candidato mais jovem até então.
Publicou dezenas de obras marcantes ao longo de sua breve carreira, destacando-se: As Religiões no Rio (1904) – Uma pioneira investigação etnográfica e jornalística sobre os cultos afro-brasileiros, igrejas e seitas na capital; A Alma Encantadora das Ruas (1908) – Sua obra-prima, uma coletânea de crônicas que investiga a vida dos trabalhadores urbanos, mendigos e a boemia; Dentro da Noite (1910) – Livro de contos com fortes tintas de mistério e decadentismo; etc.
João do Rio é uma figura fundamental para a literatura e o jornalismo brasileiros por ter sido o inventor da crônica de rua moderna. Antes dele, a literatura brasileira era predominantemente voltada para o ambiente rural ou para os gabinetes fechados da elite. Colocou os pés no asfalto e na lama; ele transformou o ato de flanar (caminhar sem rumo observando a cidade) em uma categoria estética e literária. Ele deu voz e visibilidade aos invisíveis da reforma urbana do prefeito Pereira Passos, registrando a dor e o feitiço da modernidade carioca. Sua escrita ágil, irônica e profundamente visual antecipou as inovações que os modernistas de 1922 trariam anos mais tarde, consolidando-se como o cronista definitivo da alma carioca.

Fonte:
João do Rio. Dentro da noite. Publicado originalmente em 1910.

Carlos Leite Ribeiro ("Nunca digas NUNCA..." )

Foi há muito tempo. Naquele dia...

Último encontro de dois seres que se amavam, mas como eram muito teimosos e muito orgulhosos, nunca conseguiram encontrar a fórmula que harmonizasse as suas naturais divergências.

Tal teimosia deu origem a um afastamento que tudo indicava ser definitivo.

Ela - "...tu não me apareças mais à minha frente, nem procures veres-me mais, porque eu para ti morri - entendeste? Morri!... Se por acaso, alguma vez, me encontrares na rua, por favor, muda logo de passeio e nem de soslaio olhes para mim! Nunca te esqueças, disto que te digo!"

Ele - "O que disseste também se aplica a ti, e mais, nem pensamentos em mim te autorizo a teres, porque eu não preciso, nem precisarei de ti para nada. Nada - entendeste?!... Nada! Agora, desaparece da minha vista para sempre - mulher malvada! Para sempre!

Passados alguns meses ambos casaram com namoros que entretanto tinham arranjado.

Foram viver para terras diferentes e nunca mais se encontraram.

O ódio que votaram um ao outro, tinha surgido efeito. Mas... Há sempre um mas...

Estávamos na véspera do Natal.

À porta de um supermercado, Ele, hesitou mas por fim resolveu entrar para fazer as compras que ainda lhe faltavam. Já estava quase aviado, quando ao passar por um corredor, avistou uma prateleira com bolos de rei. Ergueu o braço para ir buscar um, ao mesmo tempo que uma senhora teve a mesma ideia e fez o mesmo gesto. Resultado: o mesmo bolo que ambos agarraram caiu-lhes a seus pés, e ambos, ao tentar apanhá-lo, com a precipitação, chocaram com as cabeças um do outro...

Ainda massageando as cabeças, ambos olharam um para o outro.

Ela - Olha!... Que fazes tu aqui? - perguntou-lhe muito admirada.

Ele – Faço o mesmo que tu. Mas noto que continuas a teres a cabeça muito rija!

Ela – Oh menino, isso pode eu dizer de ti; olha o "galo" que me fizeste na cabeça... – Disse-lhe Ela enquanto afastava o cabelo para lhe mostrar um inchaço que já começava a notar-se - e continuou:

Ela - Com tantos estabelecimentos que para aí existem, tinhas que vir hoje e à mesma hora que eu também vinha, a este... É preciso ter azar!

Engrossando um pouco a voz, respondeu-lhe:

Ele: - Se eu soubesse que estavas aqui, nem nesta rua teria passado. Nem nesta terra! Que pouca sorte a minha! Bem, em que ficamos: levas o bolo ou levo eu?

Olhando-o de soslaio, disse-lhe:

- Sim, eu vou tirar o meu bolo. Quero lá saber se tu também tiras ou não o teu! E para já, a conversa acabou. Feliz Natal, passa muito bem, que não foi prazer nenhum ter-te encontrado!

Ele sorriu. Apesar dos anos, Ela, continuava "espevitada" como era dantes. E também continuava muito bonita... Por casualidade, tinha sabido há pouco tempo que ela também tinha enviuvado. Marotamente procurou a "chateá-la” um pouco mais:

- Como esse carrinho das tuas compras, está muito pesado e a rolar mal, eu tenho muito prazer de o te levar até lá fora...

Ela mostrou logo o seu desacordo com tal oferta. Mas o carrinho estava de facto muito pesado e rolava muito mal. Fingindo-se mais zangada do que de facto estava, lá acedeu:

- Olha que é só até à porta, pois o meu carro está ali perto.

Tentando ser mais "gozador", do que de fato era, Ele lá lhe foi dizendo:

- Não te preocupes. Eu só faço esta "gentileza" para te ver o mais longe possível; imagina, o mais rapidamente possível, de mim!"

Depois de passarem pela "caixa", Ele levou-lhe o carro cheio de compras e a rolar mal, até junto do automóvel dela, como era o seu desejo. Ela quase que lhe agradeceu:

- E pronto, acaba aqui o nosso encontro - o nosso inesperado encontro. Confesso que não tive o menor prazer em tornar-te a ver!

Não querendo ficar por baixo das palavras dela, logo lhe respondeu:

- Olha que estou plenamente de acordo contigo! Mas que lá foi um enorme prazer ter-te ajudado, isso foi. Ah antes que me esqueça, quero pedir-te desculpa de te ter feito, involuntariamente, esse "galo” na tua cabeça. Assim, talvez logo à noite, penses em mim!

