Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Amadeu Amaral (Memorial de Um Passageiro de Bonde) Camelô

Viajei ontem ao lado de um camelô, ou seja aquilo que outrora se chamava um bufarinheiro ou charlatão. Hoje, esta última palavra designa categorias mais ilustres de artistas da patranha; era preciso um vocábulo novo, que evitasse confusões; a lei de repartição de Bréal.

Pus-me a observar os gestos e as expressões do meu companheiro de viagem, como outros examinam, fascinados, os homens eminentes em certos ramos clássicos de atividade ou de inatividade superior.

Modesto e simples não parecia sequer sonhar que pudesse merecer a curiosidade e admiração de um seu semelhante (aliás muito diverso, no meu caso). Por vezes, até se esquecia de si, e ficava para ali murcho, com esse ar aparvalhado e desarmado que só costumam ter, em público, bem familiarizadas com a idéia da sua nenhuma importância.

Ia muito sumido no seu canto, fumando maquinalmente um cigarro meio apagado. Talvez premido por dentro, como por um parafuso, por alguma preocupação de família, ou de dinheiro, ou de saúde.

A certo momento, saltou, enfiou as mãos nos bolsos das calças - uma aragem áspera começara a dar tremuras de sezões às árvores da rua -baixou a cabeça e entrou apressadamente por uma viela, deserta e feia como um pátio de cortiço em dia de chuva.

O camelô, misto de artista, de orador, de pelotiqueiro e de meneur. A multidão, sempre bestial, despreza-o. E ele é que realmente sabe desprezar a multidão, porque a domina, a maneja, a desfruta, e para tanto tem de a enfrentar, cada dia, como um domador de olho vivo e de decisões fulmíneas.

Este exercício requer mais inteligência, mais sangue-frio e mais intrepidez do que aqueles que são consumidos por toda a roda de basbaques que se divertem com esse retalhista do heroísmo.

O camelô não é negociante; é um homem que negocia por acidente. A venda de coisas é mero pretexto, no fundo, ou mero ponto de apoio exterior, de que a sua complexa personalidade necessita para funcionar. Difere do comerciante normal em aspectos essenciais, e a vantagem estética é toda sua: faz do comércio um simples ganha-pão, e não um sistema de vida; é senhor absoluto da sua atividade e não escravo de uma atividade coletiva que o supere e o inclua como uma peça; não tira do comércio nenhuma importância pessoal, mas, ao contrário, ele é que condescende em dar ao comércio umas sobras da sua rica provisão de coragem, de inventiva, de facúndia, de dons capciosos e sedutores, e em sacrificar-lhe um pouco do seu nobre instinto de independência e de travessura.

O camelô tem consigo uma dose de força intrínseca ou um grão de bravura que falece aos da imensa turba do encostamento mútuo.

Estes procuram e arranjam a sua casa no plano das atividades normais e respeitáveis, e gozam, com um mínimo de originalidade e energia própria, ou mesmo sem nenhuma energia nem sombra de originalidade, os benefícios mais ou menos previstos e mais ou menos automáticos da organização. Aquele, porém, na sua pequeneza e na sua modéstia, cada dia sai de casa para o mundo como pela primeira vez. Sai completamente só, quase inerme sem a armadura dos mais, sem os guarda-costas dos mais, sem boas e fortes armas de combate, - só, quase nu, com uma funda na mão, como o pastorzinho Davi quando partiu em busca do membrudo Golias.

Sai escoteiro e ignorado, sem rumor de ferros, sem estropear de cavalos, sem alalis de trompa, sem atitudes nem gestos, à caça de vagas migalhas de um tesouro possível, escondido sob a guarda de um bicho-manjaléu com milhares de cabeças.

Isto é quase a reprodução, aí na rua, entre gentes frívolas e sensatas sob os olhos frios dos passantes colocados e tranqüilos, das façanhas ilustres do ágil e gracioso Sigurd quando venceu os anões e prostou o dragão Fúfnir.

Nós vivemos na plena teia dos mitos e das lendas, e não damos por isso. Perdemos o sentido poético das situações.

Fonte:
Domínio Público

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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