terça-feira, 11 de março de 2008

Literatura Russa

Literatura dos povos eslavos do Leste, escrita em língua russa.

PERÍODO DE KIEV

O início da expressão literária na Rússia pode ser situado em torno do século IX, quando os missionários e eruditos bizantinos Cirilo e Metódio escreveram em dialeto eslavo-macedônio que, mais tarde, passaria a se chamar eslavo-litúrgico. A primeira grande época da civilização russa desenvolveu-se em Kiev e o eslavo-eclesiástico antigo foi usado durante vários séculos como língua literária para a qual se traduziram textos de caráter religioso e semi-religiosos escritos em grego.

Os monges chegaram a dominar estas formas literárias importadas e produziram uma literatura própria: Sermão sobre a lei e a graça (c. 1050), do religioso Hilarion, e o mais conhecido, Profissão de fé, que, talvez, seja texto de um monge e esboça uma história dos povos eslavos. Uma das obras mais extraordinárias deste período, o Cantar das hostes de Igor (1185), aborda uma comovedora epopéia anônima, apelando para a unidade dos eslavos contra os invasores nômades asiáticos.

PERÍODO MOSCOVITA

Após a expulsão dos invasores tártaros, no século XV, Moscou tornou-se a nova capital da Rússia. A chegada das idéias renascentistas refletiu-se na autobiografia do religioso Avvakum, A vida do arcebispo Avvakum (1672-1675).

PERÍODO PETERSBURGUÊS

Durante o reinado do czar Pedro I que, em 1713, mudara a capital de Moscou para San Petersburgo, o isolamento cultural da Rússia chegou ao fim. Os escritores russos, então, adaptaram as influências ocidentais, como o neoclassicismo francês, ao âmbito russo. Dois escritores do final do século XVIII constituem um exemplo claro da crescente independência da literatura russa em relação aos modelos estrangeiros: o autor teatral Denis Fonvizin e o poeta Gavriil Romanovich Derzhavin. O Iluminismo teve um de seus principais defensores na figura do cientista e poeta Mikhail Vassilievitch Lomonossov. Destacam-se, além deste, o jornalista satírico Nikolai Ivanovich Novikov e Alexandr Nikolaievich Radishchev.

SÉCULO XIX

A Idade de Ouro da literatura russa surge com o poeta e prosista Aleksandr Sergeievitch Puchkin que aderiu, com entusiasmo, ao Romantismo. Em seus últimos anos tendeu para o nascente Realismo.

Entre os mais destacados escritores encontram-se o brilhante fabulista Ivan Yrievich Krilov, o dramaturgo Alexandr Sergeievich Griboiedov e o poeta e romancista Mikhail Iurievitch Lermontov. Nesta crescente preferência russa pela prosa, em detrimento da poesia, existem duas exceções: os poetas Afanasi Afanasievich Fet e Fiodor Ivanovich Tiutchev.

O romance, o conto e o teatro foram as formas preferidas durante este fértil período. O termo Realismo foi constantemente utilizado para descrever estas obras por críticos literários radicais como Vissarion Grigorievich Belinski, Nikolai Gravilovitch Tchernichevski e Nikolai Alexandrovich Dobroliubov que apoiavam urgentes programas de reforma social. Desta forma, o romancista e dramaturgo Nikolai Vasilievitch Gogol, primeiro escritor em prosa realmente destacável da literatura russa, sucumbiu ao apelo messiânico em prol da melhora das condições de vida de seu povo. A figura do romancista e contista Ivan Sergeievitch Turgueniev ascende como figura literária central desta época.

O romancista e filósofo Lev Tolstoi esforçou-se para descobrir e propagar verdades essenciais sobre a natureza da existência humana. Em contraste com esta atitude, a obra do grande romancista Fiodor Mikhailovitch Dostoievski discorreu pelos terrenos do irracional, explorou as profundidades das experiências mais díspares e encontrou suas situações dramáticas nos extremos do comportamento humano, como o assassinato, a rebelião e a blasfêmia.

À mesma época pertencem outros autores como o romancista Ivan Aleksandrovitch Goncharov, N. Shchedrin - que descreveu a sociedade russa de maneira satírica e mordaz - Serguei Timofeievich Axakov que expressou, com grande sensibilidade, a vida familiar da alta burguesia russa, estilo que influenciou muitos autores posteriores. O romancista Nikolai Semionovich Leskov e o autor de relatos curtos Alexandr Nikolaievich Ostrovski contribuíram, de maneira decisiva, para a criação de um repertório teatral russo com obras centradas na vida da classe média.

Na obra do dramaturgo e contista Anton Pavlovich Tchekhov, o realismo em prosa alcançou grande refinamento.

Outros escritores russos do final do século XIX agruparam-se em movimentos complexos, cuja característica foi a recusa dos valores estéticos e da prática literária da época imediatamente anterior. Este movimento inspirou o Ressurgimento, em torno da metade do século, de idéias e atitudes românticas e do Simbolismo francês em toda a Europa Ocidental.

SÉCULO XX

No início do século XX, um considerável número de escritores russos - entre os quais, Aleksandr Aleksandrovitch Blok, Valeri Yakovlevich Briusov, Konstantin Dmitrievich Balmont, Boris Nikolaievich Bugaiev e Zinaida Nikolaievna Gippius - dedicou-se à poesia.