Ela ao ouvir isto, quase que o "fuzilou" com os olhos, e disparou-lhe em seguida:

- Não sejas convencido, porque eu sou (e sempre serei) incapaz de pensar em ti. Pronto, pronto, a conversa já vai longa! Muito obrigado pela tua (inesperada) "gentileza" e mais uma vez um Feliz Natal para ti. Oxalá que nunca mais nos encontraremos. Vá lá, agora, sai da minha frente.

Dizendo-lhe isto, Ela entrou para dentro do carro, pô-lo a trabalhar, e, quando estava quase a arrancar, debruçou-se para o seu lado direito, e abrindo o vidro, perguntou-lhe:

- Olha lá, "menino", com quem vais tu passar a noite da Consoada? E logo rematou: Não é que me interesse, melhor, não tenho o mínimo interesse em ti nem da tua vida.

Ele parou, olhou-a nos olhos e, com um sorriso algo triste, respondeu-lhe:

- Como é já habitual há alguns anos, vou passar esta noite sozinho.

Ao sentir a tristeza dele, Ela, quebrou um pouco o seu ar que pretendia ser altivo. Mas "reguila" como era, não se conteve e disse-lhe em tom de despedida: - Isso acontece muitas vezes às pessoas más, de feitio irascível.

E lá seguiram o seu caminho, cada um para seu lado...

Ele voltou a entrar novamente no estabelecimento. Abeirou-se do carrinho que lá deixara com as suas compras. Pensava nela:

- Porque a tinha encontrado? Porque lhe tinha falado?

Agora seria pior, pois não parava de pensar nela. A sua cabeça estava feita num verdadeiro caos. Sentiu-se revoltado. Já não lhe apetecia comprar mais nada. Não queria estar mais naquele ambiente do supermercado. Deu meia-volta ao carrinho para se vir embora. Espanto seu, Ela estava novamente na sua frente. Mal pode balbuciar:

- Tu, novamente aqui...?!

Calmamente, Ela, altivamente, respondeu-lhe:

- Não penses que voltei por tua causa! Voltei, sim, porque esqueci-me de comprar umas coisas, nada mais... Ou já pensavas que?...

Ao encará-lo novamente, notou que Ele tinha os olhos de quem queria chorar. E até a sua voz era mais suave. Sentiu um grande arrepio. Nesse momento, por qualquer motivo ou avaria, as luzes do estabelecimento apagaram-se. Ela sobressaltou-se e nervosa como estava, quase lhe suplicou:

- Com esta escuridão, é melhor irmos embora.

Ele logo concordou:

- Talvez pela primeira vez na vida, estou plenamente de acordo contigo.

Dirigiram-se então para a saída. E, Ela estava ali a seu lado. Tinha a sensação de ouvir a sua respiração e sentia o calor da sua mão, que estava junto da sua. Parecia sonhar um sonho lindo, e a meia voz, balbuciou: -

- Já vejo a luz da rua. Não será bem uma luzinha "ao fundo de um túnel", mas quase...

Admirada (ou talvez não) Ela logo retorquiu-lhe:

- O que é que estás para aí a dizer?

Embora hesitante, Ele respondeu-lhe timidamente:

- Bem, é que... é que... como hei de dizer… É que gostava imenso de cear contigo esta noite...

Ela fingiu-se muito admirada com o que ouvira momentos antes, passando a mão pelos ainda belos cabelos, embora já algo grisalhos, disse-lhe:

- Ho "menino", controla-te...pois deves de estar a delirar! Que surpresas guardou-me o destino para hoje! Olha cá para mim...não, não, não ... Repara, eu já tenho o meu programa para esta noite: o meu filho vai a minha casa com a mulher e o meu netinho; talvez também uns primos, além de umas vizinhas...

Ele interrompeu-a ao retorquir-lhe tristemente:

- Só eu é que não posso ir, não é assim?

Ela encarou-o novamente. Sorriu (talvez com malícia) mas notava-se algum nervosismo:

- Ai, tu só me trazes problemas. Como é que eu posso agora anular os convites, não me dizes? Mas porque é que eu te tinha que te encontrar novamente, e logo neste dia? Tu, como sempre, só me trazes trabalhos e problemas.

Ele até parecia que estava no meio de um sonho. Um sonho lindo. Não, não queria acordar. Mas desta vez, Ela, estava ali a seu lado, compreensiva e com uma certa doçura no olhar e na voz, que nunca tinha imaginado que Ela seria capaz...Ainda que timidamente, atreveu-se a balbuciar: - Então, "menina...Às oito horas, está bem?...

Ela ainda hesitou. Escondeu a cara entre as suas mãos. Depois fez-lhe uma festinha no rosto dele, dizendo por fim:

- Mas olha que eu não vou a tua casa!

Visivelmente satisfeito, e porque não dize-lo, muito admirado com Ela, também aprovou.

- Linda, não tem importância nenhuma, posso eu ir a tua casa!

Ela, começou logo a fazer contas à vida:

- Oito horas?... Olha menino, vai um pouco mais cedo, pois o programa da Televisão começa às sete, e assim poderíamos o ver desde o princípio...

Ele, sorriu e pensou:

- Ou muito me engano, ou nunca mais passarei outro Natal sozinho!"
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Carlos Leite Ribeiro (1937 – 2018)
CARLOS LEITE RIBEIRO foi um professor, investigador, ensaísta e produtor cultural português. Embora tenha forte ligação afetiva e residencial com a cidade de Marinha Grande, ele nasceu em Lisboa, em 1937 e faleceu em Marinha Grande, em 2018. Sua trajetória destaca-se principalmente no campo da pesquisa histórico-literária e na promoção da união cultural entre Portugal e o Brasil. Passou a juventude em Lisboa e, desde setembro de 1967, fixou residência na Marinha Grande, concelho do Distrito de Leiria, na região central de Portugal, terra que adotou e onde desenvolveu grande parte de sua vida madura. Construiu uma carreira acadêmica e pedagógica diversificada, atuando como Professor Mestre. Possui o Curso de Educação Física (1962), Curso Geral de História com Mestrado (1976), e Curso Geral de Geografia com Mestrado (1984). Também possuía ampla formação em Radiodifusão, tendo realizado múltiplos cursos na área entre 1986 e 1992.
Começou a escrever precocemente, aos 14 anos de idade, quando trabalhou no Jornal do Comércio (em Lisboa). Sua primeira tarefa regular consistia em redigir a rubrica "Nomes e Figuras que deram seu nome a ruas de Lisboa", o que despertou seu profundo gosto pela pesquisa documental e biográfica. Ele teve como uma de suas grandes influências e referências intelectuais o mestre modernista Almada Negreiros. Seu primeiro grande ensaio investigativo foi focado na vida e obra de Luís de Camões. A produção escrita de Carlos Leite Ribeiro está expressivamente concentrada em ensaios históricos, artigos de divulgação biográfica, pesquisas geográficas e crónicas de época. 
Sua maior obra e legado público é o Portal CEN ("Cá Estamos Nós"), fundado por ele em 15 de julho de 1998. Trata-se de uma das maiores enciclopédias e repositórios digitais independentes de cultura da Língua Portuguesa, onde publicou centenas de monografias e investigações originais sobre grandes vultos literários e eventos históricos (como estudos sobre Fernando Pessoa, António Aleixo, e revoluções locais da Marinha Grande).
A importância de Carlos Leite Ribeiro para a literatura reside na sua dedicação como preservador da memória cultural e ponte viva entre os países lusófonos. Em vez de focar apenas na ficção isolada, ele escolheu o caminho da investigação literária acessível e da democratização da informação. Ao fundar o Portal CEN no final da década de 1990, ele antecipou a importância da internet como espaço de arquivamento cultural. Ele ofereceu uma vitrine internacional para poetas contemporâneos, resgatou biografias esquecidas do interior de Portugal e fortaleceu o intercâmbio de fraternidade intelectual entre autores portugueses e brasileiros.

Fonte:
Texto enviado por Carlos Leite Ribeiro .

Téo Azevedo (Quadras Populares)

 

Para quem não sabe: Quadra Popular = Forma lírica comum entre o povo; foi também utilizada por poetas de renome. Composta por 4 versos de sete sílabas (redondilha maior), a rima surge geralmente no 2º verso e 4º versos, sendo os outros dois versos brancos (sem rima). A quadra popular pode ser composta por uma única estrofe ou por várias.