Enquanto isto, os escritores simbolistas insistiam em alterar as propriedades tradicionais do romance. O poeta, romancista e crítico literário Dimitri Sergeievich Merezhkovski empenhou-se em escrever estudos históricos, enquanto Fiodor Sologub descrevia fatos fantásticos ocorridos, paralelamente, aos acontecimentos da existência doutrinária.

Numerosos escritores trabalharam independentes de qualquer escola ou movimento. O dramaturgo e contista Leonid Nikolaievich Yreyev, o romancista Alexandr Ivanovich Kuprin e o poeta e romancista Ivan Alekseievitch Bunin - primeiro escritor russo que recebeu o Prêmio Nobel (1933) - enriqueceram a prosa russa com obras bastante pessoais.

O romancista, dramaturgo e ensaísta Maksim Gorki realizou uma síntese literária pessoal a partir de suas experiências e é considerado o fundador do movimento denominado Realismo Socialista.

Durante o período de relativa calma que se seguiu à fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, surgiu uma nova escola de pensamento, segundo a qual a cultura proletária substituiria as formas herdadas do passado. Segundo esta escola, a literatura seria a ferramenta de conscientização e transformação da sociedade. Os escritores Futuristas, encabeçados pelo poeta Vladimir Vladimirovitch Maiakovski, propuseram uma drástica mudança nas formas, nas imagens literárias e na textura da linguagem. Outro grupo mais conservador, conhecidos como os Irmãos Serapion, preferiu manter-se fiel às tradições clássicas russas.

Boris Leonidovitch Pasternak tornou-se uma das vozes poéticas mais individualizadas de nossa época. Pasternak realizou, através de seus poemas líricos e narrativos, amplas explorações em torno da percepção. Por outro lado, Anna Akhmatova e Osip Emilievitch Mandelstam - associados ao grupo Acmeísta surgido no período pré-revolucionário - também alcançaram certa celebridade.

A narrativa desta época gravita em torno da doutrina oficial do Realismo Socialista e caracterizou-se pela grande dificuldade que encontraram os escritores da época em descrever a revolução e a guerra civil que a seguiu. Um dos romances mais populares deste período, Chapaiev (1932), de Dimitri Furmanov, oferece uma transcrição de acontecimentos pessoais e históricos. No outro extremo, situam-se as histórias breves de Isaac Babel nas quais os acontecimentos extraídos do diário do autor falam de irônicas discrepâncias e surpreendentes analogias entre fatos e pessoas nos anos da guerra civil. Nesta linha, destacam-se os romances de Konstantin Alexandrovich Fedin, Leonid Maximovich Leonov e Alexandr Alexandrovich Fadeiev.

No período imediatamente posterior à guerra, a curiosa combinação entre o ardor revolucionário e o afã comercial aparecem refletidos na narrativa de Valentin Petrovich Kataiev, nos ácidos relatos curtos e apontamentos de Mikail Zoshchenko e nas sátiras de Ilia Arnoldovich Ilf e Yevgeni Petrovich Petrov.

Os melhores escritores deste momento adaptaram-se às fórmulas políticas do Realismo Socialista, entre eles Leonov, o dramaturgo e romancista Konstantin Simonov e Mikhail Aleksandrovitch Cholokhov.

Com a morte de Josef Stalin, em 1953, os escritores começaram a se questionar sobre a vida na União Soviética, ao mesmo tempo em que dirigiam seus olhares para as viviam nos lugares mais distantes do país. O renomado poeta Ievgueni Aleksandrovitch Ievtuchenko voltou a injetar paixão em uma moribunda tradição poética e seu contemporâneo, Yrey Voznesenski, contribuiu para vitalizar a linguagem da poesia.

Doutor Jivago (1957), de Boris Pasternak, não pode ser lido em russo até 1987. Em 1958 foi concedido o Prêmio Nobel de Literatura a seu autor. Pasternak, submetido à poderosas pressões oficiais, não o aceitou.

No começo da década de 1960, o crítico e erudito Yrey Siniavski publicou várias obras sob o pseudônimo de Abram Tertz. Entre elas encontrava-se um artigo em tom irônico, O que é o Realismo Socialista?, no qual atacava os fundamentos intelectuais desta doutrina. Em 1966, sob a acusação de difamar a União Soviética, Yrey Siniavski foi condenado, junto com o também escritor Yuli Markovich Daniel, a trabalhos forçados.

O renomado romancista Aleksandr Isaievitch Soljenitsin ultrapassou, constantemente, a linha que separava o permitido do proibido, não conseguindo livrar-se da censura. Em 1970, Solzhenitsin recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Seu gesto foi duramente condenado pelo governo e pela União dos Escritores Soviéticos.

Durante o período pós-stalinista, o termo "literatura ilegal" (samizdat) foi usado, repetidas vezes, para qualificar as obras de Mikail Bulgakov, do poeta Joseph Brodsky, Prêmio Nobel de Literatura em 1987, além de muitos outros escritores e pensadores, entre eles, Valerii Tarsis. Após o colapso da União Soviética, em 1991, iniciou-se uma nova era na literatura russa.

Fonte:
http://www.historiadomundo.com.br/russa/literatura-russa/

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