1
Mandei buscar na botica
remédio para uma ausência,
me mandaram uma saudade
coberta de paciência.
2
Sete e sete são catorze,
com mais sete vinte e um,
soletra quem sabe ler
a paixão de cada um.
3
Meu benzinho não é este,
nem aquele que lá vem.
Meu benzinho está de branco,
não mistura com ninguém.
4
Menina dos olhos pretos,
sobrancelhas de retrós,
dá um pulo na cozinha,
cá coar café pra nós.
5
Quem quiser pegar morena
Arma um laço na parede
Que inda ontem peguei uma
Morena dos olhos verdes
6
Atirei meu limão verde
lá atrás da sacristia,
Deu no ouro, deu na prata,
deu na moça que eu queria.
7
Limoeiro pequenino
carregado de limão,
eu também sou pequenino
carregado de ilusão.
8
A laranja de madura
caiu n'água foi ao fundo.
Os peixinhos estão gritando:
– Viva dom Pedro Segundo!
9
Esta noite à meia-noite
me cantava um gavião,
parecia que falava
Maria, meu coração.
10
Cravo branco na janela
é sinal de casamento…
Menina tira seu cravo,
inda não chegou seu tempo
11
Toda vez que considero
que tenho de te deixar,
me foge o sangue na veia
e o coração do lugar.
12
Lá do céu caiu um cravo,
de tão alto desfolhou…
Quem quiser casar comigo,
vai pedir quem me criou.
13
Eu joguei meu limão verde
numa moça na janela,
o limão caiu no chão
e eu caí no colo dela.
14
Limoeiro pequenino
carregado de “fulô”,
eu também sou pequenino
carregado de “amô”
15
A perdiz pia no campo
comendo seu capinzinho,
quem tem amor anda magro
quem não tem, anda gordinho.
16
Em cima daquela serra
passa boi, passa boiada,
também passa moreninha
de cabelo cacheada.
17
Batatinha quando nasce
esparrama pelo chão,
meu benzinho quando dorme
põe a mão no coração.
18
Um coqueiro de tão alto
que dá coco na raiz,
uma moça bonitinha
com três palmos de nariz.
19
Amanhã eu vou-me embora,
eu não vou-me embora não,
se eu tivesse de ir-me embora,
eu não estava aqui mais não.
20
O anel que tu me deste
era de vidro e quebrou,
o amor que tu me tinhas
era pouco e já acabou
21
Se essa rua fosse minha
eu mandava ladrilhar,
Ou de ouro, ou de prata,
para meu bem passear
22
Duas correntes pesadas
eu arrasto sem poder,
uma é do meu capricho,
outra é do meu dever.
23
Bate bate coração,
arrebenta este peito.
Como cabe tanta mágoa
num espaço tão estreito?
24
Ninguém viu o que vi hoje,
um macaco fazer renda
e também vi um peru
caixeirando numa venda.
25
Calango desceu pra baixo,
foi vender sua farinha.
Lagartixa respondeu:
– Vende a sua e deixa a minha!
26
Lá no céu tem três estrelas
vestidinhas de nobreza.
Quem quiser casar comigo,
não repare minha pobreza.
27
Eu não dou a mão, rapaz,
nem que seja meu parente,
porque rapaz tem o defeito
de apertar a mão da gente.
28
Em cima daquela serra
corre água sem chover,
os mocinhos da cidade
me namoram sem me ver.
29
Essas meninas d’agora
só sabem namorar, 
botam a panela no fogo
e não sabem temperar
30
Lá vai a garça voando
com as penas que Deus lhe deu…
Contando pena, por pena,
mais pena padeço eu
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
Téo Azevedo (1943 – 2024)
TEÓFILO DE AZEVEDO FILHO, mundialmente conhecido pelo nome artístico de Téo Azevedo, foi um dos maiores baluartes, pesquisadores e defensores da cultura popular, do cordel e das tradições folclóricas do sertão mineiro. Nasceu no distrito de Alto Belo, no município de Bocaiúva, no Norte de Minas Gerais, em 1943 e faleceu em Montes Claros/MG, em 2024, aos 80 anos de idade. Nascido no ambiente rural de Alto Belo, mudou-se ainda na infância para Montes Claros. Mais tarde, residiu em Belo Horizonte e passou um longo e prolífico período em São Paulo frequentando estúdios e rádios, retornando a Montes Claros para viver seus últimos anos de vida. Vindo de uma família humilde de músicos e poetas, Téo precisou cantar em feiras aos 7 anos para ajudar no sustento de seus sete irmãos após a morte prematura de seu pai. Teve uma juventude multifacetada, chegando a ser tricampeão mineiro de boxe aos 17 anos. No entanto, sua verdadeira carreira consolidou-se na comunicação e na música: trabalhou como radialista por mais de uma década (com passagens marcantes pelas rádios Record e Atual), produtor fonográfico de mais de 3 mil trabalhos, além de atuar como cantor, compositor e violeiro com mais de 1.500 músicas gravadas por grandes nomes da MPB e do sertanejo.
Era um folclorista nato. Sua escrita literária debruçou-se intensamente sobre a salvaguarda da oralidade, das modas de viola e do cordel, gênero do qual publicou cerca de 500 folhetos de histórias. Téo foi um dos idealizadores, fundadores e presidente da Associação dos Repentistas e Poetas Populares do Norte de Minas, doando os direitos de suas recolhas folclóricas de domínio público para a instituição. Embora sua atuação estivesse mais ligada a entidades de preservação popular direta e sindicatos artísticos do que a academias de letras tradicionais, sua erudição sertaneja o tornou referência acadêmica em estudos sobre o folclore mineiro. Téo acumulou vitórias em festivais de música e poesia popular desde a década de 1960. O auge do reconhecimento de sua carreira artística e de sua escrita regional ocorreu em 2013, quando conquistou o prestigiado prêmio internacional Grammy Latino na categoria de Melhor Álbum de Música de Raízes Brasileiras com o trabalho "Salve Gonzagão 100 Anos".
Escreveu mais de 14 livros dedicados à cultura popular brasileira, com destaque para: Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos (1978) – sua grande obra de catalogação que mapeia as quadrinhas, sextilhas e as estruturas da poesia oral do sertão; Cultura popular do norte de Minas (1979); Tiófo, o cantador de um braço só (1987) – biografia em homenagem ao seu lendário pai, cuja história também inspirou o poema "Viola de Bolso" de Carlos Drummond de Andrade; Repente & Folclore; Cordel - Téo Azevedo (Coletânea de folhetos), etc.
A relevância de Téo Azevedo para a literatura brasileira é incomensurável por funcionar como uma ponte viva entre a oralidade do sertanejo e a palavra impressa. Através de seu clássico livro Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos, ele foi o responsável por estruturar de maneira teórica e registrar formalmente os padrões das rimas geraizeiras e o "Martelo Mineiro", impedindo que essa tradição puramente oral se perdesse com o tempo. Téo provou que o Norte de Minas Gerais, encravado entre os vales do Jequitinhonha e São Francisco, possui uma riqueza em cordel tão pulsante e sofisticada quanto o Nordeste brasileiro. Ele elevou a "poesia matuta" ao status de patrimônio literário nacional, eternizando as dores, as crenças e o linguajar do homem do cerrado. 

Fonte:
Azevedo,Teófilo de. Literatura popular do norte de Minas: a arte de fazer versos. São Paulo, Global Editora, 1978. Cultura Popular, 3.
Biografia = Dicionário MPB, Hedra, Memórias da Música Popular, Montes Claros (cultura), TV Saudades, Casa Rui Barbosa, etc.

Jorge Luis Borges (A Escrita de Deus)

 O cárcere profundo e de pedra; sua forma de um hemisfério quase perfeito, embora o piso (também de pedra) seja algo menor que um círculo máximo, fato que de algum modo agrava os sentimentos de opressão e de grandeza. Um muro corta-o pelo meio; este, apesar de altíssimo, não toca a parte superior da abóbada; de um lado estou eu, Tzinacan, mago da pirâmide Qaholom, que Pedro de Alvarado incendiou; do outro há um jaguar, que mede com secretos passos iguais o tempo e o espaço do cativeiro. Ao nível do chão, uma ampla janela com barrotes corta o muro central. Na hora sem sombra (o meio-dia) abre-se um alçapão no alto e um carcereiro que os anos foram apagando manobra uma roldana de ferro, e nos baixa, na ponta de um cordel, cântaros de água e pedaços de carne. A luz entra na abóbada; neste instante posso ver o jaguar.

Perdi o número dos anos que estou na treva; eu, que uma vez fui jovem e podia caminhar nesta prisão, não faço outra coisa senão aguardar, na postura de minha morte, o fim que os deuses me destinam. Com a longa faca de pedernal abri o peito das vítimas e agora não poderia, sem magia, levantar-me do pó.

Na véspera do incêndio da Pirâmide, os homens que desceram de altos cavalos me castigaram com metais ardentes para que revelasse o lugar de um tesouro escondido. Abateram, diante de meus olhos, a imagem de Deus, mas este não me abandonou e me mantive silencioso entre os tormentos. Feriram-me, quebraram-me, deformaram-me e depois despertei neste cárcere, que não mais deixarei nesta vida mortal.

Premido pela fatalidade de fazer algo, de povoar de alguma forma o tempo, quis recordar, em minha sombra, tudo o que sabia. Gastei noites inteiras lembrando a ordem e o número de algumas serpentes de pedra ou a forma de uma árvore medicinal. Assim fui vencendo os anos, assim fui entrando na posse do que já era meu. Uma noite, senti que me aproximava de uma lembrança precisa; antes de ver o mar, o viajante sente uma agitação no sangue. Horas depois, comecei a avistar a lembrança; era uma das tradições do deus. Este, prevendo que no fim dos tempos ocorreriam muitas desventuras e ruínas, escreveu no primeiro dia da Criação uma sentença mágica, capaz de conjurar esses males. Escreveu-a de maneira que chegasse às mais distantes gerações e que não tocasse o azar. Ninguém sabe em que ponto a escreveu nem com que caracteres, mas consta-nos que perdura, secreta, e que um eleito a lerá. Considerei que estávamos, como sempre, no fim dos tempos e que meu destino de último sacerdote de Deus me daria acesso ao privilégio de intuir essa escritura. O fato de que uma prisão me cercasse não me vedava esta esperança; talvez eu tivesse visto milhares de vezes a inscrição de Qaholom e só me faltasse entendê-la.

Esta reflexão me animou e logo me intuiu uma espécie de vertigem. No âmbito da terra existem formas antigas, formas incorruptíveis e eternas; qualquer uma delas podia ser o símbolo buscado. Uma montanha podia ser a palavra de Deus, ou um rio ou o império ou a configuração dos astros. Mas no curso dos séculos as montanhas se aplainam e o caminho de um rio costuma desviar-se e os impérios conhecem mutações e estragos e a figura dos astros varia. No firmamento há mudança. A montanha e a estrela são indivíduos e os indivíduos caducam. Busquei algo mais tenaz, mais invulnerável. Pensei nas gerações do cereais, dos pastos, dos pássaros, dos homens. talvez em minha face estivesse escrita a magia, talvez eu mesmo fosse o fim de minha busca. Estava nesse afã quando recordei que o jaguar era um dos atributos do deus.

Então minha alma se encheu de piedade. Imaginei a primeira manhã do tempo, imaginei meu deus confiando a mensagem à pele viva dos jaguares, que se amariam e se gerariam eternamente, em cavernas, em canaviais, em ilhas, para que os últimos homens a recebessem. Imaginei essa rede de tigres, esse quente labirinto de tigres, dando horror aos prados e aos rebanhos para conservar um desenho. Na outra cela havia um jaguar; em sua proximidade percebi uma confirmação de minha conjectura e um secreto favor.

Dediquei longos anos a aprender a ordem e a configuração das manchas. Cada cega jornada me concedia um instante de luz, e assim pude fixar na mente as negras formas que riscavam o pelo amarelo. Algumas incluíam pontos; outras formavam raias transversais na face inferior das pernas; outras, anulares, se repetiam. Talvez fossem um mesmo som ou uma mesma palavra. Muitas tinham bordas vermelhas.

Não falarei das fadigas de meu labor. Mais de uma vez gritei à abóbada que era impossível decifrar aquele texto. Gradualmente, o enigma concreto que me atarefava me inquietou menos que o enigma genérico de uma sentença escrita por um Deus. Que tipo de sentença (perguntei-me) construirá uma mente absoluta? Considerei que mesmo nas linguagens humanas não existe proposição que não envolva um universo inteiro; dizer o tigre é dizer os tigres que o geraram, os cervos e tartarugas que ele devorou, o pasto de que se alimentaram os cervos, a terra que foi a mãe do pasto, o céu que deu luz à terra. Considerei que na linguagem de um Deus toda palavra enunciaria essa infinita concatenação dos fatos, e não de um modo implícito, mas explícito, e não de um modo progressivo, mas imediato. Com o tempo, a noção de uma sentença divina pareceu-me pueril ou blasfematória. Um Deus, refleti, só deve dizer uma palavra e nessa palavra a plenitude. Nenhum som articulado por ele pode ser inferior ao universo ou menos que a soma do tempo. Sombras ou simulacros desse som, que equivale a uma linguagem e a quanto pode significar um linguagem, são as ambiciosas e pobres vozes humanas, tudo, mundo, universo.

Um dia ou uma noite – entre meus dias e minhas noites que diferença existe? – sonhei que no chão do cárcere havia um grão de areia. Voltei a dormir, indiferente; sonhei que despertava e que havia dois grãos de areia. Voltei a dormir, sonhei que os grãos de areia eram três. Foram, assim, multiplicando-se até encher o cárcere e eu morria sob este hemisfério de areia. Compreendi que estava sonhando; com um enorme esforço, despertei. O despertar foi inútil: a inumerável areia me sufocava. Alguém me disse: "Não despertaste para a vigília, mas para um sonho anterior. Esse sonho está dentro de outro, e assim até o infinito, que é o número dos grãos de areia. O caminho que terás que desandar é interminável e morrerás antes de haver despertado realmente".

Senti-me perdido. A areia me enchia a boca, mas grite: "Nenhuma areia sonhada pode matar-me nem existem sonhos dentro de sonhos". Um resplendor me despertou. Na treva superior abria-se um círculo de luz. Via a face e as mãos do carcereiro, a roldana, o cordel, a carne e os cântaros.

Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, eu era um encarcerado. Do incansável labirinto de sonhos regressei à dura prisão como à minha casa. Bendisse sua umidade, bendisse seu tigre, bendisse meu velho corpo dolorido, bendisse a treva e a pedra.

Então ocorreu o que não posso esquecer nem comunicar. Ocorreu a união com a divindade, com o universo (não sei se estas palavras diferem). O êxtase não repete seus símbolos; há quem tenha visto Deus num resplendor, há quem o tenha percebido numa espada ou nos círculos de uma rosa. Eu vi uma Roda altíssima, que não estava diante de meus olhos, nem atrás, nem nos lados, mas em todas as partes, a um só tempo. Essa Roda estava feita de água, mas era também de fogo, e era (embora visse a borda) infinita. Entretecidas, formavam-na todas as coisas que serão, que são e que foram, e eu era um dos fios dessa trama total, e Pedro de Alvarado, que me atormentou, era outro. Ali estavam as causas e os efeitos e me bastava ver essa roda para entender tudo, interminavelmente. Oh, felicidade de entender, maior que a de imaginar ou a de sentir! Vi o Universo e vi os íntimos desígnios do universo. Vi as origens narradas pelo Livro do Comum. Vi as montanhas que surgiram na água, vi os primeiros homens com seu bordão, vi as tinalhas que se voltaram contra os homens, vi os cães que lhes desfizeram os rostos. Vi o deus sem face que há por trás dos deuses. Vi infinitos processos que formavam uma só felicidade e, entendendo tudo, consegui também entender a escrita do tigre.

É uma fórmula de catorze palavras casuais (que parecem casuais) e me bastaria dizê-la em voz alta para ser todo-poderoso. Bastaria dizê-la para abolir este cárcere de pedra, para que o dia entrasse em minha noite, para ser jovem, para ser imortal, para que o tigre destruísse Alvarado, para afundar o santo punhal em peitos espanhóis, para reconstruir a pirâmide, para reconstruir o império. Quarenta sílabas, quatorze palavras, e eu, Tzinacan, regeria as terras que Montezuma regeu. Mas eu sei que nunca direi estas palavras, porque eu não me lembro de Tzinacan.

Que morra comigo o mistério que está escrito nos tigres. Quem entreviu o universo, quem entreviu os ardentes desígnios do universo não pode pensar num homem, em suas triviais venturas ou desventuras, mesmo que esse homem seja ele. Esse homem foi ele e agora não lhe importa. Que lhe importa a sorte daquele outro, que lhe importa a nação daquele outro, se ele agora é ninguém? Por isto não pronuncio a fórmula, por isso deixo que os dias me esqueçam, deitado na escuridão.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Jorge Luis Borges (1899 – 1986)
JORGE FRANCISCO ISIDORO LUIS BORGES ACEVEDO é considerado um dos maiores e mais influentes escritores do século XX. Sua obra revolucionou a literatura mundial ao fundar universos fantásticos baseados em labirintos, espelhos, bibliotecas infinitas e paradoxos filosóficos. Nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1899 e faleceu em Genebra, Suíça, em 1986, devido a um câncer de fígado. Passou a infância em Buenos Aires. Em 1914, mudou-se com a família para a Suíça, estudando em Genebra. Também viveu brevemente na Espanha, em Madri e Malorca. Retornou à Argentina em 1921, onde passou a maior parte da vida ativa, mudando-se em definitivo para a Suíça poucos meses antes de sua morte. 
Borges teve uma carreira intimamente ligada ao universo dos livros e da educação Atuou como bibliotecário municipal em Buenos Aires entre 1937 e 1946 (um cargo modesto que lhe permitia ler e escrever muito); Foi nomeado Diretor da Biblioteca Nacional da Argentina em 1955, cargo que ocupou por quase duas décadas, ironicamente na mesma época em que sua cegueira progressiva (hereditária) tornou-se total; Foi professor de Literatura Inglesa e Americana na Universidade de Buenos Aires (UBA) e lecionou como professor convidado em prestigiadas universidades dos Estados Unidos, como a Universidade do Texas em Austin e a Universidade Harvard.
Borges começou a publicar muito jovem. Na Europa, envolveu-se com o movimento de vanguarda Ultraísta. Ao regressar a Buenos Aires, ajudou a fundar revistas literárias fundamentais como a Prisma e a Proa. Inicialmente focado na poesia que homenageava sua cidade natal, Borges encontrou sua verdadeira assinatura literária nos anos 1940, ao consolidar o gênero do conto ensaístico — narrativas curtas ficcionais disfarçadas de resenhas de livros imaginários ou ensaios teóricos. Pertenceu à Academia Argentina de Letras e foi eleito membro honorário de diversas instituições internacionais de prestígio, incluindo a Academia Americana de Artes e Ciências. Recebeu o prestigioso Prêmio Formentor (1961), dividido com Samuel Beckett, que o projetou internacionalmente. Também ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes (1979) e o prêmio Jerusalém (1971). Borges se tornou famoso também por ser o eterno "esnobado" pelo Prêmio Nobel de Literatura, que nunca recebeu, em grande parte devido a posições políticas controversas e independentes.
Suas obras mais célebres são as coletâneas de contos Ficções (1944) e O Aleph (1949). Na poesia e no ensaio, destacam-se Fervor de Buenos Aires (1923), Discussão (1932) e O Livro dos Seres Imaginários (1967).
A importância de Jorge Luis Borges reside na criação de um estilo literário universal único, que uniu a alta erudição (filosofia, teologia, misticismo cabalístico, matemática e línguas antigas) à cultura popular (como as histórias de facadas de subúrbio e o cinema de faroeste). Ele antecipou conceitos da hipertextualidade e da internet muito antes de existirem computadores através de contos como A Biblioteca de Babel ou O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. Transformou a ficção fantástica em uma ferramenta de investigação metafísica profunda, influenciando gerações de escritores em todo o planeta, desde o Realismo Mágico latino-americano até a filosofia pós-moderna europeia.

Fonte:
Publicado inicialmente na revista literária Sur (Nº 172), em Buenos Aires, Argentina, em fevereiro de 1949 e depois no livro de Jorge Luis Borges. O Aleph, publicado originalmente em 1949.

Conto Popular Árabe (História da Donzela de Pau)

Contam os livros do passado muitas histórias verdadeiras. Por exemplo, que um dia quatro homens: um carpinteiro, um ourives, um alfaiate e um monge, foram viagem. Depois de viajarem certo tempo, aconteceu terem que tiveram de passar a noite numa região perigosa. Temendo ser agredidos por animais ferozes, resolveram que cada um deles, por sua vez, vigiaria algum tempo. O primeiro foi o carpinteiro. Enquanto os outros dormiam, sentiu-se ele invadido de cansaço e, para afugentar o sono, pegou suas ferramentas. Derrubou uma árvore delgada, pôs-se a talhar a madeira, e acabou formando uma figura de donzela, com a cabeça, a mãos e os pés.

Depois foi a vez do ourives. Ao cabo de certo tempo, também este sentiu sono e procurou em que se ocupar. Então seus olhos encontraram a donzela de pau.

Admirou a arte com que estava feita e, para não ceder à sonolência, também deu provas de sua habilidade, fabricando para a estátua brincos, braceletes e outros adornos femininos, com os quais a enfeitou maravilhosamente.

Terminada a vigília do ourives, o alfaiate, por seu turno, ao despertar, avistou, com forte surpresa, o lindo figurino, e exclamou:

- Eu também tenho de mostrar a minha arte.

E fez um encantador vestido de festa para a donzela e vestiu-a da cabeça aos pés Quem a visse sem saber que era apenas uma figura esculpida, toma-la-ia por um ser vivo, tão parecido estava com um espírito encarnado.

Quando a vigília do alfaiate chegou ao fim, ele acordou o monge e foi deitar-se. Mal o monge abriu os olhos, viu a formosa figura. Teve a impressão de um viandante a cujos olhos, em meio as trevas noturnas, de repente rebrilha uma luz - e aproxima-se dela. Que viu? Uma linda figura de tal formosura que nem ascetas e anacoretas a deixariam de adorar; uma bela donzela sem-par; suas sobrancelhas, um oratório, para o amante suplicante rezar; os rubis dos lábios numa tez de marfim prometiam prazeres sem fim. Logo o monge os braços alçou implorando a Quem as almas criou:

– Ó Deus todo-poderoso, que do seio do nada brumoso -para os campos floridos do ser arrancaste o homem e a mulher, tu, só tu, tens o poder de fazer brotar do córtice duro fruto doce, fofo, maduro; ó Deus, demonstra-me tua graça, não me precipites na desgraça, ante os meus companheiros não me humilhe; eu te invoco, empresta alma a este corpo oco a fim de que goze da existência exaltando a tua clemência.

Assim rezava com todo fervor. Como fosse homem de coração puro, o Senhor ouviu-lhe a prece. Com sua inesgotável misericórdia, o Eterno presenteou a estátua com uma alma, e mandou-a viver. Ela se tornou uma linda donzela, cola a vida ligada a uma brilhante estrela; - começou a andar, a se balancear, como os ciprestes oscilam no ar e sem demora se pôs a falar, e tudo o que dizia era gaio como a fala de um papagaio.

Ao chegar da aurora e, com ela, do Sol, delicia do mundo, as olhos dos quatro viandantes caíram sobre o ídolo arrebatador chamado à vida durante a noite.

Apenas viram a esplêndida mulher, uma louca paixão lhes invadiu o ser, os anéis de seus cabelos prenderam-nos em cadeias e feitos moscas ao redor e candeias, voaram em torno dela, dementes, e de paixão doentes -os quatro começaram a brigar.

Sou eu - disse o carpinteiro - de sua vida o autor verdadeiro. Meu direito a vós outros vence; a mim, só a mim ela pertence

Porém o ourives falou assim:

Não lhe dei brincos, braceletes, enfim? Isso, como todos devem saber, é metade da alma de uma mulher. Ora, se tanto fiz por ela, claro que é minha esta donzela.

Disse o alfaiate, por sua vez:

Despesas com da minha bolsa também fez; vesti-a seda e brocado, tomando o seu encanto perfeito e acabado comunicando-lhe um brilho tal que acendeu nela a chama vital. Portanto, sou eu o sou dono, e a ninguém a abandono.

Mas o monge exclamou:

Não! - Tudo o que disseste é vão. Então esqueces me sua vida é fruto de minhas preces? Foi a mim que deu o Supremo Juízo, como antegozo das huris do Paraíso. Para mim a requisito; meu direito é manifesto!.

Em poucas palavras. não encontraram outra saída a não ser se meter suas reivindicações à decisão de um tribunal; e iam-se caminhar ao mais próximo, quando aparece diante deles um viandante vestido de pano de chita. Logo os quatro resolvem fazê-lo árbitro de sua divergência o aceitar qualquer sentença ele pronunciasse. Chamaram-no, pois. e contaram-lhe minuciosamente todo o sucedido. Mas logo o daroês viu a linda donzela - apaixonou-se por ela e, como flauta plangente, entrou a gemer de repente, refletiu no momento e, para curar o seu próprio tormento, assim falou aos quatro viajantes:

- Ó muçulmanos que palavras estultas acabais de pronunciar! Não temeis o Todo-Poderoso ao cometer tamanho crime querendo-me roubar minha legítima esposa?

Um de vós até ousa pretender havê-la talhado na madeira; outro ter pronunciado uma prece por ela. Dizei, afinal, algo de razoável, algo de possível segundo a lei divina! Esta é a minha mulher e as vestes e os objetos que ela usa, fui eu que mandei fazê-los. Alguns dias atrás, houve entre nós uma briga sem importância; aborrecida com isso, minha mulher deixou a casa esta noite. O desejo de encontrá-la fez-me ir à procura dela. Graças a Deus consegui encontrá-la, efetivamente. Cuidai vós outros pois, de não vos tonardes ridículos com conversas, destituídas de qualquer fundamento.

Assim o daroês, em vez de resolver a contenda, sobrepujou as reivindicações dos quatro viajantes, e então foram cinco a pretender cada um estar com razão contra os demais. Em discussões e brigas chegaram a uma cidade, e sem demora se dirigiram ao chefe de polícia para expor o seu caso. Mal o chefe de policia viu a jovem, apaixonou-se por ela com veemência mil vezes maior do que a dos cinco forasteiros, e, no intuito de obtê-la para si investiu deste modo contra eles:

- Homens pérfidos, esta criatura era mulher de irmão mais velho. Este foi morto por ladrões, que lhe roubaram a esposa. Mas, graças a Deus, sangue derramado não se perde e vossos pés vos conduziram ao laço.

Destarte o chefe de policia terminou sendo um rival mais impetuoso ainda que os outros cinco; mandou citá-los sem tardança perante a justiça e ele mesmo os acompanhou ao cádi. Cada um se esforçava por explicar sua pretensão àquele respeitável personagem, quando ele de súbito olhou para o rosto da mulher, e

Surgiu-lhe ante os olhos formosa menina,
Dos pés a cabeça – graciosa, divina!
Altivo cipreste, perdido deixava,
Enfermo de amores, a quem fitava.

Quando o cádi viu ante si essa criatura, sentiu-se presa do desejo de possuí-la.

- Meus amigos, disse ele, a contenda que estais levantando é nula. Esta linda mulher é uma escrava crescida em minha casa e tratada desde criança como se fora minha filha. Seduzida por homens maus, abandonou-me, levando as jóias e as vestes com que a vedes. Graças sejam dadas ao Altíssimo que ma restitui mercê de vossa obsequiosidade. Espero que Deus, que tudo sabe, leve em conta o serviço que me acabais de prestar e vos dê merecido prêmio.

Ao ouvir tais palavras, quatro dos competidores de apartaram, porque sabiam que o cádi lhes poderia infligir humilhações e castigos sem que eles se pudessem defender. Mas o darôes teve coragem para levantar a voz:

- Achas lícito, tu que pretender estar sentado no tapete do Profeta, não resolver uma contenda de muçulmanos ortodoxos segundo a lei sagrada, mas, pelo contrário, levantar tu mesmo uma pretensão, procurando arrebatar-nos esta donzela? Que religião te autoriza semelhante injustiça? Como te atreverás a comparecer amanhã, perante o Criador do mundo?

- Olha, ladrão de estátuas – respondeu o cádi, tu que por meios de jejuns encovaste as faces para enganar as gentes; tu que pretender fazer crer que andas curvado pelo temor de Deus, olha o provérbio que diz: “Um bom mentiroso deve ter não só excelente memória, mas também uma inteligência penetrante e aguda.”

Onde a tua inteligência? Querendo contar-nos patranhas, procura, ao menos, dar-lhes uma aparência decente. Será possível fazer um ser humano de um pedaço de madeira? Renuncia a pretensões tão ridículas e vai-te para onde quiseres. Eu felizmente recuperei minha escrava.

Havia no pátio do tribunal alguns cidadãos que assistiam à disputa. Referindo-se a estes, disse o monge:

- Os cidadãos aqui presentes, como ignoram o verdadeiro estado das coisas, devem supor, ó cádi, que a verdade está contigo Mas nós outros sabemos bem o que aconteceu.Teme pois, a Deus, e, em respeito ao Santo Profeta, decide o caso segundo a lei sagrada.

O cádi replicou ao monge, o monge por sua vez respondeu ao cádi com as palavras que lhe pareceram mais violentas, e de pronto o diálogo se transformou em veemente discussão.Os sete homens, todos mortalmente apaixonados, preparavam-se para a luta. Porém, os mais razoáveis dos circunstantes deliberaram reconciliá-los e disseram-lhes:

- Muçulmanos, a vossa contenda é um nó insolúvel, a menos que o Magnífico se digne desatá-lo. Portanto, atendendo ao conselho de um ditado do Profeta que nos foi transmitido:

Se a um caso da vida não sabes achar solução,
Consulta os que dormem seu sono debaixo do chão.

- Vamos todos juntos ao cemitério; ali vós rezareis e nós pronunciaremos o amém Destarte se pode esperar que Aquele-Que-Tudo-Segura elucide o mistério.

A proposta foi aceita e transportaram-se todos ao cemitério, onde o monge, erguendo os braços ao céu, e com lágrimas nos olhos, pronunciou com o mais intenso fervor, esta oração:

- Ó Fortíssimo, cujo poder não tem lindas, - que os pensamentos mais secretos deslindas -, cuja mente de antemão conhece – a nossa prece, - imploramo-te que desates o nó, que nos causa tanto dó – e declares bondosamente – quem diz a verdade e quem mente.

Quando acabou de pronunciar estas palavras, toda a assembléia exclamou a uma voz:

- Amém!

Nesse instante aconteceu que uma grande árvore, à qual se recostara a linda donzela durante a oração, fendeu-se de súbito, engoliu a donzela, e novamente se fechou, ficando como dantes. Dessa maneira se verificou mais uma vê a verdade da misteriosa sentença: “Todas as coisas voltam a sua origem.”

Tal desfecho pôs fim a qualquer discussão. Com os olhos da certeza, todos reconheceram que os quatro viajantes haviam dito a verdade e os outros homens haviam mentido. Assim a razão dos peregrinos se manifesta e desmascara-se a fraude infesta. O darôes, o chefe de polícia e o cádi ali ficaram e quedaram de todos desprezados e envergonhados.

Mas os quatro peregrinos – apaixonados pelo lindo figurino, ficaram perplexos ao ver a virgem – tornar destarte à sua origem.

Fontes:
Jô Andrada (seleção). Contos Populares do Mundo.
Imagem = criação com IA Microsoft Bing